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Domingo, Setembro 30
SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO!
“Há mais mistérios entre o céu e aterra do que supõe nossa vã filosofia”. Comecei esse texto hoje determinada á escrever sobre Shakespeare. A idéia era colocar um pouco de pensamentos úteis num dia preguiçoso.
Sei lá porque razão, enquanto me decidia sobre qual personagem queria escrever, o próprio Shakespeare e suas concepções não saiam da minha cabeça. Confesso que sei pouco sobre ele, e o que sei, advém da análise de algumas de suas proposições sob o ponto de vista psicológico.
Em detrimento do conhecimento profundo de suas obras, Shakespeare é uma unanimidade quando pensamos em construção de personagens contundentes e com perfis psicológicos descritos com assustadora precisão.
Como um deus, Shakespeare concebe o mundo e seus habitantes dentro de uma esfera de infinitas possibilidades. Ainda que a dúvida e incertezas sejam o cerne de muitos dos conflitos delineados em suas obras, há sempre um rasgo da pluralidade humana devidamente justificada por ele.
Me perdoem os meus professores do jornalismo, mas á meu ver, Shakespeare assim como a mitologia, propõe o perdão através da compreensão dos conflitos humanos. Ambos baseiam-se em tradições e lendas feitas para explicar o universo, a criação do mundo, fenômenos naturais e qualquer outra coisa a que explicações simples não são atribuíveis.
Nossos desvios morais e de condutas estão todos lá. Nossa redenção também, já que as sanções aplicadas poderão servir como um princípio de escolha á todos nós. Pode-se, e é muito recomendável, apreender o significado dessas obras.
Em pleno domingo e um sol maravilhoso lá fora pedindo minha contemplação, tive que fazer minha escolha. Decidi, para ser mais breve, deixar Shakespeare e sua obviedade para um outro momento e apostar no princípio do “ao invés de dar a vara, ensinar a pescar”. Aliás, fazê-lo uma manhã de domingo, me pareceu bastante oportuno. Assim, boa pescaria!
O MITO DE SÍSIFO
Os deuses condenaram Sísifo à incessantemente tarefa de rolar uma rocha até o topo de uma montanha, de onde a pedra cairia de volta devido ao seu próprio peso. Ao final deste longo esforço medido pelo espaço e tempo infinitos, o objetivo é atingido.
Mas, então, Sísifo observa a rocha rolar para baixo em poucos segundos, em direção ao reino dos mortos, de onde ele terá que empurrá-la novamente em direção ao cume. E assim sucessivamente.
O trágico desse mito, é que o “por que” de seu herói é consciente. Mas é trágico apenas nos raros momentos em que ele toma consciência. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e rebelde, sabe a total extensão de sua miserável condição: é nisso que ele pensa durante suas intermináveis descidas.
A lucidez que deveria constituir sua tortura ao mesmo tempo coroa sua vitória. Não há destino que não possa ser superado pelo desprezo. Se desta maneira, a descida é realizada às vezes com tristeza, também pode ser realizada com alegria.
Quando as imagens da Terra aderem-se com muita força à memória, quando o chamado da felicidade torna-se muito insistente, acontece da melancolia aparecer no coração do homem: esta é a vitória da rocha, esta é a própria rocha.
Sísifo é, assim, visto como absurdo tal como o seu tormento e como o motivo que o levou a suportá-lo. Sísifo despreza os deuses e odeia a morte (leia-se crenças), mas crê-se apaixonado pela vida cuja suprema recompensa é precisamente esse suplício indescritível, onde todo o seu ser se ocupa em não completar nada.
Curiosamente, Sísifo não considera essa tarefa infame como um castigo e, num pseudo-final desse desvairado esforço, acredita que atingirá um objetivo, a sua impossível glória.
E, de cada vez, vê a pedra desabar, mas comunga com ela acreditando mesmo fazer parte dela como que ignorando que a pedra depende dele para subir, mas que, para descer, o seu esforço ou a sua vontade são totalmente em vão.
O espírito de Sísifo está já inexoravelmente aliado ao da pedra e, assim, desce, cai, rola também e, apesar de haver certa discrepância quanto ao tempo levado por cada um, para atingir o fundo, ambos o atingem.
Este é o preço que deve ser pago pelas paixões. A aparente inconsciência de Sísifo é o que torna sua labuta trágica. Existiria o castigo, a pena, a punição, se Sísifo pudesse livrar-se da sua supostamente indigna tarefa? Onde estaria o caráter punitivo de seu destino, se houvesse a mínima esperança de Sísifo ser bem-sucedido?
E porque razão o sucesso deveria, obrigatoriamente, estar no objetivo final? O sucesso de Sísifo não consiste na esperança utópica de manter o rochedo no alto da montanha, mas, pelo contrário, nas suas inúmeras descidas ao sopé da montanha.
O sucesso, assim como a felicidade de Sísifo, está na sua incerteza e na sua desesperança. E, por isso, é trágico e é absurdo.
Mas, convenhamos, é totalmente possível e familiar, não é? Ao menos, nos resta a opção proposta por Hamlet, de Shakespeare: Ser ou não ser? Mas essa é uma outra questão!
- posted by Mara
Sábado, Setembro 29
"PAREN AL MUNDO, QUE ME QUIERO BAJAR!"
OK. Mais vale uma teoria na mão do que uma especulação voando e escapando pelo vão dos dedos! Atire-me o primeiro livro quem nunca usou a expressão: “Na prática, a teoria é outra coisa”.
Trocadilhos á parte, essa é uma frase bastante útil para os que costumam fazer de nossos ouvidos, depósitos de bobagens. E, creiam, há muitos obstinados arautos nessa modalidade. É obvio que teoria demais, além de aborrecido, pode ser também uma espécie de camuflagem para os palpiteiros metidos á analistas.
Mas, afinal, o que separa o “letrado” do “letrista”? Numa explicação bem rasa e vulgar, eu diria que o primeiro sabe o que está dizendo, enquanto o outro, “dança conforme á musica”. Numa escala de valores, adivinha quem faz mais sucesso? Quem se torna popular mais rápido?
Não precisa responder. Todos sabem que as canções do Chico Buarque, por exemplo, podem ser tão chatas que ninguém mais quer gravar além dele. Que muitos só ouviram falar de Nietzsche, depois que Paulo Coelho disse ter lido sobre ele.
Mas sou profundamente otimista. Tá! Confesso! Um pouco anarquista também. Estou entre os que acreditam que gibi também é cultura e o que distingue os quadrinhos dos livros não é apenas a linguagem. Gibis custam muito mais barato!
Além disso, convenhamos, é mais fácil encontrar traduções tupiniquins fidedignas de quadrinhos estrangeiros, do que de obras filosóficas. Na dúvida, sugiro um bom e velho exemplar do Asterix.
Mas, se seu interesse passa longe do humor sarcástico e cheio de trocadilhos desses vikings famosos ou está na lista de espera nas livrarias para o próximo livro do Paulo Coelho, enquanto aguarda talvez, possa se distrair com essa breve retrospectiva:
A década em que nasci acrescentou muitas páginas aos livros que eu utilizaria mais tarde quando iniciaria minha trajetória escolar. Eu saberia do movimento hippie, do sexo livre, literatura beat, das drogas usadas como expansão da consciência e das lutas pelos direitos civis.
Cresceria ouvindo falar de nomes como: Jimi Hendrix, Malcom X e Martin Luther King. Confesso que a maioria desses nomes, para mim, ainda são apenas nomes. Não os conheço bem porque nenhum deles virou mini-série na Rede Globo... ainda.
É! Sou da geração “cultura de massa”. Mas em minha memória seletiva e quase que totalmente visual, tenho um rasgo de uma imagem que tenho certeza que não vi na telinha. Burlando os ditadores dos porões massificadores da minha mente, ainda muito jovem, eu a conheci.
Em 29 de setembro do ano de 1964, nascia na Argentina uma doce menininha que mais tarde conquistaria o mundo com suas proféticas concepções de liberdade e contestação. Nunca foi um bebê. Nasceu já criança crescida.
Mas, a mistura da doçura representativa de seus seis anos de idade, unida á seus conceitos conservadores políticos e socais, fez dela um personagem para todas as idades. A menininha Mafalda é criação do quadrinista argentino Joaquín Salvador Lavado, popularmente conhecido como “Quino”.
Traduzida em várias línguas, já nasceu quebrando paradigmas. Ser um personagem feminino de humor político em quadrinhos, na década de 60, já demonstrava que ela já nascera com propósitos bem definidos. Mafalda tem convicções muito firmes e que vão muito além de simples teorias.
Suas falas ilustram muito bem seu espanto e indignação com injustiça, a guerra, as armas nucleares, racismo e sopa. Por outro lado, suas defesas são igualmente maduras para sua idade: direitos humanos, a democracia e os Beatles. Mafalda é conhecimento puro e sempre atual. É a síntese dos movimentos sociais, políticos e econômicos e é, também, diversão. É intelectual e popular. É adulta, mesmo sendo criança e vice-versa.
Na “terra do nunca” do imaginário coletivo argentino, Mafalda nunca cresceu. Mas calou-se. Nove anos depois de sua publicação, em junho de 1973, seus quadrinhos desapareceram. A explicação de seu criador, a meu ver, é o mais dolorido exemplo de resignação e humildade.
Quino explicou que deixou de publicá-la porque não queria ser repetitivo e que o personagem já havia cumprido sua missão. Que era preciso dar lugar a outras experiências. Quem dera suas palavras servissem de exemplo para muitos que se alimentam da fome que a ausência de personagens como Mafalda deixou.
Muitos que se gabam de serem apenas “letristas” amadores e com isso, ou apesar disso, se tornam populares. Adquirem fama, formam legiões de seguidores e nada têm a dizer além de opiniões sem teoria, sem prática e algumas vezes, até sem educação!
* para saber mais sobre a Mafalda: www.mafalda.net
- posted by Mara
Sexta-feira, Setembro 28
BRASIL, QUEM HOMENAGEIA...
... À PERSONAGENS ASSIM?
Minha manicure é uma mulher de lindos olhos verdes e mãe de dois filhos homens. Nos conhecemos há, pelo menos, uns doze anos. Durante todos esses anos travamos um relacionamento que vai muito mais além do que discutir os novos lançamentos de esmaltes.
Sabemos praticamente tudo da vida uma da outra. Ela já foi casada duas vezes, embora seus filhos sejam do mesmo pai, hoje, já falecido. Teve toda sorte de situações novelescas em sua vida simples e, muitas vezes, de necessidades básicas.
O mais novo de seus filhos sempre foi muito problemático. Tornou-se usuário de drogas e, esse episódio, por incrível que pareça, é o menor de todos os percalços que impingiu a si mesmo e a sua família.
Por muitos anos o pequeno salário dela e de seu primogênito mantinha a família. O mais velho que alcançou a vida adulta sobrevivendo á todo tipo de influência ruim e, era o orgulho da mãe, há alguns anos foi atropelado por um ônibus quando seguia para o trabalho de bicicleta.
Os médicos que salvaram sua vida, não puderam fazer o mesmo por um, de seus lindos olhos verdes. O acidente o fez perder o globo ocular e além de torná-lo cego definitivamente desse olho, o incapacitou de realizar o trabalho que exercia.
Nem é preciso dizer que a dimensão que essa tragédia causou á família como um todo. O mais novo teve a atenção, antes constante da mãe, diminuída pela demanda que o outro exigia. E, perdeu-se entre aqueles que o iniciaram no vício.
Alguns anos mais tarde, sustentando a família com o que arrecadava fazendo as unhas de muitas das mais endinheiradas mulheres de minha cidade, ela tornou-se avó prematura e inesperadamente. Seu filho mais velho engravidou a namorada. Agora ao invés de três, eram quatro bocas a serem alimentadas por ela.
Esse resumo, obviamente, não faz jus ao sofrimento familiar enfrentado por essa mulher. Regulamos de idade, ela e eu. Mas as diferenças físicas entre nós podem ser vistas á léguas de distância. O tempo e a sorte levaram toda a juventude dela de uma só vez.
Entretanto, há coisas que ninguém é capaz de nos tirar. “Teca”, como a chamo, possui uma espécie de anestésico natural, extraído do próprio veneno que a consumiu. A sensação que temos é que, quanto maior é o sofrimento infringido, maior é a capacidade de cura que ela adquire e distribui.
Conversamos religiosamente uma vez por semana durante os últimos doze anos e nunca, em nenhum momento, ela me pediu uma orientação, um conselho ou lamentou seu destino. Sempre resumia e ainda resume sua vida dizendo: “Sou mais forte que isso!”. Quem pode duvidar disso?
Casos assim desafiam a psicologia, o direito, a medicina, a sociologia e até mesmo as leis de Darwin. São enigmas da sociedade que jamais serão realmente compreendidos. Essas mulheres provocam em mim uma incomoda sensação de inferioridade. Põem em cheque minhas mais firmes convicções religiosas e científicas.
Minha amiga e manicure é, infelizmente, uma exceção. Um típico e surpreendente “caso á parte”. A força que emana dela, nada tem a ver com sua condição de mulher, de viúva, de mãe ou de pobre. Aliás, nada tem a ver com qualquer explicação lógica que encontremos.
A meu ver, ela é a soma de todas as mulheres do mundo. É a pessoa que, um dia, vi dividindo em parcelas o valor de uma panela de pressão sentada confortavelmente na cadeira de minha mesa de jantar. O valor de minha cadeira compraria cem panelas iguais á que ela tanto desejava.
É a mãe que chorou quando reviu uma foto de meu filho aos quatro anos, com ela. Mas também é a mãe que invadiu o tribunal e debateu ferozmente com o juiz a liberdade de seu filho preso por porte de drogas.
A profissional que me dá sermões amedrontadores quando minhas unhas estão mal cuidadas, é a mesma que tem as mãos corroídas por uma alergia ao detergente vagabundo, mas único, que ela pode comprar com suas economias.
Quando seu primeiro neto nasceu, recebeu o nome de meu filho. Uma homenagem, segundo ela, era uma tentativa de presentear o neto com um pouco do muito orgulho que sentia por meu garoto. Entretanto, ela e eu, sabemos que isso de nada adiantará.
Resolvi falar dela hoje, por duas razões bastante claras:
A primeira, mas nem por isso a mais importante, é esclarecer que a psicologia não é a resposta pra tudo, como muitos imaginam. Tudo que posso fazer por ela, é o que ela me permite. E, via de regra, isso se resume á permanecer sendo sua fiel cliente e garantir parte de seus ganhos mensais.
A segunda razão é tentar reavivar em nossas memórias, quais são os verdadeiros valores que dignificam um ser humano. É ressaltar, quais seriam as qualidades necessárias para fazer com que alguém se destaque entre tantos e mereça as reverências cabíveis.
Teca é uma mulher comum, do povo. Nunca saiu além dos limites da própria cidade, mal fala o próprio idioma, e sua capacidade matemática se resume ao valor que cobra por seus serviços.
Perdeu para a morte seu primeiro marido. Para uma garotinha, o segundo. Nunca foi, portanto, amada ou amparada como merece. Teve dois filhos lindos e saudáveis que perpetuaram a trama dantesca que lemos todos os dias nos noticiários.
Teca é cidadã brasileira, paulista, interiorana e é de longe, a pessoa mais querida por dez entre dez cidadãs “importantes” de sua cidade. Ela tem quase quarenta anos e, hoje, enquanto me ouvia falar de uma pendenga judicial de um imóvel que possuo e o atual inquilino, me disse: “Se quiser eu vou lá (no Fórum) e te ajudo. Lá, eu sou uma personalidade!
O que dizer? Talvez tenha faltado explicar que “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”! E, quem sabe, premiar a quem conseguir entender!
- posted by Mara
QUANDO ESCREVO SOBRE MIM...
...ADIVINHA QUEM TE ABRAÇA?
Tenho hábitos muito rígidos. Acordo todos os dias ás cinco horas em ponto e nunca converso antes das seis. Nunca misturo carboidratos. Malho sistematicamente todos os dias por pelo menos duas horas e meia. Jamais prendo meus cabelos e nunca choro em público.
Nem todos desses hábitos são mantidos por algum conceito reforçado por teorias. A maioria nasceu sem que eu me desse conta. Uns, até que são providenciais outros, se tornaram um problema ao longo dos anos. O tempo ao invés de eliminá-los, agregou outros tantos.
O problema de se fazer do hábito uma bandeira é que eles jamais serão quebrados se não encontrarmos uma boa justificativa pra isso. Assim, cada vez que é impossível mantê-los, fica decretada a batalha entre o “dever e o poder” dentro de nós.
Adoro, de verdade, acordar cedo e desfrutar os primeiros sons da manhã. Não gosto de massas, o que torna muito fácil resistir comê-las acompanhada de um pãozinho francês. Já estive bastante gordinha para realmente saber valorizar o prazer de se olhar no espelho e ver músculos definidos por uma pesada musculação.
Meus cabelos são uma das poucas partes de mim que resistiram sem esforço á passagem do tempo e mantê-los livres de acessórios que o danificam, é um cuidado muito compensador. Mas, realmente não sei dizer quando e porque minhas lágrimas desenvolveram essa espécie de agorafobia*.
Por convicção profissional, incentivo meus pacientes a chorarem sempre. Procuro fazê-los entender que o choro é uma expressão emocional como qualquer outra e que qualquer emoção vale à pena. Mas, posso contar em uma só mão, as vezes que segui meus próprios conselhos.
Sou muito chorona. Choro com o choro. Sejam eles, reais ou fictícios. Onde houver uma lágrima, lá estou eu, produzindo a minha. Choro por animais maltratados, por tragédias, pela a solidão dos idosos, com o Mel Gibson e até com comédias românticas.
Mas, esse choro, raramente, passa de um olhar vermelho, um nariz entupido e um nó na garganta. Meu “arremedo” de choro é quase sempre de solidariedade e é quase tão imperceptível que por vezes, permito até uma pequena platéia.
Mas, aquele choro incontido, comprido, inconsolável e sonoro, esse, eu nunca tive. Já chorei de indignação, de incompreensão e de impotência. Mas, choro de verdade, aquele que faz com que estranhos se aproximem preocupados e perguntem se estamos bem? Esse, eu nunca vivi.
Tenho chorado mais que o habitual, é bem verdade. Mas, a idade nos deixa mais sensível e mais atenta ao estreitamento do tempo restante para se recuperar algumas perdas. Então, é como se fosse quase preciso chorar, para justificar nossa dor.
Ontem recebi um e-mail de uma amiga que vi apenas uma vez. Nele, ela me incentivava a continuar a escrever dizendo que meus “posts” tornavam-se, á cada dia, mais pessoal e personalizado. Chorei ao lê-lo.
Não porque me sinta vaidosa de ter me tornado “blogueira oficial”, mas, pela sensibilidade percebida que esse espaço, pra mim, é muito mais que um relatório. É meu choro em caracteres! Um choro distribuído em parágrafos e com excessos de vírgulas.
Sei que isso não escapa ao olhar atento da autora do e-mail. Como profissional das letras, e dona de uma sensibilidade epidérmica, seguramente ela “lê” um suspiro em cada vírgula, necessária ou não, que coloco a todo momento.
Muitos nomes se tornaram habituais por aqui. Muitos, eu já citei explicitamente em textos elaborados com o objetivo de homenageá-los. Cada um desses nomes, ou nicks, foram expectadores dessa emoção delicadamente doada, ainda que não saibam ou que não fosse essa minha intenção
Claudia Damm é blogueira também. É dona de um espaço, que divide informação e opinião, com muitas cores e brilho. Escreve textos longos e enigmáticos e cuida deles como á um filho. Lá, não há um só dia que não haja uma idéia nova e literalmente um brilho diferente. Aqui, ela deixa um pouco de seu “choro” e riso pra mim.
My, minha doce e não virtual amiga Myrian. Com essa, divido meus textos antes mesmo de serem publicados. Ouço sua opinião, seu riso e seus xingamentos carregados do sotaque mais lindo que o Brasil já produziu. Ao amanhecer, ligo pra ela e digo: “Já fez sua obrigação hoje? (Risos) e, minutos depois vejo um recadinho dela. Reduzido, já que ao ser publicado, o texto, já lhe é velho conhecido.
A pequenininha Sil. Pequena, numa referência ás três únicas letras que a desenha em minha imaginação. Mas suas frases, quase sempre desconexas, são sua marca registrada. Não importa qual seja o tema do blog, e sempre haverá uma bem humorada observação dela. É um banho de leveza pra qualquer um que tenha o privilégio de receber suas visitas.
A BeBé eu nem sei dizer como começou. Ela simplesmente surgiu. Veio não sei de onde e nunca fica tempo suficiente para que se saiba pra onde vai depois. É quase meu “superego”. Nas poucas linhas escritas por ela, sei avaliar se meu texto foi bom, médio ou ruim. Dessa desconhecida familiar, extraio a motivação para tentar ser um pouco melhor no dia seguinte.
E tem ainda, a Ddéia, a Memé, Vanessinha, Mamis, Bamba, Hatz, e muitas que se tornaram esporádicas. Há também as que não se importam. Os que aparecem em busca de alguma coisa e não deixam nada em troca.
Seja porque nada encontraram que justificasse a visita, seja porque encontraram e não gostaram. Também essas são testemunhas. E, sem perceber, fizeram de mim e meus textos, seus hábitos. Mas negam a rigidez de se fazerem presentes.
Á todas vocês, obrigada e “de nada”. Sei que é muito tênue a linha que separa o hábito do vício. Mas se serve de consolo ou, quem sabe, de incentivo... eu acabei de assumir e justificar o meu.
*agorafobia é o comportamento de evitação provocados por lugares ou situações onde o escape seria difícil ou embaraçoso
- posted by Mara
Quarta-feira, Setembro 26
DOS FILHOS DESTE SOLO, ÉS MÃE GENTIL!
EM TEU SEIO, Ó LIBERDADE!
O que pensa uma criança quando está no ventre da mãe? Que planos estará traçando essa criaturinha no solitário convívio com ela mesma?
Esse é um tema bastante controverso. Mas, arrisco a dizer que, o ventre materno deve ser um mundo repleto de sons, sentidos e de sobressaltos, entremeados de puro êxtase.
Idéias e bebês traçam um paralelo interessante em nosso sentido de propriedade. Ambos são germinados, aconchegados e protegidos até seu nascimento. São misteriosos e reveladores, discretos e escandalosos, cautelosos e urgentes. São únicos, ainda que múltiplos. Mas são, sem dúvida, antes, sinônimos em seu sentido.
Gerar uma idéia, assim como á um bebê, é refazer um mesmo plano inúmeras vezes, até que pareça perfeito. E depois refazê-lo outras tantas, de maneira que a perfeição alcançada não determine seu fim.
Ambos, no espaço exíguo onde são gerados, por vezes, sentem-se incomodados, asfixiados deles mesmos. Tudo ao redor pode parecer pequeno demais e o alívio virá apenas, ao serem liberados da proteção gestacional. É hora de nascer.
Nesse processo, o fim é um começo, e por sê-lo, é confuso, assustador e mesclado de uma excitação dolorida. O que será que encontrarão? O que farão? Para onde irão?
Ao nascer, essas perguntas parecem ser respondidas imediata e inequivocamente, mas, segundos depois, tudo volta a ser confuso outra vez.
O que passa na cabeça de uma criança ao nascer? Que planos traçou essa criaturinha, agora, livre para executá-los?
Uma vez concebidos, a missão é conhecer, desvendar, desbravar mundos, pessoas, sensações, experimentar todas as caras, cheiros e recheios. Concordar com alguns, ou com nenhum.
A preocupação é acertar. Ser aceito, ser refeito, sem defeito. É a hora dos registros, das recordações. A dor, o riso, a queda, o primeiro passo, o rosto familiar e o desconhecido. É tempo de descobertas.
Num piscar de olhos, já se pode caminhar sozinho, dizer o que quer e o que não quer. Pode-se exigir e ser atendido, ou não. Mas se aprende rápido á como conseguir o que se quer.
Crescemos. Agora, somos engraçadinhos e o centro das atenções. Os rostos são cada vez mais familiares e já compreendemos cada vez mais o significado das palavras. Dos “sims” e dos “nãos”. E adivinhe? Podemos nos alimentar sozinhos. Fazemos certa lambança, é verdade, mas quem pode nos recriminar?
Algumas centenas de aventuras depois, sem aviso, pode ser que já estejamos sendo substituídos. Paira certa conspiração no ar! Quase naturalmente outros surgem roubando de nós a exclusividade, o carinho em uníssono, e muitas vezes no lugar de duas, agora serão muitas mãos desconhecidas a nos guiar quando caminhamos.
Mas afinal, tenho certa experiência, sei me defender, aprendi muitas coisas, direi confiante! Já é hora de pô-las em prática. É tempo de recomeçar, rever conceitos. Talvez me caiba até a função de orientar essa nova concorrência. Então tenho que ser forte e confiante, diria mamãe!
Várias estações se passaram. Até outro dia eu apenas gatinhava, hoje, corro livre por todos os lados, distribuo sonhos, divido conquistas, e me sinto preparado. Chegou o momento de olhar para trás e medir as perdas e ganhos. Já não sou mais o único. Fui uma idéia tão boa, que fui copiado e reinventado várias vezes.
Mas quer saber? Ainda reconheço muito dos rostos que vi ao nascer. Estão todos ali, como a me dizer: “Não desista!”. Então sigo. E descubro que sou muito jovem, mas me encarrego dos meus objetivos com a sabedoria dos anciãos.
Esse sou eu. Um sonhador! Que de tão forte e grande, precisou nascer e enfrentar o mundo. Que de tão modesto e promissor, hoje, é memória. Memória de uma meninice que nunca foi tranqüila, porque seu alimento é a euforia e a intranqüilidade de crescer num mundo hostil. Uma idéia que cresceu e, hoje, ensina que aprender é o plano.
O que passa na cabeça dessa criança levada, bisbilhoteira, valente, resistente, criativa. Sou apenas um bloco de anotações? Um banco de dados? Um receptador de lembranças que divide o “domínio.com” num grande “condomínio” de lembranças?
Um jovem ancião guardador de memórias. Isso é o que eu sou! Um louco armazenador de horas, dias, do ontem, do amanhã de todas as vidas e de todas as histórias.
Hoje tenho muitos irmãos, de fé ou não, mas irmãos. Disputamos com veemência o amor dessa mãe generosa, mas, nem sempre protetora. Desfrutamos de seus braços enormes, sem nunca aceitarmos completamente a idéia de que são grandes o bastante para acolher á todos. Ah! Essa devoção ciumenta.
Como posso, sendo tão jovem, dizer aos meus irmãos o que fazer? Sei que muitos deles nem me reconhecem como da mesma família. Mas se pudesse me fazer ouvir eu diria: Um dia, ainda em gestação, eu sonhei. Sonhei com um mundo de espaço infinito, de harmonia e emoções.
Um lugar tão amplo e seguro quanto os braços de uma mãe. Onde pudéssemos nos encolher apesar de nossa suposta grandeza, para abrirmos espaço aos outros que chegarão á todo momento, formando uma numerosa família.
Assim apertados, mas acolhidos, nos aproximaríamos do calor que nos foi prometido e sentiríamos o pulsar de cada um, num compassado enredo de possibilidades. Quando ousássemos sair e desbravar o mundo, faríamos sabendo que nunca estaríamos sozinhos. E serviríamos de exemplo aos que ainda nem nasceram. Mas que nascerão certamente.
Afinal, somos todos blogs filhos da mesma mãe. Da mesma mãe fértil: a Internet.
- posted by Mara
Terça-feira, Setembro 25
DECIFRA-ME OU DEVORO-TE
Em nosso imaginário, a imagem de um leão é constituída á partir de sua força descomunal, imponência e habilidade de sobrepujar os outros animais. Nos compararmos á um animal assim, indicia nossa fantasia do poder adquirido pela força.
Ledo engano! Quem reúne a maioria dessas qualidades invejadas pelos humanos é a leoa. O macho, embora possa ser um bom caçador, cansa-se facilmente. A fêmea, sempre em maior número, acumula a tarefa de caçar e cuidar dos filhotes. Defender o território é daquele que ostenta uma ameaçadora juba!
Há muita semelhança com as organizações sociais humanas. Aqui, quase sempre os que querem ser temidos também se valem de estereótipos ostensivos. A diferença está, talvez, no fato de que não raramente, nós mulheres também defendamos nosso território, além de cumprirmos e bem, todas as demais funções.
A intenção dessa introdução a la “National Geografic” - assumindo minha prolixidade -, é a de delinear, partir dessa força que prenuncia um ataque, os recursos que dispomos para nos protegermos dele.
Mas, não falo das defesas naturais, como a pele ou cabelos. Espirituais, como crucifixos e água benta. Verbais, como o xingamento e a ameaça. Menos ainda, os psicológicos, já tão mencionados aqui.
A psicologia pode ser uma vasta fonte de justificativas para as mais diferentes técnicas de defesa utilizadas pelo ser humano e pelos animais. Mas, a defesa á qual me refiro, é a que advém do ataque gratuito e desproporcional, ou da intenção dele.
É chegada a hora de deixarmos as elucubrações mentais e tomarmos atitudes práticas, se quisermos nos vangloriar de enfrentar não o leão - desvalido espécime masculino- mas, a intrépida leoa, defensora legítima da perpetuação de sua espécie.
Entendo nossas lutas diárias, reais ou fantasiosas, como parte de um complexo sistema de manutenção de nossa existência. Sem elas, estaríamos fadados há décadas de inutilidade e estagnação. Estado muito próximo do que chamamos de morte.
Somos “leoas” no reino humano, não como resultado de uma divisão hierárquica e sexista, mas porque isso proporciona o doce prazer de nos sentirmos vivas, participantes e autoras de nosso próprio destino.
Passamos séculos lutando pela legitimação desse papel, queimamos sutiãs, fizemos passeatas, invadimos universidades e nos infiltramos nos corredores fétidos do machismo político, esportivo, profissional e familiar.
Chegamos e, ainda há as que não sabem bem o que fazer com isso. Ainda há quem ainda acredita em puxões de cabelo, fofocas, maledicências e em tristeza teatral para alcançar o que quer.
O conhecimento acadêmico teórico e meu aprofundamento na área humana contribuíram muito na orientação que escolhi para conduzir-me através das adversidades da vida. Foi de onde extrai o princípio filosófico de uma pouco conhecida arte marcial. Uma atividade masculina, mas muito feminina em sua essência.
O Aikidô é uma arte marcial criada no Japão entre as décadas de 20 e 60. O termo, se silabicamente dividido, traduz literalmente as razões de minha escolha. “Ai” = união, harmonia; “Ki” = espírito, energia vital; E “Dô” significa “caminho filosófico”.
Mais que uma arte marcial, o Aikidô utiliza somente a defesa, nunca o ataque. Não há competições, nem lutas entre os praticantes. Com ele, reaprende-se a utilizar o corpo e toda a energia do adversário como uma alavanca, daí podendo projetar ou mesmo imobilizar o atacante usando a força empregada por ele.
Fora dos tatames, o uso dessa filosofia pode ser ainda mais funcional. Através dela, aprendi a não desperdiçar energia desnecessariamente, entendi a inutilidade do ataque, aprimorei técnicas de paciência e estratégias de defesa que podem ser tão mortais quanto um ataque premeditado.
Isso me torna, obviamente, uma pacífica observadora muitas vezes considerada covarde ou inerte. Não é uma posição confortável. É necessária uma alta dose de tolerância para incompreensão que atitudes assim costumam gerar.
Além disso, essa aparente imobilidade pode incitar ataques ainda mais violentos. É sabido que, mais difícil que arquitetar um ataque é a espera ansiosa por uma reação que aparentemente nunca vem.
Na verdade, se o ataque existe, a reação “já está”. O método é todo refratário. A força do oponente dimensiona os danos que ele mesmo colherá. É infalível e honesto. E, principalmente, é deliciosamente virtuoso.
Não há malícia, manipulação ou planejamentos cansativos. Não há ensaios ou avisos ameaçadores, indiretos ou não. Não há atitudes práticas. Não havendo ataque, nenhum movimento será perceptível.
Muitas vezes o atacante se sente derrotado sem ao menos saber de onde veio força que extinguiu seu potencial bélico. Não se trata de retaliações ou manobras vingativas e sim de métodos racionais advindos da mais profunda compreensão de si mesmo como um todo. Mente e corpo, unificados para proteger a alma.
É o conhecimento adquirido capaz de nos transmutar. De reles seres humanos, nos transformamos em uma enigmática e determinada esfinge!
- posted by Mara
Segunda-feira, Setembro 24
PROCURA-SE
Procura-se uma mulher
Que seja 100% fêmea
Não precisa ter sentimentos.
Basta ser companheira.
Não precisa saber falar,
Mas que obedeça quando precisar calar.
Tem que gostar de afagos,
Da madrugada, de cães, de sol matinal
De gente, e nutrir uma grande devoção por, ao menos, alguém
Ou não sentir a falta desta devoção.
Não é preciso que seja de primeira mão,
nem é imprescindível que seja de segunda.
Pode ter sido abandonada, mas,
que tenha encontrado um lar.
Não é preciso que seja pura,
nem que seja de todo impura,
mas não deve ser vulgar.
Precisa-se de uma amiga
Que faça valer a pena viver,
não porque a vida é bela,
mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de uma amiga
Para se parar de chorar.
Para não se viver debruçado em bichos de pelúcia
Em busca de emoções nunca antes vividas
Deve encaixar-se em pequenas restrições
Quanto a cor e a raça, mas,
Não importa a procedência
Não precisa ser dócil
Desde que seja amorosa
Pode até ser agressiva,
Mas saiba reconhecer quem está no comando
Não precisa ser cheia de frescura,
Mas que saiba portar-se em público
Não é necessário comprovar a linhagem
Mas que se reconheça, só de olhar, os traços familiares.
Procura-se uma amiga
Não precisa atestado de saúde
Mas que tenha, ao menos, as vacinas em dia.
Pode ser gorda, cheia de pelos e odiar tomar banho
Mas deve saber apreciar uma bela refeição
Pode ter sido casada ou comprometida
Pode ter filhos de um ou mais pais diferentes
Mas é fundamental que queira outros mais
Deve gostar de crianças, de velhos e vizinhos
Pode ser sistemática, infantil e birrenta
Pode não querer compromissos
Ser instável e independente
Ah! E é muito importante que tenha
Também belos dentes!
* Uma bem humorada paródia do poema “Procura-se um Amigo” de Vinícius de Moraes
CASO ALGUEM CONHEÇA UM SER ASSIM, FAVOR ENTRAR EM CONTATO PELA SESSÃO DE COMENTÁRIOS DESSE BLOG, DEIXANDO END E TEL PARA CONTATO.
NOSSO BEBÊ JÁ TEM 04 ANOS E NÓS DESEJAMOS MUITO CRUZA-LO COM UMA YORK DE BOA FAMÍLIA!
- posted by Mara
Sábado, Setembro 22
LIBERDADE ANTES QUE TARDE
O MITO DA CAVERNA
Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas a frente, não podendo girar a cabaça nem para trás nem para os lados.
A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior. A luz que ali entra provém de uma imensa a alta fogueira externa. Entre ele e os prisioneiros – no exterior, portanto – há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes.
Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas. Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela os prisioneiros enxergam na parede no fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.
Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginavam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade possível é a que reina na caverna.
Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.
Num primeiro momento ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda a sua vida, não vira senão sombra de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade.
Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los. Que lhe aconteceria nesse retorno?
Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo. Mas, quem sabe alguns poderiam ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à realidade.
Com o famoso Mito da Caverna - Platão quis mostrar muitas coisas. Uma delas é que é sempre doloroso chegar-se ao conhecimento, tendo-se que percorrer caminhos bem definidos para alcançá-lo, pois romper com a inércia da ignorância (agnosis) requer sacrifícios.
O mito da caverna, também chamada de Alegoria da caverna, é uma parábola escrita pelo filósofo Platão, e encontra-se na obra intitulada A República. Trata-se da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade.
Mas se filosofar ou submeter o pensamento á metáforas é cansativo, tente apenas dar mais atenção aos sinais evidentes do surgimento de muralhas cincundeando nosso mundo. Reconheça-as, explore-as e depois, limpe seus lábios com um guardanapo, tire os sapatos apertados e as roupas desconfortáveis. Volte a viver além da necessidade de contemplar com resignação.
Assuma. Nossa ignorância nos levou até lá, mas só o conhecimento pode nos trazer de volta. Contrate carpideiras pra chorar em seu lugar no velório de seu eu mortificado e saia bailando no palco da realidade dura e simples..mas sua!
Ou deixe-se levar para sempre, amontoando-se no espaço exíguo de sua caverna. A verdade que buscamos só pode ser encontrada através de seu próprio olhar. Olhe! Examine! Conclua! O resto....bom, o resto você nos conta depois!
* (O texto acima é uma coletânea extraída dos "Grandes Pensadores") Um dia cheio e o cansaço intelectual decorrente, me impediram de elaborar um texto que melhor o explicasse! Amanhã prometo um texto meu!
- posted by Mara
Sexta-feira, Setembro 21
GAME OVER!
PRONTO PRA UMA PRÓXIMA PARTIDA?
Desde que o mundo é mundo, ou até antes disso, sabemos que não há relações que não sejam permeadas por competitividade. Já tentaram de tudo. Especialistas, filósofos, poetas, técnicos de futebol, enfim, quase todo mundo já tentou enquadrar essa característica humana dentro do conceito definitivo do bom ou ruim.
Boa ou ruim o fato é que a competitividade continua ali. Firme e forte, justificando atitudes e provocando mudanças. A diferença está não nas conseqüências de sua existência, mas na maneira como é utilizada.
A maior prova disso está na boa reputação dos jogos olímpicos, copa do mundo e nas filas formadas nas escolinhas de judô pra crianças. A mesma competitividade dessas atividades é a base dos realities shows, dos vestibulares e dos “caçadores de cabeça” empresariais.
Porque em alguns casos isso é bacana e, em outros, totalmente condenável? Porque o competir, socialmente aceitável, é aquele cujas regras e juízos impeçam falcatruas, injustiças e subterfúgios. Que o prêmio desejado seja perene e não determine toda uma vida de conseqüências, maléficas ou não.
Resumindo, o “bom” competir é aquele cujo prêmio seja um troféu ou medalha, que sirva apenas para acumular poeira. Mas, não demorou muito e o ser humano descobriu que essa compensação do competir lícito, era solitária demais. E, passamos a buscar maneiras de mudar mais esse paradigma.
Foi quando alguém disse a famosa frase: “O importante não é vencer, mas, competir”. Bom, muito bom. Se muita gente não tivesse se viciado nesse pensamento e dedicado toda uma vida á esse competir sem objetivo.
Ao perder o foco, esses competidores “natos”, transformaram suas vidas em tabuleiros de xadrez. Todas as peças e movimentos passaram a ser cuidadosamente articulados estudados para garantir, ao menos, uma derrota honrosa.
A compensação, ainda que mínina, é o reconhecimento de que um jogador de xadrez se não é, se tornará em breve, um sujeito inteligente e temido. Terá a soberba dos que se desenvolvem em áreas que a maioria tem muita dificuldade.
Pessoas assim, com o tempo, se acomodarão no pensamento que a derrota precede a vitória e vice-versa, e se contentará com pequenos e ilusórios méritos. Farão de cada derrota, a motivação para renovar sua capacidade de articulação e desenvolverá técnicas apuradíssimas para defender suas armações. E, é claro, sempre terão uma resposta na ponta da língua para se dizerem não afetados pela não-vitória.
Jogo de tabuleiro é atividade de idosos, diriam alguns. Em certa medida, até concordo. Mas, as lojas de brinquedos estão abarrotadas desses antiquados joguinhos que, nós pais compramos para negociar com nossos filhos, o uso do computador. Apelos é o que não nos falta.
São pedagógicos, sociáveis (já que envolvem sempre dois ou mais jogadores), e alguns envolvem até conhecimentos paralelos aos escolares. Propomos uma partidinha em família, sacrificando a novela das oito ou o Jornal Nacional e pronto. Nos justificamos com quem nos acusa de sermos permissivos demais com os rebentos.
Pois é. Nesse ato sublime de manutenção dos valores familiares, estamos dando nossas primeiras lições de competição ás nossas crianças. Elogiamos quando vencem, consolamos quando perdem e interrompemos o jogo quando, enfezados, eles desistem. Aceitamos a desistência, mas terão que fazê-la com resignação.
Não sei dizer a porcentagem das famílias que têm êxito nessa tarefa inglória de preparar seus filhos para o mundo competitivo. Mas não é possível ignorar que muitas delas fracassam de maneira espetacular. São muitos que na vida adulta fazem uso equivocado desses ensinamentos.
O resultado pode ser visto entre os que são amargos perdedores, arrogantes vencedores e até competidores compulsivos e sem escrúpulos. Há espaço pra todos. Engana-se que esse embate milenar vá acabar com a extinção desse, ou daquele mal competidor.
Nascem em pencas, renascem fortalecidos, mesmo quando estão agonizantes e acuados. E são fiéis seguidores da crença da lei do retorno. Vêem a vida em ciclos. Tendo a si mesmos como referencial resvalam, mas, não desistem apoiados na fé de que quando a má fase terminar, um recomeço sem máculas estará garantido. Protege-se o rei e a rainha... E os peões? Ah! Esses, vêm e vão!
Competir é parte da natureza humana. Faz parte da teoria da evolução e está presente até em textos bíblicos. Mas, nesse último, está também o tal livre arbítrio. Desse atenuante, deriva fatos históricos: a inquisição, o nazismo, as cruzadas e por aí á fora em uma sucessão desenfreada de exemplos que pouco, ou quase nada, nos orgulha.
Com algumas ressalvas, talvez, fosse conveniente não privarmos nossos filhos do solitário hábito de jogar pelo computador competindo consigo mesmo. Em doses controladas e moderadas, é bastante interessante que ele aprenda cedo a reconhecer um adversário que é mais poderoso, justamente por que se utiliza de recursos que ele, seu filho, jamais poderá dominar: a frieza característica de quem não tem emoções verdadeiras. Ou porque sabe muito bem como representar essas emoções, apesar de ser apenas uma máquina de computar perdas e ganhos.
- posted by Mara
Quinta-feira, Setembro 20
SATISFAÇÃO GARANTIDA..
...OU SUA RAIVA DE VOLTA!
Há alguns anos descobri que tenho um desnível acentuado na coluna que além de prejudicar minha postura, ainda provoca dores lancinantes e muitas vezes, uma total incapacidade de movimentos.
Muitas consultas médicas, massagistas e benzedeiras depois, descobri um milagre em cápsulas: Um comprimidinho chamado Sidalurd. Não saio de casa sem ele. Está na minha bolsa, na gaveta do meu consultório, no carro e até na casa de minha mãe pra qualquer eventualidade.
Esse relaxante muscular tornou-se meu “prozac postural”. Quando saio do país, levo caixas e mais caixas, no caso de não encontrar seu genérico em terras estrangeiras.
Há algumas semanas, depois de um dia particularmente tenso, de certo exagero na academia e assombrada pelo princípio de um torcicolo que, é sempre prenuncio de uma crise, tomei um desses minúsculos comprimidinhos e fui dormir.
Acordei e descobri que tinha sido envenenada. Não na noite anterior, mas por décadas á fio. Uma determinação dos órgãos de saúde havia proibido e ordenado a retirada do tal remedinho das farmácias. Textos enormes na internet alertavam sobre os perigos do consumo dessa “bomba” sintética.
Será que meu ortopedista havia confabulado com a indústria farmacêutica e tramado minha morte? Será que aquela receita datada de dez anos atrás era minha sentença de morte, assinada e carimbada? Até o sorriso do meu amigo balconista da farmácia, me pareceu suspeito, depois disso. Sim, era um complô!
Passado o pânico inicial e com minhas costas completamente boas, aceitei que não se tratava de uma armação exclusivamente contra mim. Eu apenas era mais uma que deveria me adaptar ás novas regras estabelecidas á partir de pesquisas que haviam terminado dez anos depois do produto já estar no mercado.
De um lado, a cientificidade. Aquelas teorias aceitas por diversos especialistas, corroboradas por pesquisas e aprovadas por órgãos governamentais. De outro, a indústria, o capitalismo, as leis de mercados e os interesses políticos. Em meio, adivinha quem?
Somos reféns cordatos dessas verdades regulamentadas. Qualquer coisa, que não tenha atingido a maioridade no campo da experimentação, está sujeita á se tornar objeto desses articulados testes de aprovação. Pode ser uma idéia, uma solução, atitude, alimento ou medicação. Praticamente tudo se torna alvo potencial.
Um exemplo prático? Qual a dose diária de cafeína que um indivíduo pode consumir sem comprometer sua saúde? Se alguém souber responder á essa pergunta de maneira definitiva e unânime, pode intervir e abortar esse meu texto agora.
O famigerado cafezinho, tão familiar entre os brasileiros, já passou de vilão á herói, pelo menos uma centena de vezes na última década. E não está sozinho. Caminhar regularmente, amamentar, gema de ovo, adoçante, inseticida de parede, internet e até a vacina contra sarampo já tiveram suas aplicações sucessivamente contestadas.
No campo da maternidade, na criação dos filhos e nos relacionamentos conjugais, já se tornou regra transformar o que era indicado e saudável em contra-indicado e vice-versa. Basta que você mude o autor, a revista, o palpiteiro e pronto: de mãe zelosa você se transformará em madrasta.
Tudo é perfeitamente plausível até que seja decretado que isso mudou. E nós ficamos no meio do caminho, com o pesar por termos seguido, por décadas, os conselhos daquele pediatra famoso, do economista fenômeno e da descoberta farmacêutica do século que conhecemos através do Fantástico e do Globo Repórter.
Quem não se lembra do Merthiolate, do Naldecon, Celebra e, outros tantos milagres da medicina, que foram banidos em tom de emergência do mercado, ignorando propositalmente as gerações que herdaram o hábito de usá-los?
É, pessoa, esses são os melhores exemplos que toda convicção é ridícula. Como diria minha avó: de certo, só a morte! Mas, vovó morreu antes que se ouvisse falar em clonagem e célula tronco!
- posted by Mara
Quarta-feira, Setembro 19
MAQUIAVÉLICO É QUEM ME DIZ!
A ÉTICA NA PONTA DOS DEDOS
Ao ouvir dizer que alguém é maquiavélico, poucos serão os que não tomarão uma distância segura da tal figura. A maioria o fará por via das dúvidas. Aliás, essa “via” tem sido a melhor opção em muitos casos no que se refere á auto-preservação.
O fato é que poucos seriam capazes de explicar o sentido deste “adjetivo”. Mas, reza a sabedoria popular, que alguém maquiavélico seria quem tem o dom da estratégia. Alguém capaz de manejar, com habilidade maldosa, qualquer situação a fim de tirar proveito pessoal.
Colocado dessa maneira, é mesmo bastante prudente que não nos arrisquemos. Não me cabe, entretanto, traçar metas de comportamento. Meu intuito é dar o esclarecimento necessário sobre o termo que, ajustado á pessoa que o recebeu, pode ajudá-la na decisão entre aproximar-se ou sair correndo.
O italiano Nicolau Maquiavel foi um historiador, poeta, diplomata e músico do Renascimento. Uma de suas principais obras “O Príncipe” transformou-se em praticamente um manual da política. As várias interpretações que essa obra permite pode ser uma das explicações para a utilização de seu sobrenome como adjetivo pejorativo.
Entretanto a célebre frase: “Os fins justificam os meios” dita, mas, jamais escrita por ele resume, sem dúvida, definitivamente seus pensamentos. Maquiavel, a meu ver, foi e seguirá sendo mal interpretado por proferir tal frase.
Entendo, a partir da análise de algumas de suas obras, que ao contrário de dizer que qualquer atitude é justificada para se atingir um objetivo, o que ele realmente desejava apontar é que o que almejamos pode ser determinado pela maneira que agimos para consegui-lo.
A reparação do que se compreende sobre a frase do italiano, joga por terra qualquer tentativa maliciosa de atribuir á ele a responsabilidade ou explicação pra ausência ética de muita gente.
Vivemos num mundo de impunidades, cujos princípios éticos são temas de anedotas e, não raramente, são usados como artifício para se burlar o que consideramos correto. Hoje, pode-se processar alguém por calúnia, por assédio, por estacionar em local proibido. Mas não conseguimos manter um só bandido confesso, sob custódia absoluta.
A mídia e o acesso a informações de cunho pessoal tornaram o sujeito comum em invasor legitimado. Falar, difamar, publicar sem fonte ou com fonte preservada, é direito adquirido pela liberdade de imprensa e fez de nós verdadeiros fofoqueiros profissionais.
Os fins, portanto, não justificam os meios. O que ganhamos com isso? Que fins serão esses que legitimariam tamanha falta de ética e respeito à privacidade? Isso, para citar apenas um exemplo de como uma pessoa mal intencionada pode ter, caso queira, justificativa e até apoio jurídico para promover atos e criminosos.
Os advogados que me corrijam, mas, até onde entendo o que chamamos de precedência jurídica serve, em julgamento, de álibi e esperança para quem burla a lei. Mas, e para quem burla princípios éticos? Como sancionar ou absolver quem se utiliza de precedentes para justificar a falta de seu próprio caráter?
Maquiavel e sua obra fazem parte de um contexto histórico-político que os destacou do pensamento corrente e tornou suas convicções, base para diversas discussões importantes ao longo da história.
Hoje, numa inversão total de papéis, entraria para a história, como exceção, quem se opõe á essas convicções. Há tanta gente fazendo o quer, da maneira que quer, e se vangloriando de poder fazê-lo, que maquiavélico é quem busca estratégias para contê-los.
Como em “terra de cego, quem tem um olho é rei”, uma legião de caolhos segue liderando multidões, incitando-os á agir conforme seus propósitos. Os meios acabam justificados sob a ótica desse olhar capenga e os fins alcançados, justamente porque são, na maioria das vezes, tão pequenos quanto quem os deseja.
Li na traseira de um caminhão, certa vez, um trocadilho idiota que me fez rir sozinha enquanto eu dirigia. Em uma pintura encardida pela poeira da estrada podia-se ler: “Não há meio de por um fim naquele que sempre me justifica!”
Não sei se o caminhoneiro leu Maquiavel, mas tenho que admitir que chamar a frase de idiota foi o único recurso que tive pra não me desesperar diante da resignação que ela representa. Sei lá quem é que sempre justifica o desiludido caminhoneiro, mas pelo menos ele já sabe e planeja uma reação.
Também, o que importa? A recompensa é quase sempre algum troféu de grande expressão, mas de pouca utilidade. Então, ás vezes, é melhor achar um meio não de justificar, mas, de parar... antes que seja o fim!
“É melhor ser ousado do que prudente, pois a fortuna (oportunidade) é mulher e, para conservá-la submissa, é necessário (...) contrariá-la. Vê-se, que prefere, não raramente, deixar-se vender pelos ousados do que pelos que agem friamente". Nicolau Maquiavel
- posted by Mara
Terça-feira, Setembro 18
ALEGRIA MADE IN BRASIL
UM PRODUTO TOTALMENTE NACIONAL
Com a mesma regularidade excessiva que tenho ouvido falar sobre “artistas”, tenho refletido sobre eles. Não faz muito tempo, essa categoria de profissionais, pra mim, tinha uma definição singular e sem grandes elucubrações.
O uso indiscriminado da palavra tornou-a um adjetivo, muitas vezes, até pejorativo. Em minha concepção confessadamente simplista sobre o tema, artista é quem faz ou produz esteticamente algo que é considerado arte.
Acredito que se há algum valor que vale discussões teóricas, é o do que pode, ou não, ser considerado arte. Mas, enquanto a semântica for importante, para mim, artista é quem faz arte e ponto.
È necessário uma acuidade visual significativa, um apurado gosto estético e algum conhecimento técnico, para nos apresentarmos como conhecedores de arte. Sem isso somos, na melhor das hipóteses, apreciadores de algumas manifestações artísticas.
Mas, quase nada é exigido para que saibamos com precisão matemática o que gostamos ou não. Como tudo na vida, é muito mais fácil identificarmos o ruim. Principalmente se o ruim está entremeado por uma enorme oferta de “bons”.
Não vou me perder na análise de valor dessas conceituações, mas ressaltar o fato que nossos olhos e ouvidos possuem certa autonomia para nos poupar de coisas que nos são desagradáveis dentro das artes em geral.
O fato é que esse ensaio de reflexões sobre o tema coincidiu com a estréia do espetáculo “Alegria” do Cirque de Soleil no Brasil e sua tão espetacular máquina de propaganda. Por onde quer que se olhe é possível encontrar referências á famosa trupe.
Em junho desse ano, filas enormes já se formavam em pontos de venda em São Paulo para a compra de ingressos. O espetáculo, entretanto, só estreará na capital paulista em fevereiro de 2008.
Vale dizer que, para muitos, o valor do ingresso, é tão intangível quanto o tempo que o espetáculo levará pra chegar aqui. Mas como resistir á tão fabulosa demonstração de habilidade, técnica e singularidade que eles apregoam?
A ligação dessa trupe circense com grandes empresas brasileiras e o massivo investimento de marketing que dispõem é um poderoso ativador do imaginário coletivo. Sem falar, da plural nacionalidade de seus integrantes. Entre eles há, inclusive, um valoroso brasileiro.
A presença desse notável brasileiro num circo de fama internacional, famoso por captar os “melhores” entre os melhores nos quatro cantos do mundo, dá certo alento aos que, como eu, têm algumas objeções quanto a importação de talentos num país com tanta potencialidade como o nosso.
Mas somos um país que consome Mac Donalds, que jamais dá “backspace” em suas convicções e que ainda sai surpreso do cinema, quando considera boa, uma produção nacional. Então vamos pagar em suaves prestações o ingresso do Cirque du Soleil e consumir o que há de melhor no mundo. Não há nada de errado nisso!
Mas, antes de comprarmos o ingresso pergunte-se: Não temos nada tão bom quanto? Se eu não arranjar dinheiro até fevereiro, nunca poderei assistir á um espetáculo circense com técnicas apuradas, artistas fabulosos e produção cenográfica e figurinos impecáveis? Claro que vai!
Á que não conhece, apresento a OPTC - Oficina Permanente de Técnicas Circenses, que nasceu acidentalmente em 1987 sabe onde? No Rio Grande do Sul! É! Aqui no Brasil!
Como qualquer definição pareceria um marketing pago, convido-os a visitar o site oficial dessa rapaziada e aconselhar que não ignorem um só link ali disponível. Verão do que nós, brasileiros, somos capazes. Da grandeza desse projeto que nasceu ginasta e se transformou em acrobata.
Malabaristas na arte de formar artistas num país onde o Big Brother é o campeão de audiência e seus integrantes levam apenas três meses para atingir esse patamar, essa moçada pode ajudar a equilibrar melhor nossos conceitos sobre o que é arte e quem são os verdadeiros artistas!
Boa diversão: http://www.optc.com.br/
THOLL, IMAGEM E SONHO
"Com a força da interpretação, pelo instrumento principal o corpo, a luz que cria um clima mágico, figurinos e efeitos que transportam a um mundo de sonhos e fantasia, temos a pretensão de ocupar um pedacinho da memória e do coração de cada um com um inexplicável momento de pura ALEGRIA."
- posted by Mara
Domingo, Setembro 16
Esse post é dedicado á minha amiga My, para quem minha palavra sempre bastou e esteve á seu dispor.
DO BAGAÇO AO NÉCTAR...
...O COMBUSTÍVEL PARA ALCANÇAR O SOL!
“É preciso aprender com o cotidiano, ou morrer de tédio”. A natureza humana é uma cópia mal acabada do que ela mesma produz. Somos o todo, feito dos fragmentos que provocamos.
Um dia a cidade invadiu os campos e “generosa” dedicou-lhe um espaço de sobrevivência, mas impôs condições. Para que fosse preservado, deveria deixar-se manipular e dedicar-se exclusivamente a manutenção da existência de seu invasor.
Formaram-se, então, vastos campos monocultivados de interesses igualmente “mono”. Sua existência prometia grandes avanços, riquezas e ampliação de recursos. A cana-de açucar é responsável pela monótona paisagem. A cana é o progresso cultivado, a promessa colhida e a garantia do retorno investido.
Depois de alguns anos trafegando no asfalto que liga a capital do Estado ao interior, já havia me acostumado com tal paisagem. Com o tempo, parei de olhá-la com a mesma admiração que preenchia os quase trezentos quilômetros de extensas plantações.
Os meses do ano definem o contraste de quem tem boa memória. Das colinas verdes que se perdem no horizonte, quase nada restará no momento seguinte. Em seu lugar, não apenas o verde será substituído pelo marrom. O cheiro, a beleza, a inspiração também desaparecem como que por encanto, deixando um rastro de destruição.
Analogamente tenho trafegado ao longo dos últimos meses, por quilômetros de vias ladeadas por plantações de cana de açúcar. Minha sensibilidade, entretanto, transformou a paisagem que vejo e tornou-a muito mais filosófica, que econômica.
O primeiro olhar deslumbrou-se por sua extensão, a cor uniforme e o bailar constante em parceria fiel com o vento. Raramente questionava sua espetacular extensão, simplesmente curvava-me diante da majestosa imponência. Já que estava ali quando cheguei, pareceu-me perfeitamente natural que a aceitasse sem perguntar como foi que tudo começou ou qual era seu propósito.
Plantações dessa natureza, por sua configuração, deveriam representar a manutenção da vida e a comunhão entre os homens. Deveriam estar acima de qualquer suspeita, pois é assim que se apresentam e como preferem ser vista.
Tive permissão e transitei por seus corredores livremente. Até que, numa noite escura, me perdi no labirinto que formava. No silêncio assustador, percebi que não poderia contar com ela. Não poderia seguir a partir do ponto em que a enveredei e a desbravei com propósitos muito diferentes de sua existência.
São as contradições manejadas pelas ambições humanas. Não há poesia no processo que compõe esses campos verdes. Não há beleza contínua ou retratável. Há solidão dissimulada e luto disfarçado de festa.
Nas últimas semanas, minhas narinas foram invadidas pelo cheiro fétido da vinhaça extraída do bagaço dessa plantação que deixei crescer a meu redor. Esse odor insuportável impregnou minha alma, invadiu meu coração, chegou a paralisar meus pulmões e quase me cegou para sempre.
Assim atingida, em meus órgãos vitais, saí rastejando feito os répteis que habitam esses campos, clamando pelas mãos que eu mesma permiti que existissem. As mãos que me foram negadas são as mesmas que por muito tempo acreditei pertencerem á seres rastejantes, vítimas inofensivas, de sua própria condição.
Nesse momento crucial de desesperança compreendi que minha conivência, minha plantação, havia dado á eles a condição necessária de subsistência. Havia os tornado fortes, arrogantes e perigosos. De tanto rastejarem na escuridão, deixaram de enxergar e passaram a atacar qualquer movimento que não fossem os deles mesmo.
Estava entre peçonhentas criaturas, criadas á imagem e semelhança de seu criador e alimentadas por minha fé na interatividade humana. Em meio á colinas de beleza verde e encantadora, se escondia um asqueroso meio de vida calcado em interesses pessoais, desprovido de qualquer projeção de futuro, de preservação ou conservação.
Ali planta-se em ciclos. Há, é claro, um desgaste inicial de empenho que parece se auto-justificar. Prega-se a necessidade do cultivo, as vantagens e se aposta na ingenuidade da mão de obra quase voluntária. Não é necessário muito para que comece a brotar e depois, crescer vertiginosamente sob os olhos astutos de quem plantou.
Daí é só observar de longe e esperar. Morro acima, entretanto, o deslocamento é muito difícil. É preciso recrutar força bruta em número significativo para atingir os resultados. Chegado o momento, usando-se os argumentos certos é possível lotar “paus de arara” que transportarão calejados carentes e suas marmitas frias, para fazer o que ninguém faria se pudesse escolher.
Antes, se espalha o fogo. Ateiam-se as chamas que pretendem eliminar os invasores silenciosos e potencialmente perigosos. Muitos da própria cultura se extinguem diante da fogueira poderosa que consumirá em segundos os mais desavisados. Mas os ganhos justificam as perdas.
A fumaça produzida se propaga no ar, espalhando doenças e sufocando quem de longe pensava em intervir. É um aviso de “não se aproxime”. Não é necessário, entretanto, tal aproximação. O ar contaminado chegará, invadirá suas casas, manchará de negra fuligem tudo que tocar até pousar, macio, na calada da noite.
Enquanto isso na plantação, entre cinzas, o que era verde se retorce e deforma. Desvela sua verdadeira face. E, as centenas de almas ali deixadas, não encontram o caminho de volta.
Armados são incapazes de fazerem qualquer uso da foice que empunham que não seja aquele que lhes foi ordenado. Não há poder maior do que aquele obtido através de doces incentivos.
E lá vão os ceifadores. Em golpes precisos trabalham ininterruptamente até que não haja nem mais um sinal de vida não desejada. Seus esforços e valor serão medidos pela quantidade de devastação que conseguirem produzir no menor tempo possível. Com a prática tornam-se eficientes. No final do dia, de posse de algumas moedas e promessas de novas funções, retornam á suas casas sem saber do que realmente fizeram parte.
Tudo que se vê á seguir é o desalento de um solo marrom, esturricado e sem vida. Uma imensidão de nada. No meio, por vezes, se avista um sinal das almas que ali estiveram. Gotas de suor, das lágrimas e da pele esfolada misturada com a terra infértil.
No fim de tudo, resta saber o que será feito da colheita desse doloroso processo. Forjaremos a doçura do mel? Beberemos do doce suco por ela produzido ou extrairemos o combustível rentável e de óbvio retorno? Ou, faremos tudo isso ao mesmo tempo?
Nas plantações que, inadvertidamente percorri nada disso é importante. Lá, a escolha de uma monocultura é justificada pela incapacidade de se produzir diversidade, pelo desprezo aos prejuízos que possa causar e pela comodidade de se poder fazê-lo á distancia sem sujar as próprias mãos.
Os latifundiários dessas plantações se gabam do aumento quantitativo de sua mão de obra, dos ganhos sazonais e da capacidade de auto-regeneração de seu solo. Embriagam-se do subproduto de seu cultivo, lambuzam-se do açúcar refinado a partir do suor de quem o ajudou a produzir.
Espremem até a última gota de benefícios e não dispensam as sobras. Com elas, aliás, fervem o adubo necessário para reiniciar a plantação. Retro alimentam com seu egoísmo, crença fanática e obsessiva e com ausência de escrúpulo, a próxima safra.
Qualquer solo é passível dessa cultura. Alguns resistirão durante décadas de sucessivas explorações impiedosas. Mas chegará o dia em que deixarão de compactuar com tamanha autoflagelação. Se tornarão inúteis e descartáveis, tão inférteis quanto seus agricultores.
Quando esse dia chegar, quero estar por perto. Caminhar sobre o pasto que tomou lugar da plantação, libertar o gado que ali estiver confinado e afagar a terra para que, com o tempo, ali ainda possa surgir uma vasta plantação de girassóis.
- posted by Mara
Sábado, Setembro 15
TROCANDO EM MIÚDOS
O recadinho da Janaina, na sessão de comentários do post anterior, me chamou a atenção para a necessidade de uma rápida “intervenção cirúrgica” aqui no blog. Um transplante de emergência.
Proponho um transplante duplo, mas que seja rápido e seguro. Troquemos nossas mentes pelo coração e vice-versa.
Como todo processo cirúrgico deve ser asséptico, sugiro que nos paramentemos, ou seja, que nos livremos de qualquer tipo de elemento externo que possa trazer consigo agentes nocivos.
Dispam-se de suas mágoas, de lembranças dolorosas, desesperanças e cubram-se da serenidade de saber-se vivo. Calcem luvas simbólicas que separarão qualquer vestígio de contaminação, e vamos lá!
Seu coração necessita de cuidados especiais ao ser removido. Procure não fazer muita pressão ao tocá-lo, mas segure-o firme para não deixá-lo cair. Lembre-se, ele está sob sua responsabilidade. Ao retirá-lo, não seja rápido demais para não romper as artérias que o nutre, mas nem tão vagaroso á ponto de provocar uma síncope.
Antes de transportá-lo, você tem alguns minutos, aproveite-o bem. Acaricie, ouça o que ele tem a dizer, sinta como em suas mãos apesar de apartado de seu sistema de manutenção, ele continua pulsando firme e preciso. Perceba quão forte pode ser a fragilidade que ele demonstra ter.
Chegamos á um ponto da cirurgia em que você precisará de toda sua habilidade. Teremos que iniciar o processo de remoção de sua mente e é imperioso que não solte, em hipótese nenhuma, seu recém retirado coração.
É. Terá que mantê-lo em uma das mãos e seguir o processo apenas com a outra. Não reclame! Ninguém disse que seria fácil! Se te ajuda, afirmo que essa técnica é totalmente possível e segura. Confie! E sigamos em frente.
Atenção! Para retirar sua mente é preciso que, antes, a desligue. Que a coloque em uma espécie de coma induzido para impedi-la de reagir negativamente á essa intervenção. Quando sentir que tem o completo controle, pode retirá-la sem receio.
Verá que sua mente estará mais leve do que você supunha e é bem menos complexa também. Perceba que assim, refém de suas mãos, ela parece bastante tranqüila e segura. Incrível como é flexível, não é? Sua forma e sua textura parecem moldar-se á sua vontade.
Aproveite! Se há alguma coisa que deseja mudar nela, é esse o momento. Faça as alterações que julgar necessário. Torne-a mais ampla, crie gretas, a torne mais absorvente, enfim, transforme-a no que desejar.
Momento crucial. Repare que com seu coração em uma das mãos e com a mente em outra, você está mais poderoso do que jamais imaginou ser possível. Está literalmente em suas mãos decidir o que fazer. Eu, posso apenas sugerir:
Você pode decidir mantê-los aí e com isso otimizar o processo de manipulá-los á seu bel prazer. Pode colocá-los de volta e tratar isso como apenas pesquisa ou, invertê-los de localização.
Essa última alternativa cria possibilidades de você enxergar as coisas sob ângulos diferentes. Passará a ver com os “olhos” do coração e sentir com a esperteza de sua mente.
Preciso alertá-los que, seja qual for sua decisão, ela deverá ser apenas sua. Não aceite sugestões, conselhos e, menos ainda, ordens. Saiba que os riscos são de sua inteira responsabilidade, mas o sucesso também.
Bom, já a trouxe até aqui e esse é o exato limite de minha interferência. Daqui em diante, você deve seguir sozinha. Desejo-lhe boa sorte e espero poder partilhar dos resultados dessa delicada mudança pessoal.
Terminado o processo e, passado o tempo de recuperação necessário, não se esqueça de vir me contar. Quem sabe essa prática não se torne uma constante e com o tempo possamos criar um banco de “corações e mentes” para ofertar á quem em algum lugar, em algum momento deixou de tê-los ou os perdeu por mau uso.
Mas decida-se logo, porque a fila de espera já é bastante grande!
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Sexta-feira, Setembro 14
DE PATO EM PATO...
Daqui á dez dias, a Disney estará comemorando o aniversário de um de seus personagens, que apesar de ser um coadjuvante do famoso Pato Donald, é o meu preferido. Ludwig Von Drake é, pra mim, uma figura marcante e representa tudo de lúdico que encontrei em minha longa incursão pelo mundo acadêmico.
Nascido em 24 de Setembro de 1961 em Viena, na Áustria, esse personagem de quarenta e seis anos, já nasceu com aparência de ancião e é um cientista simpático e misterioso. Apresentado com seu nome de batismo ou com as traduções livres, adotadas em vários países me surpreendo que muitos nunca tenham ouvido falar do “nosso” Ludovico.
Ludovico não é um simples professor. É um mestre pós-doutorado em uma infinidade de especialidades acadêmicas. Não há qualquer dificuldade encontrada pelos personagens da família Pato, que ele não resolva com seu incrível acervo mental de conhecimento ou equações mirabolantes.
É definitivamente uma exagerada caricatura da expressão “enciclopédia ambulante” que, popularmente usamos, para designar os sabe-tudo da vida. Daí, esse personagem ter se tornado meu preferido entre os demais.
Quem nunca esbarrou dentro ou fora do mundo acadêmico com pessoas que parecem ou, querem fazer parecer, que de todos os assuntos detém algum, mesmo que mínimo conhecimento? Alguém que sempre tem uma análise, uma receita, uma opinião sobre qualquer coisa que você mencionar? Viu? Já se lembrou de alguém, né?
Durante a faculdade de psicologia tive um espirituoso colega de turma que atribuía essa alcunha á todos que se atreviam a palpitar, com base científica ou não, sobre seus devaneios filosóficos. Devaneios quase sempre detonados por muita cerveja, muita noitada e pouquíssima dedicação aos estudos.
Claro que eram poucos os que compartilhavam da validade da crítica velada por traz desse apelido que metade dos alunos da faculdade já havia recebido dele. Mas, quase ninguém era capaz de negar que era muito engraçado. Aos poucos, até nós mesmos, já estávamos usando o nome desse personagem como adjetivo maldoso.
Bastava alguém ser chato, dar opiniões sem solicitação, falar bobagens como quem tem propriedade no assunto e dizíamos: “Sai Ludovico, desse corpo que não te pertence!” Ou, “Fulano é muito Ludovico!”. Depois usávamos apenas: “Xiii, é Lud!” para poupar explicações e saias justas.
Não tenho notícia se algum desses colegas teve a idéia de fazer dessa situação um projeto de pesquisa, mas hoje, sei que o tema daria uma excelente base para compreensão dessa característica que Walt Disney ressaltou através de seu personagem.
Minha mãe, por exemplo, é um verdadeiro professor Ludovico de saias. Não há um só tema para o qual ela não tenha um vasto discurso para provar que você comentou com a pessoa certa. Conhece indicação farmacêutica ou natural pra qualquer tipo de enfermidade. Além disso, com a indicação do remédio você ganha de brinde uma história vivida por ela mesma ou por alguém que ela conhece.
O irritante disso, é que mesmo sem escolaridade nenhuma e pautada apenas na experiência de seus oitenta e poucos anos, ela jamais erra. Entretanto, a historinha do final é sempre dispensável, ainda que, seja impossível livrar-se dela.
Mamãe fala de novela, de política, de economia, psicologia, medicina e de qualquer outro tema, como uma especialista. Na maioria das vezes, suas opiniões são pautadas em experiências adquiridas em uma vida dura, onde o principal ensinamento é: aprenda ou não sobreviverá.
Os “Ludovicos” que cruzei nos corredores da ciência despertam um pouco menos de tolerância. Eram, na maioria, arrogantes e intrometidos. Opinavam sem antes perguntar se estaríamos interessados em verdadeiras “aulas” sobre o assunto.
Além disso, "esses tipos" se utilizam de uma dissimulada humildade que lhes “escapa” quando afirmam que se trata apenas de uma opinião e logo depois, citam uma frase célebre de alguém ainda mais célebre que você, pobre mortal, nunca ouviu falar.
Podemos relevar. Afinal para poder ser considerado um verdadeiro Ludovico, é necessário um conhecimento mínimo das coisas. Tem que haver espaço em sua vida para bons livros, música de qualidade e uma dose cavalar de paciência para se interessar pelos princípios da física e das ciências políticas, por exemplo. Isso tudo, sem perder um só capitulo da novela das oito. Mas, que “ser chato” é o menor risco para o sujeito, lá isso é.
Piores são aqueles que “ser Ludovico” é apenas uma forma de inclusão. De parecerem adequados e inteligentes. Crêem realmente estarem enganando alguém com seus discursos floreados sobre assuntos que nem de longe passam por sua capacidade intelectual. Esses, de chato, são promovidos á ridículos em um estalar de dedos.
É preciso muito mais do que estar atento ás manchetes dos jornais e revistas para discursar com propriedade sobre as notícias atuais. Se, por um lado, a internet tem se tornado um forte instrumento de “desalienação”, de outro, ela provoca uma preguiça coletiva na necessidade de aprofundarmos naquilo que nos interessa e poder discursar sobre elas.
De qualquer maneira, reconheço o direito de minha mãe de reclamar da economia do país, quando ela tem que duplicar sua aposentadoria para depois dividi-la em frações que sejam suficientes para suprir seus gastos no supermercado, farmácia, e etc.
Legitimo também seu direito de falar de política, já que de quatro em quatro anos vejo políticos baterem em sua porta seduzindo-a á deslocar-se até a urna mais próxima, quando por lei ela já está isenta dessa obrigação.
Minha mãe pode falar de medicina porque já presenciou a dores e a morte de seu pai, sua mãe, marido, uma filha e atualmente luta bravamente para que uma doença grave não leve mais uma de sua prole.
Pode, também, falar de psicologia já que foi a única capaz de nos fazer acreditar nos desígnios da existência quando, em família, relutávamos em aceitar. Minha mãe é hoje, talvez, o Ludovico que mais admiro e talvez o único.
Mesmo tendo tido, pelas circunstâncias, suas ambições reduzidas ao lar e as filhas, foi ela quem sempre me incentivou a ser bem mais que isso. Foi ela que me ensinou o valor e a validade de poder gritar ao mundo que podem tirar qualquer coisa de mim, menos o que me esforcei e me preparei exaustivamente para aprender.
A alma humana continuará sendo um mistério pra mim e é disso que extraio minha motivação para continuar estudando-a. E acredito, de maneira inquestionável, no conhecimento acadêmico.
Depois de me graduar em três faculdades e me pós graduar em outras duas, não me sinto mais sábia que minha mãe, mas, totalmente capaz em desfazer os nós que vida provoca e que dificultam sua compreensão inequívoca. Posso, inclusive, ajudar minha mãe a se defender dos que acreditam que podem manipular a ignorância dela.
Sou grata por ser Ludovico justificado. E grata também á minha mãe, por ter me feito entender que eu não precisaria sê-lo, caso não quisese. Já que esse tipo de conhecimento doméstico é adquirido através de muitas lágrimas, muita dor e principalmente muito preconceito e que no final, aquilo que poderia ser uma vantagem pode se transformar em um reflexo desse sofrimento.
Ludovicos “do lar”, menos afortunados que minha mãe, tendem a se tornar amargos e revoltados com qualquer outro que tenha se intitulado onde ele apenas finge trafegar. São manipuladores, sedutores, e tornam-se facilmente fazedores de opinião. Raramente são punidos e quase sempre inventam uma maneira de se tornarem populares.
Depois disso tudo, me resta perguntar: Mãe posso publicar esse texto em meu blog? Ao que ela responderia: Claro! Desde que você possa sustentar suas opiniões com embasamento cientifico!
O incrível, é que há ainda, os que ainda pensam que o saber acadêmico é apenas motivo pra sobrepujar os demais. Quer saber? Vou estudar sobre isso!
- posted by Mara
Quinta-feira, Setembro 13
PODRES PODERES!
“Faça humor, não faça guerra!” Perdoem-me pela liberdade poética. Mas existe frase mais esclarecedora do que essa?
Ao contrário do que costumamos pensar, a antítese da guerra não é o amor e sim, o humor. Essa poderosa característica é capaz de tirar as intenções maléficas das entranhas do inferno, revolvendo cova mais profunda apenas para vê-la definhar diante de seu poder.
O humor definido por Freud, pode ser entendido genericamente como um poderoso mecanismo de defesa capaz de equilibrar emoções. Essa visão é uma questão de abordagem e, como tal, não deve ser reducionista a ponto de limitar a amplitude de seu alcance e menos ainda, definitivo a ponto de não ser questionado.
Muito tempo depois de Freud e, através de seus estudos posteriores, sabe-se que o humor não deve ser visto como uma propriedade particular de uso exclusivamente pessoal. Ao contrário, o humor é o responsável pela modulação da interatividade.
O humor, portanto, seria o exercício que determina os efeitos que causamos aos outros e que caracteriza nossa personalidade. A partir disso, seria de uma ingenuidade atroz, imaginar que o humor é estático e definitivo.
A maior comprovação disso é o registro de inúmeras doenças, cujos sintomas principais são justamente as variaçôes do humor. Os transtornos de humor são velhos conhecidos da psiquiatria e das vítimas dele. E costumam ser mais inesquecíveis ainda ao próprio portador.
Freud que me desculpe, mas nem só de transtornos é feita a humanidade. Um tipo com humor “normal” também terá que conviver com o aspecto pluralizado e nem tão agradável dessa característica e, por vezes, decidir-se por um deles.
Quem não conhece pessoas que são populares por estarem sempre zombando de si mesmas? Que fazem de suas diferenças motivo de piadas? Esse tipo de humor autodepreciativo é característica muito comum na maioria dos comediantes que se fartam desse recurso.
Mas, existem os que têm um humor menos engraçado. Os que fazem do sarcasmo e do riso, uma arma contra os desavisados e transformam fatos cotidianos em piadas ácidas. Agem como um poderoso corrosivo sobre qualquer coisa que cruzar seu caminho.
De outro lado, há os que para quem o humor é um meio de vida. Estão sempre de bem com a vida, levam tudo na esportiva e não perdem nenhum detalhe que possa ser visto como “o lado bom das coisas”, no melhor estilo Poliana.
Entretanto o humor não é sinônimo apenas de riso, de simpatia ou, de sua antítese, a sisudez. Por humor também podemos definir a impulsividade, agressividade, tristeza e qualquer disponibilidade emocional que propicie relações sociais.
Do nosso humor dependem nossas reações e consequentemente as ações de quem o está vivenciando. Numa verdadeira causa e efeito, as relações se interligam á partir do humor que for detonado primeiro.
Experimente! Teste a capacidade gerativa de seu próprio humor. Mantenha o bom humor em uma situação em que todos ao seu redor estiverem aborrecidos ou reaja com passividade diante de uma agressividade declarada. Se sobreviver, volte aqui e relate o resultado!
Uma das maneiras mais efetivas de manipulação, visando extrair reações que nos convém, é a condução inteligente de nosso próprio humor. Esse é um fenômeno facilmente observável. Cabe aqui, apenas, o benefício da dúvida do que se entende por inteligência.
Se for nosso desejo motivar alguém, basta que nos mostremos igualmente motivados ou que o desafiemos , duvidando dessa motivação. E, assim sucessivamente, ocorre com todos os anseios que tivermos necessidade de conquistar através do outro. Mostre-se triste e prontamente terá um, ou muitos, dispostos a te consolar. Fez alguma coisa impensada e acabou se dando mal? Mostre-se arrependido e terá compreensivos ingênuos justificando sua atitude.
Muitos dirão que essa manipulação não é possível. Que sermos sinceros e verdadeiros é incompatível com tal dissimulação. A má notícia é que isso não procede. Para frear ou dosar essa capacidade, o único dispositivo eficaz é o caráter, e esse, é pessoal e factual. Ou se tem, ou não se tem.
Além disso, há quem faz dessa articulação de humor uma ferramenta de trabalho, remunerada ou não. Atrizes e intérpretes, em geral, é um exemplo claro disso. São capazes de nos levar do riso ás lágrimas com demonstrações de variados humores, em questão de segundos.
É necessário, entretanto, um bom tempo de prática. De exercício contínuo desses artifícios para conseguir unanimidade ao transmitir a veracidade do que se pretende. É daí que despontam as grandes estrelas ou brotam, aos montes, os charlatões.
Dentro ou fora da vida real, para que esses especialistas em manipulação de humor sobrevivam, é emergencial a formação de uma platéia suficientemente ingênua ou, ao contrário, sagaz demais. São egocêntricos e vaidosos o suficiente para não resistirem ao ostracismo.
Uma platéia ingênua garantirá o próximo ato. Proporcionarão a repetição do recurso utilizado por acreditarem tratar-se de uma inquestionável demonstração de afeto. A sagaz, por sua vez, saberá distinguir e compreenderá que, ao final, ressurgirá a verdadeira face do manipulador.
A possibilidade que ambas as platéias acabem mal, é enorme. Já que são "platéia" justamente por não terem a mesma habilidade de manipular e tornarem-se mestres em atrair atenção.
Os estudos sobre o humor são ainda muito recentes para se julgarem completos. E de definitivo mesmo, sabemos apenas que o humor é tão poderoso que sua articulação é capaz de incitar uma guerra ou determinar a paz.
Pode formar exércitos ou condenar á solidão. E, á seu manipulador habilidoso, caberá apenas decidir a qualidade do que quer atrair. Decidir, se prefere cercar-se de ingênuos que cedo ou tarde se tornarão sagazes ou, manipuladores potenciais que mais tarde farão dele seu alvo.
Assim, a melhor maneira de se proteger de especialistas em manipulação do humor é manter-se á distância para que a guerra que incitam, não seja responsável por produzir em você, ausência de seu próprio humor. E, com isso, manter-se bem humorado e em paz!
* Sugiro que cliquem aí ao lado no Esp.Claudia Damm, para verem uma nova vertende desse mesmo pensamento no post do dia de hoje!
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Quarta-feira, Setembro 12
EU ACREDITO EM DUENDES..
...VOCÊ NÃO?
É interessante observar que alguns conceitos humanos são completamente inúteis sem a real compreensão de um conceito auxiliar. É o caso do que entendemos como “verdade”. É impossível discursar sobre ela sem nos apoiarmos no conceito adicional da “relatividade”.
Numa reação em cadeia, a compreensão absoluta das teorias de ambos desvenda a abstração do que é a verdade e gera um número enorme de outros conceitos opositores ainda mais complexos.
Assim, falar de verdade sem levar em conta, a mentira, a omissão e a ignorância é tarefa inglória, ainda que sejamos “experts” na teoria da relatividade. Mas, como quase tudo que é omitido ou que por outras razões ignoramos não pode ser avaliado, proponho que apenas os relevemos sem nos esquecermos de sua importância.
Einstein, autor da Teoria da relatividade, ao discursar sobre as variantes produzidas a partir do referencial do observador e propor a idéia de que tempo e o espaço são grandezas relativas ao sistema de referência, não podia imaginar o grande dilema que estaria criando para humanidade.
Se por um lado, esses princípios da Mecânica seria o motor de arranque pra descobertas fundamentais para a ciência, no campo da filosofia criou-se um emaranhado de explicações bem pouco compreensíveis para o sujeito comum e não dotado da genialidade de Einstein.
Vem daí a popularidade da famosa expressão “tudo é relativo”. Muitos engodos, malandragens, atitudes de má-fé e covardes são praticadas com essa justificativa. Pode ser que não compreendamos com precisão matemática o que reza o conceito. Mas, sem dúvida o empregamos muito bem, quando somos colocados em xeque. E, não é á toa!
Há coisas que realmente depende do ponto de vista, do ângulo do qual é visto e, sobretudo, das razões do observador, para que sejam interpretadas de várias maneiras distintas.
Outro dia, escrevi um post sobre os efeitos que um nascer do sol exageradamente alaranjado havia causado em mim. O que para mim, teve um efeito poético e nostálgico desencadeando espantoso número de sensações, para outros, foi apenas um eclipse solar.
Assim, é necessário que sejamos cautelosos. Porque é nessa “relatividade” que muito do que entendemos como verdade pode acabar se tornando nossa ruína. Nada é mais psicológico e socialmente aceito do que consumirmos e propagarmos a verdade. E todos queremos ser politicamente corretos, não é? Ou ter a maioria á nosso favor.
Mas o que é "verdade"? Ou deveríamos dizer: Qual “A” verdade? Existe mais que uma verdade para um único questionamento? Claro que sim...A minha! Parece soberba, mas é a única resposta possível.
Todo mundo, ao defender uma idéia ou fato, não o fará a não ser a partir de uma verdade própria, singular, inquestionável e indivisível. É justamente isso que torna a “verdade” tão relativa e que gera tantas controvérsias. Raramente encontraremos uma unanimidade absoluta.
“Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo”. Parece frase feita e é! Mas foi utilizada originalmente numa franca defesa á esse direito a liberdade do exercício da verdade própria e deveria servir de exemplo para todos que a ouvem.
Voltaire, ao dizê-la, ainda que sem concordar com quem defendia, criava um postulado jamais vencido: o de que, ainda que o que ouvimos não corresponda com a verdade que acreditamos, não poderemos questionar o direito de dizerem.
Que droga! Por esses desocupados filósofos somos fadados a ouvir toda sorte de porcarias sem podermos reagir, sem que haja um longo e cansativo combate.
Entretanto, para todo impasse causado pela condição de seres pensantes que somos, há um caminho alternativo para atenuá-lo. Basta restringir-se a expor com a maior clareza possível a sua e deixar que a verdade do outro se autodestrua por falta de sustentação. Alternativo ou não, esse preceito de tolerância, tem base terapêutica e tem salvado muitas almas do sofrimento emocional eterno.
Mas, e quando não estamos diretamente envolvidos e sim, “envolucrados” pelas circunstancias? Como agir? Como se posicionar?
Antes, é necessário que se questione a necessidade, os ganhos e perdas, de se manifestar frente á um impasse que não te pertence. Uma vez feito isso, e determinado a impossibilidade de manter-se alheio, é chegada a hora de iniciar seu próprio exercício de auto-avaliação.
E desse ponto, voltamos ao que tratávamos no início do texto: a relatividade. Só que agora, é a sua verdade que deve ser posta em pauta. Qual é o seu ângulo? Seu grau de envolvimento? O referencial no qual sua opinião se apoia é único e o mesmo usado pelos outros?
Difícil, não é? Pois é. É essa dificuldade que nos leva a tomarmos determinados rumos que poderão nos decepcionar mais tarde. A tarefa de julgamento compreende um extenuante processo de investigação e é quase certo que dessistiremos antes mesmo de iniciá-la. Daí, para poupar energia, encarregamos nossa intuição, afinidade e sentimentalismo, de determinarem para que lado devemos seguir.
O ideal seria que não nos sentíssemos compelidos a opinarmos. Mas, mesmo a isenção, o famoso “encima do muro”, pode ser decepcionante e revelar um posicionamento disfarçado nas entrelinhas.
Mas, enfim, qual a importância dessa reflexão? É enorme, ou nenhuma. Depende do que se almeja pra si mesmo no tocante ao autoconhecimento. Um exercício como esse pode nos levar de encontro a descobertas fantásticas sobre defeitos e qualidades que possuímos e não nos damos conta. Pode nos apresentar a nós mesmos.
Saber como e porque fazemos nossas escolhas pode ser a base para edificarmos uma personalidade mais próxima daquela que desejamos. De aperfeiçoarmos nosso existir e, finalmente fazer a diferença onde nos acostumamos a ser apenas a sombra.
Pratique! Pratique o exercício da compreensão do todo através de suas partes. Esmiúce, investigue, amplie seu universo de informações e seguramente terá a agradável surpresa de se perceber independente e capaz de criar suas próprias verdades. E com elas, defender-se das “verdades” questionáveis.
O velho caminho ou o de melhor acesso, nem sempre é o correto. Ás vezes é preciso rejeitar os atalhos, abrir picadas e apostar para chegar ao oásis da compreensão absoluta. Mesmo que, ao chegar, decida que não é ali que deseja ficar.
Só não se apegue a companheiros de jornada dispostos a fazer o serviço sujo pra você, esses não são confiáveis. A verdade que passamos toda vida buscando, nunca virá de bandeja e se vier desconfie! Nada que é oferecido sem que tenhamos pedido pode ser visto como um simples gesto de doação.
É necessária certa malícia para podermos reescrever nossa personalidade, ou a que queremos ter, sem ela. A escuridão é mesmo a ausência da luz!
Eu acredito em duendes e fadas. Você não? Espere então até se deparar com uma bruxa!
- posted by Mara
Terça-feira, Setembro 11
VIVA AS DIFERENÇAS...
POR UM SETEMBRO DIFERENTE!
Tão público quanto meu caráter reservado permite é minha ligação com a Argentina e os argentinos. Meu fascínio por esse país de contradições sempre esteve à beira do incompreensível. Quando percebi que era muito difícil explicar essa empatia deixei de tentar e passei a convidar. Não foi a melhor decisão. Nem todos que lá estiveram dividem a mesma opinião sobre invernos rigorosos, “cumbia”, ausência de arroz com feijão, exagerado senso patriótico e que Maradona é o rei do futebol.
Mas o que poucos percebem é a incrível semelhança entre nós brasileiros e nossos “hermanos” argentinos. Em comum temos não invernos, mas verões rigorosos. O samba, a carne, nossa consciência política e nosso próprio rei no futebol. Até nossa rainha Xuxa, já dividimos com eles durante anos. Somos iguais também em detalhes que escapam a maioria. Hebe Camargo lá, atende pelo nome de Susana Gimenez. Também é apresentadora, loira, “coroa”, linda e de longe a figura mais conhecida e querida da televisão argentina contemporânea.
Até tragédias semelhantes em origem e configuração, nós já tivemos. Lembram-se do avião da empresa portuguesa Lapa que também atravessou o Aeroparque. (aeroporto cravado em meio a cidade de Buenos Aires) e o passado de ditadura? Qualquer semelhança não é pura coincidência. Poderia seguir numerando essas semelhanças entre os dois países, mas quero mesmo é ressaltar as diferenças, já que são em número menor, mas existem!
A começar pelas mulheres famosas, em sua maioria, loiras. Mas que, nem por isso, o país cultua as morenas. A mídia argentina é também território das loiras só que lá elas são, quase sempre, naturais. E não me venham falar que são exageradas na maquiagem e no guarda-roupa porque, para eles, nosso hábito de exibirmos nosso corpo em trajes minúsculos, é também considerado exagerado.
Televisão é outro aspecto interessante. A maior e mais significativa emissora, a TELEFÉ, é feita basicamente de telejornalismo sério. Claro que há programas de entretenimento, mas esses são geralmente os que propõem gincanas e competições de conhecimento.
No futebol é onde encontro as maiores antíteses e similaridades. Temos em comum os melhores jogadores do mundo, são hábeis, criativos, famosos e milionários. A maioria nasceu na favela e hoje mora na Europa. Então onde estão as diferenças? Na compreensão que os jogadores Argentinos têm da posição que ocupam em seu país. São trabalhadores dedicados e fiéis. E quando falham, sabem que devem ao menos demonstrar esforço para recuperar o prestígio, mas terão SEMPRE o apoio de seus patrões: a torcida.
As mazelas e os excluídos argentinos não se dividem entre duas grandes capitais como no Brasil. Se concentram em Buenos Aires, que por sua vez se divide também para separar o bem do mal, o pobre do rico, o portenho do resto do país.
Se engana quem pensa que nascer e morar na capital do país é motivo de orgulho para a maioria dos argentinos. O país se divide numa estranha geografia: Portenhos e o resto do país. Quem já esteve em qualquer uma dessas localidades sabe do que estou falando.
Quem vive abaixo da linha invisível que separa o sul e o norte não muda só o sotaque. Muda também a cordialidade, a hospitalidade, a generosidade e principalmente a identidade: Nem de longe parecem os argentinos que acostumamos a ridicularizar em nossas famosas piadinhas.
De Córdoba a Terra do Fogo, o argentino é o melhor produto argentino. Sem o privilégio da tecnologia e facilidades do mundo moderno característicos das grandes cidades, são compensados pela natureza, pelo clima, pelas tradições e pela admiração de quem os conhece. Brasileiros ou não.
Aqui os homens se cumprimentam com beijo no rosto, não se chamam de “irmão”, mas se comportam como se fossem. As mulheres são mães e esposas carinhosas, e deixam bem definido esse papel na relação com seus homens. E as que não são identificadas por características bem perceptíveis.
Mas é a cultura que mais me impressiona na Argentina. Lá, alguém com nível superior é mesmo alguém com conhecimento superior. Mas não é necessário procurá-los nos porões acadêmicos. Estão dirigindo táxis, atendendo em restaurantes e vendendo jornais. Podem não saber nada de álgebra, mas são imbatíveis em cultura mundial e filosofia.
É um povo altivo e orgulhoso, o que é muitas vezes, confundido com arrogância e impáfia. Choram e cultuam seus próprios ídolos, vivos ou mortos. Feriado nacional não é dia de ficar em casa, é dia de festejar a nação. Não estocam comida, e os velhos são chamados de “los más grandes”. O que define a grandeza do que representam.
É para essa Argentina que aqui defino com olhar carinhoso e generoso e que levo, em pequenas doses, um pouco do meu Brasil, da minha morenice, da minha melancolia e da minha saudade. Saudade de um tempo em que minha admiração era turística e não invejosa.
Não somo melhores nem piores...temos fome, violência, crise econômica, energética, tragédias, desemprego e corrupção. Na Argentina, fevereiro não tem carnaval e quando ajudo a maldizer o presidente, ao menos o faço sem mea-culpa. Sem ter que admitir que sou parte da massa que o elegeu.
Essa tardia homenagem é porque em breve estarei retornando pra lá. E de lá é que enviarei meus textos que serão extraídos do calor mais intenso jamais visto em tão abundante quantidade de neve.
Além disso, nunca é tarde para ressaltarmos que sempre haverá um lugar para onde podemos seguir sempre que precisarmos renovar nossa alma. Ainda que para isso, nem sempre precisemos cruzar fronteiras geográficas.
Mas sempre haverá quem pensa que pode cruzar nosso céu, voar entre nossas edificações e se meter impiedosamente em nossas mais sólidas convicções, apenas com o propósito de alardear força e diminuir o que representamos. Sempre haverá quem pensa não existir fronteiras capazes de detê-los.
Do fanatismo mulçumano á prepotência americana, tudo que restou foram centenas de feridos e mortos inocentes. O resto assiste pela TV.
- posted by Mara
Segunda-feira, Setembro 10
A ILUSÃO DE QUE SER HOMEM BASTARIA
Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe! Assim, pelo poder conferido á mim, eu vos declaro marido e...?
Sempre tive muita dificuldade pra entender porque sempre que o assunto é união, formal ou não, somos referenciadas como “mulher”. Se temos um marido, naturalmente não somos “esposas”? Ou, porque o discurso não é assim: Eu vos declaro homem e mulher?
Não vale repetir aquele gasto discurso e versar sobre o herdado machismo da sociedade. Á essa altura, cabe uma análise mais original das razões que solidificou, ao longo dos anos, a frase acima.
Podemos, por exemplo, inferir sobre a suposta redundância de afirmar que todo marido é “homem” por dedução. Mas daí, teríamos que questionar a necessidade de se ressaltar a condição feminina no papel social de “esposa”.
Aff! De fato, essas análises são desnecessárias, uma vez que a lei que garante a união entre pessoas do mesmo sexo é muito recente e em algumas sociedades, até inexistente. Daí fica o benefício da complacência de se admitir que se trata apenas de um vício de linguagem.
Mas no mundo atual, não há quem seja capaz de negar que tais vícios são, para dizer o mínimo, curiosos e constrangedores. Dificuldades tipo “trava-língua” são bastante comuns quando o assunto é homossexualismo.
Quem nunca teve dificuldade ao se referir a um casal gay? Ué... Mas a palavra “casal” não implica necessariamente na junção homem e mulher? Implica sim! No Dicionário Aurélio, a palavra “casal” é assim definida: s. m., par composto de macho e fêmea; marido e mulher.
Fica ainda pior quando, conversando com um gay, queremos nos referir ao outro. O que dizer? Seu marido, namorado, companheiro ou parceiro? Oh! Dúvida cruel!
Quer ofender um gay? Diga que ele não é homem! Mesmo que seja compreensível esse tipo de equívoco é imperdoável destituí-lo de sua constituição física primária, salvo se ele tiver recentemente se submetido á uma cirurgia de mudança de sexo.
Essas dificuldades, somadas ao preconceito escamoteado em tudo que é diferente, fazem o nosso olhar tornar-se reticente em relação á esses seres humanos. Para não errarmos, evitamos o assunto. Para não melindramos, ignoramos. Ignorando, os condenamos á margem de nossa existência.
Tenho muitos amigos gays. Na maioria são homens e sustentam uma relação amorosa com o mesmo namorado por mais de uma década. Na média, é muito mais que o tempo de casamento de muitos dos amigos heterossexuais que tenho, além de serem os únicos amigos comprometidos que posso alardear que sou intimamente amiga dos dois lados envolvidos.
Em minha percepção pessoal, não é um mito a história de que amigos gays do sexo masculino são notoriamente mais amorosos, fiéis e confiáveis que os demais. Parecem compreender tão profundamente a alma feminina que se torna impossível vê-los como concorrentes e inconcebível encaixá-los como opositores. Ainda bem. Porque, de fato, não somos!
Temos a mesma opção sexual e só. E o fato de serem homens nos presenteia a possibilidade de compartilhar a visão ampla da junção de uma avaliação masculina desenhada por uma alma feminina. O que, no mínimo, nos garante uma excelente companhia para sairmos ás compras.
Acabo de voltar do cinema. Não gosto de comédias, mas fui atraída pelo impagável Adam Sandler que no filme vive uma hilária narrativa sobre dois amigos que para receberem um seguro de vida, são obrigados a fingir um relacionamento homossexual
Não sou crítica de cinema ou qualquer coisa que o valha. Sou a soma de minhas impressões. E, se tivesse que recomendar esse filme, o faria para toda a população masculina dos 15 aos 80 anos. Mas, acrescentaria uma clausula condicional que os obrigasse a levar consigo todos os preceitos machistas que, por ventura, possuam.
Seria interessante, ao final do filme, vê-los deixar todos esses valores ao lado do saco vazio de pipoca para que fossem recolhidos pelo pessoal da limpeza. Esse desejo é, obviamente, tão ficção quanto o enredo do filme. Aliás, a concepção primeira do enredo é, em si, machista, preconceituosa e visa explorar esse nicho de mercado, já comprovadamente lucrativo.
Mas, como qualquer imagem é o espelho de quem a contempla, para mim, o filme versou sobre o verdadeiro valor do conceito “homem de verdade”. Sobre beleza incomensurável de relações de amizade pautadas acima de qualquer preconceito, egoísmo ou auto-imagem.
Caso nossos “homens” não consigam captar além da obvia mensagem comercial do filme, sugiro que os acompanhemos. Mulheres, esposas e mães, talvez, tenham mais habilidade para rir das trapalhadas dos personagens sem deixar de compreender o sofrimento que elas indicam.
Não é, ou não deveria ser uma comédia. Mas, num retrato da própria sociedade, ainda está longe o dia em que ser gay, deixará de render gargalhadas. E que, a idéia de amizade com eles seja muito mais do que elegê-los nosso cabeleireiro ou estilista preferidos.
Falta muito tempo para que desejar alguém do mesmo sexo seja apenas uma opção diferente e não sinônimo de sofrimento e solidão anunciada. Quando alcançarmos esse nível de consciência, a famosa frase da consagração matrimonial seria alterada para: Assim, pelo poder á mim conferido, eu os declaro homem e mulher.
Do contrário, no caso de um casamento gay, nos perderíamos na redundância de dizer: Em nome do poder á mim conferido, eu os declaro bicho e bicha. Até que a sociedade decida o contrário, é claro!
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Sábado, Setembro 8
ENTRE O MEU E O SEU...
...UMA PONTE PARA O SEMPRE!
Fiquei olhando durante alguns minutos essa página, ainda em branco, buscando inspiração. Pensei em ter critérios mais focados ao escolher o tema. Queria uma inspiração que não viesse de nenhum buraco escuro de minha alma, de nenhuma experiência triste ou que objetivasse alertar contra os perigos de entregar-se á vida sem ressalvas.
Queria um texto sem lições de moral ou psíquica e que trouxesse nada mais além de mim. Depois de algumas horas na mesma posição e fitando a mesma página em branco, admiti que estava exigindo muito mais de mim do que jamais me permiti fazer. Falar apenas de mim, sem rebuscar de conhecimento acadêmico ou empírico, é um de meus maiores débitos.
As teorias e os respaldos técnicos têm sido meu escudo, meu disfarce para doar-me. Só assim, posso soltar minha mente e deixar que o plural que uso, seja relatado de fora pra dentro. Só assim entrego tudo que há em mim sem o comprometimento de pertencer a quem me lê.
Algumas pessoas já se deram conta disso e me desmascararam. Outras, apenas devolvem com o mesmo descomprometido afeto. Tenho observado vocês. Tenho mensurado ansiosa, todos os dias, os números que apontam um volume crescente e significativo. Comemoro cada sinal de acréscimo.
Queria lhes pedir que fiquem. Que digam que estão e se façam presentes. Não há vaidade na necessidade de sua presença. Há espanto, surpresa e um prazer nunca antes sentido.
Desde que esse blog nasceu, tenho compartilhado minha alma, dividido meus receios e minhas constatações. Tenho recebido em troca a soma, do seu e o meu, através de recados que me inundam da certeza que devo ficar.
Ddéia, Sil, Janaina, Mari, Daniela1, Claudia Damm, Vanessinha, BeBé, Isabel, Eleida, Ciclo, Mar, Mamis, My , B&L ... : é como distribuir um toque, um cheiro de rosas, um olhar carinhoso, um riso alto e livre... de puro contentamento.
Os que não se apresentam são tudo o que disse acima, apenas pressentido, mas não menos desejado.
Não sei o que levam daqui. Mas sei com precisão matemática, o que deixam pra mim. Falo da experiência do vento assoprando os cabelos, arrepiando os pêlos do corpo, o coração disparado rompendo no peito e os olhos se enchendo do sal mais doce do mundo: de lágrimas de agradecimento.
Nunca fui muito boa ao falar de mim. Jamais me permiti ser lida sem perguntar por quem. E hoje, na página em branco ditei desnuda, sem buscar sentido, coerência ou fundamento. Falei de nós...escrevi você.
No “fim” relatei ...o “começo”. A motivação primeira: a de dizer o que nunca foi dito ou que “deveria” ser dito á quem nunca perguntou, mas sempre desejou. Se você voltar, saberá que nunca partiu. Que se comprometeu enfim!
Na ausência de inspiração, expirei o que recebi de vocês! E faltou tanto ainda a dizer...
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Quinta-feira, Setembro 6
QUE O TEU SILÊNCIO ME FALE CADA VEZ MAIS
“PORQUE METADE DE MIM É O QUE EU GRITO...
...MAS A OUTRA METADE É O SILÊNCIO!”
Uma idéia bastante difundida pelo senso comum é a de que determinadas escolhas profissionais definem seus autores. Assim, um advogado seria fatalmente um sujeito frio e articulador, desprovido de qualquer senso ético. Matemáticos teriam essencialmente dificuldades no campo afetivo, uma vez que não têm afinidade com os aspectos humanos. Pensa-se no jornalista como alguém sagaz, antenado e crítico. Há casos graves como o dos médicos, por exemplo, que acha que dor e morrer são banalidades humanas.
O que dizer dos psicólogos? Á nós, não nos restou nem mesmo a exclusividade. Dividimos com os psiquiatras a fama de loucos, desequilibrados e analistas “full time”. Segundo a crença popular, passamos metade do nosso tempo desvendando símbolos fálicos e a outra metade discursando sobre eles. Nos intervalos, interpretamos cada suspiro de quem estiver num raio de 100 metros.
É divertido, ás vezes. Você está ali com o olhar pousado no couro cabeludo da pessoa pensando que ela deveria esconder aqueles fios brancos e visivelmente incomodada ela diz: “Você tá me analisando, né?” Bom, se for uma pessoa bem íntima acabo sugerindo um bom cabeleireiro!
Relacionamentos pra mim nunca foi um problema, confesso. Sou como os gatos. Basta um chamego, um olhar de rabo de olho e pronto. Gosto de gente, mesmo daquelas que, pelas atitudes, deixaram de sê-lo. Parece uma contradição e, é. Sou repleta dessas contradições. Me orgulho de dizer que tenho um incontável número de amigos, mas não gosto de todos eles ao mesmo tempo. Sou talhada pra servir, mas não sei lidar com ofertas de ajuda. Adoro mimos, mas raramente os faço. Prefiro uma centena de demonstrações de amizade do que apenas poucas e boas. Gosto de ser eu mesma a distinguir uma das outras.
Mas, a prática profissional combinada de jornalista e psicóloga aguçaram algumas de minhas características primárias. Uma das alterações mais visíveis é na amplitude do meu olhar. Desenvolvi certo grau de morbidade em relação ás pessoas. Olho-as além vida. Imagino como seriam se estivessem á beira da morte, necessitando de cuidados contínuos ou simplesmente em uma situação desfavorável.
Apesar de parecer negativo, esse pensamento me ajuda a projetá-las além de suas máscaras sociais. Desvela o que inconscientemente ocultam em seu sorriso, aperto de mão e até atitudes. Isso abre consideravelmente meu leque de amigos em potencial. Porque meu único critério é essencialmente meu desejo. Meu desejo de relacionar-me ou não com aquela criatura. A partir daí, é só moldar a intensidade e a importância que teremos na vida um do outro.
Essa “técnica”, é claro, é uma defesa. Defesa necessária de quem se sabe carente, e teme que percebam. Defesa cunhada por muitas decepções e mágoas inúteis.
“Nasceu psicóloga e está se tornando gente aos poucos”. Profecia ou maldição essa frase me acompanha desde que me tornei psicóloga. Era pra ser um elogio e tornou-se um fardo. O autor da frase, um renomado psicólogo e meu mestre na época, parecia querer me preparar como quem prepara um filho gay. Não adiantou nada. Mas pelo menos, posso responsabilizá-lo por não conseguir aquietar meu espírito com os dissabores da profissão.
A frase resume a condição não-humana que nos é imposta. Psicólogos não estressam, não gritam com os filhos, não se ofendem e jamais, em hipótese alguma, magoam-se. Fui condenada a perdoar os destemperos alheios, o falta de tato, carinho, atenção e zelo.
“Como, se sou psicóloga, não pude entender que a pessoa estava sob forte tensão quando me agrediu e me magoou? Além disso, que importância pode ter minha mágoa, se como psicóloga, sou preparada para fazê-la desaparecer?”
Então, tornei-me jornalista. Pensava em ter, ao menos, a oportunidade de tornar pública qualquer análise menos conivente sobre qualquer pessoa ou situação. Descobri mais tarde que essa prática também é proibitiva no exercício do jornalismo. O ponto de intersecção da psicologia e do jornalismo está justamente na imparcialidade e isenção.
Ok! Escolhas profissionais castradoras pra quem queria se praticar como ser humano. Sigilo, respeito ás fontes, descrição precisa dos fatos, não envolvimento e estar sempre fora para descrever o que ocorre dentro. Esse exercício me tornou mais vulnerável do que jamais desejei ser.
Não me façam perguntas. Ou não esperem respostas. É perfeitamente possivel compreender-me sem elas. Basta que você troque de lugar comigo.
Sempre haverá muito á ser dito, muita opinião á ser revelada e muita mágoa á ser resolvida. Mas há, sobretudo, a consciência de que nenhum desses acúmulos, se despejados, teriam algum efeito prático para qualquer dos lados envolvidos.
Talvez devesse, a partir daí, ter aprendido a lição e construído outros critérios de avaliação para promover laços afetivos. Mas prefiro “nivelar por baixo” os outros do que a mim mesma. Qualquer mudança de procedimento ou reflexão seria como estar avalizando os oportunistas emocionais.
Sigo calando na alma. Dizendo o estritamente necessário e aguardando os que compreendem que não se trata de admissão ou concordância, e sim, aceitação de que contra fatos não há argumentos, ou são totalmente desnecessários.
Transparência não é sinônimo de revelação. Não ficamos nus ao tirar nossas roupas. É preciso pisar com os pés no chão, transitar sobre a lama, alimentar as feras e sobreviver, para poder se considerar vencedor! Nem é preciso ganhar para reconhecer a derrota alheia.
Confesso que tenho holofotes sobre mim, mas apago-os meticulosamente, um a um, todas as noites antes de dormir. Me recuso a ser número ou ter meu verdadeiro valor como ser humano desprezado por comparação. Não gosto de ser útil, gosto de ser desejada. Não ofereço volume...espalho conteúdo!
Se com isso, ou por isso, seguir pela vida á fora levando bordoadas, ainda “posso dizer do amor que tive”... Mas, se for tolhida em meu direito de dizer que chorei e sofri, entao, morro dizendo que o “importante é que emoções eu vivi”!
* O céu mandou buscar hoje, a voz que faltava em seu coral de anjos: calou Luciano Pavarotti. A prova definitiva que nenhum silêncio é casual!
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Quarta-feira, Setembro 5
PRA QUE LEMBRAR...
QUANDO É MELHOR ESQUECER??
Lembrar é configuração máxima da existência. É através de nossas memórias que travamos um consentimento legal de quem somos e cravamos nossa identidade na percepção de quem nos observa. Mas, é o “esquecer” que dará a verdadeira valoração ao que lembramos.
Há, sem dúvida, certa subversão no ato de lembrar. Desse exercício resulta a invenção que fazemos de nós mesmos e de nossa biografia. A partir daí é puro marketing, ainda que de maneira não proposital.
Estaria tudo bem se entendêssemos que a propriedade de lembrar tem a mesma intencionalidade do esquecimento, sua antítese. Componentes do mesmo sistema neurológico e psíquico, ambos têm a mesma importância funcional. Mas, tornou-se hábito vislumbrá-los sob ângulos diferentes e cercá-los do conceito dual de certo-errado, bom e ruim.
Lembrar sempre nos parecerá mais interessante que esquecer. Lembrar-se de um aniversário, de um compromisso ou de um fato importante, fará com que sejamos vistos como alguém atento e afetivamente ligado á seu universo. Mas basta um esquecimento, apenas um, e toda uma vida de atenção será sistematicamente apagada de seu currículo pessoal.
Você será execrado e julgado. Poderão achar esse “deslize” perdoável, caso tenha sorte e lhe atribuírem o caráter de patologia. Aí você só terá que escolher como prefere ser visto: como frio e mal educado ou como gagá. Há também outra opção: poderão entender que você é uma pessoa muito ocupada. Mas, essa alternativa não resistirá se usada para justificar sucessivos esquecimentos. Não vai colar por mais de duas vezes.
Muito raramente nos perguntamos por que nos lembramos de algo, mas somos torturadores hábeis quando buscamos respostas pro esquecimento, seja nosso ou dos outros. Quando isso acontece, constataremos muito rapidamente, que nossa tolerância é muito maior quando o “esquecimento” é nosso. Já o perdão, é outra história.
Mas porque nos lembramos de coisas pouco significativas enquanto nos esquecemos das que são, muitas vezes, cruciais? Que raio de mecanismo é esse que faz com que nos lembremos do nome do jardineiro da escola primária que cursamos e esqueçamos o nome da tia-avó milionária, de quem você é a única herdeira?
A resposta, obviamente, não será conclusiva. Mas é possível traçar um parâmetro que aponte para alguns fatores correlatos. Um exemplo é o tempo. Não o tempo linear ou cronológico, mas o tempo que medimos através de “marcos” e de fatos significativos.
Entre os fatores que entrelaçam o passado, presente e futuro em nossa memória, nada é mais implacável do que a interpretação que atribuímos aos eventos que nos desenham na vida. O dia da morte de sua avó, por exemplo, pode ser menos significativo que o dia em que o Plano Collor tirou de você suas últimas economias.
Parece ser óbvio pensar que o Collor deixou muito mais seqüelas que alteraram seu futuro do que o desejado descanso de sua avozinha doente. Mas não ouse contar isso á ninguém, você não será compreendida! Salvo se sua avó tenha lhe deixado muitas dívidas..daí os dois fatos ficarão igualmente retidos em sua memória.
É um erro pensar que o passado é inalterável. Que repousa tranqüilo salvaguardado por suas lembranças. É justamente sua lembrança que tem o poder de reescrevê-lo e modificá-lo quantas vezes lhe for conveniente para justificar o presente e o futuro. O choque de suas lembranças com as alheias é que produzirá o fenômeno conhecido como “memória coletiva”.
Essa “memória coletiva”, em realidade, não tem nada de plural. Sempre haverá algo ou alguém que a moldou de maneira que parecesse irrefutável. Algo capaz de anular evidências anteriores ou diversas e produzir uma nova memória que seja mais conveniente.
Não há limites físicos para a capacidade de armazenamento das lembranças, entretanto observa-se a propriedade da mente humana em classificar e selecionar esses dados. Isso se dá como um mecanismo de defesa. Um dispositivo que é acionado ao menor sinal de pane no sistema. Esse processo é facilmente observado quando estamos sobrecarregados de trabalho ou emocionalmente esgotados. Nessas ocasiões preferimos leituras descartáveis e conversas descomprometidas. Viu? Estamos justificados por gostarmos tanto de jogar conversa fora.
Existem muitas doenças cujos sintomas estão fundamentalmente calcados na memória, ou melhor, na ausência dela. Daí a política de terror do preconceito que sucessivos, embora pequenos, esquecimentos geram. É preciso perceber que nem toda doença mental é sustentada pela ausência de memória, assim como uma memória surpreendentemente boa, não garante proteção absoluta.
Entretanto, está comprovado que exercitar a mente com leituras, palavras cruzadas e qualquer outro tipo de prática que estimule o raciocínio, pode ser sim, um atenuante para a evolução de doenças galopantes como o Mal de Alzheimer, por exemplo. Mas, não é necessário que esgotemos todas as edições de palavras cruzadas da banca mais próxima, já que temos naturalmente outros exercícios que são efetivos e que praticamos diariamente sem nos darmos conta.
Esquecer é a maneira que a natureza encontrou para evitar que fiquemos atolados até o pescoço de lembranças inúteis. Mas, como o número de informações desnecessárias á nossa sobrevivência é infinitamente maior é natural que algumas das imprescindíveis, acabem escapando pelo esgoto da nossa memória, misturada ás outras.
Todavia, não se justifique muito. Esquecer pela enésima vez de pagar a conta de luz pode resultar num preciso corte na energia. Daí é bom se lembrar rapidinho de uma desculpa bastante boa se não quiser permanecer por muito tempo na literal escuridão que sua falta de memória ocasionou.
Mas, se o problema são esquecimentos como: chaves do carro no balcão da loja de roupas, o cartão de crédito na bolsa que usou ontem, o número do telefone e a senha da sua caixa postal...relaxe. Aí, estaremos falando do “ato falho”, que bem explicou, o famoso Freud. Mas esse é assunto pra um novo post. Espero não esquecer!
* Ah! Beber pra esquecer pode ser outra furada! Você pode não lembrar quando deve parar...mas ninguém vai te deixar esquecer!
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Segunda-feira, Setembro 3
SOMOS O QUE PODEMOS SER
Século XXI - Fomos aliciados por um país que se acostumou a ver seres humanos queimados vivos em praça pública, rodovias inteiras “pedagiadas” por quadrilhas, seqüestros e as mais diferentes formas de violência. Essa realidade torna quase obsceno falar de violências que não provocam comoções e não deixam hematomas visíveis. Violências que nunca serão tema nos noticiários.
Meus colegas psicólogos e os doutores psiquiatras midiáticos, lidam com o tema como se esses fossem apenas sintomas que compõem uma síndrome, e não o fator desencadeante da mesma. Penso que é mais que preciso abandonar o exercício da “macro-análise” do comportamento humano. Nos acostumamos a contextualizá-lo para justificá-lo. Errar não é humano. O que é característica humana é banalizar o erro para supervalorizar pequenos acertos em causa própria.
A violência cotidiana, aquela que sucessivamente vai abrindo pequenas feridas em nossa confiança é a mais nociva forma de degradação emocional. É mais velha que o mundo e nunca é combatida. Não mata, não sangra, não deixa marcas visíveis, apenas fere. Esse tipo de violência agrega adeptos. Contamina quase tudo a seu redor. Ninguém nunca estará completamente impermeável, porque nela sempre estará seu componente essencial: sua capacidade de convencimento.
É possível convencer qualquer um de convicções e justificativas, quando sustentado por uma multidão cega. É possível promover um autismo coletivo capaz de transmutar significados e conduzir uma legião em marcha para o que fizemos parecer legítimo.O ser humano é o resultado de uma montanha de valores morais moldados a partir de sua própria satisfação pessoal.
Uma mãe amorosa é capaz de convencer o filho do delicioso sabor de uma saudável maçã, quando sabemos que há frutas muito mais saborosas e que gosto é uma questão pessoal. Funcionou com ela. E ela aprendeu rapidamente a reproduzir essa inocente lavagem cerebral. E, ainda que a criança adquira maturidade para fazer valer sua vontade, nunca lhe será permitido discutir as intenções embutidas na violência de ter sido coagida a comer o que não queria por anos a fio. Foi um ato de amor, de bondade e de zelo maternal.
O mesmo funciona no famigerado “tapa na bunda”. Canso de ouvir que um tapa na bunda na hora certa, é um ato de amor. Que é um mal necessário e uma forma de aprendizagem. E é mesmo! Serve para ensinar como a vítima deve agir, quando a vida inverter seu papel social. Teremos netos aptos a levarem legítimos tapas na bunda, “correcionais e amorosos”.
Fazer o que se acredita certo em detrimento do quão errado possa parecer, é fundamentalmente a mais importante incoerência humana. E, de longe, a mais aceita também. Quem “normal” iria torcer pelo colega que pleiteia a mesma vaga na empresa? Desejar a própria vitória, nesses casos, é a maneira mais direta de desejar o mal ao outro. Mas como evitar? Como saber detectar o momento exato em que para satisfazer nossas vontades, aniquilamos as possibilidades alheias?
A dificuldade em perceber essa linha limítrofe é o que, ao longo dos anos, foi sistematicamente “endurecendo” a raça humana. Não que seja passível de punição desejar o melhor para si mesmo e sim fazê-lo, sem que isso seja uma competição.
Nunca vi um animal que não seja humano, vangloriar-se por ter derrotado alguém numa disputa. Ainda que seja uma disputa legítima e que envolva prêmios ou qualquer outro tipo de compensação. Não há, por exemplo, nos Jóqueis Clubs, uma festa na estrebaria para que o cavalo vencedor possa se reunir aos amigos para comemorar e sobrepujar o perdedor.
Somos competitivos e isso faz de nós o mais vil espécime jamais visto. Há quem diga que isso assegurou a sobrevivência humana. Ou estaríamos vendo dinossauros comendo uns aos outros do outro lado da rua, disputando uma vaga de estacionamento.
A violência cotidiana tem várias formas e modalidades. Vem travestida de boas intenções e é quase impossível identificá-la, ou proteger-se, até que você mesma se torne vítima dela. Ela advém da convivência com pessoas “boazinhas” imbuídas de instinto assassino justificado mas moral e socialmente amenizado.
Como não é “possível” matar fisicamente suas vítimas ou fazê-las desaparecer para deixarem de ser um obstáculo pessoal, dedicam-se ao assassinato moral e por vezes, existencial das mesmas. É preciso estar atento! É imperioso que estejam suficientemente próximo da vítima para terem suas intenções realizadas. Assim, o agressor pode estar mais perto do que pensamos!
Todos nós temos um momento ou outro, desse tipo de intenção covarde. O que diferencia esses “egos” maldosos dos sazonais é o cotidiano. Esses “profissionais da sedução” desconhecem como relacionar-se de forma diferente. Esse agressor nato tira proveito de circunstâncias que os demais ignorariam. Se atentam e supervalorizam detalhes isolados, ridicularizam a fragilidade (ainda que momentânea) de suas vítimas e geralmente, busca provas contundentes que avalizem seu ponto de vista.
Não há culpa ou arrependimento em nenhum momento. Ainda que voltem atrás em seu posicionamento, sempre haverá um indício do propósito de vitimar o outro.Qual o prêmio ao agressor cotidiano? Notoriedade. Rapidamente a fama de implacável é disseminada e ele passa a ser o centro das atenções. Temido por muitos e adorado por outros, a essência é a mesma: o poder de agregar igual ao de destruir. Transforma-se surpreendentemente no paladino da verdade absoluta e sempre haverá multidões de covardes menos expressivos para se utilizarem de seu poderoso dom de arauto.
Pais, mães, educadores e amigos não estão livres de serem identificados dentro desse perfil, apenas pela suposta proximidade afetiva com a vítima. Ao contrário, são suspeitos em potencial, uma vez que desfrutam da proximidade necessária para se desenvolver.
É preciso destacar que as vítimas sempre estarão enquadradas dentro da dualidade “desprezo-admiração” que despertam. O agressor, em geral, inveja as qualidades de sua vítima, sente-se aquém em diversas esferas, mas ao mesmo tempo o despreza por vê-lo como alguém incapaz de utilizar essa vantagem a favor de si mesmo. Sua tendência, então, é qualificar a vítima como um adversário perigoso, mas “ingênuo” o suficiente para ser combatido sem maiores problemas.
O emprego de técnicas psicológicas, apesar de estender seu olhar pra esse tipo de personalidade, torna-se limitada por sua necessidade de isenção. A imparcialidade que os terapeutas precisam adotar impede a ação mais direta e nominativa sobre esses indivíduos. Impede-os também de provocar confrontos que desmascarem definitivamente o agressor, já que sua função primeira como terapeuta é estimular o auto-aprendizado.
Entretanto, estudos apontam para uma descoberta que pode ser o começo de uma nova abordagem no combate á esses agressores. A percepção de que são susceptíveis á inversão dos papéis. Se sobreviver, a vítima após o agressor cansar-se dela e mudar seu alvo, pode mostrar-se um discípulo bastante aplicado e voltar os ensinamentos que recebeu contra o seu próprio algoz.
Claro que não há aqui um apoio ao “a melhor defesa é o ataque”, mas, é possível através da observação desse fenômeno abrir-se caminho em direção á proteção já tão necessária e urgente. Pode-se, por exemplo, evocar o princípio do condicionamento: técnica que envolve o aprendizado pela freqüência de sucessos e fracassos, devidamente punidos ou recompensados. A vítima poderá, enfim, auto imunizar-se. E o agressor morrer asfixiado pelo seu próprio veneno.
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Sábado, Setembro 1
O PREÇO DA LIBERDADE...
...É A ETERNA VIGILANCIA!
Morar em um condomínio tornou-se uma obsessão para quem vive em uma cidade grande. De apartamentos ou de casas, esses condomínios tornaram-se símbolos de status, de segurança e, pasmem: de liberdade!
Meu condomínio tem: cerca elétrica, circuito fechado de TV, porteiros em todos os períodos e um segurança armado que o percorre de moto durante a madrugada. É, talvez, o segundo lugar mais vigiado, dentro do mundo real, que tenho notícia.
O primeiro é o CDP (Centro de Detenção Provisória) de minha cidade. A diferença entre eles é que meu condomínio foi projetado para que quem não for convidado, tenha muita dificuldade em entrar e o CDP almeja exatamente o contrário. Em comum, ambos têm falhado sistematicamente em alcançar esse objetivo.
Mas, temos que admitir, ambos realizam um marketing bastante eficiente de si mesmos. Em esferas diferentes, vendem liberdade e segurança. Aliás, a existência de um, automaticamente afiança o outro.
A segurança que me proporciona a não liberdade dos “maus elementos” da sociedade, só pode ser comparada com a que sinto pela “liberdade” que me proporciona a segurança de viver em um condomínio. Achou confuso?
Então você nunca viveu em um condomínio! Aqui meu cachorro pode caminhar pelas ruas, as crianças podem brincar de “mamãe da rua” e eu tenho meu direito de não receber visitas inoportunas, assegurado. É claro que existem regras, mas quem se importa?
As mais contundentes regras de meu condomínio são: que as crianças devem brincar “livremente” entre as grades da quadra de vôlei, que meu cachorro só pode sair devidamente contido por sua coleira e que meus convidados devem deixar sua identidade na portaria quando me visitam. Mas tudo isso, é claro, visa nossa segurança!
Outra peculiaridade desse estilo de vida é a vizinhança. Cada condomínio, através do padrão das construções, determina antecipadamente ao feliz comprador quem serão seus vizinhos e assegura de que existam poucas chances de você ter que conviver com alguém que não possua o mesmo status social que o seu.
Essa garantia de uma “boa vizinhança” é um dos apelos mais eficientes no marketing da construtora. Assim como no CDP, aqui todos somos iguais! Ou, pelo menos, temos as mesmas razões para sermos forçados a conviver.
Não faz muito tempo, meus vizinhos mais próximos, eram um casal de cerca de 30 anos e uma bebê. Quase não sabíamos quando estavam ou não em casa, já que ambos trabalhavam e a criança passava a maior parte do tempo com os avós. Como também passo muito tempo fora de casa, cumprimentá-los era minha única forma de relacionamento com eles.
Vale dizer que nos finais de semana tínhamos certeza da presença dos três. Não houve um só sábado que toda a turma de faculdade de ambos não se reunisse na piscina deles numa deliciosa confraternização que iniciava ao meio-dia e terminava no mesmo horário do dia seguinte. Á noite, cansada, a bebê não conseguia dormir. O que resultava em uma longa noite de domingo para toda família...deles e minha!
Confesso ter sido um alívio quando o rapaz, um jogador de basquete profissional, foi comprado por um time paulista e mudou-se com a tropa toda pra capital. Mas, para minha surpresa, foi nessa mesma época que descobri o quanto minha própria família é barulhenta. Senti saudades do silêncio que fazíamos em “respeito” á festa deles.
Passado alguns meses, uma nova família alugou a casa dos meus antigos vizinhos. Meu marido e eu chegamos a comentar a coincidência de termos novamente um casal de jovens com apenas um filho morando do outro lado do muro.
Logo percebemos que os atuais eram muito diferentes dos anteriores. A começar pela maneira como se comunicavam. Por uma dessas situações em que a sorte é amiga do azar, a família é israelense. Daí que quase tudo que gritam durante as intermináveis brigas, não é compreendido por nós.
Descobrimos que participar involuntariamente de desavenças familiares alheias é muito pior quando não é possível fazer juízo moral por não termos tradução simultânea. Além disso, nunca estaremos 100% seguros de que estão brigando entre si ou tramando um assassinato. Ou, até mesmo discursando sobre os latidos do meu yorshire.
O fato é que morar em relativa segurança tornou-se um exercício mútuo de tolerância. É muito curioso vê-los saindo pela manhã, despedindo-se um do outro como se a noite anterior não tivesse existido.
Mais inquietante ainda, é imaginar se nesse momento, um deles não estará escrevendo em uma página da internet, em seu próprio idioma, as desventuras da família vizinha. Nesse caso, a minha!
O que nos consola é que, ao contrário dos CDPs, o aumento do número de novos condomínios na cidade é espantoso, e sempre é possível mudar de endereço. Ainda que tenhamos que pagar pelo sistema de segurança de ambos.
- posted by Mara
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