| |
Segunda-feira, Dezembro 31
Domingo, Dezembro 30
MANCOMUNANDO COM MACUNAÍMA...
EM NOITE DE “ANO BOM”
Contagem regressiva e, muita gente já anda desesperada correndo atrás da tal retrospectiva. Do alinhamento de erros e acertos, na tentativa tardia de se redimir dos primeiros e reaprender com o segundo.
Bom também! Antes tarde do que nunca. Muito embora, em parte alguma exista registro de algum tipo de comportamento que tenha se modificado á partir de promessas feitas á Iemanjá.
Á menos que tenha sido exatamente esse o pedido feito á ela. Quem sou eu pra duvidar? Afinal, é para isso mesmo que servem esses seres fantásticos: realizar o inimaginável, o impossível.
E isso, talvez, também justifique a escolha brasileira desse Orixá, representante das águas e do mar, como receptor desses desejos. O mar é democrático e muito pouco seletivo. Além disso, por sua vastidão, possibilita que os pedidos sejam feitos discreta e desavergonhadamente.
O fato é: a comprovação de que até o calendário é cíclico, renova a esperança de que, quem sabe, seja possível reescrever a própria história. E isso, para muitos, pode significar receber folhas totalmente em branco e começar do zero.
Esta aí, aliás, a razão de muitos não ultrapassarem o mês de janeiro sustentando suas determinações. Não é verdade que pau que nasce torto, morre torto. Mas, é mesmo muito difícil, para os “natitortos”, impedir certa envergadura no decorrer do tempo.
Assim, dito pelo não dito, todo ano é a mesma coisa. Reserva-se a champanha, evoca-se o branco virginal e purificador e á olhos desavisados, tornamos - nos iguais na noite de trinta e um de dezembro. E, de mãos dadas, pulamos os modestos sete pecados originais do vasto oceano que eles compõem.
É a vida! Hoje, te odeio e, amanhã, eu te amo. Embora, o contrário seja muito mais freqüente. Há quem veja algo de louvável nisso. Quem se julgue ser, justamente essa, a característica que nos faz humanos. Por isso amo tanto meu cachorrinho!
Mas, já disse e repito: adoro essa época do ano. É uma oportunidade única de vermos demonstrações de docilidade e passividade em lugares e pessoas inimagináveis. É a chance de ouro pra se esquecer ou pedir que esqueçam o que se fez e o que se era.
Vale então, em homenagem aos que estarão tendo na noite de “Ano Bom” sua pseudo- redenção lembrá-los quem, até os maus-caracteres têm lugar na história e, podem ser vistos como heróis.
Á esses, transcrevo um trecho de um diálogo hipotético entre Macunaíma e seu Criador Mário de Andrade, publicado por Mano Melo em fevereiro desse ano. “Macunaíma, herói, cujo caráter se modifica de uma página para outra; o traço que revela num lance, desmente-o no seguinte – herói, pois, sem nenhum caráter”.
MÁRIO - Olá, Macunaíma, eu estava lhe esperando. Sabia que um dia você apareceria por aqui.
MACUNAÍMA - Ôxente, aparição, vem me dar susto não. Tu parece um lobisôme. Como é que tu sabe o meu nome?
MÁRIO - Sei tudo sobre você, meu neto. Nada teu me é secreto. Eu sou o criador, você é a criatura
MACUNAÍMA - Mas será o Deus da Silva? Tá com mania de grandeza? Tu lá é Deus pra criar o que é meu?
MÁRIO - Eu sou o teu autor. E te criar foi um trabalho de amor.
MACUNAÍMA - Não conheço pai nem mãe. Nem nestas terras parentes. Sou filho das pobres ervas. Neto das águas correntes.
MÁRIO - Para que os brasileiros não esquecessem o seu herói, fui te buscar na fala do povo, nas festas de rua, no colorido das praças.
MACUNAÍMA - Pois não tô satisfeito com o meu destino. Formiga não tem caroço, cearense não tem pescoço e bananeira não tem nó. Ter autor é muito bão, mas barriga cheia é mió.
MÁRIO – Mas qual é o problema, ó herói de nossa gente?
MACUNAÍMA – É que você podia me fazer diferente. Nem tão doce nem amargo. Nem tão frio nem tão quente. Não quero que Ci, minha amada, vá pro céu, nem que roubem o que é meu.
MÁRIO – Mas herói, você não está curtindo o maior barato?
MACUNAÍMA – Exijo modificações no último ato.
MÁRIO - Então não vale à pena, Piá? E toda esta poesia que eu fiz. Transbordando de teu olhar. Pra te fazer feliz?
MACUNAÍMA – E porque fez tanto carrapato pra me sugar pelo mato? E os boi-tatás, os perfumes de gambá, os abraços de tamanduá? Tá pensando que aluá é refresco de urina?
MÁRIO – São dois lados da mesma moeda, Macunaíma. Duas metades do mesmo tacho. Às vezes tá por cima, Às vezes tá por baixo.
MACUNAÍMA – Pois tô a fim de começar tudo de novo.
MÁRIO – Você será sempre novo. Porque você ganhou a boca do povo.
MACUNAÍMA- Me diz uma coisa, como que é teu nome, Amizade?
MÁRIO – Mário. Mário de Andrade.
MACUNAÍMA – Então tá bom, Seu Mário.
MÁRIO - Macunaíma, você pertence ao acervo da cultura popular. Por isso contei tua saga de antes e de depois. Mais importante é o mito. O criador não manda na criatura. Ele só escreve o que já está escrito!
Sei não, mas acho que já devo ter encontrado alguns desses “Macunaímas” por aí. Afinal, o Brasil é tão grande, não é mesmo?
Para saber mais sobre o tema:
http://www.resumosdelivros.com.br/m/mario-de-andrade/macunaima
- posted by Mara
Sábado, Dezembro 29
NÃO DÊ OUVIDOS Á FOFOCAS...
A VERDADE? SÓ AQUI!
Há algum tempo se ouvia rumores. Nada concreto ou muito extenso. Apenas rumores. Cheguei a flagrar uns diálogos aqui, outros ali, mas, sempre que eu, ou mais alguém, se aproximava o assunto era educadamente mudado.
Não, não é paranóia. Conclui que se tratava de assunto particular. Do tipo que partilhamos entre amigos e que exige tempo, concentração e disponibilidade em ouvir. Como estou sempre correndo pela vida, imagino que achavam que eu não me interessaria participar.
Mas, tudo que é constante gera curiosidade e comecei a ficar intrigada. Comecei a apurar meus sentidos e tratar o caso como um quebra cabeça.
Fui juntando as expressões faciais com algumas frases e palavras soltas e descobri que falavam de alguém que estava morrendo.
- “Foi tão bom!” Diziam alguns
- “Nem tanto". Suspiravam outros.
E concluíam em uníssono:
- “É, mas está no fim!”.
De fato, então, fosse quem fosse iria morrer. E eu nem sabia do quê. Aquilo começou a me incomodar e fui me especializando em ouvir atrás das portas, na passagem rápida entre os diálogos e fazer perguntas insuspeitas do tipo: “De quem mesmo estavam falando?”.
Nada! Quando muito, me respondiam com evasivas: - “Ah! De nada e de tudo ao mesmo tempo”. Não foi difícil admitir que ninguém mesmo iria me contar voluntariamente o que estava acontecendo.
Mas, um dia, assim do nada, percebi que o rumor cessou. Com exceção de alguns amigos mais conservadores, ninguém mais parecia falar do tal sujeito e sua morte eminente.
Demorou pra eu entender que outro acontecimento, aparentemente mais importante, havia tomado o lugar do antigo e já surgia frenético, nas conversas á minha volta. Confesso que fiquei decepcionada. Já estava em fase avançada da minha investigação.
Foram meses de profunda dedicação sobre o tema. Pesquisei em jornais diários, blogs, sites e até nos noticiários da TV. Todo esse esforço, só serviu pra que eu percebesse que o tal "fim", era também assunto corrente na Internet.
Como tenho me relacionado muito com o virtual, pensei estar muito perto da revelação e já vinha comemorando minha astúcia e meu apurado senso investigativo. E não é que o assunto virou passado, antes mesmo de se tornar presente pra mim? Sacanagem!
Mas, me orgulho de ser dotada de uma incrível capacidade de adaptação e assimilação do que, "o que não tem remédio, remediado está". E decidi não permitir que o “novo” tema chegasse a se tornar um mistério como o anterior. Além disso, já estava meio cansada.
Mas, o murmúrio atual parecia ser menos secreto e, os índices de que ele estava em pauta, um pouco menos escamoteado. Eu diria que eram até mais festivos. Mas, era cedo demais pra concluir alguma coisa.
Claro que dessa vez, tendo aprendido com a experiência anterior, comecei minha pesquisa pela Internet – sempre muito mais informada e atualizada que os demais meios de comunicação. E, pasmem, matei a charada numa única navegada.
Não havia um só “trio de dáblios”, nenhum "ponto com" que não fizesse, ainda que pequena, uma referência ao fato. O que chamava a atenção é que para mencioná-lo estabeleceu- se uma espécie de competição subjetiva de como fazê-lo de maneira mais chamativa possível.
Daí, pessoas, que como um Sherlock cibernético , eu matei (ops) eu solucionei o caso todo. Descobri como, quando, onde e por que. Meus mestres do jornalismo iriam se orgulhar de mim.
E, para fazer jus á essa admiração e, como boa jornalista, tenho a obrigação de repassar á vocês a notícia. Sentei em meu computador e comecei a escrever esse texto.
Mas, antes, um aviso: quem tiver problemas de saúde que o impossibilite de vivenciar temas de ordem emocional muito forte, ou tenha seu senso crítico muito sensível deve desistir e deixar de ler agora. Esse será o primeiro e único aviso!
Ainda está lendo? Bom, então vamos lá? O relato que lerão a seguir é a mais pura expressão da verdade, apurada em fontes confiáveis, checadas e devidamente autorizadas. Escrita sem preâmbulos e de acordo com os preceitos da ética.
NOTA DE PESAR
“Depois de 12 angustiantes meses, analistas afirmam que o meio, justifica fim.”
Dez, 29, Brasil. Doze meses depois de seu nascimento e tendo presenciado uma série de acontecimentos, nem sempre bons, o ano de 2007 está agonizante. Vítima de um mal desconhecido detectado em meados de janeiro, 2007, tinha demonstrado alguns sinais de melhora e seus admiradores chegaram a respirar aliviados.
Entretanto, os sintomas e o descaso das autoridades foram decisivos, afirmam os especialistas, para sua não completa recuperação. Apesar da comoção pública e das correntes de oração que mobilizaram o mundo todo, 2007, em novembro último, entrou em estado vegetativo.
No início de dezembro, contrariando as evidências, seus simpatizantes e amigos mais otimistas, chegaram a acreditar numa reversão do quadro. Mas, no decorrer dos dias, já cediam ao fato de que o velho ano, já cansado de tantas lutas, desistia lentamente da vida.
Na manhã de hoje, o boletim médico divulgado dá conta de que os fãs e a população devem ser alertados de que a qualquer momento o sofrimento de 2007 pode finalmente acabar. Pessimista, o boletim acusa uma sobrevida de no máximo dois dias.
A autora dessa notícia, imbuída de um profundo alívio, deseja a todos, muita tranqüilidade pra aceitar o fato e, principalmente, que desfrutem cada minuto que ainda resta ao lado de tão familiar personagem. Aos fãs e amigos, meus pêsames!
NR: Antes do encerramento e fechamento dessa coluna, fontes anônimas seguras informaram que um enorme grupo de pessoas se aglomera em expectativa para estarem presentes no momento decisivo. As mesmas fontes afirmam que um novo e promissor substituto será apresentado no minuto seguinte ao falecimento. Novos fatos, portanto, na edição de amanhã.
- posted by Mara
Sexta-feira, Dezembro 28
VENI VIDI VICI
SACOU?
Há dias em que acordamos pensando grande. Não é um “grande” simplesmente por ser maior do que os pensamentos anteriores, mas, um estado de superlativo mesmo. Desses pra merecer o adjetivo de ambicioso e prepotente.
Sei lá de onde vem isso. Mas, o fato é que apesar das conseqüências que isso possa trazer, e sabemos que trará, é realmente uma sensação prazerosa. Além disso, chega-se á um ponto na vida que prazeres como esse não podem mais ser ignorados. Sabe-se lá quando os teremos novamente?
Pega daí, que fiquei pensando em como traduzir esse exagerado pensar, em alguma coisa que coubesse no espaço de um post. Que fosse entendido pelos envolvidos e fizesse sentido também para os que nem sequer fazem idéia de como encaixar isso em suas vidas.
Dessa, também grande, pretensão, me ocorreu que não sou a única a ter pensamentos assim. A diferença é que o que pra mim é quase um evento, para alguns, isso se tornou um modo de vida. Tornou-se tão corriqueiro que virou característica. Ah! Assim não, né?
Bom, o resultado desse exercício extenuante evocou a imagem de uns personagens históricos cujas trajetórias fascinantes, se não serviram, deveriam ter servido como exemplo para muitos. Ao contrário, muitos só lembram-se da fama deles, sem relevar o que os levou até ela.
Assim, pra refrescar a memória de uns e dar, quem sabe, uma segunda oportunidade á outros, eu elegi um desses “famosos” para ilustrar e exemplificar os pensamentos que não me abandonam desde ontem á noite. De quem falo?
General, estadista, orador, historiador e legislador romano, Julio César, cujo nome, tornou-se sinônimo do imperialismo romano. De todas as qualidades que possuía, a de orador e estrategista foi, talvez, as responsáveis por grande parte de seus êxitos e, também de seus infortúnios.
Foi o cara que usou a famosa frase: “a sorte está lançada” quando por posicionamento político teve que abandonar suas filiações primeiras e partir para uma carreira praticamente solo de poder.
Sua visão, exclusivamente militar, expandiu o império romano até ao inimaginável. Foi quando usou outra de suas frases célebres: Veni vidi vici (Vim, vi e venci).
A conseqüência disso foi o surgimento de um número igual de opositores á sua proposta bem intencionada, embora, centralizadora. César tornou-se inseguro. Essa insegurança chegou á ponto de fazê-lo nomear pequenos poderes em seu nome. Lembra-se de Cleópatra?
Suas boas intenções ameaçavam de forma escancarada os outros poderes. E, não demorou muito, já o chamavam de ditador.
Mesmo assim, parecia não dar-se conta do perigo que esse título representava e continuou propondo reformas, aperfeiçoando as províncias, além de tornar famosas as festas que promovia para alegrar o povo.
César sempre foi muito clemente com os adversários. Graças á isso e seu senso de justiça, ele conquistou enorme apoio popular, em compensação, os aristocratas dotados de algum poder anterior, sentiram-se prejudicados em seus privilégios e começaram a conspirar.
Daí que um dia, os conspiradores o envolveram armados de punhais. Júlio Cesar foi morto com 23 punhaladas, e suas palavras derradeiras deixa transparecer seu coração dilacerado pela ingratidão, típica de quem desconhece onde foi que errou.
Esse sentimento, que nada tinha a ver com a morte eminente e propriamente dita, revela também o excesso de expectativa e autoconfiança de César. A surpresa e decepção vieram, antes, de quem menos ele esperava – seu filho único e adotivo: Brutus.
Foi quando e, onde, nasceu a mais célebre de todas as suas frases de efeito: Tu quoque, Brutus, fili mi! (Até tu, Brutus, meu filho!) Sua morte, como era de se esperar, provocou muita revolta popular.
Especulam-se os verdadeiros motivos de seus assassinos. Dizem que não foram apenas questões políticas, mas que esses, tenham sido motivados pelo ciúme, pela inveja e pelo receio de perderem o pouco poder que lhes era atribuido.
Graças á Deus, os feitos de Júlio César não desapareceram com sua morte. Ao contrário, transformou-se na base de muitos outros governos de homens livres e unidos numa única comunidade e assentou os alicerces de um novo Império.
Mas, convenhamos, não precisavam ter matado o cara, não é mesmo?
Então, AVE CÉSAR!
PS: Essa é uma história verídica, transcrita com liberdade poética. Não é atemporal e está localizada em todos os índices da história da humanidade. Qualquer semelhança com fatos ou personagens da vida atual, terá sido mera coincidência. Ou carapuça mesmo!
- posted by Mara
Quinta-feira, Dezembro 27
QUEM TE CONHECE....
...NÃO ESQUECE JAMAIS!
Não esquece mesmo! Seja por que lá uma distância sempre leva o dobro de tempo a ser percorrida, ou porque ninguém parece se importar com isso.
No caminho, sempre haverá a filha de fulano que é neta de beltrano da família de sicrano que nem conhecemos, mas que conheceu nossa avó, e nos receberá como se fosse da família.
Uma paradinha, um cafezinho, um queijinho e pronto. Sou mineira desde criancinha. Entre uma coisa e outra, a prosa nos coloca em dia dos acontecimentos dos últimos dez anos. Tudo isso, sentados na cadeira da mesa da cozinha, uai.
Ói qui, vô contá uma coisa procês:
Filha, neta, nora e esposa de mineiros. É, sou nascida mineira. Da modesta Minas que, esquecendo que é única, se intitula “Gerais”. De vias tortuosas, de queijos de beira de estrada e de gente, não igual as outras, mas, gente mineira.
Existe um quê de sacrifício voluntário se aventurar pelas estradas mineiras. É como um investimento de retorno á longo prazo. Segue-se repetindo a si mesmo: No fim, terá valido á pena. ..No fim, terá...
Mas, nunca se encontra o fim. Não há uma só estrada que siga em linha reta e depois de um tempo, os olhos aprendem a desvendar a paisagem. São como quadros, emoldurados por montanhas. A cada curva, o trabalho de um novo pintor.
Não há regra no uso das cores e da perspectiva. Olhe rápido, ou só a verá na volta. Assim Deus compôs as linhas íngremes das margens rodoviárias mineiras.
Ir á Minas é ter um encontro marcado* com um grande sertão* que parece já foi beira mar*, a julgar pelas ondas de suas trilhas. É seguir com o coração disparado* á espera de ver, a qualquer momento, um menino maluquinho* atravessar com uma caçarola na cabeça. É ser guiado pelos som e cheiro de Deus*.
Minas é antiga, cantiga, é crônica, é conto ( de assombração, principalmente). É Ataulfo Alves, e Ari Barroso. É Carlos Drumond de Andrade ( o mesmo que hoje, passa os dias sentado no calçadão de Copacabana).
Minas é atual. É Skank, Jota Quest, Pato Fu. Minas é Ana Carolina. Continua poesia, portanto. São filhos dos filhos, garimpando e espalhando o ouro por esse Brasil á fora. Minas, nada tem de Gerais. Minas é singular.
É a terra dos “inhos”: jeitinho, juntinho e caladinho. Esses “inhos”, entretanto, foram incorporados para reforçar a modéstia de quem se sabe enorme. Vejamos: “Nossos filhos têm um jeitão especial de ficar juntão, mas só que é caladão”.
Di jeitu ninhum! Milhor assim: “Nossos fios, têm um jeitinho ispecial de ficar juntinho, só que é caladinho, caladinho...”. Cantado em verso e prosa, assim se conversa um mineiro.
Por trás de uma frase afirmada, deixa sempre a reticência de quem espera resposta, que somos incapazes de negar. Pronto. Deu mole. Senta, que junto com o “ói qui”, você que é da geração Mac Donalds, vai passar a tarde comendo pão doce, de queijo, de linguiça...
O relógio mineiro é culinário. Dividem o dia em: café da manhã, que só é retirado da mesa com a chegada dos pratos para o almoço, que só serão retirados para dar lugar ao lanche da tarde, que é a refeição principal.
O lanche dará lugar ao jantar que dependendo do número de convidados, se encontrará com a ceia. A ceia, coitadinha, é notívaga e só levantará da mesa com o cheiro de café fresco e pães de queijo saídos do forno.
Assim, alguns quilos mais saudável, engolindo os artigos e diminuindo as palavras, deixei esse lugar bão demais da conta, por causo de quê eu carecia de voltar pra Sun Paulo.
E já estou com saudades da Minas que, é mesmo uma mina de ouro e que tem uma capital que enche nossos olhos com seu Belo Horizonte. Mas é certo, meus mininos e eu, num vamus isquecer nunquinha esse Natal ispecial. Porque o trem é bão messssmo.
Vou contar procês...
*O Encontro Marcado de Fernando Sabino;
Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa;
Beira-mar de Pedro Nava;
O coração disparado de Adélia Prado;
Menino Maluquinho de Ziraldo e
Cheiro de Deus de Roberto Drummond
(todos mineiros, é claro!)
- posted by Mara
Terça-feira, Dezembro 25
E, NO DIA SEGUINTE...
Ok. É bom. Presente de onde não se esperava, muita comida, luzes, sons de crianças felizes invadindo todos os ambientes, saudade saciada... enfim, bom demais! Mas, convenhamos, dura muito.
Termina tarde, começa cedo e promete seguir por todo o dia. O teor etílico de muitos ainda nem baixou e a beberagem já corre solta outra vez. Sem falar daquela tia que esbarrou com você pela centésima vez e, de novo, perguntou quem você é.
Eu sinceramente nunca tinha reparado como o Papai Noel é feio e tem cabelos maltratados. Acho que isso acontece depois que nossos filhos crescem. Mas, acho que não fui a única desiludida. Flagrei a seguinte conversa entre os dois dos mais novos da família:
- É Falsa. Tenho certeza!
- É nada. Deixa de ser bobo. Não tá vendo que ele é velhinho?
- E a gente tem que amarrar a barba quando fica velho?
- Claro que não.
- Então aquele laço é pra segurar o que? A dentadura?
Pois é. Acho que fizemos uma má escolha esse ano. Mas, é que o mercado anda meio carente de bons velhinhos com a aparência de saudável e barbas bem cuidadas.
De minha parte, estou satisfeita. Meu caçula, meu Yorkshire, talvez tenha sido o único que teve coragem pra expressar o que pensava pelo sujeito com roupa de coca-cola: não parou de latir e rosnar até que ele fosse embora definitivamente.
Agora só o ano que vem. Graças a Deus!
- posted by Mara
Segunda-feira, Dezembro 24
CARTA ABERTA AOS AMIGOS
Quando nada mais é notícia, aqui você passa despercebido! Com essa pretensão nasceu este blog. Nasceu com a idéia de ser um esconderijo, um refúgio de amigos. Nasceu, juro por Deus, como dedicação inquestionável de amizade.
Entretanto, nada que surge plural sobrevive sob propósito exclusivamente unilateral. E assim, foram muitas mortes e muitas ressurreições. Tateando, provando até encontrar a trilha á seguir.
Estamos perto de alcançar a adolescência existencial. E isso implica em se perder a referência vez ou outra, em questionar a autoridade e se rebelar contra as normas pré- estabelecidas, sobretudo, as que não são explicadas.
Temos muito que aprender. E nem sabemos se sobreviveremos ás provações de se amadurecer num universo criado para ter poucos líderes e muitos subordinados. Mas, o caminhar até aqui, confesso, foi percorrido com muita determinação e pautado no princípio primeiro, de voltar a ser plural.
A maioria dos comentaristas, amigos ou não, que se agregaram á nós, vieram do mesmo lugar. E isso, por si só, prova que não foi um passado de todo inútil. E justifica meu persistente e profundo carinho até pelos que não vieram. Ou os que vieram um dia, e mais tarde deixaram de vir.
Hoje, em detrimento de todas as piadas e sarcasmos usados em posts anteriores, é mesmo um dia especial. Entre as pessoas que amo, restauro a certeza de ter feito o melhor de mim. Dentro e fora desse espaço virtual.
Daqui e, da paz que me encontro, queria agradecer aos que segurando em minhas mãos e com olhar zeloso de amigo me trouxe até esse momento:
Aos blogs: Big Bundas Brasil, Big Bronkas, Matutando, Jebal, Teleblog e Espaço Claudia Damm – que sem nada perguntar, abriram seus longos braços e me aceitaram e me linkaram como amigos.
Aos amigos comentaristas que são, na verdade, o coração desse blog e sua única razão existencial: Janaina, Bebé, Zaki, Sil, Madame X, Semio, Gil, Edu. Gil e Marriet.
Aos amigos blogueiros: Ninha, Bronkas, Blue, Mineira, Damm, Dani_Bel que me emprestaram sua luz, cujos comentaristas seguiram seus rastros, provando que quem sabe que é bom, não teme a concorrência, ao contrário, se irmanam.
E, aos que ainda não tiveram coragem ou vontade de se aproximar, sempre estarei esperando que encontrem alguma razão para fazê-lo.
Porque, como viram, seis meses mais tarde, QUANDO NADA MAIS É NOTÍCIA, O QUE RESISTIU, NÓS TRANSFORMAMOS EM AMIZADE!
A todos, um FELIZ NATAL ( ligue o som)
Mara
- posted by Mara
Domingo, Dezembro 23
PARA EXORCIZAR O ESPÍRITO
XÔOOOOO!
Tá. Vamos combinar que esse tal de espírito natalino é piegas, dura pouco tempo, não é pra qualquer um, além de, em alguns casos, ser meio falso. Mas, o dito cujo quando acomete alguém, ainda que pela primeira vez, tem lá suas utilidades.
As pessoas se tornam mais maleáveis, menos ácidas e se tivermos sorte, se enchem de qualidades que teriam sido muito úteis caso fossem adotadas em outras épocas do ano também.
Chegam se tornar simpáticos e nos faz até rever algumas das opiniões que formamos com base no que conhecíamos deles. Em alguns casos, mal os reconhecemos nas palavras que usam pra compor as mensagens que enviam.
Mas, o fato é que, quando estão possuídos por esse espírito bondoso, até que se tornam alguém passível de uma mínima convivência. E a gente fica sempre na expectativa que esses traços permaneçam depois que passar o Natal.
Amanhã é véspera de Natal e isso quer dizer muitas coisas. Quer dizer que a essa altura, quem tem alguém com quem partilhar essa data, já está entre eles ou nos preparativos finais para isso.
Quer dizer também que já venceu a sempre estressante expectativa do presente do amigo oculto. Já está, portanto, surpreso ou novamente irritado. Já repassou a lista de presentes anulando a possibilidade de se meter em alguma saia justa. E o tal pinheirinho artificial já está piscando reluzente na sala.
Enfim, quem fez, fez. E quem não fez, vai passar as próximas vinte e quatro horas numa correria danada e cheia de culpa.
Mas, o que o dia de hoje realmente representa é que a maioria de nós não deveria estar preocupado com as chamadas amizades virtuais e sim, totalmente concentrado na realidade familiar que temos. Seja ela boa ou não.
Mas cá estou eu, depois de uma viagem extraordinariamente cansativa, tentando deixar um pouco de mim á vocês. Se aqui fora, no mundo real, os vínculos são efêmeros, que dirá na internet, não é mesmo?
Assim, vale um último abraço, uma palavra carinhosa, e os famosos votos de Feliz Natal antes da data propriamente dita. E os votos, ainda mais importantes que, os que estão experimentando pela primeira vez, a aventura de estarem possuídos ( literalmente) pelo espírito natalino, o aprove e resolva mantê-lo por muito mais tempo.
Assim, eu e os comentaristas desse blog, quem sabe, teremos para os próximos anos a honra de ver nosso espaço aumentado por mais e mais pessoas capazes de vivenciar a alegria de estarmos juntos em detrimento da época ou de fatores motivadores.
Mais do que votos de um Natal feliz, desejo á todos que sejam felizes. Ou se deixem contaminar pela nossa alegria. Porque, possuídos ou não, nessa data todos queremos o mesmo: Esquecer que no dia 26 o tal espírito, para muitos, já terá sido exorcizado.
E muita gente voltará a possuir o espírito de sempre: o de porco!
- posted by Mara
Sábado, Dezembro 22
SE CHOREI OU SE SORRI...
O IMPORTANTE É QUE EMOÇÕES, EU VIVI !
Pois é. Dizem que “Da vida nada se leva!”. Mas, quem disse isso, com certeza, não deve ter tido um amigo ou mesmo um inimigo. Talvez até, tenha morrido infeliz, acreditando nada ter aprendido com todos que cruzou pela vida.
Acreditar que os amigos e os inimigos são sazonais ou circunstanciais é bastante típico de quem tem pouco de si, disponível aos outros. Esconde a incapacidade de perpetuar laços. E haja argumentos para justificar-se.
Do outro lado, estão os que atrelam o sentimento de amizade ao da reciprocidade. Entregam suas almas e esperam sim, serem correspondidos em igual proporção. Ao darem conta que não é bem assim, instala-se o fenômeno da desilusão. Desse equívoco, eu assumo, já padeci.
Isso nada tem a ver com carência, como se pode imaginar. Está ligado aos instintos herdados da necessidade de sobrevivência e da descoberta de que somos mais fortes e funcionais quando estamos em grupo.
Da descoberta do fogo, ou antes, até os dias de hoje, eu desconheço a existência de qualquer ser humano que tenha sobrevivido aos inimigos sem ajuda de um igual. O problema está na compreensão que fazemos do que podemos considerar como igual.
“Igual”, nas relações humanas, não necessariamente é a tradução literal da palavra. Encontrar alguém da mesma raça pra se relacionar não garante a harmonia desejada. Apenas nos vicia em, por identificação, achar que sabemos o que esperar do outro.
O que acontece é que só se atribui ao outro, aquilo que se reconhece em si mesmo. Seja positivo ou negativo. Quando desaprovamos alguma atitude ou comportamento, é porque de alguma maneira soubemos domá-lo em nós mesmos e rejeitamos o fato do outro ainda não ter tido o mesmo êxito.
Isso serve também para as virtudes, é claro. Pode parecer preconceituoso, mas isso é facilmente observado no fato de nos sentirmos normalmente atraídos por pessoas que possuem qualidades que admiramos.
O problema é quando não temos as características que nos qualificariam para estarmos lado a lado com quem as possui. Em outras palavras, podemos admirar a inteligência de alguém e procurarmos estar sempre rodeados de pessoas assim.
Mas, se esse adjetivo não nos couber, o máximo que conseguiremos é desenvolver um eterno sentimento de inferioridade. Podemos até seguir admirando-os, mas, se formos honestos, admitiremos que jamais nos sentiremos próximos o suficiente ou á ponto de chamá-los de amigos.
Um vacilo e num dado momento uma pequena crítica ou palavra, um pouco menos cuidadosa, será interpretada como rejeição e discriminação. E lá se vai uma “grande amizade”.
O fato é que os grupos se formam quase sempre de maneira bastante heterogenia, mas é no decorrer do tempo necessário á intimidade que se estabelecem os diferentes níveis de afinidade.
A similaridade de interesses e os recursos individuais podem unir para sempre pessoas que jamais iriam se relacionar se dependessem de fatores sociais, econômicos ou até de faixa etária, para se encontrar.
Mas, não são suficientes para mantê-los emocionalmente conjugados. A única maneira de isso tornar-se possível é através do acúmulo experiências que tivemos e o modo como lidamos com ela até aquele momento.
Se o que nos tornamos, por exemplo, nos levou a concluir que não podemos confiarnos outros, não importa quantas demonstrações de lealdade tenhamos, sempre esperaremos sermos traídos.
Do mesmo modo, se nunca fomos confiáveis, jamais acreditaremos que o outro possa ser. Se jamais fomos sinceros, sempre estaremos tentando ler as entrelinhas do que nos é dito, buscando algo que denuncie a falsidade a qual se está familiarizado.
E assim chegamos à razão desse texto e ao que motivou o primeiro parágrafo: Minhas sinceras desculpas aos recém chegados em minha vida por ter, por um período, quase sucumbido á tentação de contrariar em mim, minha sempre irrestrita confiança nos seres humanos.
Foi um período breve, é verdade, mas intenso e bastante visível em muitos de meus textos. Acometida por uma sucessão de profundas decepções, quase fui arrastada por uma inevitável sensação de insegurança que abalou minhas mais enraizadas convicções.
É claro que sempre haverá uma ou mais versões do mesmo fato, mas entendi que o que importa nem é descobrir a razão de tudo, e sim, tratar de aprender rapidinho em como converter o que já está consumado, em algum tipo de aprendizado.
Esse período, não tivesse sido tão sofrido, talvez me colocasse em dívida com seus protagonistas. Uma vez que me ensinaram mais sobre o pérfido lado humano do que qualquer livro ou conhecimento acadêmico, jamais pôde fazê-lo.
É que na ausência da luz, fica muito mais fácil perceber o próprio brilho. Na antítese da honestidade de intenções, aprende-se a ser mais criterioso nas avaliações que ainda faremos. Na ingratidão desvelamos nosso excesso de expectativa.
Assim, me foi possível aparar várias das imperfeições que possuía. Reavaliar e aceitar minha participação em tudo que julguei, por ter sido surpreendida, ter me sido imposto.
Ninguém jamais será adulto o suficiente. Sempre seremos forçados a conviver e reviver desse dolorido processo que envolve o crescimento. Estaremos fadados á ser obrigados a dividir nosso brinquedo preferido e ser subjugados pelos maiorais da escola primária.
Mas, graças á Deus, sempre teremos em meio á tudo, alguém disposto a nos ensinar sem dor ou punição.
Á esses, os chamaremos de amigos
Os outros? Bem, esses, serão aquelas velhas cartilhas ultrapassadas que guardamos no fundo do baú de nossas lembranças. Sem utilidade, sem valor atual, mas que um dia serviu para nos ensinar a dar os primeiros passos rumo ao conhecimento.
* texto sem correção
- posted by Mara
Sexta-feira, Dezembro 21
SOB O AZUL DE SEU OLHAR
Sinceramente não sei dizer com exatidão quando foi a primeira vez que ouvi falar dele ou de seus feitos. Certamente, a primeira vez, não deve mesmo ter sido a mesma da qual eu me recordaria.
Mas costuma ser assim. A menção á ele é sempre feita antes que possamos discernir sobre sua importância. E sei que não é mesmo relevante lembrar como tudo começou.
Aprendi que o mais importante é nunca esquecê-lo e pronto. Daí, que ele me é tão familiar quanto meus próprios olhos. Talvez, até um pouco mais. Acostumei-me até ao fato de vê-lo ser definido das mais diferentes maneiras.
Mas, algumas coisas são coincidentes em qualquer narrativa. Seu nascimento e sua morte, por exemplo, para mim é fato incontestável. Assim como as datas desses acontecimentos.
Quando criança, essas ocasiões eram eventos esperados com muito mais ansiedade do que meu próprio aniversário. Aprendi, num dia impreciso em minha memória, sobre o nascimento, vida e morte de um homem que nem sequer sei ao certo que aparência tem.
Gosto, entretanto, de imaginá-lo com as lembranças que ainda tenho do velho quadro de moldura ordinária, pendurado na sala da casa de minha mãe. Na parede do pequeno cômodo, ele ocupava o lugar de destaque.
De onde estava, podia ser visto assim que se entrasse na casa e, a pesada moldura camuflava o paspatur amarelado pelo tempo. No centro de tudo o rosto de um jovem de lindos olhos azuis.
Mesmo agora, enquanto escrevo, posso descrever cada centímetro daquele olhar azulado. Alguma coisa nele fazia com que eu pudesse vivenciar o nunca experimentado. Foi nele, por exemplo, que descobri que o mar é azul.
Via-se, logo abaixo das negras sobrancelhas, algo como um mar sereno e límpido, que eu reconhecia, ignorando o fato que, na simplicidade em que vivia, eu ainda não tivesse tido a oportunidade de conhecer o mar.
O Jesus da minha infância tinha longos cabelos louros, um rosto magro quase feminino e um par de olhos azuis que eu insistia em dizer que eram do mesmo azul dos olhos de meu avô Vicente.
Tinha dedos finos e compridos que cobriam parte de seu coração exposto e envolto por uma coroa de espinhos molhada de sangue. Sinceramente não me lembro se havia alguma coisa escrita. Mas, me lembro que em qualquer ponto em que eu estivesse o olhar azul parecia estar olhando diretamente pra mim.
Houve um Natal em que minha mãe montou em uma mesa, encostada á mesma parede do quadro, um enorme presépio composto com personagens de gesso. Eu e minhas irmãs fomos encarregadas de desembalar as delicadas peças.
Uma á uma, as alinhávamos á volta de uma casinha de telhado de capim. Dentro dela, um pequeno berço que, coube á mim escolher, o melhor lugar para colocá-lo. Tratava-se de uma grande honra, explicou minha mãe.
Quando terminamos, diante de meu olhar orgulhoso sobre minha tarefa tão bem realizada, notei o berço ainda vazio. Explicaram-me que na noite de Natal colocaríamos ali, o menino Jesus.
Imediatamente, com a dúvida evidenciada pelo franzir de minha testa, meu olhar subiu pela parede e encontrou o daquele jovem que, claro, me encarava. “Como podia ser?”, pensei.
Seria Jesus um bebê ou um homem crescido? Bom, havia finalmente chegado a hora de termos uma conversa de mãe pra filha. Uma dessas conversas que ouvimos sentadas na mesa da cozinha, com as mãos distraindo-se com as laranjas da fruteira.
Nesse dia, de uma só vez, aprendi que o pequeno bebê que nasceria de ali á alguns dias, havia sido um jovem valente líder de uma importante missão e que morrera por nós, humilhado e sofrendo lentamente, pregado á uma cruz.
Não preciso dizer que na noite de Natal daquele ano, declinei a honra de ser eu a me encarregar de colocar o Menino Jesus de gesso sobre a manjedoura. Fiquei impressionadíssima.
A única morte que eu presenciara até então, fora de um passarinho e de alguns insetos. A idéia de alguém como eu, ser torturado e pregado ainda vivo em uma cruz para que morresse, foi insuportavelmente vívida pra minha frágil compreensão infantil.
Dias depois, pedi á minha mãe que retirasse o quadro da sala. Ainda continuava fascinada pela bondade representada naquele olhar, mas não podia mais dissociá-lo da imagem de vê-los fechar-se para sempre.
Desde então, Jesus é a maior conquista já concebida por minha mente criativa. Vejo-o nas mais diferentes e, não necessariamente humanas, formas. Juro que o vi, no dia em que queimei seriamente meu braço e quando meu sobrinho mais velho e meu filho nasceram.
O vi também, no dia em que outros pares de olhos azuis (para mim, idênticos) se fecharam para sempre. Nesse dia, aliás, quase pude tocá-lo e em alguns momentos senti-me realmente tocada por ele.
Ás vezes está sorrindo. Em outras, apenas olhando. Ninando-me no marear daquele azul profundo de seus olhos. A cor de sua pele, o comprimento de seus cabelos e até os contornos de sua face, se alteram e são á cada vez, diferentes.
Mas, seus olhos ainda são imensamente azuis e continuam a me encarar da mesma maneira que na infância.
Meu filho, quando criança, o rebatizou e o chamava de “Inhésus Quisto”, hoje, seu nome oficial entre nós. Não por casualidade, em nossos Natais, nunca fizemos o ritual de compor o presépio e jamais executamos o apoteótico momento de colocá-lo, ainda menino, no berço de palha.
Não temos e não cremos em crucifixos que ostentam sua imagem em sofrimento, assim como não ostentamos nenhum quadro que o materialize em nossas mentes de forma definitiva.
Nosso Jesus, não tem procedência de cultura, nem de etnia. Floresce em nosso jardim, em meio á neve da Patagônia, ou onde estivermos. Nasce todos os dias e jamais morre, tornando desnecessária a sua ressurreição.
Meu Jesus, hoje, atende por muitos nomes. Ás vezes o chamo de mãe, em outras de filho. Muitas vezes de marido, outras tantas, de amigo. E, perdi as contas das vezes em que acariciei seus pêlos enquanto latia, fazendo festa pra mim. E sempre me emociono quando molho a terra á seus pés e suas pétalas multicoloridas, em meu jardim.
Meu Natal acontece todos os dias. E todos os dias meu sol nasce azul.
(O dia 25 de dezembro é reservado como o dia de comer rabanada, de ouvir o novo CD do Roberto e assistir á chegada do bom, velho e nada cansado, Papai Noel. Ah! E ao esperado futebol de confraternização anual entre os homens da família).
- posted by Mara
Quinta-feira, Dezembro 20
E NA CALADA DA NOITE...
- E aí?
- Tudo bem e você? Novidades?
- Nada. Tava passando e resolvi te deixar um beijo..Achei que você poderia estar pensando em mim.
- Olha só: Já que está aqui, não é mais fácil dar o beijo ao invés de deixa-lo?
- Pensei nisso. Mas aí, como os outros iriam saber que eu estive aqui?
- E isso é mais importante que me dar um beijo?
- Claro que não. Não seja sistemático. Mas, é importante pra mim que saibam que estive aqui.
- Ta. Já entendi. Agora que já deixou, eu posso pegar?
- Essa é a graça. Mesmo que você o pegue, ainda assim, ele ficará aqui. Sacou?
- Bom. Tem seu lado bom. Você poderia estar me deixando um murro.
- Ah! Isso não. Murro é coisa que se dá pessoalmente. Ninguém deixa murro.
- Mas não é a mesma coisa?
- Claro que não. Murro é o tipo de coisa que, quem leva, tem que sentir a sensação, entendeu?
- E o beijo não?
- ( suspiro) O beijo também. Mas beijo pode esperar até que o outro o encontre. Murro é mais imediatista.
- Caramba!
- Pois é. Além disso, deixar beijo é politicamente correto.
- Além do beijo, você ia me deixar mais alguma coisa?
- Ia. Mas no momento estava meio sem nada a acrescentar. Achei que o beijo resumia tudo.
- Bom, pra mim resume. Mas, é que já que veio até aqui...
- Ta querendo insinuar que meu beijo é pouco pra você?
- Claro que não. Larga de ser paranóico.
- Porque está dizendo isso? Nunca vai esquecer aquele dia que eu pensei que tinha sido clonado, não é? Vai sempre me jogar isso na cara?
- (risos) Nem lembrava mais. Mas que foi engraçado foi.
- Porque não era com você. Odeio quando ficam de marcação comigo.
- Mas não tinha ninguém te perseguindo, lembra? Você que estava encanado á toa.
- Ta vendo? Isso é que me magoa. Todo mundo acredita em mim, menos você.
- Mas eu acreditei. Fiquei até de tocaia, espionando, tentando surpreender o larápio. Mas, não tinha mesmo ninguém.
- Isso é o que você pensa. Isso é o que você pensa. Estavam todos lá esperando que eu saísse pra falar mal de mim.
- Todos? Agora são muitos? Não era só “aquela” pessoa?
- Cara. Essa gente se multiplica. Só eu sei do que são capazes.
- Que bom que isso tudo ficou no passado, não é? Ficou não ficou?
- Mais ou menos. Você acredita em vida após a morte?
- Sei lá. Não penso muito nisso.
- Mas deveria. Outro dia, eu recebi um e-mail. Muito estranho. Sem remetente.
- E o que isso tem a ver?
- Não tinha remetente, mas tinha um link que não abria.
- Você tentou abrir? Ta maluco? Podia ser vírus.
- Eu sei..eu sei. Mas quando vi que não tinha remetente, fiquei curioso. E foi quando conclui que, vírus ou não, aquilo era coisa do além.
- Do além?
- É. Do Além. Gente que já morreu e que me odiava tanto que nem mesmo lá do purgatório deixa de tentar me ferrar.
- E quem te disse que no purgatório tem computador?
- Ninguém. Mas eu li o livro do Mario Prata. Daí que fiquei pensando..
- Cara. Você precisa de ajuda. Ta pirando.
- Ta legal. Agora eu sou maluco? Esse monte de gente querendo me destruir e eu é que sou maluco? Bom. Eu não esperava mesmo nada melhor de você.
- De mim? O que eu fiz agora?
- Nada. Esse é o problema. Nada. Nem um beijo, uma menção, Nada. Se eu tivesse importância pra você, se lembraria de mim. Alem disso, está sempre discordando de mim.
- Pára com isso. Não é verdade. Te acho bacana, inteligente... Mas é que essa sua mania de aparecer aqui, de madrugada, falando um monte de coisa sem sentido..
- E você por acaso me convida? Não. Por isso venho quando não tem ninguém.
- Mas, não convido ninguém. Quem vem é porque gosta de vir. Entendeu?
- É. Mas você não fica questionando os beijos dos outros. O meu sim.
- Não estou questionando seu beijo. Só falei que..deixa pra lá. Como estão as coisas em casa?
- Xiiii. Não quero falar disso não. Nem posso falar disso com você. Daquela vez que você disse que eu estava com mania de perseguição eu contei lá em casa. Daí, que ninguém lá quer ouvir falar de você. Estão magoados. Você entende, não é?
- E vão gostar de saber que você está comigo aqui agora?
- Ah! Sem problemas. Disseram que se eu viesse sem você saber, não tinha problema. E se fosse pra dizer umas poucas e boas, também.
- Mas, você ia me deixar um beijo...
- Ia. “Ia”. Do verbo “ir” conjugado no passado, meu caro. Já mudei de idéia. Quando vi você nesse mela-cueca com a galera aqui, eu pensei: “Não merece. Vou deixar beijo porcaria nenhuma”.
- Ta legal. Mas pra quem tinha mudado de idéia sobre mim, você até que ficou bastante por aqui...
- Pois é. É que lá em casa não tinha ninguém pra conversar. Sabe como é, não é? Não estou acostumado...
- Ta bom. Faz assim: já que está aqui, ao invés de ficar brigando com todo mundo, cumprimenta ás pessoas...vai se enturmando. Pelo menos, justifica suas visitas diárias..
- Você ta louco? E eu lá quero me misturar com essa gente? Sou melhor, estou acima disso tudo. Vim mesmo porque me disseram que tinha gente aqui falando de mim...
- E tinha?
- Não. Mas vão falar. Tenho certeza que vão falar. Todo mundo fala..até lá em casa, vez ou outra, falamos dos outros... Daí que eu quero estar por perto...
- Bom, se você pensa assim...
- Tá achando que estou com mania de perseguição outra vez?
- Relaxa. Já ta aqui mesmo. Deixa as pessoas perceberem que você tem coisas boas pra dizer...vai! Fala aquelas coisas bonitas que eu sei que você é capaz.
- Nada disso. O povo lá em casa me tranca pra fora se eu fizer isso. Já to indo...
- Não vai não. Fica mais um pouco..
- Olha só: Se eu me arrepender, depois te mando um e-mail...Mas, não vai usar contra mim, ta bom?
- Ta legal. Faça como quiser. O importante é que conversamos dessa vez...
- Tchau...
- Tchau...
- Ei.... espera aí.... Ei...Espera! Você esqueceu de assinar outra vez...
- UAI ! Por causa de quê eu deveria assinar? Você sabe quem eu sou....
- Ta. Mas você não queria que soubessem que você esteve aqui?
- ....
- Assim não vale! Esse Nick, nunca ninguém viu. Fazer o que? Pensando bem, ser esquizofrênico tem suas vantagens!... E ser psicólogo, também!
- posted by Mara
Quarta-feira, Dezembro 19
FÁBULA DO NÁUFRAGO
E QUEM SOUBER, QUE CONTE OUTRA...
Ah! Essas coincidências da vida. E tem gente que ainda acha que elas existem! Fazer o que? O que não é explicado, explicado está. Ou como diria uma amiga querida: Se não és espectador, expectorado estás.
Mas nesses acasos, quase ocasos, dos casos que vivemos, eis que hoje pela manhã resolvi tirar a poeira de minha prancha de surf virtual e deixar-me levar pelas ondas desse mar revolto.
A verdade é que quem entre nessa, de prancha e tudo, não pode mesmo estar procurando águas mansas e navegáveis. Sentindo o vento sul soprando com cheiro de tormenta submarina refestelei-me do oceano de possibilidades disponíveis para tal prática.
Então, de repente, não mais que de repente, quando já desistia de assegurar minha privilegiada e passiva contemplação, o que vejo?
Presencio o exato momento em que o náufrago desesperado, com seu semblante arrependido, agarrado aos destroços daquilo que um dia foi uma pomposa embarcação, é resgatado de seu calvário.
Á julgar pelo aspecto e balbuciar desconexo do sobrevivente, é fácil supor as inúmeras elucubrações á que se submeteu tentando avaliar a distância do ponto onde estava até a praia. Via-se que já havia concluído o óbvio: á nado seria praticamente impossível.
Ainda boiando (literalmente) sobre os resquícios de sua soberba, recusava-se a morrer na praia caso ousasse tamanho esforço. Por isso, nem havia tentado. Ficou apenas nos cálculos, nos ensaios e inúmeras tentativas e recuos.
Houve momentos, é claro, que julgou poder contar com sua sempre boa sorte. Mas, mesmo essa, sacana, parecia tê-lo abandonado. Estava aí a prova que a velha boa sorte, era visita furtiva e nunca ficava tempo suficiente para livrá-lo das conseqüências de sua própria estupidez.
Nos incontáveis dias e noites de deriva, chegou a se desesperar. E usou esse sentimento como justificativa para muitas de suas atitudes que ao invés de mantê-lo á tona, o afundava ainda mais.
Ser naufrago não é mesmo uma experiência que se deseje repetir. Na solidão e escuridão é que se enxerga a importância da luz e das companhias – até as que tanto lhe aborreceram no passado.
Tentou fingir-se “Polyana”. Também não funcionou. Seus suspiros e lamentações o denunciavam. Testou sua agressividade e outra vez, falhou. De que vale rosnar se não há um só rosto numa distância suficiente pra se observar os efeitos?
Enfim, desanimado e cansado, apelou para o único recurso que lhe restou: as lembranças. Usou e abusou desse recurso na tentativa, sempre desesperada, de reaver as emoções um dia experimentadas. Quem sabe o vento levaria seus pensamentos nostálgicos até alguma alma benevolente e a comovesse?
Nada. Ou, muito pouco. Não bastava. Assim se passaram os dias, as semanas e os meses e eis que hoje, sob meu olhar, finalmente o resgate. Eu vi. Eu estava lá! E esse texto não é, senão o relato fiel do que presenciei.
Pouco restou do que antes foram vestes reais, debruadas em ouro e de brilho incontestável. Muito se percebe do esforço para esconder, até de si mesmo, o sofrimento ao se julgar vencido. Quantas barganhas e câmbios contrariados foram feitos para minimizar os danos causados.
Enfim, o resgate e a constatação de que não era uma ilha. Que seus lindos coqueiros não faziam sombras e sua abundante água, era salgada demais para matar a sede sem danos. E, principalmente, que o inflar de seu peito não lhe bastaria para manter seu pescoço acima da água e do perigo real do fim.
Mas, caros amigos, eu estava lá e vi. Ninguém me contou. Havia alguma coisa estranha no olhar condescendente dos seus salvadores.
Me ocorreu a suspeita de que poderia se tratar da face de quem saboreia uma doce vitória. Algo parecido com “enfim, terás de reconhecer que tenho meu valor” ou, pior, algo como: “agora me deves sua vida”. Seria engraçado, não fosse tão piegas.
Mas o que importa? Renascer não é apenas deixar-se quase morrer e surgir novamente. Renascer implica morrer. E, pela bíblia, morrer em sacrifício. Assim, até que seja posto em juízo as causas do naufrágio, que se vá a júri popular e que lhe seja estipulada uma pena, ainda que simbólica, pelos erros cometidos, não haverá resgate definitivo.
Eu? Eu espero apenas estar por perto, como eSpectadora ou até mesmo eXpectadora , do dia do juízo final. Porque visto daqui, da platéia, esse espetáculo cheio de empolgantes guinadas tem sido bastante interessante.
PS: Há indícios de que tal naufrágio foi criminoso. Mas, até esse momento, não há provas conclusivas e tudo que se diz é considerado mera especulação e argumento dos advogados de defesa
Texto inspirado em:
http://www.techs.com.br/meimei/historias/historia73.htm
- posted by Mara
Terça-feira, Dezembro 18
MUITO ALÉM DA EPIDERME
Tem coisa que é mesmo de difícil digestão. Coisas que deveriam ser mantidas na superficialidade e nunca, nunca mesmo, serem submetidas á qualquer tipo de assimilação além da marginalidade que se encontra.
O que pode ser mais terrível do que descobrir-se fazendo julgamentos que, no fim das contas, acabarão por nos submeter aos mesmos juízos? Pode parecer coisa de gente pouco reflexiva e impulsiva á ponto de não ver além de um breve passar de olhos.
Mas não é. Ao menos, foi o que conclui nesse final de semana.
Há tempos não via nenhuma programação nacional na TV. Antes mesmo de viajar, já havia abandonado o hábito de assistir qualquer coisa que tivesse mais propaganda do que conteúdo.
Sábado, sob o álibi de espairecer, quebrei minhas próprias regras e assisti ao programa do Luciano Huck no exato momento da estréia do quadro “Negócio Fechado”.
O programa, o apresentador e até mesmo a emissora que os transmite, nada teria a ver com os primeiros parágrafos desse post, não fosse pelo fato de ter sido durante minha passiva contribuição ao ibope dos três, que eu me flagrei na reflexão que pretendo compartilhar.
Resumidamente, a equipe do programa propôs sociedade por uma semana á um restaurante decadente de São Paulo com o objetivo de fazê-lo reerguer-se através das interferências de um especialista gastronômico renomado: No caso, Alex Atala.
Admito: sou a pessoa mais desinformada que existe quando o assunto é gastronomia. Como cozinheira, até meu copo d’água desanda. Como gourmet, fico mais que feliz com um bom prato de arroz com feijão. Daí, que fica fácil concluir que eu sequer sabia que o Chef Atala existia, até vê-lo ser aclamado pelo Luciano.
E aí é que tudo começou. Quem já o conhecia ou assistiu ao programa, sabe que é impossível deixar de reparar as inúmeras tatuagens que ele ostenta. As que podem ser vistas, mesmo com a paramentação profissional, cobrem praticamente todo o antebraço. Os dois!
Assim que me familiarizei com o rosto bonito do rapaz, o pensamento me ocorreu e não mais me abandonou: Como alguém com essa aparência pode ser reconhecido como referência de “Chef de Cuisine”?
Permitam-me um atenuante para tão vil pensamento: Junte ás tatuagens, uma barba por fazer e um corte de cabelo feito á máquina dois que deixava os pêlos da nuca juntar-se aos que escapavam da gola da camiseta.
Qualquer pessoa que me conheça bem acharia no mínimo esquisito, que eu tivesse, ainda que rapidamente, um pensamento dessa natureza. Na melhor das hipóteses eu estaria abrindo um espaço enorme para que pudessem me apontar como hipócrita.
Sou uma ferrenha defensora de tatuagens e quaisquer outras manifestações de liberdade no uso da única propriedade realmente legítima do ser humano: seu próprio corpo. Isso inclui: piercings, cabelos roxos, pulseiras alongadoras de pescoço e até o hábito de fumar.
Não faço apologias, é claro, mas tenho pouca tolerância com os combatentes dessas práticas. Já me questionei, em outras ocasiões, se minha defesa não seria uma espécie de mea-culpa, já que eu mesma me permito algumas dessas polêmicas atitudes. Jamais encontrei tal resposta e por fim abandonei a pergunta.
Não vejo mesmo nada de errado com as tatuagens. Mas, sei lá se isso não é mais uma das minhas distorções na adaptação necessária para quem habita esse planeta. Também gosto de Argentinos e de pessoas que tratam animais como se fossem seres humanos. Pega daí...
Eu poderia ficar dias discursando sobre o que acho pura picuinha de quem não tem coragem pra fazer e o que acho realmente nocivo á ponto de ser legítima a polêmica que provoca. Mas, tatuagem resume muito dos outros valores da nossa sociedade.
Assim, vamos lá: Sempre tive fascínio por essa arte feita na pele. Convenhamos, gostemos ou não, muitas delas são verdadeiras obras de arte. Mas, não serei hipócrita em afirmar que esse é o único aspecto que admiro.
Gosto, principalmente, da representação individual que recebem de quem as possui. Gosto do simbolismo que contraem e da expressão que invocam. As vejo como símbolo máximo da perpetuação de uma idéia ou comunicação.
A meu ver, não importa a motivação que as originou. Mesmo quando foram feitas num impulso ou com imaturidade, ainda assim, refletem personalidade e estilo. Aliás, o fundamental mesmo, é ter estilo. Tem gente que se não tem, deveria ter uma tatuagem.
Por outro lado, tem gente que deveria canonizar os médicos que inovam todos os dias ás técnica de remoção. O fato é que, uma vez que se tenha uma tatuagem, não há como escapar de se moldar ao que ela representa.
Já vi muita mãe de família negar aos filhos adolescentes o direito de fazê-las e na calada dos ateliês, no segredo entre amigas, fazer sua estrelinha logo acima do nome do pimpolho que gerou.
Da mesma maneira, já vi muito filho ajudar a escolher o desenho mais adequado para sua descolada mãezinha. Não importa como ocorra. Ambos, mãe e filho, serão julgados pela sociedade.
Meus amigos Consultores de Recursos Humanos são meus maiores opositores. Em seus discursos, são enfáticos ao afirmar que um tatuado terá poucas chances no mundo empresarial.
Tenho até a impressão que os ternos, por sua característica sufocante, foram inventados com o único propósito de esconder os tais sinais de “incompetência” dos candidatos.
Não cabe aqui apelar para o velho recurso da história da tatuagem para defendê-la. O cinema americano se incumbiu de destruir esse argumento quando compunha seus personagens transgressores com a famigerada tatuagem carcerária.
Além disso, todo mundo tem o direito de não gostar. Eu acho horrível, por exemplo, homens que usam anel no dedo mínimo. Aliás, no dedão também. Pra ser honesta, acho horrível anel em qualquer dedo de uma mão masculina.
Mas, e o Chef Atala hem? Caracas. Sinceramente ainda não sei o que me provocou tal pensamento.
Mas, de verdade, quando o vi criticando as condições de higiene do tal restaurante antes de suas aclamadas sugestões, pensei sem piedade, que quando atingissem o objetivo de melhorar o aspecto do local, quem ficaria deslocado e inadequado seria ele mesmo.
Será que nunca mais conseguirei olhar para minhas próprias tatuagens sem me sentir hipócrita? Talvez eu deva fazer mais uma. Só que dessa vez, na barriga.
Assim, quem sabe, antes de pensar tais absurdos eu afasto meu piercing e, encaro de perto a arte de olhar para o próprio umbigo. E, se tudo correr bem, ainda sirbo de exemplo pra outros.
* texto sem correções
- posted by Mara
Segunda-feira, Dezembro 17
A INTERNET E SEUS RECURSOS
(imagem colada com criatividade)
JÁ LEU ISSO ANTES?
Um bordão que se tornou usual nas manhãs de segunda – feira entre meus colegas de malhação e repetido como um mantra é: “Tem dia que não é dia, não é mesmo?”
A frase é uma clara referência a nossa dificuldade em iniciar a rotina semanal á partir de uma atividade literalmente pesada. Mas, o curioso da expressão é que ela sempre vem acompanhada de um sorriso resignado estampado num rosto já molhado de suor.
É uma espécie de auto - deboche. Como se nos divertíssemos com o fato de estarmos ali “sofrendo” por opção. Ou, do fato de nos divertirmos enquanto sofremos. Na real, ocorre que essas sessões matinais na segunda e, em todos os dias da semana, são mesmo prazerosas.
Todo hábito quando se torna uma obrigação tende a ganhar contornos pesadíssimos e brincarmos sobre nossa liberdade de estar ou não ali, talvez, seja a forma encontrada para aliviarmos literalmente o “peso” de começarmos a semana.
Assim, utilizando desse recurso descoberto casualmente, sentei-me em frente ao computador e a primeira frase que surgiu diante do meu Word desafiadoramente branco foi essa: Tem dia, que não é dia. Não é mesmo?
A presença de alguns novos amigos por aqui andou restaurando minha vontade de vez, ou outra, voltar a dar umas circuladas pelos blogs. Não que eu tivesse deixado de fazê-lo. O que eu havia abandonado completamente era o ímpeto de manifestar sobre o que lia.
Demorou pra que eu percebesse que não havia nada de errado ou potencialmente perigoso, em refletir sobre os textos alheios de maneira pública. Havia, na verdade, um critério errado em minhas escolhas ao fazê-lo. Há espaços que realmente não pedem para ser comentados.
Talvez até algumas pessoas sintam o mesmo sobre os textos que eu escrevo. Isso, ao menos, justificaria a presença anônima e muitas vezes indecifrável de um número maior de pessoas do que fica registrado no “halos” do blog. Mas, não explicaria, por exemplo, a fidelidade registrada em meu Google Analytics.
Eu raramente volto em espaços cujos textos são pobres ou nada me acrescentam. Outros, deixo de visitar, quando percebo a obviedade das intenções e o descaso do blogueiro com minha inteligência ou freqüência.
Isso nada tem a ver com capacidade ou habilidade em escrever. É claro que todos nós temos dias em que não há mesmo nada a ser dito. E, por motivos óbvios, penso que é isso mesmo que deveria ser feito: não dizer nada.
Mas o que se vê é muita gente com textos geralmente muito bacana, perdendo-se na reprodução de textos que não lhes pertence e devidamente creditados, como se ao revelar-se como cópia, pudesse redimir sua própria consciência.
Ok. Na vida e na Net nada se cria... tudo se copia. Concordo, e acho mesmo muito difícil, ser original num universo tão cheio de pessoas criativas e excepcionalmente mais preparadas na arte de comunicar-se verbalmente.
Entretanto, uma idéia não é necessariamente boa ou ruim apenas por sua originalidade. Aliás, a história comprova que uma grande descoberta sempre se dá a partir do óbvio ou de uma idéia originalmente medíocre.
Assim, nada de mais em discursar ou produzir reflexões sobre uma idéia alheia. O que alguns parecem não saber é diferenciar o “desenvolver” de um simples “colar”.
Esse “colar” exige tão pouco que duvido que iriam fazê-lo se tivessem que reescrever palavra por palavra ao invés de usar o “ctrl c” e o “ crtl v”, de alguns posts enormes que encontrei pela Net á fora.
Fazê-lo de forma freqüente a ponto de se tornar uma característica é, no mínimo, subestimar a capacidade de encontrarmos, sozinhos o tal texto em sua página original. (outra prática bastante simples).
Percebo que nesses momentos, o recurso do Ctrl Alt é muito útil, mas não deveríamos esquecer a igual facilidade que é para o leitor, acrescentar um “Del” e acabar com tal embuste.
Por princípio, os que se comportam assim jamais saberão dessas minhas críticas. Penso que a ausência de comentários no interior da sessão de comentários desses textos já é um bom sinalizador de que o conteúdo não é mesmo passível de nenhuma contribuição.
Então porque fazê-lo? Nesse ponto chegamos na razão desse meu post. As sessões de comentários dos blogs perderam sua essência natural e tornaram-se espaços de relacionamentos.
Caracterizam-se, hoje, como uma espécie de salas de bate-papos geograficamente demarcadas e privadas. Seus “donos” comportam-se como latifundiários e, alguns casos, até como verdadeiros coronéis que atribuem tarefas entre seus comentaristas, criando um sistema hierárquico invisível aos desavisados.
Até aí tudo bem. O problema começa quando esses “senhores de engenho” confundem seus “voluntários” colaboradores e a conseqüente força braçal que arregimentam, com seguidores fiéis e admiradores.
É preciso lembrar que nem sempre um número excessivo é resultado de igual reconhecimento. Quanto maior o número, maior a responsabilidade em contentá-los e mantê-los motivados.
Um latifúndio numeroso pode ser útil quando é frágil o suficiente e necessita de defesas capazes de construir barricadas, mas é igualmente eficaz e perigoso se acaso e, no caso, de se perceberem coletivamente negligenciados ou subestimados.
Não gosto de tudo que leio. Mas leio apenas aquilo que gosto. Parece contraditório, mas não é, já que existe uma grande distância entre ler ou apenas consumir algo escrito. Isso serve até para bulas de remédios. Até para rótulo de refrigerante.
Aliás, rótulo de refrigerante pode ser um bom exemplo. Quem se atreveria explicar a existência de tanta variedade de opções nesse mercado pela leitura (ou ausência dela) dos rótulos? Claro que não.
O que mantém algumas marcas firmes e fortes por anos á fio, é a liberdade de escolha adquirida á partir da degustação e do incomensurável investimento de seus fabricantes em inovar e criar constantemente maneiras de manter seu consumidor satisfeito.
Como diria meu avô: “Não há mal que não se acabe, nem bem que não tenha fim”. (Essa, meu avô deve ter copiado de alguém, mas seu marketing era tão bom e a aplicação que fazia da frase, tão pertinente, que cá estou eu usando-a quinze anos após sua morte!)
Então, Um brinde á criatividade!
Ps: Não necessariamente onde não nos manisfestamos é porque não gostamos. Mas o contrário, aqui, é muito bem vindo.
- posted by Mara
Domingo, Dezembro 16
PRESENTE VERSUS PASSADO...
O QUE SERÁ DO FUTURO?
A quem pertence o futuro? Dizem as boas línguas que á Deus. Há, também, quem estufe o peito e afirme com convicção que ele é, sem dúvida, dos jovens.
A Rede Globo até andou alardeando em versos que ele já havia começado, mas não atribuiu paternidade á ninguém especificamente. Fatos sem comprovação raramente viram notícias e tudo acabou em musica de final de ano.
De fato, pouco se sabe sobre esse fulano, o futuro. Tudo bem que ele é figurinha carimbada e arroz de festa. Basta ter uma reuniãozinha e lá estará ele, marcando presença entre os convidados.
Corre um boato que esse tal de futuro não passa de um astuto presente que possui uma apurada capacidade de metamorfose. Sei lá, mas tenho a sensação de já ter cruzado com esse sujeito em algum lugar e inadvertidamente o confundi com o passado.
O futuro já virou lenda. Pior. Uma lenda multifacetada. Se encaixa em qualquer situação, em qualquer conto ou prosa. O futuro, como toda lenda, ao ser mencionado e difundido espalha medo, incredulidade e sempre haverá quem acredite e quem duvide veementemente de sua existência.
O futuro é mesmo assustador. Ninguém sabe exatamente de onde veio, pra onde vai e nem mesmo se já chegou. A única certeza é a de que, astuto, não se deixa flagrar. Quando nos damos conta, zapt, ele já se transformou em passado. Daí ninguém mais o reconhece. Alguns até o esquece.
Esse sujeito (ou será substantivo?), o futuro, ao contrário de outras sombras de nosso imaginário, só não consegue produzir efeitos sobre as crianças. Nós adultos, somos tão afetados por ele que tratamos de prevenir os adolescentes dos perigos que ele representa.
Quem nunca usou o futuro como argumento? Eu já. Mas, confesso que foi inevitável e com boa intenção. Além disso, minha mãe e os adultos de minha meninice, já havia me dado detalhes aterrorizantes sobre ele. Assim, foi só repassar o alerta.
Penso, mas, não posso provar que o futuro é, na verdade, uma criação do nosso inconsciente. Uma espécie de bicho-papão nascido das entranhas do nosso superego predestinado a frear possíveis atitudes que possam depor contra nós mesmos.
De qualquer maneira, nem quero debater minha teoria. Sei que o futuro é polêmico. Sei de pessoas que acreditam até que ele não existe e outras que apesar de crê-lo, o ignoram. Mas, a maioria vive mesmo em função dele.
E as fofocas que fazem em nome desse coitado? Já falaram de tudo. Sempre o colocando em situações que comprovam que encontrá-lo um dia será inevitável. Tentaram até criar uma picuinha entre ele e o presente.
Insinuaram, vejam vocês, que com pequenas mudanças efetuadas no presente, poderíamos alterar e até mesmo anular o futuro. Isso, obviamente, causou certo desconforto entre eles. Pode ser daí, a razão deles nunca serem vistos juntos.
O passado, esquecido num canto qualquer, assisti a tudo de camarote, mas não sem participar um pouquinho. Consta que o passado é um notório delator. Que fica só esperando o conflito final entre o presente e o futuro pra depois sair contando as conseqüências.
Sei lá, eu na minha ignorância, acho que isso justifica o fato do passado ser tão explorado por muitos. Valem-se dele porque, como bom fofoqueiro, ele se expõe muito mais que o futuro, que se mantém como incógnita.
De tudo que vivenciei até hoje sobre isso, só me é possível concluir que, na batalha entre esses três, só há um contemporizador, que o próprio nome denuncia: O tempo. Esse sim, o senhor da verdade!
É o tempo que dita as regras desse embate. Ele é quem diz quem permanecerá na memória, quem será usado como exemplo e, quem vencerá.
Está entre seus poderes, por exemplo, determinar a posição de cada um no combate. Quem virará passado, se tornará presente ou ficará para futuro. Simples assim.
E a gente pensando que tinha algum poder de decisão, não é mesmo? Ledo engano.
O único livre arbítrio, no convívio com esses três, está em podermos decidir exterminar um deles. O que levaria, conseqüentemente, ao extermínio dos outros dois.
Assim, nesse presente momento, baseada em experiências vividas desse embate no passado, a única garantia que temos é que o futuro é o único para o qual supostamente nos preparamos e, ironicamente, o único para o qual jamais estaremos completamente prontos pra enfrentar.
Quer saber? No futuro, deixarei reflexões como essas, presente, no passado. Combinado?
- posted by Mara
Sábado, Dezembro 15
"FECHADO PRA BALANÇO"
EEEEEEEBBBBBAAAA!
Uma das expressões mais engraçadas que já ouvi é: “fechado para balanço”. Á parte todas as conotações que a frase permite, é impossível não se deixar remeter para o significado primário da palavra “balanço”.
“Balanço” me lembra os “playgrounds” das pracinhas do interior e, óbvio, criança. Daí que minha mente associativa, nem sempre lógica, me faz pensar na curiosidade dessa expressão ser usada nos finais de ano, e na mesma época em que as crianças e seus desejos são mais explorados pelo marketing do comércio em geral.
Parece bobagem e, no fundo é mesmo, mas esses meses finais do ano eu sempre associo ás crianças da minha vida. Incluindo, é claro, a criança que eu fui e ainda sou. Sinto como se o mês de dezembro fosse o mês mágico que nos dá a oportunidade de voltar a sonhar.
Essa oportunidade é tão ampla e, tão infantil em sua inspiração, que até nos reserva o direito de ser marrentos, de fazer birra e aspirar coisas além de nossa capacidade de realização.
Dezembro abre os portões da minha própria infância e me remete aos duros anos em que minha mãe se esforçava para manter á mim e minhas irmãs, o mais próximas possível do tal velhinho de roupas cor de coca-cola (plagiando a semio.timica), e a fantasia que ele representa.
Dezembro rompe as fronteiras geográficas e a distância e faz o Natal e a Navidad serem festas únicas e com as mesmas representações. E a noite do velhinho, só ganha outros tons depois que ouço meus “coraçõeszinhos argentinos” dizerem num português carregado: “Feliz Natal para vos, madrinha”.
Uma (como a Uma Thurman, diria ela apressada), minha afilhadinha argentina, de quatro anos, pensa que Papai Noel é brasileiro, desde que o conheceu aqui em casa há alguns anos. Isso me encarrega de ter que, todos os anos, entregar a cartinha que contém os sonhos dela e da irmã. É uma enorme e prazerosa responsabilidade.
Duda (a filhota da semio. timica), veio me visitar e fez uma daquelas observações constrangedora e carregada de reprovação: “Porque a tia Mara ainda não preparou a casa pro Papai Noel?”
Tive pouco tempo pra elaborar uma resposta satisfatória. Fato que passou despercebido, porque criança é assim mesmo. Nem todas as perguntas que fazem são passíveis ou exigem respostas. Perguntam apenas para que saibamos que estão ligadíssimas em nossos movimentos, sejam eles, adultos ou não.
Algum tempo depois e com a mente finalmente menos confusa com o câmbio de fuso (desculpem o trocadilho pobre, mas irresistível), eu já saberia responder á essa jovem tirana, criada á imagem e semelhança da inteligência e sagacidade da mãe.
O que eu deveria ter dito, se honesta pudesse ter sido, seria: Duda, não montei a árvore e nem liguei minha rena no jardim porque eu fui dar um passeio na Disney em busca da criança que andava se perdendo de mim.
E dividiria com ela, que certamente compreenderia melhor que ninguém, o resultado dessa viagem: Lá, encontrei você, minhas afilhadas, meu filho quando ainda pequeno, um fã pequenininho do Homem Aranha, que levei em meu coração em detrimento do que sinto por quem o gerou e, principalmente, encontrei a mim mesma, brincando de ciranda nas alamedas do complexo Disney.
Lá, estávamos todos felizes. As más lembranças e as preocupações, num show de laser e efeitos pirotécnico de um dos parques, o Mickey exterminou no simbolismo dos vilões e bruxas concebidos por Walt Disney. Lá, exorcizei meus “lobos-maus” e me tornei a Alice no país das maravilhas. Literalmente.
Ao partir, levei meu computador, meus celulares e meu Nextel. Todos, símbolos de uma maturidade que me mantinham presas no chão das minhas responsabilidades. Um rápido passeio pela NASA, entretanto, me fez perceber que poderia desafiar a força da gravidade e flutuar.
Deixei-os, então, na gaveta do criado-mudo (que era mudo lá também, Graças a Deus!).
Quando, lá, a programação e o pouco tempo começaram a atribuir regras de direcionamento, fizemos uma nova programação no GPS e fomos brincar no Orlando Magic (mágico não só no nome). Sacudi o restinho da poeira com os “pompons” azul-metálico das coreógrafas de torcida.
Além disso, viajei pelas estrelas, desbravei o parque dos dinossauros, fui a menina-prodígio do Capitão América, e desci os sinuosos e íngremes trilhos das montanhas- russa. Sobrevivi a todos esses “perigos” e ainda ganhei ares de Indiana Jones.
Não voltei á ser criança, porque como eu disse, nunca deixei de sê-lo. Mas, foi muito bom me pegar pela mão outra vez e me pagar um sorvete. Usar as orelhinhas da Minie e sorrir de puro contentamento só porque o E.T se despediu nominalmente de mim.
Toda essa experiência, esse “revival”, me permite hoje, ser tão impertinente quando a Duda (a tímica - Junior) e sem delongas, voltar e ir logo perguntando á você que está me lendo:
E você? Em que “balanço” irá se fechar nesse final de ano? Qual o sabor do sorvete que irá tomar? Em que chão irá colocar seus pés descalços e com qual esquilo irá travar conversas matinais?
Vai ficar aí, fazendo balanço do passado, enquanto a montanha russa da sua vida desce vertiginosamente e sem as garantias tecnológicas necessárias? Bom, se for esse o caso, trago um recado do Peter Pan pra você:
- "Cuidado! Porque é apenas na Terra do Nunca, que o tempo não passa!”
- posted by Mara
Sexta-feira, Dezembro 14
É TEMPO DE RECOMEÇAR...
MAS, ANTES....
Toda idéia grandiosa assume proporção igualmente inútil se não for utilizada de maneira prática e á tempo de socorrê-la da banalidade.
O corpo humano foi definitivamente uma boa idéia, mas temos que fazê-lo pausar, vez ou outra. Carcaça, matéria, máquina ou invólucro, seja qual for o nome que se dê, a única certeza é que, ao menos nesse aspecto, somos falíveis.
Estamos morrendo e isso é um fato. Iniciamos esse processo no momento em que nossas engrenagens físicas começam a trabalhar freneticamente para nos manter vivos.
Longe do aconchego do útero materno, a degeneração que erroneamente chamamos de vida, é na verdade, o começo do fim.
Descrita assim, a vida mais parece uma sentença de morte e, se distancia daquela perspectiva de energia reluzente que nos acostumamos a ler em mensagens de otimismo e folhetos de academia de ginástica.
Mas, o fato é que pra morrer, basta estar vivo. Sei lá quem foi que disse isso pela primeira vez, mas, minha mãe já dizia, e mãe dela também. Escuto essa frase há tanto tempo, que certamente quem a inventou já deve estar morto (olha a morte aí de novo).
Essa época do ano é uma “faca de dois gumes” (essa expressão também deve estar à beira da morte). Torna inevitável que pensemos no fim e no começo de todas as coisas. Culturalmente é isso mesmo que se pretende.
Depois que crescemos o natal deixa de ser o dia do “se vira nos trinta” do Papai Noel e, a passagem do ano também deixa de ser sinônimo de explosões de fogos em Copacabana.
Há certa digressão na representação do Natal. Tudo nessa data parece ser inevitavelmente artificial. As luzes coloridas, a neve, a árvore, o próprio Noel (artificial até o último fio de sua barba), tão artificiais e automáticos quando o desejo de "Boas Festas" fixado na parede da sala do seu chefe. (logo abaixo da escala de trabalho de dezembro).
De verdade mesmo, só a necessidade de que o famoso aniversariante desse dia voltasse logo pra acabar de vez com os desmandos e a bandalheira que ocorrem antes, durante e depois da comemoração de seu aniversário.
É muita informação junta para, nós, pobre mortais. Então, para acompanhar minimamente essa avalancha de acontecimentos, esgotamos todas as reservas que possuímos. Das reservas financeiras, passando pela física e indo até as emocionais, esses dois últimos meses do ano, não deixam pedra sobre pedra.
Pra piorar, tem gente que se organiza em técnicas de tortura. É época de receber mensagens açucaradas com os seguintes dizeres: “É tempo de união, de renovação, de recomeçar”? Nada de errado com as mensagens, se elas não chegassem cada ano mais cedo.
Antes, ao menos, justificavam o emprego dos carteiros, mas agora, chegam num simples toque no teclado e, aos montes. Bom, barato e limpa a consciência de quem nem pretende te ver pela frente, até no ano seguinte.
As primeiras começaram a chegar ao início de dezembro. Quando chegam, já nos encontram em incontestável esgotamento e, mascaradas naqueles flashs animados, estão as intenções de alguém em nos fazer pensar no ano inteirinho que teremos pela frente. Ninguém merece!
Bom, sempre se pode pensar que pior do que está não há como ficar. Mas, o cerco vem se fechando ostensivamente á nossa volta. No comércio, por exemplo, o calendário natalino inicia no primeiro dia de novembro.
Não demora muito e eu, que faço aniversário em fevereiro, vou acabar comemorando na ceia de natal juntinho com Jesus. Teremos um ano de apenas um mês e ninguém vai precisar desmontar a árvore que levou horas pra ser decorada. Isso, até que ia ser bom, né?
O fato é que ninguém resiste ao espírito de natal. Em alguns casos, verdadeiro “espírito de porco”. Por exemplo: quem será que inventou essa história de “décimo - terceiro” que é entregue no “décimo - segundo” mês do ano? Ás favas com a lógica matemática, juntinho com seu dinheirinho.
Mas, é claro, que não podemos ser pessimistas. Ainda pode ser que surjam umas musiquinhas inéditas e menos “deprê” das músicas de natal. Daí você vai poder parar de fingir que gosta e mudar seu humor.
Ninguém tolera quem se torna mal humorado JUSTAMENTE nessa época do ano. Aliás, não se atreva. Uma mínima mudança de expressão e logo alguém irá se voluntariar á discursar sobre o valor da confraternização natalina. Daí você vai acabar tendo que assistir o coral de natal da Associação de Amigos do Bairro.
Isso tudo, sem contar os eternos dilemas familiares natalinos. Existe um acordo que deveria ter sido estabelecido desde o namoro, e se não foi, certamente você irá enfrentar por anos á fio o seguinte dilema: Natal na casa da sogra, ou na casa da mãe?
É uma questão insolúvel, sob o ponto de vista dos deveres familiares, já que toda sogra é mãe e, toda mãe é uma sogra em potencial.
Falando em mãe, se você é uma, e data escolhida por seus filhos para estar com você for o natal, é melhor ir pensando rápido no que irá fazer na virada do ano. Ficar na companhia do Faustão é muito pior do que ter que comer os restos da ceia do dia anterior. Seja rápida!
Mas, tudo na vida tem um lado bom. Natal só acontece uma vez ao ano e é uma das poucas comemorações que você pode evitar estar com amigos indesejáveis. Ou, em nome do “espírito natalino” esquecer o que eles foram até aquela data e até deixar rolar um “amigo secreto”.
Confesso que nem sempre tive uma visão tão amarga dessa época do ano. Acho que perdi a inocência no dia em que vi o papai-noel do shopping tomando uma cervejinha minutos depois de ter dado balinhas para meu filho.
Ou terá sido bem antes, quando ainda criança, descobri que aquele velhinho barbudo era um tio que passava 365 dias do ano me enchendo a paciência? Não importa.
De concreto, é fato que ele nunca me trouxe a BMW que pedi faz um tempão. Acho que nunca superei o trauma de vê-lo sair com a dele do estacionamento do Shopping.
Tentei incutir na cabeça do meu filho quando pequeno que se tornasse Papai Noel no futuro. Pensei: “Quem sabe se eu criar desde pequeno...” Não deu certo e acho que nunca terei mesmo uma BM.
Aliás, por via das dúvidas, queria aproveitar o texto e pra não ser acusada de não acreditar mais na magia do Natal, e deixar um pedido ao Papai Noel:
"Bom Velhinho,
Se lhe for concedido algum poder, (além de me fazer gastar os tubos com meu filho adolescente), seria pedir demais que o senhor intercedesse para que os ladrões não se aproveitassem da ausência dos moradores, que foram confraternizar na noite de natal, e roubassem suas casas.
Dê um jeitinho também, para que as pessoas que levam suas máquinas fotográficas para registrar a queima de fogos, pudessem voltar com elas?
Ah! Se der, me traga aquela BMW,(não importa a cor e pode ser usada!), tá?
O restante dos meus desejos, Noel, eu peço a Jesus. Porque, não sei se te avisaram, mas nessa noite, o aniversariante é ele! E, á exemplo dos outros anos, para presenteá-lo e só por isso, tentarei acreditar que o ano que vai nascer será muito melhor do que o atual.
E, Noel, traga pra essa galera que me lê aqui no blog, um Natal cheio de paz e um Ano Novo cheio de novos e felizes empreendimentos, ok?
Obrigado. (Tá bom! Pode esquecer a BM...serve um Rolex)
- posted by Mara
Quinta-feira, Dezembro 13
VOCÊ É UM AMIGO OU UM RATO?
Taí. Arrumando as malas, dentro e fora de mim. É bem verdade que tive que comprar uns invólucros adicionais para retornar. Minha bagagem aumentou significativamente. Mas, como sempre, podemos ver as coisas por dois ângulos:
Se por um lado, isso possa a vir me custar um preço qualquer por excesso de peso, por ter que me desfazer de alguns velhos cacarecos para dar lugar ao novo, quando chegar. Por outro, volto renovada e cheia de novos valores que balança nenhuma poderia valorar com precisão.
Ontem foi uma experiência inenarrável. Coisa horrível de dizer pra quem escreve num blog, mas de fácil compreensão. O que alguém, que nasceu e vive num país onde a expressão “pão e circo” é usada com desdém, poderia dizer?
Pensei muito nisso antes de começar a escrever esse texto. E a resposta que insistia em mim era: todos deveriam viver apenas disso: pão e circo. Imaginem quanta bobagem e mesquinharia seria inutilizada se nos resumíssemos a apenas viver e sorrir?
Iluminada por um minucioso espetáculo de luz, cor e domínio do próprio corpo como se eu mesma fizesse parte daquilo, é que pude perceber o quanto de mim, de nós (na verdade) é inexplorado. O quanto ainda nos falta para dizermos: “eu sei quem sou”.
Dobrando uma roupa aqui, amassando um Mickey numa mala ali, e ouvindo os risos dos meus homens na saleta aqui do quarto do hotel, me sobrou pouco tempo pra divagar mais sobre como vou sentir falta disso tudo.
Não das férias propriamente dita, já que estou muito cansada e graças á Deus, elas ainda não terminaram. Mas, de coisas outras. Como meu amigo esquilinho me visitando todas as manhãs, cujo único compromisso de vida era sair todas as manhãs buscando alimento e ser safo o suficiente para desviar dos humanos que poderiam feri-lo.
Meu amigo esquilo, carinhosamente apelidado de “Quilinho” será para sempre o representante das descobertas que fiz nesses meus poucos dias de paraíso. Entre outras coisas ele me ensinou que ainda que, para alguns, você seja apenas um “rato”, no fim das contas, o que vale é o que você realmente é e que outros tantos te admirarão justamente por isso.
Quando cheguei, trouxe comigo muitas interrogações. Volto com centenas de outras. Mas, as certezas colhidas entre um processo e outro, são infinitamente mais importantes.
Virtualmente há os que vieram comigo e, embora eu ainda tenha muito á relatar das anotações que fiz durante esse tempo todo passado aqui, percorreram cada palmo desse solo pantanoso da Flórida de mãos dadas e coração sorridentes atrelados ao meu.
Hoje, li a Mineira fazendo referência á meu blog e dizendo que ao lê-lo sentiu saudade dos circos de sua infância. Li o Zaki nos revelando seu passado desportista, com aquele tom nostálgico e saudoso que só quem tem boas lembranças usa.
Acompanhei os relatos da Blue e sua “paixonite” por aquele sujeito esquisito de macacão amarelo, costeletas e unhas enormes – o Wolverine (dêem um desconto á ela, o cara é mesmo gostoso, apesar de esquisito).
Tenho acompanhado os altos e baixos da BeBé, que como eu, se deixa afetar por essa época do ano e alterna momentos de puro deleite com outros, mais reflexivos. E a Janaina? Essa nossa querida amiga parece trazer um saco de presentes á La Papai Noel, por onde passa. Chega e esparrama tudo e ficamos loucos para ficar com um pedacinho do que ela nos traz.
O Eduardo Martins que nunca veio sem uma palavra amiga, típica de quem já esbarrou conosco em outras praias e se reconhece pelo carinho um dia já vivido. A Sil, minha pra sempre doce menininha, meio dodói, mas uma das poucas que conheço que só nos conta “os pileques” que tomou e nunca os tombos, e ainda ri de tudo.
Claudinha Damm que apesar de ocupada, deixou seu perfume impregnado e o sentimos mesmo á distância. (Espero que retorne logo). Dani_bel, afilhadinha de outros tempos, e pra todo o sempre. A Marriet que com suas reflexões trouxe vida e debates ao blog e reforçou o princípio que sempre tive de que aqui somos livres.
E, no último halos, a presença da Madame X, cujo contorno pareço reconhecer e meus instintos me mostram que é um reencontro bom e bem-vindo. Isso tudo, sem falar dos inúmeros acessos anônimos e diários, tão importantes em seu silêncio quanto na manifestação por e-mail.
São muitas nuances á serem explicitadas e não caberiam num só post. Mas, como não falar da minha amiga, nada virtual e muitas vezes confundida comigo mesma, a Semio.timica (e outras variações). Rimos muito da insinuação maldosa de que seríamos a mesma pessoa. Da minha parte, seria de fato uma honra ser 1/3 da Semio. Viu mestre?
Agora, me desculpem o tom de propriedade, mas vi gente minha tornar-se gente “nossa”. Vi gente “nossa” tornar-se mais “nossa” ainda. Ah, e vi gente deles estarem ocasionalmente sendo nossa também. Mas, o mais importante, é que vi apenas GENTE passando por aqui.
Meus links demonstram minhas preferências de leitura, mas meu coração é que geralmente me guia. E, graças á Deus, tem me guiado ao que há de melhor e, que por sua vez, tem me enviado também o que possuem de melhor.
Walt Disney, as produções da MGM, da Universal Studios, da NBA, da NASA e até mesmo do Circo de Soleil, que me desculpem. Mas, alegria e magia, aqui, dispensam á criação de personagens com super poderes, da realeza ou inspirados em animaizinhos.
Magia é estar tão longe e tão perto ao mesmo tempo. Magia é estar no maior símbolo de diversão e entretenimento do mundo e, desprezando a diferença de fuso, sorrir e chorar de emoção três horas antes.
Emoção é viajar e poder levar os amigos. A todos vocês, muito obrigada pela companhia.
*texto sem correção
- posted by Mara
Terça-feira, Dezembro 11
Acho prudente começar falando que não entendo lhufas de basquete. Minha experiência como torcedora fora do meu país, resume-se a minha humilde reverência ao Boca Juniors. Mas, isso de nada me vale, já que a futebol argentino só é diferente do Brasil, porque lá se xinga a mãe do árbitro em espanhol.
Do basquete, o que me recordo sem esforço, eu poderia enumerar utilizando os dedos de uma só mão: 1) Sei que os jogadores são altos; 2) que o ponto é marcado quando se coloca a bola na cesta; 3) que cesta feita de longe e direta, vale três pontos; 4) que os caras usam calções enormes e ridículos e, 5) que nos intervalos há sempre algum tipo de atração pra distrair a torcida.
Todo esse conhecimento, entretanto, não contribui em nada para diminuir a sensação de “eu não sou daqui” quando se está dentro de um estádio lotado para assistir um jogo da NBA.
Daí que resolvi logo perguntar: “Nosso time é o de branco, né?”. Foi uma precaução bastante útil, uma vez que, em 99,9% do ginásio, reluzia o azul e branco estampado na unanimidade da torcida pelo time da casa - Orlando Magic.
Como não costumo arriscar palpitar sobre assuntos que não domino, fixei minha atenção para aquele segmento que de repente me vi enquadrada: a torcida. Tenho a impressão que, eu e minha família, éramos os únicos a não ostentar nenhum aparato na cor mencionada.
Mesmo assim e apesar da nossa aparência latina, passamos incólumes pela multidão e nos acomodamos nas numeradas e confortáveis arquibancadas que rodeiam o estádio. E, aqui já se nota algumas coisas interessantes.
Chegamos atrasados porque tivemos problemas pra estacionar e todos os assentos exceto os nossos e os dois ao lado, permaneciam á nossa espera, intactos. Os dois lugares vagos ao nosso lado, assim permaneceram até o final do jogo.
Nem mesmo a senhora atrás de mim, que trazia de maneira incomoda uma criança bem crescida em seu colo, sequer pensou em ocupar o lugar que não lhe pertencia.
O jogo pulsava na quadra e na arquibancada. E o time adversário, apesar de sem nenhuma torcida, seguia sem ser molestado por nenhuma manifestação negativa. Nem mesmo quando começou a demonstrar um basquete visivelmente melhor do que os donos da casa.
Á essa altura, como podem perceber, já começava a me familiarizar com algumas regras e me simpatizar com alguns jogadores. ( Mas os calções, eu continuo achando ridículo)
Aliás, foi mais ou menos aí que comecei a perceber que eu já começava a inclinar meu corpo pra frente e fazer pequenos gestos comemorativos quando o Orlando fazia cesta.
Olhei o cronômetro. O jogo havia começado há exatos dez minutos e eu já estava me sentindo parte da torcida organizada. O sujeito da fileira á minha frente me olhava desconfiado, meio sem entender se o que eu estava dizendo era bom ou ruim pro time dele.
Eu estava me divertindo horrores. Só fiquei realmente aborrecida quando uma mulher resolveu levantar-se e passou por mim, exatamente quando o baixinho e careca com a camiseta número 30 do Orlando Magic, fazia uma cesta de três pontos.
Perdi a cesta, mas não perdi a oportunidade de observar meio admirada que a mulher calçava uma maravilhosa sandália de salto altíssimo e que combinava perfeitamente com a bolsa e a maquiagem discreta que usava.
É. Incrível, mas a maioria das mulheres estava vestida dessa maneira. Como se estivessem no balcão de um teatro assistindo uma ópera. Lamentei meu jeans rasgados e o velho e confortável tênis que compunham minha indumentária “para ir assistir um jogo de basquete”.
Mas, da mesma maneira que ninguém parecia achar estranho que o acompanhante da tal moça, estivesse vestindo praticamente uma fantasia de jogador de basquete, com direito á tênis gigante e extravagante, ninguém pareceu notar meu traje inapropriado.
Aliás, ninguém notava absolutamente nada. Tinham os olhos fixos na quadra e só desviavam vez ou outra pra saborear o hambúrguer que dez entre dez deles havia comprado antes do jogo.
Cada ponto, uma exclamação eufórica que durava menos que o tempo que o Galvão Bueno leva anunciando o gol da seleção Argentina contra o Brasil. Cada ponto contra, um bufar coletivo e uma mordida na batata frita (claro que havia uma pra acompanhar).
O Orlando Magic perdia. E, antecipando o final, vou logo avisando que perdeu mesmo. Até o final. Não era pra menos, já que o time adversário era bem mais rápido e ágil. Além disso, armavam com muito mais técnica e estratégia.
Deu pra sacar que basta alguns minutos entre eles e o basquete vira seu esporte preferido desde criancinha?
Tudo estava transcorrendo bem e eu seguia tentando ignorar a tentação de devorar um “sanduba” até que o inimaginável aconteceu: O Juiz (sempre ele!) cometeu um erro e, pra piorar, que desfavorecia o time da casa.
O público levantou e eu já corri os olhos buscando as saídas de emergência. Já me via sendo notícia no Jornal Nacional. O Willian Bonner dizendo: “Brasileiros pisoteados em estádio de basquete na Flórida”. E, a Fátima completando: “Até agora não se sabe os motivos que teriam levado essa família á estar entre a multidão”.
Mas, nada disso aconteceu e perdi a oportunidade de meus quinze minutos de fama internacional. Depois de uma breve vaia, quase bobinha, todos se sentaram outra vez. Mas, acreditem, de onde eu estava se podia ver a cara de mea-culpa do tal árbitro.
O fato é que o jogo passou voando. O que achei que seria uma tortura transformou-se na mais pura diversão. Vou levar comigo cada segundo desse emocionante jogo. Ok. O jogo não foi tão emocionante assim. E o “meu” time perdeu.
Mas quem liga pra isso? A mascote do time - um dragão (?) ou jacaré (?) colorido fazendo estripulias nos intervalos. As loirinhas de saias curtas e seios enormes coreografando a torcida e o placar eletrônico que nos focalizou duas vezes... Isso tudo valeu muito mais do que o que cobram na portaria.
E o Juiz? Bom, já que ninguém mais fez, eu e minha família, tratamos de fazer referências uma ou duas vezes à santa mãezinha dele.
Mas, apesar de não poder nos ouvir pela distância em que estávamos e, talvez, não nos compreender, já que nos expressávamos no bom e velho português, ele certamente não se sentiria ofendido. Afinal, somos brasileiros e assistir á um jogo sem mencionar a mãe do cara... Só americano mesmo! That’s Ok?
- posted by Mara
Segunda-feira, Dezembro 10
MÃE, EM QUE PLANETA VOCÊ VIVE?
(Na foto: Barbara Anderson, mãe do astronauta Michael Anderson, morto a bordo da Nave Columbia, em 2003)
Hoje, de uma maneira inequívoca, foi o dia da minha mãe. Lembrei-me dela á cada dez segundos. Um passo e, lá estava ela em minha mente. Uma criança ali, um beijo amoroso acolá, e minha mãe não saia de dentro de mim.
Sempre fui muito independente. Deixei a casa de minha mãe muito jovem pra estudar. Morei em repúblicas, casas de amigos e casei muito cedo. Penso que somando, passei mais tempo com alguns de meus amigos do que com minha mãezinha.
Costumo dizer que minha mãe foi uma espécie de “test drive” da vida pra mim e pra minhas irmãs. É como se ela tivesse vindo, experimentado tudo, melhorado o que precisava ser melhorado e só depois nos trouxe ao mundo.
Por não ter convivido com meu pai, falecido poucos meses depois que nasci, aprendi com ela que não existe dificuldade que não possa ser vencida. Que onde come um, comem dez ou mais. Que da vida nada levamos, mas é muito bom podermos deixar algo pra quem amamos.
Essa pequena listinha é apenas um minúsculo exemplo de tudo que aprendi com essa mulher valente, hoje, com oitenta e dois anos. Mas poderia, se quisesse, começar a computar esses ensinamentos a partir do momento em que ela me ensinou a segurar a mamadeira sozinha.
Mas, eu falava que me lembrei muito dela. Ontem ao falar com ela ao telefone ela me disse: “Você vai mesmo ver o lançamento daquela espaçonave, filha?”. Ao que eu, toda entusiasmada respondi que sim, ela completou: “Espero que seja adiado outra vez”.
Caracas. Tanto tempo planejando a viagem, articulando detalhes para ver tal evento e minha querida mãe me solta uma dessa? Dizem que aviso de mãe, quando não é um presságio, é uma praga. No meu caso, pareceu ser as duas coisas.
Lembro-me quando estava no cursinho. Saía muito cedo de casa, quando ainda estava escuro e ela dizia: “Leva o guarda-chuva, menina!” Eu dava aquele sorriso intolerante típico da idade e, claro, não levava. Adivinha? Caía o maior toró.
Mas não só essas pequenas previsões meteorológicas reforçavam o caráter premonitório da minha mãe (acho que de todas as mães). Ela era capaz de intuir coisas mais graves também. Mas, contá-las aqui mereceria outro post.
Com o tempo e a maturidade, aprendi a respeitar os presságios esse oráculo ambulante. E sempre a consultava antes de dar um passo importante, fazer alguma viagem ou até mesmo quando recebia um diagnóstico médico.
Na conversa ao telefone de ontem, perguntei: “Nossa, porque está torcendo pra não ter lançamento?”. Ela, com aquele ar solene - que se podia sentir até pelo telefone - respondeu sem titubear: “Porque assim as mães desses “meninos” poderão ficar mais tempo com eles e vocês voltam logo pra casa”.
Lembram do meu texto de dois dias atrás em que eu falava justamente disso? Pois é, mais uma prova de que ao envelhecermos vamos ficando muito parecidos com nossas mães. No meu caso, graças a Deus!
Sei não... Fiquei preocupada. Não por mim, mas pelos astronautas. Nem quis esticar muito o assunto com a D. Tereza. Vai que ela me fala que teve um mau presságio com os “meninos”. E eu aqui pertinho, sem poder avisá-los. Eu, hem!
Diz o ditado: mãe é tudo igual só muda o endereço. Mas, no fundo, todos nós achamos que nossas mães são únicas. Nos defeitos e nas qualidades. Minha mãe é muito diferente de tudo que vi e li a respeito de mães em geral.
Mas o tempo passou depressa demais pra nós. Apesar de na adolescência eu pensar ao contrário, o tempo de aprendizagem foi muito curto. Hoje, por vezes, invertemos os papéis e sou eu que a obrigo a levar o guarda-chuva.
Mesmo assim, a história dos astronautas não saiu da minha cabeça por todo o dia. Já começava a sentir certo incômodo. Sabe aquele friozinho na barriga que anuncia que alguma coisa vai sair errada, mas não sabemos bem o quê?
Pois bem. Quando pensava em alguma maneira de tirar isso da cabeça, fomos informados que a Nave Atlantis teve novamente seu lançamento adiado. Dessa vez, para uma “provável” data de fevereiro.
Fiquei meio sem fala. Mas investigando, descobrimos que a nave apontou um pequeno defeito em um de seus módulos. “Pequeno defeito” que, se não detectado, poderia ter custado a vida de todos eles.
Olhei em volta e vi a decepção no rosto de todos que estavam ao redor. Mas, refletido no vidro da vitrine da loja de souvenir, um único rosto mostrava um alívio enorme. Era o meu!
Pode parecer ridículo, mas fiquei aliviadíssima e imediatamente a sensação de desconforto que me perseguiu o dia todo, desapareceu. Fiquei imaginando a cara da minha mãe quando eu contasse á ela.
Eu vou ter que suportar, certamente, aquele velho conhecido “eu não disse” todas as vezes que esse assunto vier á tona. E se não vier, ela dá um jeito de falar assim mesmo. Mãe, afinal, é mesmo tudo igual. E é muito fácil nos fazer felizes:
Deixe-nos sempre perto de nossos filhos, mantenha-os felizes e com saúde e, o principal: adie muitas vezes suas viagens interplanetárias. E quando perguntarem “por quê?”, responda com um lacônico: Porque mãe nunca erra, no máximo resvala. Mas, sempre com muito amor.
- posted by Mara
Domingo, Dezembro 9
DA FLÓRIDA À ESTOCOLMO...
NUM PASSE DE MÁGICA
Poucas coisas são tão mágicas quanto cruzar os majestosos portões dos parques de Orlando. Hoje, ao passar por eles, me dei conta de que ainda prendo a respiração e sinto meu coração disparar de pura emoção.
Diante do adiamento e transferência do lançamento da Atlantis para domingo, resolvemos reavaliar nosso roteiro inicial. Fizemos uma votação e fui voto vencido. Daí que adiantamos nossa programação e saímos numa aventura rumo ao parque da Universal Studios. Eu queria ter ido á MGM.
Mal chegamos e logo constatamos como é bom estar em lugares feito para crianças, sem crianças. Nunca antes conseguimos percorrê-lo com tanta tranqüilidade e sem paradas inúteis.
Em compensação, perdi o álibi que justificava meu desejo de tirar fotos ao lado de meus super-heróis preferidos. Apoiei-me no fato de que ninguém me conhecia e enfrentei longas filas para estar pela duração de um “click” com o Homem Aranha, Capitão América, Wolverine e a Tempestade (linda de viver). O Popeye também, mas só porque peguei a fila errada.
No final do dia, enquanto procurava o carro que não me lembrava onde havia estacionado, ao ver aquela diversidade de idiomas caminhando lado a lado, com sorriso uníssono, cheguei a pensar que o mundo, talvez, não estivesse tão fatalmente condenado pela espécie humana.
Fui acometida por uma emoção singular ao me despedir dos novos amigos que fizemos ao longo do dia e percebi que tenho perdido muito tempo com situações medíocres e pessoas de índole má.
Gente que nada mais tem a fazer na vida senão justificar as mazelas que as acomete através dos desafetos que acumulam em suas vidas insignificantes. Hoje me deslumbrei redescobrindo como o mundo é grande e cheio de possibilidades.
De como as pessoas tendem a se juntar aos semelhantes, seja para o bem ou para o mal. E de como é tênue a linha que separa esses dois conceitos. Durante o dia, cruzei com japoneses, libaneses, árabes, africanos, húngaros, brasileiros e muitos outros. Todos convivendo pacificamente em solo americano.
Ninguém se entendia e todos se comunicavam. Claro que muitos podem pensar que o que possibilita coisas assim é o poder aquisitivo de quem pode estar num ambiente como esse. Isso é um fato. Mas, não é preciso ser muito cristão pra admitir que pra que seja possível uma boa convivência, dinheiro não é um pré-requisito.
A verdade é que essa miscelânea de origens me deu a clara proporção do espaço que ocupo no globo terrestre. E, igualmente, evidenciou o ínfimo espaço que sobra pra mediocridade, falsidade, maldade e mau-caratismo de muitos.
Ainda é uma tese, mas começo a pensar que temos o que merecemos. Que Deus em sua infinita bondade sabe mesmo dizer o que pertence á quem e em que situação deverá se restringir seus filhos.
Concluo que sou uma afortunada. Concluo que Deus tem aprovado minha conduta. De outra maneira, não me acharia merecedora de tal privilégio. Não, se comparado á situação de miséria absoluta que se encontra uma enorme parcela da população mundial.
Conversando com muitos brasileiros que encontrei descobri que se existe uma unanimidade entre nós, é a certeza de que somos realmente um povo diferente. Alegres, bonitos e otimistas. E, ao contrário do que se imagina, muito invejado.
Repararam que somos um país que não possui heróis com super poderes? Não encontraremos na TV, nem nos quadrinhos e menos ainda no imaginário infantil. Acredito que isso é o resultado de um país que também não possui vilões com potencial de destruição de proporções catastróficas.
Nos falta, é claro, certa dose de boa-educação. Demorará um pouco pra que aprendamos a respeitar as leis instituídas e principalmente as de boa convivência. Mas, mesmo sem elas em nosso próprio país (o que é lamentável), observo que sabemos cumpri-las quando estamos fora dele.
Hoje, foi mesmo um dia de redescobrir o lado mais fotogênico do ser humano. De voltar á dar crédito á esse espécime e romper definitivamente as generalizações que alguns acontecimentos turvaram no meu olhar sobre o ser humano.
Em agradecimento pelo dia de hoje, posso até justificá-los: Concluo que algumas pessoas vivem uma espécie de Síndrome de Estocolmo* permanente. São vítimas de uma tão baixa auto-estima, que acabaram se identificando com verdadeiros delinqüentes da raça humana (que pode ser qualquer um: desde um mal intencionado e falso amigo até um líder oportunista).
Acionam tal mecanismo, como defesa e o fazem com a experiência adquirida através de toda uma existência de insegurança e medo, pautados e julgando pelas suas próprias atitudes com os outros.
Daí que qualquer gesto “amável”, ainda que obviamente mal intencionado, vinda desses elementos genuinamente maus, toma proporções épicas e contribui para humanizar a imagem que projetam.
As demais pessoas, então, acabam sendo vistas como vilãs e culpadas pela "situação atual" do marginal. Qualquer tentativa de resgate ou de punição ao dito cujo é vista como uma ameaça ao vínculo criado ou simplesmente como uma grande injustiça social.
Apaixonam-se e seguem, sabe lá Deus pra onde. Eu, de minha parte, espero que seja pra onde for, seja pra bem longe de mim. Ás vezes penso, sinceramente, que felizes são os veterinários. E os freqüentadores dos parques da Flórida, é claro!
*O termo "Síndrome de Estocolmo" surgiu em 1973 e advém de um famoso caso de seqüestro na capital sueca, no qual, depois de seis dias enclausurados sob o poder de seqüestradores, as vítimas passaram a nutrir simpatia por eles.
- posted by Mara
Sábado, Dezembro 8
AMIGOS. SEM TÊ-LOS, COMO SABÊ-LOS?
AS GRADAÇÕES
Amigo do peito.
Amigão.
Velho amigo.
Meu melhor amigo.
Conheço-o há muito tempo.
Conhecido metido a amigo.
Amigo que cai de turma e vira conhecido.
Sempre foi muito legal comigo.
Conhecido íntimo.
Conhecido afetuoso.
Conhecido que se diz amigo.
Conhecido que finge que não nos vê em certas situações.
Amigo intenso que não se vê há muitos anos.
Amigo passivo.
Amigo de convivência esparsa e rara.
Amigo de todas as horas.
Amigo das horas difíceis.
Amigo só de horas fáceis.
Amigos encrenqueiros.
Amigos adoráveis.
Amigos trabalhosos.
Amigo de Fé.
Conhecido de vista.
Falso íntimo.
Amigo a quem não se conhece pessoalmente.
Amigo da Internet.
Conhecido da Internet.
Chato da Internet.
Afinidade especial na Internet.
Amigo dela de quem foi caso secreto no passado.
Amiga dele de quem foi caso secreto no passado.
Ex–amigo que ainda não sabe que já é.
Candidato a ex-amigo.
Amizade que deixamos escapar.
Amizade unilateral.
Admiração sem amizade.
Amizade com inveja.
A mútua admiração da amizade.
A impossibilidade do amigo morto.
- posted by Mara
Sexta-feira, Dezembro 7
QUEM TEM MEDO DA LUA?
Quando eu tinha apenas sete anos, morria de medo da lua. Buscava inutilmente desvendar as sombras daquela enorme bola prateada no céu. Buscava á São Jorge, as pegadas dos astronautas e o dragão.
Nunca encontrei nada. Mas, a lua se manteve ali, intacta e misteriosa, como a me desafiar a continuar minha exploração. Esse fascínio, com o tempo, foi perdendo a força e adquirindo outros simbolismos. Redescobri a lua inúmeras vezes desde então. Na poesia, nas metáforas, na ciência e até na bruxaria.
Chegamos hoje á Flórida. E aqui, nos recepcionou a maior de todas as luas que já vi. Imediatamente me lembrei da pergunta jamais respondida. Quantas luas existem? Ainda aposto em minha tese infantil de que na verdade são duas. Uma, que é morada de São Jorge e, outra desbravada pelos astronautas.
Guiados por um GPS eficientíssimo, a tranqüilidade da viagem me fez divagar horas sobre a lua e seus significados. Não era, entretanto, um pensamento dissociado. O propósito de estarmos aqui é o cumprimento de uma promessa feita há dez anos á meu filho.
Na ocasião, enquanto observávamos uma nave espacial (não lembro o nome) riscar o céu rumo ao espaço, meu filho nos disse: Podemos ver isso outra vez? Na inocência de seus seis anos, ele imaginou que se tratava de mais um brinquedo hiper realista da Disney.
Que bastaria pegar a fila e assistir novamente o espetáculo. Inadvertidamente, nos apressamos em explicar a importância daquele momento e a rara oportunidade que tivemos de estar ali casualmente naquele dia.
Diante da sua fantasia infantil massacrada por pais despreparados e tão ou mais deslumbrados do que ele com tal experiência, ele caiu num pranto compulsivo que durou todo o percurso de volta pro hotel em que estávamos.
Nunca entendemos completamente o que se passou naquele dia. Temos algumas hipóteses, mas a pouca idade dele nunca nos permitiu compreender a razão do choro magoado que presenciamos.
Cinco anos mais tarde, nos convencemos que tínhamos que dar á ele a oportunidade que havíamos roubado. Voltamos e fomos testemunhas do lançamento bem sucedido da Nave Atlantis.
Dessa vez, um vôo tripulado e ainda tivemos o prazer de conhecer alguns brasileiros que faziam parte da importante missão. Para nós, brasileiros, é inenarrável a sensação de estar em tal evento.
Desperta as mais diversas sensações. Comigo, a emoção mais permanente e ainda clara em minha lembrança, foi a compaixão que me invadiu pelas mães daqueles homens.
No enorme tempo gasto nos ajustes dos últimos detalhes para a viagem, vários monitores de TV ficam, ao vivo, mostrando cada um dos astronautas na árdua tarefa de checar centenas de vezes a roupa e o equipamento que usarão.
Depois de quase meio dia acompanhando esse processo, nos sentimos íntimos desses homens valentes e especiais. Alguns são tão jovens que é inevitável imaginá-los com suas famílias, bebês recém nascidos, irmãos e suas jovens esposas.
A idéia de que irão partir, literalmente para o nada e, que demorarão meses para voltar, transformou minha angústia diante do primeiro acampamento do meu filho, no mais idiota excesso de zelo.
Estava marcado pra hoje o lançamento da Atlantis novamente e chegamos á ir até a Nasa, mesmo sabendo que o lançamento havia sido adiado para o próximo sábado. Compramos nossos ingressos e, claro, estaremos lá outra vez.
Nossas razões, resumidas: Meu filho, deslumbrado pela tecnologia e o aspecto futurista do evento. Meu marido, pela gratidão de poder proporcionar isso novamente á nós todos. E eu? Bom, eu porque estou convencida que os astronautas não viajariam em segurança sem minha oração de mãe inteiramente dedicada á eles, ao vivo e em cores.
A tripulação da nave Atlantis chegou segunda-feira ao Centro Espacial Kennedy. A tripulação composta só por homens, o que tem se tornado incomum por aqui, tem como missão levar à Estação Espacial Internacional o laboratório europeu Columbus, um componente-chave para a expansão da estação.
Com ou sem êxito, a missão deve durar onze dias. Não vão para a lua. Prefiro assim. Resquícios das minhas fantasias infantis apontam a lua como um mistério fascinante, mas potencialmente mortal.
E, esse pensamento não é um devaneio de mãe zelosa, como acusa meu marido. Documentos encontrados recentemente no Arquivo Nacional dos Estados Unidos mostram que os riscos para a viagem à Lua (a inaugural, é claro) eram tão grandes que os astronautas foram preparados, inclusive, para morrer.
Armstrong e Edwin Aldrin tinham em seus macacões cápsulas de cianureto (veneno que leva o homem à morte em minutos), caso não pudessem voltar ao módulo comandado por Collins. Valha-me Deus!
Para quem, como eu, não consegue entender o que motiva esses homens valentes, transcrevo o texto encontrado recentemente de um documento escrito pelo presidente Richard Nixon, caso houvesse um acidente na ocasião da primeira missão lunar:
"Esses bravos homens, Neil Armstrong e Edwin Aldrin, sabem que para eles não há esperança de resgate. Mas eles também sabem que há esperança para a humanidade em seu sacrifício"
Será que merecemos tanto? A verdade que eu, os astronautas e todos aqueles que um dia já dedicaram um pouco de seu tempo á lua sabemos, é que o poder de atração exercido pela lua pode ser mortal para desbravadores despreparados.
* texto sem correção
- posted by Mara
Quarta-feira, Dezembro 5
TO BE OR NOT TO BE...
THIS IS THE QUESTION! AHÃ...
Um dado interessante sobre o ser humano, ao julgar por seu sempre atento senso crítico, é que ele parece conhecer a fundo a alma de seus semelhantes. A surpreendente facilidade que temos para encontrar analistas de comportamentos é tão ou mais espantosa do que a facilidade que temos em acreditar neles.
A psicologia confere um falso credenciamento á seus representantes. Psicólogo não é o espelho da bruxa má ou a bola de cristal da cigana e, menos ainda, o poder mediúnico de Chico Xavier. Psicólogo é mais um desses seres humanos que tentam saber mais que a maioria, algo que nem mesmo o dito cujo sabe.
O que poucas pessoas compreendem é que a psicologia apenas instrumentaliza. Ela oferece respostas a partir da observação, da comparação e da aplicação de técnicas desenvolvidas especificamente a essa ou àquela situação. Fora isso, todo o resto, é mera especulação.
Treina-se o olhar, o gesto, o vocabulário e as intervenções necessárias para o exercício da profissão, mas, treinar o coração simplesmente não dá. É possível enrijecê-lo, camuflá-lo e torná-lo refratário e indecifrável, mas blindá-lo é uma tarefa humanamente impossível.
Em auto defesa, concluo que: não é a psicologia que torna a maioria dos psicólogos arrogantes e sim aplicação que ele faz dela em si mesmo. De tanto conviver com os descompassos das atitudes humanas, cria-se involuntariamente uma couraça específica para cada um deles. Essa couraça, ao invés de proteger, os distancia cada vez mais de si mesmos.
O autoconhecimento não é tarefa pra qualquer um e geralmente se dá somente quando estamos em plena ou á caminho da dor emocional ou física. O princípio básico para se adquirir o controle sobre o que ocorre nos porões de nossa alma é justamente não cedermos á hipocrisia de achar que estamos imunes aos sentimentos politicamente incorretos.
Não é conversa de pastor, padre ou psicólogo afirmar que o crescimento deve advir do sofrimento. Além disso, se o sofrimento for inevitável o que nos resta de positivo, senão tentar aprender com ele?
Já descobrimos que estamos à mercê de nossas escolhas, mas quanto se sabe sobre o tempo que teremos pra assimilar as conseqüências que elas nos trazem, antes de partirmos pra um novo equívoco?
Não sabemos. E, por isso, não raro acumulamos perdas e arrependimentos muito mais rápido do que podemos contabilizar nossas vitórias. Na verdade, as rasteiras da vida costumam criar um hiato entre o momento que as origina e o que nos fará perceber que a m... foi feita.
O que estamos fazendo nesse espaço de tempo que não nos damos conta? A resposta é que nesse espaço-tempo entre a escolha errada e a conseqüência, estamos ocupados demais em nos convencer de que jamais cometeríamos um mau julgamento. Que somos espertos e vividos o suficiente para sabermos diferenciar o que será e o que não será bom pra nós.
É difícil precisar o que causa mais danos: se a brutal decepção conseqüente da má escolha, ou a percepção de que somos falíveis e nos deixamos infantilmente enganar. E, antes mesmo de termos tempo para sair dessa sinuca, teremos que enfrentar um novo desafio: o perdão.
Perdoar é um verbo de difícil definição, ainda que você não esteja sendo cobrado á conjugá-lo. Perdoar é a difícil escolha entre você e o outro. O que é mais importante: desprezar seu sofrimento justificando o outro, ou priorizar seus sentimentos condenando-o?
Não importa qual a resposta, porque você logo perceberá que terá que exercitar o perdão de qualquer forma e nesse caso, ironicamente, não há escolhas. Se você decidir perdoar o outro, terá que processar o perdão por você mesmo por não ter valorizado o dano que o outro te causou. Terá que perdoar a si mesmo.
Além disso, há um quê de arrogância no perdão. E arrogância é um “defeito”, lembra-se? Por isso temos tanta dificuldade em pedir perdão. Porque não queremos conferir ao outro á importância que ele julga ter. Sem falar que, se pedirmos, o outro pode realmente nos conceder o tal perdão e, nesse momento, teremos assinado nossa confissão de culpa.
Mas, às vezes, os outros sentimentos que permeiam o relacionamento são tão mais importantes que até nos sujeitaríamos á pedir essa deferência. E não há nada de mal nisso, já que é uma tentativa genuína de resgatar o que se pode perder com a ausência do tal pedido.
Mas, ocorre que, pode ser que o dito cujo nos negue esse perdão. E aí? O que fazemos com o nosso “arrogante” (olha ela aí de novo!) pensamento que ninguém deveria negar um pedido de perdão? Já ouviram isso?
Claro que já! Desde pequenos ouvimos que quando alguém nos pede perdão temos que atender á esse gesto humilde com a mesma benevolência e aceitar sem pestanejar. Mas, quem nos ensinou esqueceu-se de avaliar que se o fulano nos pede perdão é porque voluntaria ou involuntariamente, nos feriu.
Fomos, portanto, vítimas e não podemos ser transformados em algozes num simples gesto de incapacidade de perdoar. Ou podemos?
Me perdoem por pensar assim, tá?
- posted by Mara
Terça-feira, Dezembro 4
EU NÃO GOSTO DO BOM GOSTO...
DOS BONS MODOS, NÃO GOSTO!
Lembram-se da música da Adriana Calcanhoto que eu postei em um dos halos passados?
Aquela que canta sobre o bom gosto, os bons modos e da aversão da cantora e dessa que vos escreve por esses velhos conceitos? Pois é, hoje passei o dia pensando em escrever explicando minha preferência por essa letra polêmica.
Mas, mudando o fato sem desviar a intenção, escolhi relatar uma experiência que tive á pouco: Tudo começou quando dirigia por uma via expressa importante aqui dos EUA e num semáforo parei, lado a lado, com um daqueles carrinhos mega-pequeno e ultra - caro, o New Beetle cor amarelo-ovo.
De dentro dele, ouvia-se á quilômetros de distância, uma daquelas repetitivas batidas de uma música eletrônica. Atraída pelo som (que detesto), dei de cara com uma das cenas mais curiosas que já presenciei.
Na direção, uma mulher de pele muito clara, olhos sombreados de negro e boca pintada de vermelho-vivo, trazia na cabeça um par de orelhas da Minnie Mouse adornada por um imenso véu de noiva.
Ao seu lado, um homem de olhos incrivelmente azuis, ostentava uma cartola negra, igualmente composta por um par de orelhas. (iguais ás do Mickey Mouse). Como sei a diferença das orelhas de ambos? Ué, por que a dela, além do véu, tinha um enorme laço vermelho de bolinhas brancas no centro.
Reparei melhor no carro e percebi que no vidro traseiro estava escrito em letras garrafais: “Just Married”. E o pára-choque arrastava pelo menos duas dúzias de latinhas de cerveja vazias.
Nunca mais vou esquecer a expressão de felicidade de ambos. Nem, é claro, a de completo estarrecimento do meu marido, ao vê-los. Ela acenou pra mim e sorriu com aquela boca enorme e vermelha. Ele, mais tímido, se limitou a tirar a cartola e acenar com a cabeça numa reverência cavalheiresca.
Imediatamente concluí que partiam pra uma deliciosa lua-de-mel na Disney World. E, nesse momento, vale dizer que, somando a idade de ambos, não deveriam ter mais do que quarenta anos.
Quando o semáforo ficou verde, parti com um sorriso idiota nos lábios. Fui definitivamente contaminada pelo mau gosto de ambos, demonstrado na escolha dos personagens para caracterizar um dia tão importante como o do casamento.
O fato é que quilômetros depois, por uma dessas casualidades, voltei a encontrá-los numa estação de serviço á beira da estrada. Novamente nos colocamos lado-á-lado, só que dessa vez, estacionados.
Quando imaginei que o limite da irreverência de ambos havia terminado, vejo a “noiva” saltar do carrinho com um par dessas sandálias de plástico tipo “papet” na cor “pink. ( que diga-se de passagem aqui é a o último grito da moda - deve ser grito de horror, mas que praticamente todo mundo usa, pra praticamente em todas as ocasiões, é verdade.
Tá bom, eu assumo que tenho uma queda por coisas escandalosas e chamativas. Mas, na maioria das vezes, sou uma perua discreta. Orelhinhas do Mickey. Quem nunca usou ou invejou quem usou? Mas, aquelas sandálias estavam “pedindo pra sair”, como diria o Capitão Nascimento.
Adoro pessoas de bom humor. Talvez porque eu mesma leve a vida com uma seriedade exagerada. Acho que brincar com os clichês e rótulos que nos atribuem é, no mínimo, a maneira mais fácil de esticar nossos anos de vida.
Infelizmente não consegui me comunicar com o casal. Mas, compreendi que eram austríacos e que fixariam residência por aqui. O traje era uma homenagem ao novo emprego de ambos.
Recém contratados no parque mais famoso do mundo, resolveram se casar pra não terem que abdicar um do outro nesse período. Era tudo real. O casamento, o véu, a cartola, as latinhas barulhentas no pára-choque, tudo.
Mais real ainda, era o amor que quase se podia tocar entre eles. Tratei de afastar logo meus pensamentos pessimistas quanto á casamentos entre jovens de tão pouca idade.
Foi uma conversa muito breve. Também, já repararam como quando não dominamos um idioma acabamos gritando na orelha dos pobres estrangeiros como se eles fossem surdos? Pra piorar, no meu caso, meus interlocutores tinham quatro ao invés de duas orelhas.
No fim de tudo, peguei o endereço de ambos e deixei a promessa que lhes enviaria tudo que considero de mais brega para que pudessem finalmente entender a definição dessa expressão. Tentei, sem sucesso, fazê-los entender que “brega” era como seriam categorizados caso estivessem no Brasil.
Daí, que o post de hoje tem exatamente essa intenção: contar com a ajuda de vocês para listar coisas que consideram “cafonas” (pior que essa palavra, só sua antecessora: a “demodê), para na medida do possível ir enviando aos meus novos amigos.
Minha contribuição flui com facilidade. Basta que eu libere a cigana Sandra Rosa Madalena que há em mim. Daí a lista começa a ficar infinita:
Fábio Junior, Jenny e Herondi (é assim?), as camisas do Dunga em dia de jogo da seleção, Mara Maravilha, vitrola, anel no dedo mínimo que tem, é claro, unha comprida e cordão de prata com crucifixo gigante em peito masculino, flor no cabelo e chamar qualquer absorvente íntimo de Modess, entre outras coisas.
Você consegue pensar em mais alguma coisa?
- posted by Mara
Segunda-feira, Dezembro 3
NÃO SABIA QUE ERA IMPOSSÍVEL...
...FOI LÁ E FEZ!
Falar de sexo nessa altura do campeonato parece predizer duas possibilidades: falar de sexualidade ou de sacanagem. Como sacanagem é um termo que nem sempre está restrito ao sexo propriamente dito, se você esperava qualquer coisa nesse sentido, pode parar de ler por aqui.
Nada contra uma boa e bem feita sacanagem. Sexual - é claro. Mas pra que eu possa escrever no nível dos meus poucos e bons leitores, não acho apropriado discursar sobre esse aspecto. Além disso, nem sei se tenho muito conhecimento de causa.
O fato é que a sexualidade humana será sempre uma inesgotável fonte de possibilidades, e nos faz imediatamente pensar em sensações, desejos, sonhos e perspectivas. Tudo isso junto e não necessariamente nessa ordem.
Uma das coisas que mais gosto na psicologia “não-freudiana” é sua inerente capacidade em transformar a sexualidade e o comportamento sexual em assunto rotineiro, papo de boteco e de desfazer as mais enraizadas concepções e tabus presentes nesse tema.
Sabemos que o desejo puro e simples, é uma condição inerente ao ser humano, mas muito das motivações responsáveis por sua idealização não são tão facilmente explicáveis. Por exemplo, como explicar um desejo incontrolável pelo Johnny Depp e igual repulsa pelo Jack Sparrow?
Desculpem ter citado Depp e seu lendário personagem, mas não consigo pensar em outro alguém quando quero associar á desejo sexual. Mas, se você é homem, tente fazer a mesma associação com a Camila Pitanga e a Bebel. Esqueça o preconceito e pense apenas no modo de vida de ambos, Bebel e Jack.
Viu? O que configura a maneira como elegemos nosso objeto de prazer estará sempre, de algum modo, vinculado ao que somos, fomos e o que pretendemos ser e ter na vida. É quase como uma projeção, não mais da necessidade de reproduzir como descreve a história, da busca pela obtenção de satisfação. E, no sentido mais amplo da palavra.
Na verdade, nascemos anjo e anjos, até que se prove o contrário, não têm sexo. Quando estamos fisicamente maduros para iniciar nossa vida sexual, sempre haverá alguém para melar tudo e dizer que ainda é muito cedo. Quando adultos e preparados, somos coibidos na maioria de nossas fantasias e incorremos no risco de nos tornarmos infantis demais.
Na chamada terceira idade, ninguém mais parece acreditar que ainda saibamos do que isso se trata. Ou seja, estamos fadados a nunca desenvolvermos livremente essa tal sexualidade. Mas, convenhamos, sexualidade nessa fase avançada da vida tem mesmo uma das abordagens mais cruéis.
É um freio moral e preconceituoso. O pior é constatar que esse freio costuma ter início quando nascem os filhos. Primeiro, quando são muito pequenos, ficamos tão cansados que temos que driblar o esgotamento e buscar prazer onde só representa um esforço a mais.
Quando estão um pouco mais velhos, pedem pra dividir a cama conosco em noites de pesadelos. Leia-se: sempre que possível! Mas, pior mesmo, é quando são adolescentes. Invadem o quarto sem se preocupar em sequer se anunciar. Sabe por quê?
Porque pai e mãe não fazem sexo. Imagina se uma mulher tão santa como a mãe se daria a esse disparate. E um homem tão sério e moralista como o pai? Jamais!
Daí pra concluirmos que não seremos capazes de ter vida sexual prazerosa por toda a vida é um pulo.
Não falo das mesmas formas de dar e receber prazer, mas da compreensão de que há muitas maneiras de senti-lo e fazê-lo. É fato que muitas pessoas têm mesmo uma diminuição nas atividades sexuais.
Mas alguém, em nome da deusa Afrodite, pode me dizer o que isso tem a ver com a capacidade de amar, acarinhar, dividir e estimular a pessoa amada?
Por sorte, poucas pessoas têm acesso á esses conceitos ultrapassados que ditam sobre degeneração física, dificuldades locomotoras e por não saberem que determinadas coisas eram impossíveis, vão lá e fazem! Depois amargam uma dorzinha nas costas. Mas que valeu a pena, isso valeu!
Pesquisas indicam que qualquer indivíduo pode ser sexualmente ativo por tempo indeterminado e que isso nada mais tem a ver com o número de primaveras que acumulou. Mais que isso, essa atividade faz bem á saúde tanto física como psicológica. E, de quebra, melhora o humor.
Já imaginou? Você dizendo á sua avó querida e ranzinza que espera que ela tenha uma vida sexual mais ativa para que aprenda a tolerar as traquinagens de seus filhos? É, pode ser que ela até faça uma cara ofendida e te acuse de abusado e mal criado, mas lá no fundinho, pode acreditar, ela vai adorar a sugestão!
Antes de terminar, quero deixar claro que esse texto não é em homenagem á você que está lendo e a nenhum (a) dos comentaristas habituais. E, mais importante ainda, não é autobiográfico!
Mas, como diria minha avó: Faz mal não! Deixa estar..nosso dia chegará! De minha parte, digo: que venha. Já estou me preparando pra não saber que muitas coisas são impossíveis. E vocês?
- posted by Mara
Sábado, Dezembro 1
ATENÇÃO! PROPRIEDADE PRIVADA
ACESSO EXCLUSIVO AOS BEM INTENCIONADOS
Um pensamento que sempre esteve comigo em quase todas as fases da minha vida é: “Deve haver algum sentido. Em algum lugar e em algum momento teremos todas as respostas e riremos dessa ininterrupta ansiedade de não saber a razão das coisas”.
Quando crianças, as perguntas que esse pensamento incita, quase sempre nem chegam a ser feitas. Ou, se a fazemos, uma resposta lacônica, sem grandes detalhes, nos satisfaz completamente.
Assim crescemos. Acreditando na fada dos dentes, no papai Noel, coelhinho da páscoa e até no homem do saco. E apesar da nossa curiosidade infantil em saber mais a respeito deles, nos contentamos em aceitá-los simplesmente.
Hoje, adulta, me pergunto: onde estarão esses personagens quando não estão entrando sorrateiramente pela chaminé, deixando pegadas no jardim ou escalando telhados garimpando dentinhos? Mas confesso que, por medo, ainda resisto em querer saber para onde o tal “homem do saco” leva as criancinhas malcriadas que recolhe.
O imaginário criado, por adultos, para as crianças é sempre muito sombrio. As princesas são todas órfãs ou abandonadas. A princesa Aurora pode ter sido uma exceção, mas para isso teve que passar toda sua vida adormecida
Há sempre um vilão á espreita esperando por inocentes criancinhas e o final feliz, apesar de sempre presente, parece estar reservado apenas á quem teve toda uma história de muito sofrimento.
Não me espanta que cresçamos achando que a “vida real” é a reprodução fidedigna dessas histórias que nos contaram. Que devemos sofrer abandonos, solidão, inveja, pobreza e todo tipo de mazela, para almejarmos um feliz final. Ou, que para evitar tudo isso, nos mantenhamos adormecidos e ausentes até que alguém nos salve.
Não me surpreendo que sempre saibamos identificar os lobos, as bruxas e quase nunca, o príncipe. Á exemplo dessas histórias convivemos muito mais com os vilões, do que com nossos heróis. Muitas vezes nem chegaremos á conhecê-los.
Há gente que é realmente má. Elas estão nas páginas dos jornais, nos livros de psicologia forense e, uma grande maioria, circula livre entre nós. Se formos honestos, admitiremos que damos muito mais ibope á esses aí, do que aos bons.
Gente boa não vira notícia. Pelo menos, não por sua bondade. Salvo depois que morrem ou se são vitimados por aqueles que são maus. Mas, nesses casos, nunca saberemos se a notoriedade não é para a maldade em si.
Ando muito cansada disso tudo. Desses eternos clichês que apregoam que o bem sempre vence o mal, ou que ninguém é de todo mau ou de todo bem. Está se tornando insuportável ouvir que devemos fazer o bem sem olhar a quem.
Mas, essas são apenas algumas das inúmeras coisas que faço sem concordar completamente com elas. Que faço porque assim aprendi que deve ser. Repito, porque entendi que isso me faria sentir-me melhor.
Enquanto isso, metido entre as árvores, escondido e mal intencionado, o lobo mau espera o momento certo pra fazer-me compreender que ele, com sua maldade, irá sobrepujar-me. Que seus objetivos, uma vez que são mais claros e definidos que os meus, lhe trarão mais notoriedade e êxito.
A psicologia ensina que essas pessoas raramente têm consciência da real face que têm. Que ninguém escolhe ser assim mau. Essa teoria é reforçada pela sociologia que, pra piorar, dá justificativas vagas de desigualdade e os trata como se não fossem o que são: uma exceção.
Mas, há casos em que a psicologia, a sociologia, a filosofia ou qualquer outra ciência terminada com “ia”, não pode justificar e aí ficamos sem chão. Nessas ocasiões, buscamos refúgio em outras “ias”: a dramaturgia, a poesia e até a melancolia.
Que prazer pode existir em alguém se vangloriar de ser ou ter algo que outros ainda não alcançaram? Que tipo de riso está por trás da alegria de se vencer uma batalha verbal, ou até mesmo uma guerra de força? Que tipo de sono alguém pode ter ao saber-se amado e odiado em proporções exatamente iguais?
Esse meu texto é um desagravo á mim mesma. Também sucumbi, em dado momento, á esse monstro traiçoeiro que é a vaidade. Também já me julguei acima do bem e do mal. Fui bem estimulada e apoiada, é verdade. Mas isso, não diminui minha responsabilidade.
Mas, estou inclinada á perdoar-me porque nunca havia convivido tão pessoalmente engendrada em redes dessa natureza. Toda maldade que antes conheci, se deu sob a proteção do meu crachá profissional que me treinou acreditar que poderia e deveria ao menos tentar, revertê-la.
Diante de uma perversidade nunca antes vista, julguei que por pior que eu pudesse parecer, jamais alcançaria tal patamar. Na comparação, me julguei melhor. Julgando-me melhor, esqueci de sê-lo.
E num efeito dominó, por deixar de sê-lo deixei que as pessoas se convencessem equivocadamente de que eu teria capacidade de defender-me em igual condição. Quando acusada, calei-me e me neguei explicar o que, hoje sei, só a mim parecia óbvio.
Indignei-me com a facilidade com que as explicações que davam por aí convencia muito mais do que meu histórico com cada um que ouvia. É disso e, apenas disso, que me arrependo. De ter esperado que uma atitude valesse mais que qualquer palavra.
É claro que uso a net como exemplo, para me fazer entender, já que esse é o universo e o recurso que utilizo para chegar á quem me lê. Mas, aqui fora, nesse exato momento, consigo pensar em muitos personagens da minha história pessoal que se enquadrariam perfeitamente nesse desabafo.
Portanto, seja quem você for, leitor, não se sinta pessoalmente mencionado ou sequer insinuado. Ainda que eu saiba que, uma eventual interpretação desse texto, com a maldade e malícia que são peculiares á algumas pessoas, daria ao blog muito mais acessos, posso jurar que esse não é meu objetivo.
Aliás, esse texto é tão particular e emotivo que eu, se pudesse, evitaria até mesmo que fosse lido por quem se julgar aqui mencionado.
É, portanto, propriedade particular e intransferível, dos meus amigos. Foi escrito sob os direitos da minha liberdade de expressão, ditado por meu coração e não está sob julgamento dos que, pelas razões acima descritas, eu não chamaria de amigo.
Os que apenas me lêem, e nem sequer se imaginam mencionados, ofereço minha amizade e proponho que me vejam, nessa batalha histórica entre os conceitos do bem e do mal, como apenas mera teoria. E que toda e qualquer semelhança que se possa encontrar, é mera coincidência!
- posted by Mara
|
|