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"Não conseguimos controlar as más linguas dos outros, mas uma vida decente nos capacita a desprezá-las." Cato, o Velho (234 AC - 149 AC)


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Presente da Nina

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Quinta-feira, Janeiro 31

ATENÇAO!


ELES ESTÃO SE APROXIMANDO!

Numa fração de tempo, durante seu sono, uma mudança comportamental mudou a cara do planeta. Você, numa manhã, se dá conta que seres de outro planeta tomaram os corpos de 99% da população, tornando-o o último representante da raça humana.

Parece roteiro de filme de ficção científica. Mas, bem que poderia ser roteiro também para a compreensão de um estado de espírito que não oferece outra possibilidade de interpretação. Assim foi o dia de ontem.

Me dei conta de repente que não poderia competir com pessoas tão obstinadamente decididas a apregoarem o mau alheio. Senti todos os meus esforços e fé na raça humana serem questionados diante da eficiência comprovada da atuação dessas pessoas.

Á meu ver, é um grande equívoco acreditar que basta ser “normal” para ser uma pessoa que age dentro da normalidade. Quando crianças, talvez, seja possível nos encaixar numa classificação assim, já que estamos dentro do processo ativo de aprendizagem.

Temos o aval para experimentalmente, ainda que ás escondidas, agredir nossos coleguinhas, matar pequenos insetos, puxar o rabo do cachorro e fazermos birras homéricas solicitando atenção exclusiva, sem que isso nos transforme anormais ou seres genuinamente perversos.

Mas, o que dizer dos que cresceram e seguem com comportamentos análogos? Que adultos, seguem se justificando dessa maneira? Pensamentos dessa natureza permearam e foram os responsáveis por minha inquietação de ontem.

Certamente vocês já ouviram falar em “Bullyng”. Bullyng é a palavrinha mágica inventada para resumir um comportamento que se tornou bastante comum entre crianças e adolescentes que vivem em grupos, geralmente estudantes.

A palavra Bullyng não tem correspondência em nosso idioma. Mas, de qualquer forma o apego dos brasileiros por estrangeirismos não parece ser a causa mais importante da palavra ter tido tanto sucesso entre nós.

Comportamentos do tipo Bullyng parecem estar para os adultos brasileiros como está para os adolescentes americanos que inspiraram a utilização do termo. A Net, sobretudo os blogs e páginas pessoais, tem esse traço como marca característica.

Bullyng significa toda e qualquer forma de agressão intencional e repetida que visa causar angústia ou humilhação a outro. Mas, é claro que, como todo sintoma, esse também pode vir fantasiado de inocentes intenções.

Quase sempre não têm uma motivação evidente, mas objetivam causar humilhação e ao mesmo tento se auto-afirmar como bom articulador das palavras. Trata-se, quase sempre de uma relação desigual de poder.

Simplificando, dentro do emprego original da palavra, Bullyng é “pegar alguém pra Cristo”.

A forma e a maneira escolhidas são as mais variadas possíveis: colocar apelidos, ofender, zoar, gozar, sacanear, humilhar, discriminar, excluir, isolar, ignorar, intimidar, perseguir, assediar, aterrorizar, amedrontar, tiranizar, dominar, agredir e etc.

Penso que agora, quem nunca tinha ouvido falar de Bullyng, já começa a reconhecer, os legítimos representantes desse comportamento. E, já começam a desconfiar que não é preciso muito esforço ou uma longa caminhada, para encontrarmos pares de adultos que fazem desse comportamento uma rotina, não é mesmo?

Quer mais? O Bullyng é um massacre que pode ser verbal, físico, psicológico e até sexual. Mas, sua forma mais comum de uso e o que, muitas vezes, é o primeiro indicativo no diagnóstico de um comportamento assim, é o hábito de empregar apelidos depreciativos, com maldade e com propósitos de humilhação.

Reza os especialistas que esse fenômeno ao invés de produzir apenas uma vítima, faz logo três. No mote de desafortunados estão também o espectador e o agressor. Eu sinceramente, ainda não vi ninguém pagar preço algum por ter praticado esse comportamento.

Ao contrário, vejo a fama ser interpretada como estímulo e coroamento. Mas, aguardo ansiosamente o dia em que isso acontecerá para que possa servir de exemplo. Para que se extermine o mal em suas raízes, literalmente em seus domínios.

De qualquer forma, na analogia do comportamento Bullyng entre adultos cibernéticos, espectadores não só existem como são em número assustadoramente grande. São aqueles que apesar de não sofrerem as agressões diretamente, sentem-se incomodados com a situação, mas, igualmente incapazes de agirem.

A vítima, por outro lado, costuma ser a pessoa que possua características ligeiramente destoantes do modelinho culturalmente imposto ao grupo em questão, além de estar em situação, ainda que momentânea, em que não dispõe de condições reagir.

A intenção é fazer a vítima parecer absolutamente inexpressiva, insignificante, abjeta, desprezível, enfim, uma agressão que combina fazer de conta que a vítima não existe, aniquilando totalmente a imagem, geralmente sobrepondo-a por outra de interesse direto do agressor.

Como a vítima em questão, quase sempre nem sabe da agressão, sobra para o espectador passivo ás dores conseqüentes de assistirem tamanha violência. Caso reaja, o espectador-vítima é freqüentemente ameaçado, intimidado, ofendido, discriminado, agredido e recebe provocações e difamações. Parece familiar?

Os agressores são, comumente, pessoas antipáticas, arrogantes e desagradáveis quando vistas de perto. Daí se posicionarem sempre tentando salvaguardar sua própria privacidade, criando para si personagens fictícios com características opostas.

Normalmente o agressor acha que todos devem atender seus desejos de imediato e demonstra dificuldade de colocar-se no lugar do outro. O mesmo poder agregador que usam para difundir suas maledicências é empregado para aglutinar seguidores de si mesmo e suas intenções.

Na literatura, o Bullyng já é considerado um problema mundial, do ser humano imaturo, logo, deve ser mais antigo que se imaginava á princípio. É um fenômeno democrático, encontrado em toda e qualquer parte.

Ao criamos uma analogia capaz de caracterizar elementos da cyberesfera como Bullyng, devemos entendê-lo como uma mutação do conceito original. Muito mais aprimorado e com padrões de comportamento muito mais difíceis de serem combatidos.

Assim, como parte desse universo, eu ontem, me senti uma sobrevivente de um ataque alienígena. Meu blog e, o halos que o compõe, pareciam destoar do restante do universo a que se propôs.

Foi preciso um dia todo e muito carinho por parte dos comentaristas aqui freqüentes, para que eu saísse do estado catatônico e compreendesse finalmente que: nós fazemos a diferença e que estar entre eles não nos faz automaticamente iguais.

Somos, como já disseram alguns de vocês, um oásis. Uma ilha interligada por pequenas pontes á seus semelhantes, e só a transpõe quem se sente, de fato, capaz de unir “planetas” com igual número de sobreviventes e dispostos á mudar o panorama geral.

Em outras palavras, estamos fora, para estarmos dentro e juntos, de forma inabalável! O que posso dizer? Apenas, obrigado por me permitirem estar entre vocês, os heróis da resistência.


* TEXTO SEM CORREÇÃO



- posted by Mara


Quarta-feira, Janeiro 30

ERA ISSO QUE VOCÊ ESPERAVA?


- Você espera demais das pessoas! Não deve fazer as coisas para receber alguma coisa em troca!

A primeira vez que ouvi essa frase estava no primeiro ano de faculdade, e saiu da boca de um amigo, mais que, querido que era conhecido por sua vocação religiosa. Joaquim , o "Joca", fazia parte da ordem dos Franciscanos.

Fiquei chocada e chorei. Me pareceu uma crítica dura demais vinda de quem vinha e pela circunstância em que foi proferida. Por ser um sujeito cheio de abstrações espirituais, ele só havia vencido os desafios universitários graças á minha capacidade de síntese.

Passei os três primeiros anos da faculdade de psicologia, fazendo leituras e resumos de livros de fisioterapia, carreira que ELE havia escolhido. Resumia os textos, fazia análises explicativas, transformava-as em perguntas e virava noites ajudando-o a compreendê-las.

A frase veio em resposta ao meu choro, quando notei a ausência dele em minha festa de despedida. E á minha recusa em aceitar o argumento de que ele tinha que ir pra casa de seus pais. " Porque há duas semanas não vou", disse.

É claro, que ouvi outras centenas de vezes a mesma frase. A última, até bem recentemente. Mas, a história com meu amigo foi um marco. O momento exato em que descobri a dor de se amar em medida diferente.

Há momentos em que pegar um ônibus errado, comprar uma melancia aguada ou apostar no cavalo azarão pode até ser considerado um revés sem grandes conseqüências. E há outros, em que isso é o suficiente pra nos jogar no fundo do poço.

Um atleta sem pernas, um pianista surdo e uma criança sem mãe. Pouco a pouco essas fatalidades existências vão deixando de ser limitadoras através de pessoas que as desafiam.

Pessoas que tornam qualquer sofrimento em simples lamentar. Que fazem nosso sofrimento parecer ínfimo, por maior que eles sejam. Vencem a si mesmos e nos colocam em desvantagem na escala de valores humanos.

Existe coisa pior do que sermos chamados á essas realidades quando estamos brigando bravamente para nos libertar dos clichês? Existe coisa mais desesperadora do que não deixarem que lamentemos nossas penas, com base em exemplos alheios?

- Você tem dinheiro, está bem de saúde, é forte. Não tem do que reclamar!
- Estão te magoando, te sacaneando? Liga não, é inveja!


Não sei vocês, mas odeio quando me dizem coisas assim. É como se nossas dores devessem sempre obedecer á um critério universal de certo e errado, de plausível e não plausível.

Queria saber quem, diabos, inventou essa história que existe consolo nas mazelas alheias. Deve ter sido o próprio, se é que ele existe. Já que por trás de frases assim, está sempre embutido uma ameaça velada do tipo “toda ingratidão será punida”.

Será? Aliás, o que é a ingratidão senão um sentimento formado á partir da concepção individual que fazemos do que os outros deveriam ter feito? Ora, se esperávamos alguma coisa que não veio e nos decepcinamos, é porque, por alguma razão, aquilo nos fazia sentido.

Isso, em si, já não é punição suficiente? Não se espera nada de bom da parte de quem nunca recebeu nada assim de nós. Irmã gêmea da gratidão, a ingratidão implica necessariamente numa troca de expectativas.

Porque então é tão correto sentir e aceitar a gratidão de alguém e sua antítese tão execrada? Não será esse o álibi de quem realmente deixou de fazer o que deveria ser feito?

- Ah! Então você fez, esperando alguma coisa em troca? Dizem com escárnio. Se eu soubesse não teria aceitado! Completam, se revelando.

É uma grande verdade. Muita gente não faria metade das coisas que fazem, no pressuposto que teriam que pagar alguma coisa, que ficariam em dívida. Isso os faz melhores dos que aqueles que fazem esperando uma retribuição?

Muitas vezes, não é um processo consciente. O simples ato de doar ou se doar á alguma coisa já é codificado em nós como um contrato de troca. Se, mostro simpatia, espero que ela seja percebida, ao menos, para que não seja confundida.

Se, desgosto e oferto minha crítica, não hei de querê-la vagando ou escondida, impossibilitada de ser vista e de tentar provocar mudanças. Parece aceitável, não é? Então, deveria ser assim com todo o resto.

Ao dar minha amizade, meu carinho e respeito, o que pode haver de errado em esperar o mesmo? Se sou fiel aos princípios de uma relação de fraternidade bíblica, é natural que em minha concepção, me surpreenda quem não faz o mesmo.

Mas as coisas não são exatamente como queremos que sejam. Não para quem, como eu, está sempre buscando justificar os outros e a si mesmo. Para quem faz da vida um aprendizado contínuo e não um simples contemplar.

Não acho que estejamos na vida á passeio, mas se eu estiver errada, melhor seria que esse fosse um passeio memorável, o mais próximo da perfeição possível. Ou que criássemos um novo caminho cada vez que percebêssemos que alguma coisa saiu errada.

Ao contrário, seguimos repetindo os mesmo erros. Segurando nas mãos erradas, atravessando sem olhar para os dois lados e escolhendo o caos do trânsito ao invés das passarelas.

Desculpe meu amigo Joca (hoje um renomado fisioterapeuta em um dos hospitais mais reconhecidos do país), mas não aprendi a lição. E nem consegui fazer dela uma limonada.

Ainda lamento sua ausência naquela despedida. Mas, se serve de consolo, nunca mais esperei de alguém qualquer gesto semelhante. Ao contrário, desfruto das delícias de ser surpreendida toda vez que alguém me agradece por algo.

E, ao contrário de você e outros tantos que conheci, acumulo minha dívida e posso até esquecer a pessoa, nunca o gesto que a caracterizou pra mim. Sua ingratidão, primeira pra mim, me fez aprender o sentido da gratidão aos outros.

A primeira ingratidão a gente nunca esquece. Já as outras... são as outras, e só!



- posted by Mara


Terça-feira, Janeiro 29

NÃO É O QUE PARECE...


...MAS, PARECE O QUE É! xiii

Tudo bem que eu concordo que uma moeda tem dois lados, que a complexidade da psique humana, em alguns casos, é vã filosofia e, etc. Mas, penso que, depois de algum tempo na estrada, alguns argumentos se resumem apenas ao que são: argumentos.

Daí que compra quem quer. Acata quem precisa e reproduz quem não tem um argumento simplista pra chamar de seu. Mas, não é incrível que apesar de tantos séculos de evolução contínua, ainda sejamos manipuláveis?

Há alguns meses tive uma grande decepção. Dessas de nos fazer duvidar até do número exato de dedos que temos nos pés. Todo mundo pensa que quem estuda a alma humana, está imune á esse tipo de rasteira. Ledo engano.

Somos os mais suscetíveis, já que desenvolvemos o hábito de justificar a tudo e a todos, sempre na busca da essência invisível dos seres humanos. Por vezes, ao torná-la (essa essência) visível, sua face é tão medonha que compreendemos por que se escondia.

Isso não invalida, é claro, nossa capacidade de avaliação. Mas, sem dúvida, arranha a antes inabalável certeza de possuirmos uma percepção mais treinada e, portanto, um pouco mais apurada que os demais.

Um abalo estrutural e transitório em nossa auto-estima. Enfia-se um dedo no epicentro de nossa autoconfiança, e nos remete ao mesmo nível de sofrimento que tanto vimos acontecer diante de nós em nossa prática clínica.

Pior é ter que ouvir: “Mas você não é psicóloga, como não percebeu?” ou ainda: “Ainda bem que você é psicóloga, sofre menos”. Me poupem! Quer dizer que Advogados nunca serão pegos por crime nenhum? Ou que médica ginecologista não tem cólicas menstruais?

Auto estima é a base de quase tudo que pretendemos desenvolver sem sofrimento pessoal. Um plano bem elaborado, sem erros e infalível é totalmente inútil se te faltar uma bela revisão nesse elemento, antes de iniciar a empreitada.

Mas, é também, o que mais nos escancara e nos caracteriza. A partir de uma análise superficial da auto-estima, é possível traçar diagnósticos e prescrever atitudes funcionais para revertê-la ou reforçá-la na medida da necessidade de cada um.

Fé, excesso de confiança, otimismo e determinação, embora pareçam, não são faces distintas da auto-estima. São elementos que a compõe e não funcionam independentes.

Alguém extremamente confiante pode estar revelando tanto uma auto-estima sólida e ajustada, como também uma terrível concepção de sua própria competência. Dessa dicotomia nascem os arrogantes e também os chamados “humildes”.

Mas, se ter uma boa auto-estima nos faz arrogantes e não tê-la nos causa sofrimento, o que fazer? Ouça sua avó. Ela certamente resumirá tudo em uma frase: “Filha, tudo que é demais não é bom!”. Ela tem razão.

Equilíbrio é tudo. Evita tombos e te mantém em posição privilegiada. Te capacita, inclusive para analisar os outros para além de si mesma e proteger-se de possíveis armadilhas emocionais.

As únicas pessoas que possuem uma auto-estima inabalável estão na tela do cinema e ainda assim, são em número tão pequeno que, não raro, vemos os mesmos atores representando os personagens que exigem essa aparência em diferentes filmes.

Infelizmente não temos aquele sorrisinho de lado do Bruce Willis, ou aquele olhar analítico e impassível do Anthony Hopkins. Nem eles. São personagens que de alguma maneira a competência de ambos imprimiu em suas vidas pessoais. Está na cara...só na cara!

Há quem diga que o brasileiro tem o hábito de enaltecer excessivamente a humildade e ver como arrogantes e metidas todas as pessoas bem-sucedidas, fazendo inclusive com que elas se sintam constrangidas com o sucesso.

Não deixa de ser verdade, mas não podemos esquecer que também existe muita gente oferecendo mortadela á quem foi talhado a apreciar caviar e vice versa. Ou seja, por trás de um arrogante sempre haverá um inconformado e invejoso alimentando-o.

Assim como, um desamparado deveria deixar de estampar esse rótulo na medida em que começa a suprir seus déficits. Ao contrário, em ambos os casos, o mais comum é fazerem disso, um meio de vida.

A conseqüência é que sofremos uma mutação impressionante e dela surgiu uma nova personalidade nos moldes da Paris Hilton, por exemplo. Ou, na versão tupiniquim, a Gyselle do atual BBB. Cada uma á seu modo, desafiando nossa capacidade de julgamento.

Ao contrário do que se pensa, a psicologia contesta a exigência de alta auto-estima para ser bem sucedido. Já que, na contramão, pessoas com baixa auto-estima podem acabar mais capacitadas já que têm que vencer a si mesmos, para atingir seus fins.

De outro lado, os dotados de alta auto-estima estariam mais arriscados a se tornarem delinqüentes ou racistas, já que o excesso desse sentimento os levaria a se sentir superiores.

E nem sempre uma auto-avaliação aleatória e voluntária pode ser suficiente. Em ambos os casos, a concepção distorcida que os complexos de inferioridade e superioridade conferem á seus portadores, não os deixam ver como realmente são.

No caso de uma recusa ou descrença da atuação de um profissional de psicologia por parte dessas pessoas, só nos resta esperar que os acontecimentos, as batidas sucessivas e doloridas de suas cabeças contra os muros da vida, os levem cedo ou tarde á compreensão dessa inabilidade.

Assim, nem Bruce Willis e nem Hannibal Lecter. Ambos, duros de matar. Mais ainda, na carreira de seus intérpretes. Vale pensarmos nos motivos que levou Hollywood á nunca escolhê-los para encarar o humilde Bruce Wayne e seu alter-ego vingativo, o Batman.

É o ônus e o bônus de parecer ser o que não é.


*TEXTO SEM CORREÇÃO





- posted by Mara


Segunda-feira, Janeiro 28

ESSE CAMINHO QUE EU MESMA ESCOLHI...


...É TÃO FÁCIL SEGUIR..

Não era bonita, nem elegante. Não tinha dinheiro e até seus pés eram motivos de chacota. Nunca foi namoradeira, mas a culpa não era dela. Pequeno e atarracado, eu corpo sempre foi muito coerente com o temperamento de aríete.

Namorou apenas duas vezes, sabe lá Deus porque e, alguns ainda se perguntam, “como”. Há quem afirme que foi uma trama divina bem engendrada para impedi-la do suicídio. E como o potencial de risco era grande, repetiu a experiência duas vezes.

“Por sorte nunca terei filhos”, repetia sempre a si mesma. Mais para consolar-se do que por não gostar da idéia. Todo mundo sabia e ela também não ignorava, que ela adoraria ter alguém pra legitimamente chamar de seu.

Estudamos juntas quase a vida toda. Nunca combinamos, mas, na sala de aula sempre nos sentávamos logo atrás da loira gostosa e á frente do desencanado bonitão. Ladeadas, é claro, pelas sabichonas feiosas de óculos.

No início do ano, nem era uma regra. Mas, com o passar das semanas lá estávamos nós. Amigas inseparáveis dos elementos chaves da sala de aula. Sempre me perguntei qual era o critério que usávamos e, principalmente, se escolhíamos ou éramos escolhidas.

Mistério. Mas sempre foi assim. Formávamos um grupinho interessante e capaz de agregar muitos adjetivos vindos do restante da sala. Juntos, não deixávamos pra ninguém. Sozinhos ou na ausência de qualquer um de nós, ia-se nossa personalidade.

Vou ser sincera: ela era feia. Fico aqui pensando se um dia ela viesse a ler esse texto, ficaria furiosa comigo. Odiava ser chamada de “interessante”. Agora, pra ganhar sua eterna inimizade, bastava chamá-la de inteligente.

Mas, se existia uma qualidade nela que ninguém ousava questionar, era justamente a inteligência. E não era dessas inteligências que só ressaltam se comparadas com a média. Não. Era inteligência mesmo. Dedutiva, racional, quase maquiavélica.

Entre nós, dizíamos que ela era dotada de inteligência circunstancial. Porque havia momentos em que ela parecia alheia e que nada lhe fazia real sentido. Mas, quando menos se esperava, lá estava ela com a questão resolvida e sacramentada.

E isso sempre acontecia quando nós ainda estávamos escrevendo o enunciado da questão. Pensava rápido, tinha poder de argumentação e uma memória de deixar qualquer banco de dados enciumado.

Não era má. Mas tinha muitos desafetos, pobrezinha. Apelidos, então, nem com uma memória tão excepcional, ela seria capaz de guardar todos que acumulou ao longo da vida. Nunca se importou e até fazia uso de alguns deles.

Alguns mestres nos chamavam de quarteto do mal. Acho que éramos porque nos engajávamos em toda e qualquer pendenga que implicasse em polêmica. Da reeleição do representante de classe até a nota injusta de alguém, lá estávamos nós organizando o motim.

Nunca entendi como eu me encaixava no grupo, mas suspeito que minha presença só se justificava pela dela. Éramos amigas. Não aquele tipo de amizade que se vê todos os dias ou emprestam dinheiro. Amigas e ponto.

A loira gostosa nunca foi mais que isso. O que não era pouco se comparada com o restante da ala feminina do grupo. O bonitão era burro e folgado, mas isso sempre foi o suficiente.

As duas sabichonas eram primas, descobrimos mais tarde. Elas também. Numa conversa mais longa juntaram as lembranças e se descobriram primas distantes. Desconfiávamos, já que até fisicamente eram muito parecidas.

E eu? A mais séria e chata de todos. A que os chamava para o juízo e as responsabilidades. A mais metódica e neurótica com datas de entregas, tarefas e na divisão delas. Mais exótica que bonita, nunca fui o destaque do grupo.

Um dia, um aneurisma fulminante levou minha amiga. Na mesma velocidade que ela impunha á sua própria vida. Caminhando pelas calçadas de Santos, com um punhado de livros recém comprados num Sebo, ela morreu.

Foi uma coisa tão estúpida que demorou muito tempo pra notícia chegar até nós. Ela morreu num domingo de carnaval, entre um monte de turistas acidentais e, coberta de livros velhos de filosofia.

Com ela morreram os dias de cumplicidade, de defesa mútua, de admiração cega para atributos físicos. Morreram as madrugadas de papo-cabeça, as tiradas bem humoradas contadas no DCE.

Aneurisma. Fosse com outra pessoa, ela se apressaria em dizer: “Teve lógica. Um cérebro não pode suportar tanta exigência”. E isso, resume e justifica com precisão a sua morte.

Tinha vinte e quatro anos. Encrenqueira, feia, desengonçada e sarcástica. Crítica e saudável como um touro. E morreu carregando o peso de sua filosofia.

Nessa madrugada sonhei com ela mais uma vez. Ou recebi sua visita, sei lá. E, em meu sonho, ela me fez lembrar uma promessa que fizemos uma á outra: “Quem morrer primeiro conta a história da outra”. E, completava:

- “A sua, eu já escrevi e não deu nem uma página. Só não consegui ser muito precisa na data e nos horários, desculpa, ta?” Numa alusão á minha neurose de pontualidade. “Mas, a minha eu quero rica em detalhes, cheia de lição de moral e com liberdade poética”, disse um dia.

Jamais poderei cumprir a promessa. Não há poesia na morte prematura. Não há detalhes pra fatos definitivos e não há moral passiva de extrair da estupidez. Não aprendi absolutamente nada com a morte dela. Apenas perdi.

Até a saudade, esqueci.


* História romantizada, rabiscada e extraída dos porões dos meus escritos. Escrita originalmente com o título: “O dia em que meu superego morreu”, para a disciplina de psicopatologia no segundo ano da Faculdade de Psicologia. E, que me valeu o afeto e admiração, além de uma útil nota dez, do meu professor preferido.


- posted by Mara


Domingo, Janeiro 27

MUITO PRAZER...OUTRA VEZ!


Você conhece alguém que não tenha identidade? Falo de identidade mesmo, a numérica. Aquela que tem vários dígitos e que, no Brasil, resume você e sua vida, conhece alguém que não tenha?

O famoso “RG”, a meu ver, é um documento muito mais revelador do que supõe nosso governo pseudo-igualitário. É muito mais que não mais precisar andar com a cópia velha e amarelada folha de papel dobrada na carteira, que prova apenas que você nasceu e não o que você se tornou.

Mas, o Brasil é um país estranho. Tenho notícias que existem pessoas que ao morrerem idosos, não possuíam o tal documento “obrigatório”. Convenhamos, não ter documento de identidade fala muito mais do sujeito, do que tê-lo.

Demonstra que em nenhum momento, se fez parte de qualquer coisa minimamente social ou que nunca se preocupou em tornar-se um, entre as centenas de milhares de pessoas do mundo.

Significa também, é claro, estar sujeito á arcar nominalmente com as responsabilidades de suas ações. A possibilidade de ser identificado com precisão numérica até naquilo que não te convém.

Tem coisa mais contraditória? Para tornar-se indivíduo único, a pessoa deve antes tornar-se um número. É a eterna briga da lógica pela lógica.

Em outra esfera, a psicologia apregoa que a identidade é formada á partir dos modelos que temos na infância, na introjeção e na projeção que fazemos das figuras adultas que nos circundaram.

Com isso, o tornar-se alguém, é tão factual e irremediável que muita gente já aprendeu a justificar a si mesmo e aos outros através desse recurso. “Sou insensível porque minha mãe não me amou”. “Menino, você saiu igualzinho á seu pai!”

Aí então, surgiram as teorias psicossociais e destruíram os álibis de muita gente. E construíram outros tantos. Virou moda dizer que o bandido é o que é, porque a sociedade o privou. Que fulanano é agressivo porque se adaptou ao meio que fez parte a vida toda.

Nasci de uma família pobre, fui criada sem meu pai que faleceu meses depois que nasci. Estudei em escolas públicas, morei em bairros pobres de casas fornecidas pelo Sistema de Habitação, e usei roupas doadas de meus primos até a adolescência.

Passei minha infância fazendo tarefa escolar na cozinha das casas das patroas de minha mãe. Tive amigos que foram mortos antes dos quinze anos dentro dos muros da extinta FEBEM e perdi outros tantos, para as drogas.

Para então finalmente descobrir que, independente do lado que eu estivesse do muro social, haveria pobreza e delinqüência humana.

Por isso, não me venham falar de vida marcada pelo sofrimento. Da ausência de lágrimas pelo derramamento excessivo delas. Menos ainda que uma prova de resistência, no fim, não pode ser decidida pela sorte.

Fosse assim, muita gente jamais teria saído do esgoto que o caracteriza. E eu não seria obrigada a ensinar meu filho a identificar e discernir, nos ambientes que freqüenta, os bons dos maus.

Até quando devemos acreditar em contos de fadas, castelos e florestas, se nunca vimos e jamais iremos nos confrontar com eles? Ninguém nunca ousou contar o desenrolar dessas histórias depois do suspeito “foram felizes para sempre”. Porque será?

Na vida real, somos arrogantes e humildes. Pérfidos e caridosos. Loucos e comedidos. Não há como negar nossa identidade, ainda que ela nunca tenha se transformado em número. Não há como misturarmos nosso codinome ao nosso nome e criarmos uma sombra do que fomos.

Sempre haverá uma parte de nós facilmente identificável. Uma parte que não nos deixa dormir ou não deixa que os outros durmam em paz. Revelá-la é apenas um detalhe.

Uma migalha que atiramos aos predadores, na tentativa de desviar-lhes a atenção.

Tem muita gente com passado de pobreza nobre por aí, fazendo riqueza sobre as mazelas humanas. Colhendo louros e alardeando compaixões que não possuem. Fazendo vítimas e se autodenominando, justiceiros.

E, do mesmo modo, há as vítimas anteriores desses “paladinos” se tornando aprendizes e promissores reprodutores e/ou defensores desse tipo de gente.

Identidades são mutáveis, não importa o quanto se plastifique o documento, ou quão forte é a tinta que imprimiu seu dedão. Essa mobilidade é que nos dá o desconforto de sabermos que nem sempre nossos atos nos justificam ou vice versa.

Por outro lado, é o que deveria servir de alavanca para transmutarmos, aprendermos com os erros, reavaliarmos nosso espaço no mundo e aceitarmos que podemos mudar, mas pra melhor.

Tenho um misto de pena e medo de quem alardeia ser o que é e acabou. Tenho medo das reações que têm quando descobrem que nem todos gostam do que vêem ao olhá-los.

E pena de sabê-los tão definitivamente longe das delícias de serem amados simplesmente pelo que são e não pelo que pensam ser.

O mundo virtual é a porta de entrada e, também de saída, para o livre exercício da liberdade de ser o que bem entendermos. Mas, seria preciso muito mais que um codinome ou avatar para nos escondermos nas sombras do que somos ou fizemos.

Somos o que somos. Somos o que comemos, bebemos, falamos, fazemos e todo o resto é a conseqüência disso.

Na Net, somos o resultado de nossas andanças virtuais. Basta uma pequena busca, uma leitura mais atenta e nos deparamos com velhos conhecidos, antigos bons amigos e indesejáveis oponentes. Para desfrutarmos do prazer de bons reencontros e adoráveis renascimentos.

Quem dera, todos pudessem largar seus avatares e “nicks” na lixeira da vida. Quem dera, todos tivessem a chance de recomeçar e serem bem vindos justamente porque as marcas que trazem, ainda que imperceptíveis, nunca foram nocivas ou deixaram rastros de desagrados.

Muito bom sabê-los comigo. Melhor ainda, nunca tê-los realmente perdido. Mil vezes melhor é saber que meu coração, já tão escaldado, nem se importou em perguntar de onde vinha o perfume familiar ao vê-los chegar.

O que não tem preço, é saber que no fim, compartilhávamos de uma mesma identidade e que, isso, por mais que esperneiem jamais tirarão de nós.


* texto sem correções.


- posted by Mara


Sábado, Janeiro 26

DESDE O TEMPO...


EM QUE ELE ERA CAMELÔ!

Eu aqui, pernas pro ar, gelo e antiinflamatórios, olhar perdido na tela da TV. Oh! Dia, Oh! Azar.. Eu não merecia isso. Tédio! Tédio e mal humor. Uma bomba caseira de destruição em massa.

Foi quando ela entrou esbaforida, com as bochechas vermelhas, as mãos sujas de farinha segurando o celular agitando-o freneticamente:

- Eu ganhei! Eu ganhei um Celta 0 km. Está aqui Dona Mara, no celular..Ai Meu Deus do céu! Obrigado Senhor. Olha Mara.. olha!

A “Dona” Mara aqui, mal podia mover-se. O susto me fez saltar da poltrona, espalhou cubinhos de gelo quase derretidos pelo tapete da sala, alavancou o pobre Maxi que, dormia sossegado em meu colo, para um vôo rasante direto para o chão.

- Nossa, pare de gritar e me explique. Que Celta, que celular..que farinha mancha vermelha é essa na sua camiseta?

- É molho de tomate... D. Mara leia isso. Eu ganhei um carro num concurso do SBT.

- SBT? A do Silvio Santos? Ganhou do Baú da Felicidade?


Nice mora conosco desde o tempo em que o SS ainda usava aquele ridículo microfone preso entre as pontas da gola da camisa, acima da gravata. Faustão, naquela época devia estar no comando da madrugada e dando encima da Claudia Raia.

Sei lá se acertei na cronologia, mas que faz um tempão faz. Ela resolve tudo aqui em casa. Das pendengas com os entregadores de bebidas, passando pela organização de nossas gavetas, até agendamento de consultas, é ela quem resolve.

Aprendemos a conviver uma com a outra com uma regra básica: nunca, em hipótese nenhuma ela me interrompe quando estou escrevendo e eu jamais pergunto como foi que ela conseguiu quebrar o lustre da sala, sem nunca tê-lo limpado.

Depois de tantos anos ela ainda conserva o mesmo jeito reservado e discreto que tinha na entrevista que a submeti em seu primeiro dia de trabalho. Nunca, apesar de nossa insistência, sequer sentou-se no sofá da sala de visitas.

E, agora, lá estava ela. Esparramando-se sobre as almofadas, se abanando e com uma expressão de choque que esbugalhava seus olhos verdes.

Peguei o celular das mãos dela e li a tal mensagem. Dizia: O SBT – Sistema Brasileiro de Televisão tem o prazer de comunicar que esse celular foi contemplado no sorteio de Natal com um automóvel Celta 0 km. Maiores informações, favor ligar de um telefone fixo para o número xxxxxx.

Meu joelho voltou a doer. Não sabia o que seria pior. Saber de antemão que aquilo era um golpe, e dizer de uma vez, ou começar com alguma coisa do tipo: “o gato subiu no telhado”.

Concluí que não fazia a menor diferença. Nosso almoço hoje estava decididamente arruinado, com ou sem Celta.

Calmamente, peguei o telefone e liguei para o número descrito na mensagem. Um homem com uma voz exatamente igual a do Tiririca (juro por Deus) atendeu com aquele irritante tom treinado e educado das telefonistas de telemarketing.

Muitos “Pois não, Senhora” e “Claro, Senhora” depois, o fone-clone do Tiririca chegou aos finalmente. Ele sugeriu que a pobre coitada fizesse uma “doação” de trezentos reais ao Teleton (segundo ele, para efeito de imposto de renda) nos próximos 60 minutos.

Disse que ela poderia escolher entre o carro e o valor dele. Diante da escolha do carro, disse que mediante a comprovação da “doação”, o carro seria entregue em 24 horas.

Perguntei-lhe: Alguém já te disse que sua voz é igualzinha a do Tiririca?

- Como, Senhora?
- Tiririca. O palhaço, ou sei lá o que... Tiririca!
- Sim, Senhora. Já disseram. Mas, a Senhora prefere que depositemos o dinheiro em sua conta?



Foi quando achei melhor mantê-lo um pouco mais na linha enquanto ligava o gravador da minha secretária eletrônica. Fiz várias perguntas que ele respondeu prontamente, mostrando um preparo surpreendente.

Meu joelho lembrou-me de sua lesão e eu fiquei irritada:

- Sr. Tiririca. O senhor está falando com a filha de número 02 do Silvio Santos. Meu pai jamais iria permitir que uma doação fosse feita dessa maneira. Papai jamais daria um prêmio sem um carnê devidamente quitado e, menos ainda, um automóvel. Pior ainda, por telefone e sem nenhuma equipe de TV do SBT pra mostrar como ele é bonzinho, sacou?

- É uma brincadeira, Senhora?


Nem preciso dizer que rumo a conversa, digo, meu monólogo tomou nos dois segundos seguintes até que ele desligasse o telefone. Também é desnecessário descrever o tamanho da tristeza e decepção da minha empregada, agora em prantos.

Liguei para a filial do SBT e pedi pra falar com o Maurício Abravanel, sobrinho do homem e diretor da emissora aqui ( ou era, sei la!). Falei com a assessora dele e relatei o caso, orgulhosa de mim mesma.

Me senti como alguém que liga pra Casa Branca alertando que sentou ao lado do Bin Laden num vôo Iraque/NY.

E ela, com aquela voz educada e treinada de atendente de telemarketing, disse:

- ‘Senhora’, esse golpe é antigo. A polícia já investigou e não consegue rastrear os bandidos. A “Senhora” não forneceu nenhum numero de documento, não é?

Desliguei o telefone, vencida e irritada. Com o Tiririca, com minhas almofadas sujas de farinha, com a palavra “Senhora”, com a ingenuidade do povo brasileiro, com a incompetência da polícia e com o próprio Silvio Santos.

Talvez se o SBT fizesse um comunicado esclarecedor e o transmitisse nos intervalos do BBB, pessoas como a minha empregada teriam mais chances. Quem sabe assim, um golpe velho passaria a ser um golpe extinto.

Minha empregada, triste e eu, Tiririca da vida!

E, meu joelho continua doendo.


PS: Juro que, por mais que eu estivesse querendo matar o cara do outro lado da linha, eu não estava tentando ofende-lo dizendo que a voz dele era igual a do Tiririca. Bandido sim, Tiririca, ninguém merece. Nem o próprio.



- posted by Mara


Sexta-feira, Janeiro 25

UM AMOR ASSIM DELICADO...


"Não me canso de querer conquistar uma coisa qualquer em você. O que será? (Cazuza)

Ok. Vamos falar sobre essas cobranças que você vem me fazendo? Será que você não vê que não tive a intenção de te magoar? Que gosto de você e que não preciso estar cem por cento do meu tempo á seu lado pra provar isso?

Ah! Aquilo que eu disse? É isso que está te torturando? Fala sério, amiga. Falei aquilo para o seu bem, para que nunca mais termos que brigar por conta dessa bobagem. Amigos verdadeiros fazem isso, sabia? Falam o que os outros jamais teriam coragem de dizer, mas com amor, com carinho!

E por causa disso agora você está pensando que eu te bloqueei no MSN? Que não quero mais falar com você? Eu te cumprimentei. Você é quem não viu! Vamos parar com essa bobagem? Adoro você, miga...

Oi...você ainda está aí? Heloooowswww...fala comigo!!! Tá...você ta magoada, eu entendo. Mas quando quiser falar comigo é só me chamar, ta bom? Que saco! Parece criança!

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Duvido que alguém seja capaz de afirmar que nunca viveu uma situação como essa. Situação onde por mais que se explique o outro parece determinado a não acreditar. Onde a nossa verdade e intenção não significam coisa nenhuma.

Qual fio que se desencapa e provoca tal curto circuito numa conexão que até horas antes parecia estável e acima de qualquer desencontro? Será que vacilamos mesmo com pessoas que sinceramente gostamos e sem querer as tornamos alvos de nossa indiferença?

Descuidamos realmente de nossas obrigações como amigos? Sempre com a mesma pessoa? Ou fazemos isso com várias, mas só aquela que nos ama realmente é que se sente confiante e livre pra nos atentar para isso?

Bom, esse é o argumento dela não é? “- Se eu não gostasse tanto de você eu não cobraria. Mas sinto que estamos nos distanciando e não quero te perder para seu desinteresse ou para alguém que você acabou de conhecer”.

Cruzes! Pé de pato, mangalô três vezes! Vamos editar esse discurso?

A última vez que alguém me pediu a prova de um sentimento eu tinha uns quinze anos. E, se naquela época eu já disse um sonoro e definitivo “não”, imaginem agora. Claro que tudo tem seu preço, e até hoje não sei se eu deveria mesmo ter dito aquele não.

Mas, são as perdas e ganhos da vida. As opções que se apresentam lenta e alternadamente em nossas vidas e, de repente nos cobram uma decisão em cinco segundos. Não aceitam vacilo, questionamentos ou pedido de tempo.

Se for verdade que existem pessoas que parecem fadadas a se envolverem em relacionamentos assim, é também verdade que não há falta dos “carentes profissionais”. Do tipo que sempre nos acusarão de sermos relapsos, de abandoná-los ou de não termos tido a atitude que esperavam.

O “carente ou deprimido profissional” jamais se constrange em demonstrar seu sofrimento, já que julga não ser de sua competência eliminá-lo. O “outro” ou, o “alvo da vez” será sempre o responsável pela instalação e a possibilidade de remoção desse sentimento.

Mas, não se trata de encenação ou manipulação. É uma crença inabalável e, o simples questionamento disso, desencadeia nova crise de carência. O “carente” se vê num estado de desamparo contínuo e que ninguém parece compreender.

Cria laços profundos em segundos, para logo depois, decepcionar-se com ele. Assim, obtém a confirmação de que sua teoria de desamor estava correta. Parece doentio, e é. A carência abre brechas para vários processos neuróticos que a pessoa acaba por desenvolver no futuro.

A ignorância dos mecanismos que utiliza de boicote a si mesmo é o que o faz pensar estar sendo vitimado ininterruptamente. Não raro, vemos o carente ligado á pessoas que pouco ou nada têm em comum com ele.

O popular com o tímido, o destemido com o inseguro, o autoritário com o complacente são apenas alguns exemplos dessa dicotomia.

É como se na união com aquilo que é distante de si mesmo, o carente estivesse guardando um “Ás” que o justificaria no futuro, quando finalmente sofresse a decepção que sempre aposta que virá.

É quase sempre alguém que teve sua auto-imagem flagelada em algum momento. Em resposta, desenvolve esse mecanismo de servidão inconsciente esperando que outro lhe restitua o que lhe foi tomado: sua auto-estima.

Está permanentemente á espera de uma reparação por parte do mundo, de Deus e do destino. Acumula lembranças melhor que ninguém. Sabem detalhes, às vezes frases inteiras, que desenharam em sua mente aquilo que o magoou.

O carente é um chato. E um chato cruel. Que toma de nós nosso verdadeiro papel na relação com ele: o de vítima. Todos nós tivemos traumas e situações que nos marcaram negativamente. A partir disso, desenvolvemos nossas defesas e muito da visão que temos do mundo.

Dentro desses “ganhos” que obtivemos das experiências ruins, acumulamos também muitos comportamentos defensivos e uns cem números de valores morais. Concepções que nos norteiam em nossos relacionamentos.

O carente, em resumo, escolhe alguém para se afeiçoar e em dado momento deposita nele apenas o que de ruim aprendeu com suas experiências negativas. Atua como um aplicador de teste emocional, cujo resultado já é previsto por ele. Ninguém merece!

Não temos chance diante de uma pessoa assim. Nada do que fizermos ou pensarmos fazer irá contentá-lo. O que ele busca vai na contramão do que pede. Exige nossa cumplicidade total quando, na verdade, está sempre certo de que não seremos capazes de dá-la.

O carente está certo nisso. Jamais alguém estará á altura de suas necessidades. E quando vencemos um desafio de convivermos bem com eles, logo tratarão de criar outros tantos.

Afinal, só assim é que pode seguir sendo carente de alguma coisa ou de alguém. Sabe o que é pior? Ao ler, você deve estar pensando: “conheço alguém assim”, não é? Então saiba: para que existam “carentes profissionais”, é necessária a existência de algozes autoritários.

Você estar sendo, sem saber, o antagonista. O cara que não é carente, mas que também não conseguiria ser quem é, não tendo um deles por perto, dependendo totalmente de você.

E aí? O que você prefere? De que lado você está afinal? Posicione-se, ou logo vai encontrar alguém pra te provar que é incompetente como amigo. Agora, se a relação for apenas virtual, e estiver gerando tantos questionamentos experimente a tecla “Delete”.

Se não funcionar, monte um blog pra chamar de seu!



- posted by Mara


Quinta-feira, Janeiro 24

PORTUGUÊS??? ORA, POIS!

Outro dia, conversando com minha afilhada argentina de oito anos, eu tentava ensinar á ela algumas expressões intraduzíveis que usamos no Brasil. Munida de alguns livros e até gibis do Maurício de Souza, a tarefa até que começou bem.

Em dado momento, o Cascão disse pra Magali: - “Passo mal quando ando de avião”. A tradução dessa mesma frase em espanhol não leva mais que quatro palavras. Mas, pela carinha dela se podia perceber que minha explicação não foi satisfatória.

Como era de se esperar, ela pediu que eu traduzisse palavra por palavra. Tudo bem. Sei que não devo ter sido a única adulta, aqui ou em qualquer parte do mundo, que já teve que pensar em uma frase tão banal, de maneira tão sofrida só pra satisfazer uma criança sádica.

Tenho a impressão que as crianças antes de nascer assinam um contrato com uma clausura que diz: “Até os quinze anos, não facilite nada pra ninguém!”

Em minha simplista mente adulta, bastaria esfregar a mão na barriga fazendo uma careta, acompanhada da palavra “descompuesta” para que tudo ficasse claro como bílis.

Mas, não foi tão simples assim. Traduzir o “passar mal” é quase impossível. Temos que diferenciar do “passar” roupa e, se bobear, ter que explicar também por que as mulatas de penacho na cabeça sambando numa avenida são chamadas de “passistas”.

A coisa ficou ainda pior quando tentei explicar que ás vezes usamos a palavra “andar” para sintetizar tudo aquilo que se move. Que viajar, passear, mudar de um estado (que varia se é maiúsculo ou minúsculo) para outro, podia ser resumido num simples “andar”.

Morri de inveja quando ela, tentando me ajudar na tarefa de ajudá-la, perguntou quase afirmando: “volar!?”. Uma única palavrinha! Pois é, para que complicar se podemos simplificar, não é?

O português é a terceira língua ocidental mais falada, após o inglês e o espanhol. E, é também, nosso idioma oficial. Ainda que, nas ruas brasileiras, seja realmente difícil saber que idioma os brasileiros estão falando.

São tantos neologismos, gírias e palavras estrangeiras adaptadas e incorporadas em nossos diálogos que, o fato de cada parte do país ter suas próprias peculiaridades lingüísticas, tornou-se um mero detalhe.

Também, nosso sistema ortográfico não colabora. É um tal de trema cair e depois voltar, de “p” que era mudo se juntar com vogais e voltar a falar, que ninguém mais tem certeza de nada.

Os professores de português já nem se descabelam mais. Acho que estão aguardando a próxima reforma pra não “passarem” por mentirosos. E com isso, o tempo vai “passando” e a gente nunca sabe o que “passar” para a geração seguinte.

Falando nisso, dizem as más línguas (desculpem o trocadilho infame), que o país “passará” por uma reforma ortográfica importante esse ano. Isso, juro, me deixou “p” (falante) da vida. Olha aí, eu tendo que explicar tudinho outra vez pra minha afilhada.

Sem dramas. Parece que, pelo menos na maneira de escrever, as variações explicativas da frase do Cascão ficarão um pouco mais simples e universais. Ele poderá, por exemplo, “pegar seu vôo” sem se preocupar com o acento.

Explicar porque acento com “c” é diferente de assento com dois “esses”, é assunto pra eu me preocupar mais tarde.

O fato é que, até onde eu sei, sempre que encontrarmos duas vogais iguais juntinhas, estaremos livres de “circunflexiá-las” (hehe) e uma delas perderá seu característico “chapeuzinho”.

Tudo bem, eu sei que deve existir uma regrinha também pra explicar por que “chapéu” em seu tamanho natural tem acento e, quando diminuído, perde-o sem a menor explicação. Perde, não perde? Juro que não vou me preocupar com isso agora.

O fato é que o Cascão vai poder pegar seu vôo sem se preocupar com acento e sem chapéu que ninguém vai pensar que ele é português, angolano ou um dissidente de Guiné-Bissau. A reforma unifica todos nós.

Sei lá se isso é bom pras relações internacionais. “Lula” não tem acento e, se Deus quiser, também deixará o assento presidencial em breve.

Mas, as reformas não param por aí. O alfabeto aumentou. Vocês já reparam que tragédia sempre tem um coletivo e sua antítese nem sempre? Ninguém usa, por exemplo, “alfabetismo”. Já, analfabetismo, até meu “Word” aceita sem rabiscar embaixo.

Mas, o fato é que o alfabeto ganhou oficialmente o "K", o "Y" e o "W". Em contrapartida despediram o "h" que antecedia vogais com o mesmo som. Decretaram também o silêncio definitivo do "c" e do "p" que já eram mudos, pobrezinhos.

Alguns acentos agudos que acompanhavam os ditongos abertos, também dançaram. Caracas, alguém ainda lembra o que são ditongos abertos? Pois é, o fato é que o Lula não vai poder mais se ausentar de uma “assembléia”, por exemplo, alegando falta de acento (com c, com dois esses a desculpa não vai colar!).

A meu ver, o importante nesse Acordo Ortográfico é deixar bem claro que ele muda a grafia de certas palavras, a maneira como se escrevem, mas não altera a pronúncia de nenhuma delas.

Assim, não vale dizer que fala errado, porque aprendeu a escrever errado! E nem vale tremer de medo de errar na hora de escrever, porque a trema também caiu. Além disso, o presente indicativo alterado pelo Acordo, só vale para a terceira pessoa e no plural.

E antes que você fique hiper-nervoso porque seu corretor automaticamente colocou um hífen á revelia, saiba: Hífen agora não se usa mais quando a segunda palavra começar com “s”ou “r”.

Portanto guarde seus protestos “antireformas”para si, ok? Entretanto, pode seguir super-indignado, mas com hífen. Ou melhor, com “ífen” porque quando a primeira palavra termina com “r”, você tem que usá-lo.

Aí, segue o conselho que darei á minha afilhadinha na próxima vez que eu a encontrar:

- Mi amor, El Cascão (on) es muy chiquito. En unos años todo se habrá cambiado en la lengua de éll. Así, que no te preocupes”.

Ainda bem que o personagem do Maurício que ela menos gosta é o Cebolinha, senão eu estaria "peldida".




- posted by Mara


Quarta-feira, Janeiro 23

SUA INVEJA...


...FAZ A “SUA” FAMA!!!

Freud disse, jurou por Deus, que as mulheres têm inveja do pênis. Não de um pênis específico, do tipo que causaria inveja á qualquer um. Mas de qualquer pênis, desde que seja pênis e traga consigo o conceito de virilidade e superioridade que, dizem, lhe é peculiar.

Até que faz sentido, se pensarmos que a função primeira do tal órgão é despertar o desejo alheio. Daí a sentir inveja, é uma questão de tempo. E de oferta também, é claro. Embora eu ache que, inveja, não é bem o que o dono do dito cujo espera despertar.

Seria legal discorrer aqui sobre as teorias Freudianas e Lacanianas a respeito do tema, mas acho mais importante tentarmos identificar a origem da inveja e, com isso, quem sabe , até justificar os invejosos. Ou melhor, as invejosas, segundo Freud.

Feminina, a inveja é muito mais velha do que ela própria desejaria. Se ela pudesse escolher, certamente se apresentaria como uma jovem crítica e sagaz conhecedora do que é bom e do que é ruim... nos outros, é claro.

Mas, isso certamente causaria inveja, não é? E quem inveja sempre acha que também é invejado.

A inveja faz de seu portador um insistente sinalizador dos equívocos alheios, ainda que esses mesmos “equívocos”, quando deles mesmos ou de seus protegidos, tornem-se qualidades admiráveis.

Mas, graças a Deus ou ao Darwin, para tudo nessa vida, existe uma explicação mágica e outra científica. Mesmo que alguns insistam em colocá-las num só balaio, misturá-las e sair por aí espalhando- as com a chamada “sabedoria popular”.

A inveja, é claro, não fica de fora das conjecturas dessa tal sabedoria. Nela, a inveja pode ser um grande pecado, como também o sintoma de um distúrbio afetivo grave.

Mas, convenhamos, em qualquer uma das definições, o resumo é o mesmo: Inveja é mesmo uma merda! Isso sim é popular!

Na verdade, a inveja é um produto social e histórico, um sentimento herdado do capitalismo que se apóia na psicologia quando deseja ser entendida como desvio de comportamento e, na religião, quando se assume culpada e visa pleitear o perdão.

Mas, sob o ponto de vista de quem é vítima dela, isso tudo é desculpa esfarrapada. Para esses, a inveja é mesmo a arma do incompetente, do maledicente e dos infelizes

A inveja, para a vítima, obedece a 3 estágios de compreensão: Primeiro pensam que é crítica construtiva, depois ciúme e finalmente se rendem ao fato que é inveja da grossa mesmo. E, não vale confundí-la com outra coisa.

Cobiça e ciúmes não são mesmo, sinônimos entre si e menos ainda da inveja. Cobiçar riquezas e status dos outros ou enciumar-se porque não foi agraciado com eles, é fichinha se comparado ao monstro ciclope e canibal, que é a inveja.

Aliás, essa analogia “monstruosa” é bastante elucidativa. O invejoso enxerga fixamente com um só olho vesgo e, sempre na mesma direção. Obcecadamente não esquece uma vítima, ainda que vislumbre centenas de outras.

O invejoso é um meliante. Um ladrão intencional das qualidades que não possui. Ao mencionar com escárnio ou desdém das qualidades ou posses alheias, empenha uma cruzada para destruir quem as possui e para nos convencer de que não as deseja para si.

É uma atuação primitiva e, talvez por isso, obtusa. O sujeito não se dá conta que o sentimento ruim que exala, aliado á inveja, na maioria das vezes, nem arranha seu alvo e ironicamente destrói apenas ele mesmo.

A inveja é também péssima estrategista, e o invejoso, um ingênuo pretensioso. Muitas vezes, nem se percebe delatando a si mesmo no afã de expor suas idéias e valores e revela-se na insistência em que repete as várias versões do seu desdém por alguém, alguma coisa ou fato.

Ele bem que tenta, mas não consegue dissimular ou esconde-la por muito tempo. Ao mínimo sinal de riqueza material ou espiritual dos outros é o suficiente para despertar sua ira e destravar sua língua afiada. Ao fazê-lo, deseja desesperadamente desviar a atenção para si mesmo.

Essa vaidade pretensiosa é o que o impede de esconder o desprezo apenas porque não pode possuir.

Sei que é difícil, mas não se deixe enganar. Um elogio hoje, pode rapidamente transformar-se em uma crítica amanhã. Sabe como? Apareça, destaque-se mais que o invejoso. E, durma depois, com esse barulho.

Longe de ser um pobre coitado e humilde lamentador, o invejoso é antes, um exagerado fanfarrão. Adora falar de suas conquistas. Realiza-se quando se torna o centro das atenções, o que geralmente consegue ás custas das críticas que faz.

Então, cuidado! Perigoso, sedutor, egoísta e manipulador e um crítico mordaz cheio de clichês e valores morais. Todas essas qualidades tornam a inveja apenas um mecanismo, um detalhe utilizado para surrupiar de suas vítimas as qualidades que deseja inutilmente para si.

Seu juízo de valor é único, desde que pra si mesmo. O que faz parecer terrível no outro é vergonhosamente apresentado como virtude nele mesmo ou, em quem deseja enaltecer.

Já cruzei muitos seres assim. Já cruzamos, não é? E sempre me envergonho de não saber identificá-los imediatamente. Mas, geralmente, é mesmo difícil enxergar nos outros intenções que não estamos habituados a ter.

Um olhar mais atento, mais defendido pode ser útil nesses casos. A comparação do discurso do indivíduo ao longo do tempo também. É confuso, mas é verdade. Por trás de um invejoso há sempre uma alma pequena e atormentada que crê, por vaidade, merecer mais que os demais.

Há alguma esperança para os invejosos? Claro que sim. Levando em conta que, uma vez desmascarados, não farão duas vezes a mesma vítima, podemos esperar que um dia sua própria inveja o aniquile.

Porque a inveja não faz a fama de ninguém, a não ser a dos próprios invejosos. E, mesmo assim, acreditem: tem que a almeje.

Entretanto, sabemos que a fama tende atrair a atenção dos igualmente invejosos. Daí, nos resta esperar que comam uns aos outros. Nisso, garanto, ninguém irá invejá-los!
.

* texto editado posteriormente

- posted by Mara


Terça-feira, Janeiro 22

MESMO SEM PERCEBER...


ESTAMOS AQUI PRA ISSO!

Lembro de já ter dito á vocês que tenho hábitos muito rígidos. Que os cumpro sistematicamente como á um ritual de iniciação todas as manhãs. No término deles, o êxito define o bom andamento ou não do resto do dia.

Quem me conhece bem, sabe. Minha mente é ativa e desenfreada e se propõe a centenas de tarefas concomitantes. Então, se essa rotina, por um lado, é extremamente aflitiva, por outro, estabelece um pouco de ordem nesse caos frenético que não consigo evitar.

Hoje, com o texto pronto, cheguei para postá-lo e dar início oficial ao meu dia. Mas a sessão de comentários provocou uma guinada e evocou uma lembrança que me pareceu interessante dividir com vocês. Então, vamos lá.

Tenho percebido que, volta e meia, muitas pessoas se questionam sobre a necessidade de resignação diante dos desígnios da vida. Sorte, merecimento e até a morte tem sido o mote de muitos comentários na intimidade do halos.

Existe uma máxima que é imperativa quando se pretende ser psicólogo: “Nunca ignore o que os outros insistentemente te contam, ainda que eles mesmos estejam fazendo isso!”.

Entrelinha no discurso emocional, ao contrário do que muitos pensam, não é um mero insinuar, uma isca jogada pra quem for mais hábil para compreender. É, antes, um dizer sem palavras, sem intenção.

Eu havia prometido á mim mesma, não transformar o “halos” num consultório virtual. Não porque isso me incomodaria e, sim para fazê-lo ser o que é: uma sessão de comentários, sem estreitamento de análises ou, como muito se vê por aí, um campo para batalhas e maledicências.

Continuo no mesmo propósito. Ainda mais por conhecer a pressa e a soberba de muitos blogueiros em julgar profissionais de psicologia. Para sentirem-se mais capacitados e para convencer sua própria audiência, são enfáticos difamadores.

Tudo bem, comportamentos assim também estão previstos como nosso objeto de estudo. Embora, em alguns casos, isso nem seja necessário. O conteúdo de suas análises, por si só, já os enquadra em muitos desvios e perversidades que Freud tornou popular.

As fatalidades que enfrentamos no dia a dia, é uma das coisas mais paralisantes que existe.

Um argumento que não se pode derrubar, uma doença que não se pode evitar ou mesmo um acontecimento que nunca se tenha tido notícia que tivesse sido alterado. Isolada e esporadicamente até podemos suportá-los. Mas quando se juntam...

Desgraça pouco é bobagem, dizia minha avó. E, acredito, a sua também. E aprendemos a repetir esse dito popular até que o tornamos uma verdade intragável. Quando as coisas começam a dar erradas incrivelmente segue-se uma sucessão de outras igualmente equivocadas. O que raramente valorizamos, é que a antítese também obedece aos mesmos critérios.

Ainda era recém formada quando fui escolhida para atender o primeiro paciente inscrito no programa de estágios, como exemplo aos atendimentos futuros de meus colegas. Era um homem jovem, pai de três crianças e, pastor de uma igreja.

Casualmente ele se descobriu portador de linfoma- um tipo de câncer dos gânglios linfáticos. O prognóstico dessa enfermidade é sempre muito assustador.

Mais ainda, quando a crença do paciente o leva á convicção de que Deus o escolheu e que nada, nem ninguém poderia interferir no processo. Recusava-se a ter qualquer ajuda, fosse emocional ou médica.

Resignado, entregava-se á enfermidade sem se permitir uma chance, um alívio medicamentoso ou orientação de como retardar os efeitos complicadores da evolução da doença.

Estivemos juntos exatos dois anos. Os primeiros seis meses, totalmente contra a vontade dele. Nunca entendi a necessidade em contrariá-lo. Mas, lá estava eu, sendo também forçada a aprender academicamente a ser Deus.

Pra minha surpresa, em meu desejo inexperiente de ajudá-lo, fiz progressos até que significativos. Com minhas intervenções, em dado momento, ele aceitou fazer a quimioterapia e adotar hábitos mais saudáveis.

Mas, a doença seguia seu curso ainda mais rapidamente pelo retardar do início do tratamento. E, aos poucos, fui vendo-o murchar diante de meus olhos. Primeiro seus cabelos, o viço de sua pele, o brilho de seus olhos e finalmente sua fé.

Pouco mais que uma adolescente, sem nunca ter visto ninguém morrer, eu mesma vinha sendo tomada, sem perceber, pelo mesmo definhar. Ele, entretanto, nunca deixou de sorrir e, confesso, muitas vezes invertíamos de lugar e ele é quem me consolava.

Diante disso, vi minha confiança e meus propósitos cruamente questionados e já não me via mais como alguém capaz de ajudá-lo. Ir até o hospital diariamente tornou-se uma tortura e, chorar, quase uma obrigação.

Até que finalmente desisti. Pedi pra ser afastada do caso alegando incapacidade. Estava claro pra mim que ou eu não tinha mesmo vocação para aquilo, ou, aquilo era um embuste inventado pra “maquiar” o precário serviço hospitalar.

Totalmente segura de não querer fazer parte daquilo, só faltava comunicar á ele. Meus professores trataram de fazer disso mais uma aula para os demais, é claro. E, assim, com platéia eu teria que admitir que fracassei e que ele tinha razão em perder a fé.

Justamente naquele dia, os médicos anunciaram a morte eminente. Pega de surpresa, resolvi não falar com ele e deixar que minha ausência me denunciasse.

Meu telefone tocou as três da madrugada e a voz da enfermeira do outro lado da linha me disse naquele tom treinado: “- Mara, ele disse que não vai morrer enquanto você não vier!”.

Fui. E cheguei á tempo de ouvi-lo dizer: “De todas as dores que tenho sentido, a pior delas foi imaginar que não iria ter tempo pra te pedir que cuide de minha família, que a console como fez comigo”.

Custei a entender o quanto minha presença constante, minha incerteza compartilhada com ele, meus medos e minha sensação de impotência deram á ele exatamente o que ele precisava.

Ele não esperava milagres, nem paliativos e menos ainda piedade. Queria apenas seguir até o fim respeitando suas próprias crenças, mantendo seus conceitos de dignidade e princípios. Queria ser mais forte e mais poderoso que a morte. E, conseguiu.

Não, sem antes, praticar ainda que pela última vez, a vocação verdadeira de ajudar e ensinar o que ele próprio, com muitas dores, aprendeu. Naquele dia me tornei oficialmente psicóloga e aos poucos venho me tornando gente...



- posted by Mara


Segunda-feira, Janeiro 21

CHORANDO (,) SEM VERGONHA?


NEM PRECISA SE EXPLICAR!

Chorar dá samba, poesia, post e até raiva. Sou do tipo que chora por qualquer coisa. Pelo choro alheio e até pela ausência dele. Já vi lágrimas de todo tipo e origem. “Lágrimas de crocodilo”, então, nem conto mais.

Mas, acho uma injustiça com o bicho usá-lo pra definir tal comportamento. Nunca vi um crocodilo chorar. Choro desse tipo, então, nem quero! Suspeito que usaram o animal errado pra tal analogia. Ratos não seriam mais adequados?

Lágrimas artificiais, incontidas, de um olho só e, até as que contagiam todos os olhos que a vê. Quer saber? Acho as lágrimas sensacionais. Democráticas e funcionais. Multiuso e muito eficazes.

Chorar de rir é um barato. Sempre significa que a alegria te pegou desprevenida e deu um curto circuito em seus sensores emocionais. Chorar de saudade também. A mente recebe a lembrança de alguém ou alguma coisa querida, e o que fazemos? Choramos.

O choro é muito injustiçado. Todo mundo tenta evitá-lo, escondê-lo e até disfarçá-lo. Isso, pra não dizer dos que, covardemente, o usa. Os que fazem dele, instrumento de manipulação. É de chorar!

Se existe um desafio comum á todos os psicólogos, e também para quase todos os pacientes é esse: vencer o preconceito estabelecido sobre esse sintoma emocional. É. Eu disse sintoma.

Chorar, seja qual for a razão ou intenção, é sempre um sintoma. Do tipo em que se pode minimizar, mas fazê-lo não implica em extingui-lo. Se menosprezarmos a causa, ele voltará fortalecido e nos invadirá novamente.

Isso vale também para o choro dissimulado. Se funcionar uma vez, o sujeito irá repeti-lo sistematicamente, sempre á procura do reforço positivo que ele proporcionou. Afinal, aprendemos isso desde bebês.

Mas o que dizer daquele choro sentido que, ao vê-lo, imaginamos a trajetória feita por ele. Aquele choro que chega antes das lágrimas, antes do lamento, antes da dor. Que desfigura a face, que dispensa platéia e cala na alma?

Choro muito. Mas, poucas vezes chorei assim. E, em todas, a psicóloga que existe em mim, insistiu em fazer uma análise fria e cruel. A conclusão foi que, sem exceção, todos foram choros egoístas.

Chorei quando os olhos azuis de meu avô se fecharam para sempre. Quando vi minha irmã partir pra solidão de sua enfermidade. Quando meu filho nasceu e quando perdi meu primeiro paciente.

Lá estava eu pensando em como iria viver sem meu avô e sem minha irmã. Na alegria que era ser mãe e na derrota para a impotência diante das decisões divinas. Minha saudade, minha alegria e minha derrota. Só pra dar um exemplo.... meu!

Claro que podemos apelar para o velho clichê de que chorar lava os olhos, desafoga a alma e desopila o fígado. Mas, chorar é mesmo doído. E nossa dor será sempre maior que a do outro, pelo simples fato de não sermos capazes de “estar” no outro.

Faz algum tempo, escrevi um post que versava sobre o significado da palavra empatia. Esse tema é uma de minhas bandeiras. Discuto até chorar de indignação com quem ousa afirmar que somos realmente capazes de sentir no lugar do outro.

Quem insiste nisso, nunca viveu de perto o efeito colateral da dor: a solidão. A incrível ausência de companhia no dilacerar de uma dor física ou emocional. Quem está ao lado pode ser solidário, no máximo empático.

Mas o sofrimento é mesmo singular, pessoal e intransferível.

Lembram do crocodilo e de minha hipótese de que se equivocaram na escolha do animal? Olhem isso:

Em 2005, uma pesquisa divulgada pela revista Nature, revelou que camundongos machos atraem sexualmente as fêmeas com.... lágrimas! A grande surpresa foi a descoberta de feromônios nas lágrimas desses animais.

Feromônios são substâncias segregadas pelo organismo que, servem de “sinalizadores” entre seres de uma mesma espécie, da disponibilidade para procriação. Em outras palavras, “pode vir, que rola!”.

O que não se sabe ao certo é se um camundongo chora pelos mesmos motivos que os seres humanos. No estudo, as secreções foram provocadas pela necessidade básica que os camundongos têm de manter os olhos úmidos. Familiar isso, não é?

Diante da possível polêmica que a comparação inevitável entre homens e ratos e lágrimas e sexo, pudesse causar, os cientistas se apressaram em afirmar que acham pouco provável que espécimes humanos tenham feromônios em suas lágrimas.

Pois é. Lágrima não é mesmo lugar para sinalizadores sexuais. Isso é mesmo coisa pra ratos! Será?

Dizem que as mulheres são as campeãs na produção de lágrimas, mas, apoiando nos resultados da pesquisa acima, o que isso quer realmente dizer? Que somos mais libidinosas?

Não sei vocês, mas talvez por questões sexistas inerentes á minha natureza, sou muito mais sensível á um choro masculino. Ao presenciá-lo, não consigo evitar pensar nos séculos de empenho e aprendizado deles para tornarem-se fortes e poderosos.

Tudo destruído com uma simples excreção fisiológica e um nariz vermelho. Vejo os faraós, os reis, ditadores, generais, e até os agressores sexuais, escorrendo pela face masculina do chorão.

Como sou mãe de um homem, choro também. Choro, compadecida. Choro, por lamentação lateral. E todo mundo acha normal. Á meu filho ensinei chorar na mesma medida que ri. Aberta e escancaradamente.

Se ele aprendeu, não sei. Mas, ensiná-lo me custaram muitas lágrimas.

Do momento em que o vi nascer, passando pelo dia em que saiu sozinho em seu primeiro acampamento e até o dia de hoje, enquanto escrevo esse texto e agradeço por tê-lo ao meu lado, dando-me muitos motivos pra chorar....de alegria!



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Domingo, Janeiro 20

NA MINHA CASA...


...OU NA SUA???

Vamos tomar um cafezinho qualquer dia? Parece promessa vazia, mas não é. Parece um convite e também não é. É um código, um artifício universal usado com freqüência. Nem precisa ser realizado, mas é imprescindível que seja, ao menos, insinuado.

Antes: uma cervejinha. Depois, um cafezinho, é claro. São os dois estágios de uma promissora amizade. Funciona mais ou menos assim: Na “cervejinha” a idéia é animação, conversa jogada fora, riso solto, azaração e sondagem. Racha-se a conta.

Já no cafezinho, prepare-se. Senta, que lá vem o começo da intimidade. É o pacto de uma conversa á dois, no máximo três. Possibilidade de confidência, de ouvido atento, olho no olho. Vacilou, vem a promessa: “o próximo quem paga sou eu”.

Minha família é mineira. Café, lá em casa, costuma ser qualquer coisa, inclusive café mesmo. Visita inesperada, velhos amigos, madrugada acordada, tudo acaba em café.

No passado, o namorado ser convidado pra um cafezinho, já expressava a preocupação da D. Tereza em saber mais sobre o moçoilo que estava muito freqüente na vida de uma de suas filhas.

Hoje, é manobra pra nos impedir de sair: “Vou passar um cafezinho, fica mais um pouco”, ou, “Já? Mas nem fiz o café”. Aliás, ninguém faz café como a minha mãe! Parecido, mas igual? Nunca tomei.

Tem gente que pensa que café é tudo igual. Tenho dó. É o mesmo que dizer que sexo é sexo. Reducionismo de inexperientes ou de falsos apreciadores. O verdadeiro consumidor de ambos, sempre terá na ponta da língua (desculpem a analogia) a maneira que mais lhe agrada.

Café tem um gosto horrível. Por isso muita gente coloca leite e outros, menos confessos, apenas a “espuminha’. As cafeterias se especializaram em inventar centenas de modos de preparo para atender aos que ainda não acharam um café que lhes agrade.

O fato é que não importa o quanto se diga que não gosta de café. Um dia você vai tomar pelo menos um. Se é que já não tomou. E não adianta vir com esse papo de que é porque o café é o maior produto brasileiro.

Conheço gente que venderia a própria mãe por um cafezinho. Mãe, talvez não, já que ela é quem sempre faz o melhor café, mas na falta de alguém... Eu, por exemplo, já alardeei: Se um dia proibirem, vão me encontrar nos becos, no morro, comprando o tal pó, ilegalmente.

Imaginem as manchetes: “Psicóloga presa por porte ilegal de café”.

A verdade é que o hábito de tomar café pode até não ser universal, mas o “cafezinho”, dito assim como a intenção do diminutivo, é compreendido e um sinal de hospitalidade, do desejo de compartilhar e estar mais próximo de alguém.

Claro que eu vivo sem café, mas se for pra garantir que me farão um, nem me acanho em me declarar viciada. Não tem nada a ver com cigarro, com a cafeína ou com os recentes benefícios anunciados da bebida.

Talvez tenha a ver um pouquinho com o fato de eu não beber nada alcoólico e isso me transformar quase numa alienígena social. Daí que um cafezinho é sempre uma alternativa para não parecer tão sem vícios. Política da grossa.

Depois que virou hábito oferecer café pra quem aparece aqui no blog, andei pesquisando pra ver se encontrava o momento histórico exato em que café virou sinônimo de “encontro”.

Não descobri nada além de lendas e muita teoria sobre benefícios e malefícios. Mas, fiz uma descoberta que corrobora minha teoria de que o hábito de tomar ou convidar alguém para um cafezinho, diz muito mais de nós do que se imagina.

Conta a lenda que há mais de 1300 anos, na hoje, Etiópia, um jovem pastor árabe observou que suas cabras ficavam de uma forma estranha, correndo e dando saltos como loucas, logo depois de comer e saborear arbustos parecidos com loureiros preenchidos de frutos vermelhos.

O fato continuou por alguns dias e nas noites todo o rebanho parecia haver perdido o sono. As cabras perseguiam umas às outras e não deixavam de dançar sob a luz da lua.

O pastor, intrigado pelo que ocorria, levou mostras de folhas e frutos a um monastério, onde os monges por curiosidade puseram os grãos a cozinhar. Ao provar a bebida, acharam o sabor tão ruim que a jogaram na fogueira onde estava sendo aquecido o recipiente. (aff!)

Porém os grãos, à medida que queimavam, desprendiam um agradável aroma que foi invadindo o lugar. Pensaram então em voltar a preparar uma bebida com os grãos tostados e, fascinados com o resultado, o abade do monastério lhe deu o nome de "kaaba", que em árabe quer dizer "pedra preciosa de cor café”.

À meia-noite, segundo conta a lenda, o encarregado de despertar os monges para a reza os fez beber algumas gotas do maravilhoso elixir e pela primeira vez entre eles as orações não foram em voz suave, mas levadas com grande entusiasmo e alegria.

Desde então, o costume se fez norma e a cada dia, na hora da reza, os monges tomavam uma taça de Kaaba, bebida fumegante e perfumada, que segundo eles havia sido enviada por Alá para ajudar-lhes no cumprimento de seus deveres.

O segredo da bebida e suas virtudes foram guardados durante cerca de mil anos. Fizeram deste fruto e de sua bebida um motivo de atração para os viajantes. Além disso, o café tornou-se para eles um elemento estratégico durante as noites em que se preparavam para as batalhas.




P.S: Essa é uma lenda e qualquer livre analogia, será de inteira responsabilidade de quem a fizer. Assim como, qualquer semelhança é mera coincidência.


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Sábado, Janeiro 19

SEGUINDO O LÍDER...


...ADIVINHA QUEM PAGA O PATO?

Ontem fiz uma daquelas incursões pela Net. Dessas em que não estamos buscando nada específico, mas sempre encontramos. Era pra ser apenas um navegar tranqüilo. Mas, o que vi quase boicota a decisão de tentar fazer meu corpo e minha mente comungarem em repouso absoluto.

Outra vez me vi pensando no que leva as pessoas a se aglomerarem diante de porcarias mal escritas e tão obvia e egocentricamente manipuladas, em detrimento de outras que poderiam, de fato, acrescentar-lhes alguma coisa.

Me dei conta de que a fórmula pra que textos assim ganhem a atenção da massa é muito simples. O que não quer dizer, é claro, que seja uma tarefa fácil. Persuadir os outros á ponto de produzir seguidores é, antes, uma habilidade que se desenvolve a partir de muita perseverança e habilidade.

Não é a toa que a história imortalizou vários desses persistentes egocêntricos. Nós, pobres mortais, contribuímos para que se tornassem personalidades, independente de seus feitos terem ou não sidos benéficos.

Não sei vocês, mas eu não deixo de me surpreender não só com a habilidade dessas pessoas, mas também com a falta dos demais para identificar a verdadeira face por trás desses discursos eloqüentes.

Como alguém, ao se dar conta de que seus feitos e sua personalidade tornaram-no popular por suas atitudes vis e nojentas, consegue seguir repetindo-os? Como outros, vêem isso e se submetem?

Acreditem: há pessoas que não só conseguem como também, empenham o resto de seus dias na tarefa de conservar o status adquirido. Não se enganem: Onde se aglomeram dois ou mais em torno de um só pensamento, ali já está sendo delineado o perfil de um líder.

O problema é que nem sempre é possível conhecer o caráter desse líder antes de estarmos completamente aprisionados por seus métodos, sua capacidade de convencimento e suas verdadeiras ambições.

A palavra é um dom poderosíssimo. Não precisa ser rebuscada ou cheia de técnicas estudadas. Ao contrário, quanto mais coloquial e popular ela for, mais alcance terá. Não raro, o discurso dessas pessoas é: do povo para o povo.

E, o passo seguinte é desprezar toda forma e sentido de quem o ameaça. Se letrados, atacam os incultos. Se ignorantes, o alvo de suas críticas serão os que com teorias acadêmicas se dedicaram a combatê-los.

Todo argumento, por mais contraditório que possa ser, visa obcecadamente atender a necessidade primeira de ser seguido, lido, ouvido e aprovado. Assim se formam exércitos, quadrilhas e até fanáticos religiosos.

E é frente desses grupos quem estão? Os líderes. Que na contramão do que se imagina, nem sempre são adeptos da exposição pessoal, ou deixam que sua vaidade os coloque em evidência nociva a si mesmos.

Entre os seus, clamam por aplausos e demonstrações de afeto. Mas, se acovardam diante dos inimigos, ocultam sua imagem, evitam qualquer ação que possa colocar á eles e seu “poder” em risco.

São generais raivosos e destemidos quando vêem ou pressentem a presença de seu poderoso exército. Mas, ratos apavorados quando sozinhos ou entre os que não comungam ou não foram dissuadidos por suas convicções.

Hitler, Margaret Thatcher, George W. Bush e Bill Clinton, Albert Einstein e Sigmund Freud. Pacifistas como Mahatma Gandhi, Nelson Mandela e João Paulo II. E, até o Reverendo Moon. O que têm em comum?

Entre suas ambições estava o inequívoco desejo de influenciar a mente das pessoas para que acreditassem, seguissem e disseminassem suas idéias e convicções. O método? Apresentar múltipla e exaustivamente versões de um mesmo conceito.

Descobriram, cada um a seu modo, que fundamental é que tudo seja exposto de forma sistemática e com uma argumentação variada e envolvente. Não rejeitam a necessidade de opositores e de uma boa briga. Souberam usar a lógica geral de maneira que essa se confundiu com as que tinham.

São mentes articuladas, com muita consciência do perfil de seus seguidores. Mas, para tornar-se um líder (para o bem ou para o mau) é necessário acumular qualidades e defeitos que apontem sistematicamente para mesma direção. E, saber eleger seus adversários com a mesma meticulosidade que a seus seguidores.

Ser um observador atento, um aglutinador se tudo que possa ser relevante pra sua argumentação. Ser um bom contador de histórias capaz de seduzir sua audiência para que acreditem estarem ganhando alguma coisa. Geralmente apelam para valores sociais e crenças.

Histórias simples e bem conduzidas, mesmo quando usadas com propósitos horrendos, também funcionam. Foi assim com Hitler e, mais recentemente, com Osama Bin Laden. Pessoas assim convencem seus seguidores a lutar até a morte, e só perdem popularidade quando são derrotados.

É mais fácil convencer as pessoas quando estão cercados por iguais que pensam diferente. Entre os que passaram por uma experiência difícil e que tendem a vê-los como personalidades luminosas.

Com tanto poder e com ambiente tão propício, quem os ameaçaria então?

Os que cultivam idéia própria e que defendem em público seus pontos de vista ou, os que se envolvem emocionalmente á ponto de criarem juízos de valores próprios. São em menor número, mas existem.

Ao se libertarem, tornam-se opositores ferrenhos e seriam ótimos exterminadores do mau, não fosse o fato de alguns, terem sido tão bons seguidores e aprendizes, que não resistem e criam um novo exército para liderarem.

Meu único consolo é pensar que todos os líderes maus que a história nos legou, foram mortos ou pela força do povo ou por si mesmos. E os que persistiram estão fadados a viverem o resto de seus dias escondidos em buracos, de onde nunca deveriam ter saído.



- posted by Mara


Sexta-feira, Janeiro 18

EFEITO BORBOLETA?


Sabe aquelas perguntas que um minuto depois de serem feitas, rápido como um raio, nos ocorre outra do tipo: “Ai, meu Deus, o que fui fazer?”

Pois é, depois de um convívio ininterrupto com a Semiotímica - comentarista desse blog (eu disse: comentarista- que fique bem claro!), perguntei á ela antes de ir dormir: Tem alguma sugestão para o post de amanhã?

A resposta dela me lembrou uma velha brincadeira que eu faço sobre a minha profissão. Costumo dizer que psicólogo não pode perguntar como as pessoas estão passando, porque elas respondem. Respondem longamente e com riqueza de detalhes.

Pega daí, que a dita cuja respondeu: "Ah! Sabe o que seria bacana? Falar sobre transformações. Mudanças das quais estamos sujeitos, mas, que não podem ser consideradas como regras, uma vez que nem todos mudam. Aliás, a literatura e a.. bla, bla, bla" e, segui-se muitos outros “blas”, noite á dentro.

Depois do extenso monólogo pensei: Caracas! Criei um monstro aproveitador. Olha o que escrever um simples post fez á essa criatura! Tá “se achando”, essa gatuna de espaços alheios. Da próxima vez que precisar me ausentar, colo uma notícia do site do BBB. (desculpem, não resisti!)

Mas, conclui que o tema era mesmo muito pertinente e reunia em si muito do que vivemos juntas nas ultimas vinte e quatro horas. Entre sorvetes e doces, muitas bobagens e riso solto preencheram o dia.

À noite, cansadas e satisfeitas, seguimos conversando através do computador embora separadas apenas pela distância de um cômodo. Ainda assim, fomos dormir sem dar sentido e fim à maioria dos temas discutidos ao longo do dia. E minha mente seguia pensando no tema sugerido por ela.

Mas, claro, respeitando meu cansaço, pensava nele sem a seriedade e a profundidade que ela pretendia imprimir. Ao acordar hoje, talvez, ela se decepcione ao ler esse texto e ver para onde minha mente levou o tema capcioso e profundo que ela idealizou.

O fato é que me lembrei que no quesito transformação, esse blog é campeão. Essa que vos escreve, então, é recordista, graças a Deus! Adoro mudanças de todos os tipos e natureza.

Sinto-me nômade e descompromissada com a maioria das coisas que a maioria considera imutável. Mágoas, trajetos e até projetos de futuro, pra mim, nunca são definitivos por mais de, no máximo, vinte e quatro horas.

Detesto clichês e mais ainda de adjetivos que se tornam sinônimos. Adoro a possibilidade de metamorfose bem antes de gostar do Raul Seixas. E, apesar de apreciá-lo e á suas músicas, não tenho nenhuma simpatia pelo Paulo Coelho.

Deu pra entender? Dessas contradições é que extraio a justificativa por ter me envolvido em projetos dos quais me arrependerei para todo o sempre e, ainda que esse “sempre”, dure até eu me ver novamente metida numa empreitada semelhante.

Isso causa estranheza na maioria das pessoas e faz com que me julguem como alguém inconstante e, algumas vezes, incoerente. Nessas situações, me divirto mais ainda ao vê-las surpresas por eu aceitar essa avaliação crítica sem contestar.

Mesmo, ou principalmente, os que alardeiam que me conhecem, que sabem o que quero e á que vim, em algum momento se sentirão aturdidos pelas guinadas que costumo dar sem prévio aviso. Não poderia ser diferente. Até eu me surpreendo.

Fui uma adolescente magricela. Mas, já nessa época mostrava muitos indícios da brasilidade que estava tatuada em mim. Bastava olhar pra mim e já se podia supor a antecedência bugra e tipicamente tupiniquim.

Eu precisaria apenas de alguns anos e um pouco de esporte. Tive sobras dos dois na fase em que lá em casa, éramos solteiras e minhas irmãs se encarregavam de me cobrir de mimos.

Assim, num belo dia, amanheci mulher. De corpo, porque minha alma teimava em se manter criança e meio moleque. Mas, o fato é que ao contrário de minhas amigas, aos doze, treze anos eu já não mais merecia o título de criança.

Enquanto isso, eu queria ter unhas e cabelos curtos para jogar vôlei, abominando qualquer coisa que evidenciasse as mudanças que o tempo havia provocado em meu corpo.

Minhas amigas se estapeavam por uma “Melissinha”, e eu por uma bola e joelheiras. Amavam a cor rosa e eu não a suporto até hoje. E em seus armários pregavam fotos do Lauro Corona, enquanto eu tinha um pôster da seleção brasileira de vôlei feminino.

Hoje, tudo isso ficou no passado e admito até ser chamada de “perua”, apesar de achar que esse adjetivo sozinho, não traduz meu excessivo apreço por coisas extravagantes e femininas.

Mas, revendo alguns cacarecos que mantenho guardado, encontrei escrito em num canto de um caderno que usei em minha especialização, uma boa definição dessas transformações que me foi sugerida como tema.

Pela grafia esculachada e a força impressa na tinta da caneta, as linhas escritas no velho caderno devem ter surgido numa tediosa aula fisiologia. Um desabafo silencioso, sem primeira pessoa e sem assinatura. Em algum lugar do passado, escrevi:


“Aos quinze, diziam: Nossa! Aos vinte será uma gata.
Aos vinte disseram: Nossa! Aos vinte sete, vinte oito anos, será um mulherão!
Aos vinte e oito, ainda repetiam: Nossa! Aos trinta, estará no ponto exato!
E, finalmente, aos trinta dirão: Nossa! Aos quinze dever ter sido uma gata!”


Transformações...sem tê-las, como sabê-las?

*texto sem correção!





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Quinta-feira, Janeiro 17

QUANDO O DONO SAI...


ADIVINHA QUEM FAZ A FESTA?

SEMIO: do grego semeion, signo, significado, sentido

TÍMICA: a partir do grego timia, tensão causada pelas paixões, aquela que vive um estado tensivo.

Em tradução livre e irresponsável: aquela que entende ou dá significado para as coisas de acordo com as paixões (estados de alma) que a dominam. Ou seja, eu e todo mundo,hehehehehe!

INSIGHTS QUE LATEM

By Semio, é claro!


Num dia desses qualquer, qualquer mesmo porque não tinha nada de especial, acordei cedo, tomei meu café e saí para passear com a minha filha, na época, um bebê de poucos meses.

O dia estava lindo, bom para conversar, para trocar impressões sobre a qualidade das cores, o diz-que-me-diz das maritacas, o perfilado das palmeiras na avenida, enfim, tudo normal, tudo azul.

Lembro-me bem que nesse dia a minha pequena estava com uma roupinha bem fresca e com um chapéu colorido maravilhoso, cheio de flores e borboletas.

No caminho, uma ou outra senhora, provavelmente voltando da padaria, nos parava e ficava filosofando sobre o tempo, o preço do pão, o último assalto à farmácia, etc. O bichinho dentro do carrinho impacientava-se e com os pés indicava que hora de ir.

Dobramos a esquina e mais que imediatamente me lembrei do dobermann que me esperava toda manhã na grade do jardim. Resolvi que era chegada a hora da vingança. Disse para minha filha: “Hoje ele vai aprender a me respeitar”.

Com certeza, ela me entendeu e me olhou aprovando-me. Esgueirei-me pelo muro como uma lagartixa e fiquei observando-o. Ele ali a meio metro de mim, relaxado, tentando comer uma mosca que o importunava, bocejando, estirando-se no sol cálido da manhã, ninguém na rua, lá adiante os carros passavam, silêncio com cheiro de leite morno

Armei o bote, dei um imenso pulo e um berro assustador - eu me assustei - o cachorro deu uma cambalhota no ar, ganiu e saiu em disparada pelo quintal, mas ao me reconhecer arreganhou os beiços e ficou lá do fundo me espreitando. Depois de uns segundos, levantou a cabeça, estufou o peito e se foi lá para os fundos.

Fui-me embora triunfante, ria sem parar da situação e imaginava alguém me vendo, julgando-me louca. Lá pelas dez horas, com o sol já quente, resolvi que era de voltar pra casa.

Fui pela rua de baixo para evitar outro confronto e ali estava ele, na rua, levando seu dono pra passear, soberano, passou por mim como se não me conhecesse, sequer fez menção de me cheirar, podia jurar que ia com um sorriso nas fuças.

Cheguei em casa, coloquei minha bebéia no berço e sentei-me em frente a um texto dificílimo de ler, entender, traduzir, deglutir etc. e a cabeça erguida, o peito estufado e sorriso desdenhoso não me saiam da cabeça.

Aquele cão dos infernos, Cérbero moderno tinha me sacaneado! Parecia dizer: “Sua ridícula, eu não tive de deixar de ser cão para mostrar o quanto você é humana!”



* Este post é de inteira responsabilidade de quem o assina! Ai Meu Deus!....


- posted by Mara


Quarta-feira, Janeiro 16

BLOG CRIATIVO?


VAI SONHANDO!

Perdi o sono. Bom, a verdade é que ele se perdeu sem minha ajuda mesmo. E deve estar até agora vagando solitário por aí. Tudo bem que noites insones sempre foram bem vindas pra mim, já que sempre foram mais criativas que meus dias, mas isso já está passando do limite.

Eu ainda vou descobrir, se o pouco sono é que me faz criativa ou, o contrário. Mas, é que isso nunca foi importante. Sobretudo, quando a casa está em silêncio. Estando acordada, um dos dois fatalmente se fará presente.

Criatividade, aliás, é uma coisa meio sem definição. Outro dia me perguntaram como escolho os temas que escrevo. Fiquei muda de surpresa. Como eu não tinha pensado nisso antes?

Sei lá o que me leva a decidir a escrever sobre um tema em detrimento de outros. Nesse exato momento, não tenho a mínima idéia de até onde essas linhas me levarão. E, como já puderam perceber, nem sempre é fácil também saber como pará-las.

A única certeza que quero é a de que meus textos não são psicografados. Na calada da noite, essa hipótese pode ser bastante assustadora. Pega daí que prefiro pensar que meus dedos seguem livres sobre o teclado. Muito mais poético e confortavelmente menos sobrenatural.

“Como” escrever pode até ser estilo, mas “o que” escrever, é muito particular. E, em muitos casos, nem é questão de originalidade e sim de oportunidade. Isso, pra não mencionar a capacidade. São muitos “ades” pra quem não tem personalidade.

Conheço gente que segue a linha do pensamento corrente. Uma voltinha pelos comentários, um “pit stop” no mais inteligente, uma olhadela nos de quem consideram sensatos ou que querem simplesmente contrariar e, pronto: temos um post novinho de tempos em tempos.

E é mesmo preciso tempo pra isso. Há outros que fazem o tipo “desabafo”, e o tipo “confidência”. No post seguinte se retratam, mas, quase ninguém percebe a contradição. Ah! E tem até os que não escrevem simplesmente nada. E, claro, os que escrevem e é a mesma coisa que nada.

Mas, graças a Deus, a Net é enorme e imita a vida. Há dias de muita euforia e outros em que se pensa até em fazer um anúncio do blog no Google. Não faltam nem os que digam que escrevem pra si mesmos, que não ligam se ninguém ler.

Pode ser verdade. Quem sou eu pra duvidar? Com a mesma ênfase, do outro lado, estão os são capazes de qualquer coisa para atrair o maior número possível de comentaristas, ainda que seja pra trocar receitas num post sobre física quântica.

Uma coisa bacana de escrever num blog e ter um número seleto de comentaristas freqüentes é reconhecê-los pela qualidade do que escrevem. Melhor ainda é ler que o que foi escrito foi além da distração e promoveu algum tipo de informação.

Isso, realmente não tem preço. Quer dizer, teria. Mas, somos generosos e ainda não vi ninguém cobrando por uma vaga na moita. Aqui, por exemplo, são muito bem vindos.

Voltemos ao assunto principal: o confronto “falta de sono” versus “criatividade”. O duelo entre esses dois é o que justifica eu estar escrevendo á essa hora. É chegado o momento de assumir: Nessa madrugada perdi a ambos.

Antes de decidir escrever, fiz o que pude pra resgatar ao menos um dos dois. Procurei embaixo da cama e me arrependi. Posso jurar que vi, na escuridão absoluta do quarto, uma poeirinha que quase desencadeia em mim um comportamento inadequado: varrê-la.

Faxina de madrugada, ninguém merece. E, no meu caso, isso seria considerado um surto e, dos irremediáveis. Liberei minha mente da hipotética poeira e resolvi deixá-la vagar por minha, sempre “ligada”, amiga internet.

Digitei a palavra “criatividade” no Google e, pra minha surpresa, descobri que ele também tem dúvidas a respeito. A primeira opção que ele me ofereceu foi em negrito (ou seria, azulhito?) e dizia: “Criatividade! - O que é criatividade?”.

Concluí que essa era uma questão de tirar o sono até mesmo do “sabedor de todas as coisas, o pai de quase todos – o Google. Menos mal, pensei. Além de não ser a única, ainda dividia minha ignorância com “cara” da internet.

Mas, pra minha sorte, ele enrola, mas não falha. Logo depois, encontrei umas definições inspiradoras sobre a blogosfera que coincidiam com as minhas. Então, como diz o ditado: a ocasião faz o ladrão. E a ocasião pedia e, muito.


Daí, deixe-me levar pela circunstância e eis o fruto da minha contravenção:

“... - Blog “diarinho-de-adolescente”: que se auto-reconstrói: pela ação sistemática de hackers raivosos ele sempre sofre desconfiguração - mas o HTML automaticamente é recomposto e, voilà, eis o template com unicorniozinhos fúcsia, vivo de novo!

- Blog que atravessa templates: que transpõe as paredes de blogs especialistas em links, enxerga as novidades e dá as dicas muito antes, furando todo mundo.

- Blog invisível: o dono aparece em tudo que é caixa de comentários, mas o blog dele mesmo ninguém vê.

- Blog voador: voa de um domínio a outro, troca tanto de endereço que a presença dele nos blogrolls dos amigos está sempre desatualizada.

- Blog osmótico: temeroso de perder leitores, vai absorvendo as características desses blogs juntos aí para ver se segura todas as audiências e se seu contador de visitas continua registrando números de três dígitos.

- Blog Vilão: aquele (cujo dono) calejado por mais que tente e experimente não consegue virar blogueiro. Então sai visitando tudo que é dono de blog, com um criterioso modus operandi: se senta para bater papo e de repente aponta a janela, gritando “olha o top 50 da blogosfera ali!” – quando o blogueiro se vira afoito ele imobiliza a vítima e calmamente abre seu crânio, para absorver na marra as manhas.” Postado por Nelson Moraes em 14/08/2007


Volto pra cama realizada e com um pouco de inveja. Tem gente que não perde nunca essa tal de criatividade, mas quando perde, sempre tem alguém como eu que, numa noite insone, acha, adapta e reproduz.

Com o sono encontrado (estava encolhido e escondido na poeirinha embaixo da cama), e quase seduzida por ele, tive um insight final: criatividade é isso, enfim!

Afinal, nada se cria, tudo se copia, mas , fazer isso parecer legal é mesmo um exercício exaustivo de criatividade. Dá até sono!



- posted by Mara


Terça-feira, Janeiro 15

QUEM SABE FAZ A HORA...


...NÃO ESPERA ACONTECER!

Vamos fazer as contas: são quatro anos do primário, quatro do secundário e mais três no colegial. Onze anos dos quinze sonhados pelos pais mais exigentes. Soma-se á eles um ano, no mínimo, de cursinho e, talvez, seis meses perdidos num vestibular precipitado.

Tem quem trocou o secundário pela Escola Normal e tornou-se professor. Não. Não vou questionar a não-normalidade dos demais cursos. Mas juro que isso existiu. Ah! O colegial era dividido e oferecido em três diferentes áreas: humanas, biológicas e exatas.

Mas, isso tudo foi em outra época. Isso me lembra que temos que contabilizar também, as chamadas “segunda época” que, pra muitos, virava terceira..quarta....

Mas, existem os que atenderam ás expectativas dos pais e nunca reprovaram, nem ficou de época nenhuma e, ao fazê-lo, caprichou mesmo e foi logo encarando um curso de medicina. Daí, acrescente mais anos de residência e outros tantos de especialização.

Resumindo: quem seguiu a cartilha sem pular ou ignorar nenhuma página passou, no mínimo, quinze desses anos numa carteira escolar.

Aprendeu que depois de algum tempo, “tia” vira “Dona”, que vira “fessora” e que mais tarde vira “Professora”. Mais tarde, esses títulos foram substituídos por outros menos carinhosos. Depois disso, em dois ou três anos, preparados ou não: mercado de trabalho.

É um marco! E, pode não parecer, mas unido á sua experiência de vida, isso é sim, um grande curriculo.

Mas, está na hora de você saber que as coisas mudaram um pouco de lá pra cá. Primeiro: esses oito anos iniciais agora atendem pelo nome de “Ensino Fundamental” e agora, ao invés de oito, são nove anos obrigatórios.

Tudo isso aconteceu depois de um Projeto de Lei que tornou o “Prézinho” em “Classe de Alfabetização”. E, como todos podem ver, não é exagero dizer que, esses dez anos provocaram mudanças significativas no nível de alfabetização do brasileiro. Sem ironias, juro.

A mais significativa delas e, explorada pelos noticiários do mundo todo, foi assinalada por nosso presidente quando afirmou que não era necessário estudar pra chegar ao “cargo” de Chefe de Estado.

A história é a seguinte: se você nunca tinha prestado atenção nesses importantes detalhes é porque, de fato, você precisa se reciclar. Do contrário, corre o risco de virar Presidente da República. E, isso sim, pode abalar sua reputação.

Num belo dia você acorda e vai trabalhar como sempre fez. Sabe que não existe mais aquele velho entusiasmo, mas apesar disso, pensa: Um dia a mais em minha vida atual. Um a menos nos meus planos de adolescente. Fazer o que?

Ao meio dia, pressente uma conspiração esquisita. Alguma coisa está errada, todo mundo sabe, menos você. Até o “Zé da portaria” não te deu o costumeiro e enfadonho bom dia.

No fim do dia, te pedem pra sair, ou te levam a pedir. O que dá no mesmo. Você é demitido. Sai de lá, aliviado e, ao mesmo tempo, apavorado. Além de seus objetos pessoais, sai com duas certezas.

1) no dia seguinte não precisará acordar tão cedo. 2) a liberdade é mesmo uma velha e esquecida amiga. Nunca sabemos o que dizer ou fazer quando a encontramos.

Se você é mulher, pode desabar no choro. Todo mundo vai achar normal e, é. Mas, se faz parte daquela categoria de homem que foi educado por uma mulher que ensinou que homem não chora, chore do mesmo jeito. Todo mundo vai fingir que não viu.

O fato é que costumeiramente quando alguém perde o emprego, recolocar-se vira quase uma obsessão. Dias intermináveis de currículo em uma mão e uma altíssima baixa-estima na outra.

Daí que seu currículo e você murcharão gradativamente agredidos por seu pior inimigo: você mesmo. E essa é a primeira coisa á ser corrigida.

Seja qual for a razão de seu desemprego, o importante é perceber que sempre haverá uma nova oportunidade e que as estatísticas mostram que na maioria dos casos o problema não está em você e sim no que você fez consigo mesmo.

Sua experiência é uma arma poderosa, mas, que pode facilmente voltar-se contra você. A princípio tendemos á crermos que somos capazes demais e bons demais para empreendermos qualquer coisa que pareça ser um retrocesso na carreira que se construiu.

Com isso, elimina-se uma parcela significativa de novas oportunidades que poderiam vir a se transformar em desafio. Mas, essa empáfia não resiste aos argumentos empresariais: velho demais, capacitado demais ou de menos, aspiração salarial muito alta, etc.

Bate o desespero e o que era um bônus por tempo de trabalho, transforma-se em entrave. Nesse momento, o melhor a fazer é exatamente o que a ocasião permite: Olhar-se. Com tempo e honestidade.

Meu conselho? Divirta-se. Evite o máximo possível isolar-se. Procure apoio nas pessoas que o rodeiam e que estiveram na mesma situação. Sai de casa, espalhe seu cartão de visita, socialmente. Enquanto isso, calmamente, estabeleça um plano de ação.

Não se sinta tentado a aceitar propostas menos adequadas. Reflita sobre o que ficou ultrapassado em suas qualificações. Se há reservas financeiras, invista nessa adequação. Se não há, informe-se, leia jornais, navegue pela internet. Prepare-se.

Ao surgir uma entrevista, procure informar-se sobre a empresa, suas características e tenha tudo na ponta da língua. Readquira sua confiança e jamais vá á uma entrevista sentindo-se desqualificado pra vaga oferecida. Prepare-se antes ou simplesmente aceite como á um desafio. Ou não vá.

Ambição, motivação, autonomia, comunicação, objetivos, flexibilidade, trabalho em equipe, saber gerenciar o tempo. Isso tudo, unida á uma imagem bem cuidada e segurança no próprio taco, é o que será avaliado.

Se depois disso tudo, você for submetido á um exame psicológico, relaxe. Os testes servem apenas pra confirmar ou não o que já destacaram de suas qualidades. Faça-os sem tentar desvendá-los e eu garanto: será aprovado!

Não deu certo? Comece tudo outra vez! Que tal um happy-hour hoje á tarde?



- posted by Mara


Segunda-feira, Janeiro 14

QUEM NÃO TE CONHECE....


...QUE TE COMPRE!

- Uma Coca-cola light, por favor!
- Pepsi...
- Como?
- É o que temos. Só temos Pepsi, senhora!


Pra começar, esse "Senhora", dito nesse tom, é irritante! Mas isso, é outro assunto.

Vou viver cada um dos dias que me restam sem compreender algumas lógicas da vida. Das mais banais às mais fundamentais, passando por algumas geradas em minha mente anarquista.

Porque, raios, existem coisas que, comparadas, todo mundo acha que são as mesmas coisas? E o pior é que, desse escambo oportunista, não estão livres nem os sentimentos que, em essência, deveriam ser genuínos.

Mas, se de um lado, existem os vendedores de “substitutos oficiais”, de outro, há sempre um consumidor apto á tolerar e, até mesmo, alterar suas preferências em função da oferta insistente.

Num estado ainda mais grave dessa sintomatologia, nós mesmos nos encarregamos de promover tais barganhas. Quem nunca foi ver o filme “x” apesar de ter se programado pra ver “y”, só porque ao chegar, o cinema tinha mudado a programação sem divulgar?

A lógica usada na justificativa é tão ou mais incontestável quanto o fato de que aprendemos a aceitar quase tudo que nos é coletivamente impingido. Diremos: “Já vim até aqui, agora vamos ver esse filme mesmo, fazer o que, né?”.

Pra não perder o humor, a viagem e até a esperança, estamos nos aperfeiçoando em comprar gato por lebre. Nada de errado, se parasse por aí. Afinal, se bem feito, dizem, ninguém saberia a diferença do sabor entre eles.

Tenho uma vaga lembrança de que lebre é um bichinho de redondos olhinhos vermelhos, de orelhas enormes que, diz a lenda, faz sexo rapidinho. Cozidos ou assados, quem saberia dizer se é coelho, gato, ou outro bicho qualquer?

Entretanto, nos causa arrepios pensar na hipótese, não é? Mas, enganam-se os que pensam que essa expressão nasceu de alguém com profundo amor aos bichanos. E olha que no Brasil, os gatos pularam das ruas para as almofadas da sala de estar, bem antes que os cachorros.

Em nossa cultura, a expressão é usada pra expressar a qualidade de quem, desavisadamente, compra uma coisa de qualidade inferior no lugar da que desejava.

Gato por lebre, chinês por japonês, tesão por amor, especialização por pós graduação. Esse é o país das confusões causadas pelas semelhanças. Não que os gatos, japoneses, e a especialização não tenham seu valor inquestionável. Tesão, então, nem é preciso defender.

Mas, o fato é que, em dado momento, paramos de questionar se nossas escolhas foram ou não feitas voluntariamente. E é exatamente aí é que está a questão. Nem sempre fazemos valer nossas determinações. Seja por comodismo ou para se adequar, sem espernear, as opções disponíveis.

Assim, de repente, não mais que de repente, vamos criando clichês que enquadram e simplificam quase tudo á nossa volta. E seguimos criando conceitos e pré-conceitos que avalizam não só nossas opiniões como também nossas preferências.

Pessoa que vive no interior, é “simples”. O acadêmico é intelectual. O que demonstra suas qualidades é arrogante, os que não o faz, é modesto. A mocinha que usa roupinha recatada e de sorriso tímido é brejeira e a que fala “sem edição”, é rasgadeira.

Até o dia, que nos damos ao trabalho de fazer uma análise mais cuidadosa e tcham, tcham, tcham.. surpresa!

Coca – cola não é Pepsi, e pode até ser que tenham fórmulas parecidas, a mesma cor, embalagem, conservantes e até campanhas de marketing iguais. Mas, definitivamente, não têm o mesmo sabor. E a qualidade primeira de um refrigerante é que foi inventado pra ser bebido e não, admirado.

Nunca ouvi dizer que uma pessoa tímida, por exemplo, perca ainda que por alguns momentos, sua introspecção e mande ás favas a opinião dos outros. E o contrário também é verdadeiro: jamais vi alguém com necessidade natural de aparecer, tornar-se tímido quando é o centro das atenções.

Se você já presenciou isso, avalie com mais atenção. Verá que em alguma parte dessa demonstração, você cochilou e perdeu dados importantes que poderiam refinar mais sua conclusão.

É preciso levar em conta o jogo emocional para o qual, nós seres humanos, tão bem somos treinados. Como numa ária, para melhor compreender, é necessário assisti-la dentro do contexto porque nenhuma ópera é totalmente compreendida á partir de um olhar reducionista.

O cenário, os personagens, o enredo e principalmente os objetivos são o que, juntos, criam ou ressaltam essa ou aquela característica. Assim, fica mais fácil entender até aquela explosão de ira repentina de alguém sempre calmo, do tipo amuado pra vida.

Ou aquele gesto prestativo e sorridente vindo de onde menos se espera. Quando nos sentimos surpresos com a atitude de alguém que pensávamos conhecer bem, significa que alguma coisa saiu do roteiro inicial. Ou, escapou de seus olhos em outra oportunidade.

Não há, é verdade, ninguém que seja completa e irrevogavelmente dessa ou daquela maneira. Sempre haverá um equivoco, nosso, na avaliação, ou, desse alguém em sua apresentação.

Em qualquer um dos casos, perdemos sempre. Perdemos a chance de mudarmos, seja de opinião ou de atitude. E mais, criamos um personagem de difícil sustentação e que ruirá diante do primeiro estímulo mais contundente.

Desmascarados, nos restará pagar o preço da fama da não-honestidade ideológica, o que na melhor das hipóteses, nos fadará a viver para sempre tentando provar que não somos o que pensam ou tentando ser o que pensam.

Pega daí, galera, que na vida, os “paredões”, os “companheiros” de jornada e a opinião pública que nos coloca pra fora, não nos dá o argumento de dizer que foi apenas um jogo.

Daí é correr pra fama! Seja ela qual for, porque gatos e lebres, resumidamente, são lindos bichinhos e nessa selva, tem lugar pra todo mundo. Nem é necessário comer qualquer um deles.




- posted by Mara


Domingo, Janeiro 13

MISTÉRIO RESOLVIDO!


Caso "Bandida":

“REVELADAS PROVAS QUE INCRIMINAM A FORA DA LEI”

Na madrugada desse domingo, provas recolhidas por investigadores desmascararam e revelaram a verdadeira face da fora-da-lei mais conhecida da blogosfera. Identificada pelo codinome de "Bandida", é uma espécie de heroína no controverso mundo da nada pacata “NetWood”.

A onda de mistério que ronda a história dessa personagem mística termina hoje com a divulgação de algumas das provas que a tornaram uma unanimidade virtual.

Na melhor versão Robin Hood, Bandida, também conhecida como Bandys tornou-se celebridade por roubar de si mesma as melhores emoções, transformando-as em palavras e distribuindo-as generosamente por onde passa.

“Tenho varias poesias. De amor, de dor, da vida e ate umas mais eróticas”. Disse a meliante, aparentemente sem nenhum remorso, em seu depoimento.

A contraventora declarou ainda, ter iniciado sua vida criminosa após observar que os administradores de blogs pouco se preocupavam em orientar seus comentaristas da falta de poesia reinante no mundo.

Não há registro de há quanto tempo vive na tumultuada Blogosfera. Tudo que se sabe dessa misteriosa personagem é que gosta de vagar por NetWood, preza a liberdade, é hábil com as palavras e, ao passar, deixa rastros de carinhos e amorosas poesias.

Abaixo a cópia do inquérito policial e uma das provas recolhidas, extraídas do arquivo pessoal da mesma, que por seu conteúdo não deixa dúvidas das intenções da meliante:


Clique na imagem para ler o pedido de Abertura de Inquérito:



Clique na imagem para ver as provas:

- posted by Mara


Sábado, Janeiro 12

DIGA-ME O QUE COMES...


...QUE TE DIREI QUEM ÉS! ...AFF!

No começo era o verbo. E o verbo do começo, entre os que me conhecem, é respeitar. Respeitar a opinião dos outros, as ações e as motivações. Não, sem antes se necessário for, questionar e me reservar o direito de querer ou não conviver com aquilo que me oferecem como fato e característica de convivência.

Minha história, dentro e fora do mundo virtual provou á mim e, aos outros, que sou capaz de conviver com medíocres aprendizes da raça humana, bem como com os mais elevados na escada de condutas. Sou perfeita, não é mesmo?

A simples afirmação acima seria suficiente pra desencadear horas de discussões sobre humildade e arrogância. E, é uma prova cabal de que discursar sobre as atitudes alheias, baseados no que vemos e ouvimos em dado momento é sempre muito arriscado.

Por definição, atitude é isso mesmo: uma organização de experiências que levam á uma ação, frente á um evento em particular. E tem gente que apregoa com o peito inflado que o que importa é “ter atitude”. Pergunto eu: qual?

Da maneira como apregoam, me parece que qualquer atitude serve. Mas por trás desse conceito simplista estão embutidas, de forma nem sempre visível, duas sólidas bases ignoradas por quem se propõe á ser analista de comportamento. Bases cognitivas e racionais.

O comportamento não é um simples ato reflexo, como costumamos imaginar. Do tipo: bateu, levou. São as crenças e idéias, associadas aos sentimentos e emoções acumulados por toda vida que darão á vertente do que faremos á seguir.

Quando nos propomos um julgamento sobre as atitudes alheias, usamos as nossas próprias bases para fazê-lo. E nosso julgamento acaba por se tornar também uma atitude passível de análise e novos julgamentos.

É um círculo vicioso que não leva á lugar algum. Na tentativa de classificar alguém por esse ou aquele gesto, nos colocamos á disposição para sermos também classificados. É assim desde que o mundo e mundo. “Quem com ferro, fere. Com ferro será ferido!”

Calma! Não estou falando daqueles palpites que emitimos baseados em nossas reações imediatas á determinados fatos. Desses, que nos fazem morrer de raiva por ver uma injustiça ou se encher de ternura ao presenciar um gesto magnânimo.

Falo daquelas análises cheias de argumentos e analogias calcadas exclusivamente em nossas próprias bases cognitivas que, muitas vezes, foram conseguidas através de erros e acertos.

Podemos errar até acertar, mas não permitimos esse teste aos outros. Vamos logo dando o gabarito da vida á eles. Quero acreditar que todo mundo suspeita de julgamentos assim. Mas, que poucos refutam, já que ao fazer podem se tornar alvos.

Mas, essas convicções desses sabedores do comportamento correto terão surgido do nada? Serão esses “julgadores” gênios dotados de um terceiro olho? Ou somos nós, pobres ingênuos e desavisados?

Pelo sim ou pelo não, tipos assim nascem às pencas e, muitas vezes alcançam até o título de especialistas no quesito caráter humano.

E, surpresa! É assim que se constrói um preconceito. São esses “juízes” da alma humana os pais dos pré-conceitos que, mais tarde, eles mesmos combaterão. Sim, porque não há nada mais atraente e desafiador do que “julgar” quem demonstra preconceito. E, como “profissionais” serão os primeiros á se sentirem aptos.

Tem coisa mais excludente do que se dizer diferente entre os iguais? Ainda que essa semelhança seja em menor número? Os homossexuais, por exemplo: o que os difere dos outros seres humanos a não ser o fato de terem uma vida sexual diferente das que se convencionou?

Nada. Entretanto, a idéia de um preconceito enraizado e as inúmeras bandeiras que se levantou em prol dessa não segregação, tem exigido de nós uma nova concepção sobre o tema.

Em todos os segmentos da comunicação humana, estabeleceu-se uma corrente com o firme propósito de beneficiar quem faz disso uma bandeira. As mudanças são tão grandes, que a crítica, hoje, vai para quem ousa não fazê-lo.

Nas novelas, nas ruas, até nos noticiários, revelar-se homossexual é sinônimo de uma síntese de personalidade que, juro, não consigo compreender. O comportamento contrário também. Se te flagrarem mais tarde, farão um alarde enorme e adivinha quem está na berlinda de qualquer maneira?

Seria engraçado, não fosse trágico e extremamente nocivo á inerente necessidade de privacidade de muita gente. O tiro saiu pela culatra. Queriam tanto ser considerados iguais e, nunca estiveram tão diferente quanto nesse momento da história.

Sob meu ponto de vista, funciona assim: Odeio molho vermelho. Além de não ser uma cor que me atraia, é composto por tomates que, é de longe, a fruta que menos aprecio.

Daí que, imaginar alguma coisa feita á partir do esmagamento de dúzias desses “depósitos de agrotóxicos”, me revira o estômago.

Trata-se de uma seleção do meu paladar, iniciada sabe-se lá quando, reforçada e percebida ao longo dos anos, totalmente pessoal e intransferível. Além de incomum, ao levarmos em conta que a “macarronada”, por exemplo, é um prato muito popular.

Há quarenta anos, na casa da minha mãe, assim como em muitas outras, a macarronada ou a lasanha são pratos dominicais. Ás vezes a fome me vence e eu como assim mesmo. Em outras, me contento com outras opções, sempre presentes, na mesa da mineiríssima D. Tereza.

Sinceramente, nunca pensei em juntar a família ou os demais agregados, diretamente relacionados ao assunto e, em tom confidencial, fazer a revelação bombástica: “Mãe, desculpe, mas não gosto de molho vermelho!”

Sei que isso a deixaria chocada e, de certa forma, ressentida por meus longos anos de silêncio. Sei também, que muitos iriam imediatamente reagir e dizer que não é normal alguém passar tanto tempo comendo uma coisa que não gosta só pra agradar a santa mãezinha.

Será por isso que fazer tal revelação nunca me passou pela cabeça? Para não ser julgada e perder o respeito de quem me considera uma contumaz defensora da verdade? Ou será simplesmente porque considero que isso não altera em absolutamente nada o que sou ou o que penso ser nas minhas relações com os outros?

Por outro lado, houvesse uma parada organizada em plena Avenida Paulista dos “NAMV- Não Comedores de Molho Vermelho”, estaria eu entre eles com a bandeira em punho fazendo valer os meus direitos?

Quem dissesse em público que não gosta de mim, estaria fatalmente revelando seu preconceito aos NAVM? Os “ítalo-brasileiros, e até o Garfield seriam meus opositores declarados?

Enfim, sigo resguardando meu direito de não apreciar coisas que naturalmente percebi que não me agradam. E, tudo que espero é que, se ao ser convidada para um jantar com almôndegas, eu possa dizer á dona da casa, gentilmente, que prefiro a salada sem magoá-la e sem ser obrigada a comer aquelas bolotas vermelhas.

E mais, ter a liberdade de caso me dê vontade, comê-la até me fartar, sem ter que dar maiores explicações.

Depois desse post, eu sei, terei me colocado na mira dos juízes do paladar alheio. E não faltarão comentários do tipo: “Nunca a convidarei para um jantar lá em casa”. Ou mesmo: “Só a convidarei se eu resolver servir com molho branco”.

Mas, fica aqui um carinhoso conselho que poderá ser usado até pelos futuros aspirantes Brothers da Globo: Sempre digam suas preferências ou calem-se para sempre. E, não façam de suas características pessoais uma arma, porque a vítima pode ser seus companheiros, e nesse caso, eles é que ganharão o milhão!


* texto totalmente sem revisão!



- posted by Mara


Sexta-feira, Janeiro 11

VIRA LATA, GRAÇAS A DEUS!


Aconteceu comigo. Sabe essas coisas que a gente raramente vê. Que ouve falar, mas ver mesmo...assim, tipo na frente dos olhos, eu nunca tinha visto. Acompanhem:

Eu amo animais. Não foi assim a vida toda, eu confesso. Tive ciclos de gostar mais e menos e uns, de quase nada. Desde meu reencontro com meu bebê York – “Maxi, o caçulinha”, parece que estacionei definitivamente na fase “amo além do inimaginável”.

Eu vinha me enganando, dizendo á mim mesma que esse amor desmedido era bem direcionado: que começava com o meu bebê e terminava nele mesmo.

Até o dia em que me vi parando o carro em plena avenida e recolhendo um desses adoráveis errantes e perdendo quase o dia todo tentando dar um futuro á ele. Daí, não teve jeito, assumi. Não havia mais como negar.

Recolher animais na rua é o último estágio de um processo que começa com falar com eles usando diminutivos na expectativa de, não só que eles compreendam, mas que a vizinhança ache normal.

Outro grave sintoma é não conseguir parar de dar exemplos de como essas criaturinhas são inteligentes e diferentes dos demais. Embora, no meu caso, isso seja mesmo verdade, não posso começar senão, sabe lá Deus, quando esse post vai terminar.

O fato é que estava com meu caçulinha numa consulta básica no Pet Shop da madrinha dele (É! Ele tem uma madrinha e que é veterinária, conveniente, não é?) e conversávamos sobre as dificuldades que ela vem tendo em manter aberto seu negócio de pets.

A conversa fluía séria e em tom depressivo quando vi que o olhar preocupado dela passou por cima da minha cabeça e pairava fixamente através da janela, para a movimentadíssima avenida em frente á clínica.

Por instinto, segui o olhar dela e me deparei com uma cena terrível e absurdamente terna. Um cachorro visivelmente vira lata, tentava cambaleante atravessar a rua. Toda extensão de seu pequeno corpo, da cabeça ao rabo, estava coberto por enormes feridas.

Ao chegar exatamente no meio da avenida ele sucumbiu e simplesmente deitou. Numa fração de segundos, um carro que eu já imaginava esmagando-o, freou. (essa parte eu confesso que não vi, porque escondi o rosto entre as mãos). Atrás dele, outro e, mais outro.

Formou-se uma orquestra de freadas bruscas e uma enorme fila de carros. O cachorrinho levantou a cabeça por alguns minutos e, posso jurar, olhou em nossa direção. Mas, em seguida voltou a encostar o rosto no chão.

A motorista do carro não se deu ao trabalho de descer. Manobrou lentamente o carro e saiu seguida pelos demais.

Olhei pra veterinária, minha amiga, e essa numa rapidez incrível, sacou de seu bolso um par de luvas cirúrgicas (que eu não havia notado antes) e atravessou correndo a rua, tão perigosamente quanto o cachorro fizera antes.

Quando ela chegou até ele foi que, todos os presentes, tiveram a oportunidade de ver um anjo da guarda em ação. Pequena e frágil ela se colocou á frente dos carros, parando literalmente o trânsito.

Ajoelhou-se no chão, colocou a cabeça cheia de sarna sob suas coxas, ignorando o rosnar ameaçador que ele emitia. Falou com ele em voz calma e tranqüilizadora por alguns minutos e, depois, como quem pega uma porcelana, tirou-o delicadamente do asfalto.

Enquanto o carregava como á um bebê, ela seguia falando coisas como: - Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui!

Minha fama de sensível e durona sofreu um grande abalo. Meus olhos se encheram de lágrimas e nunca desejei tanto ter em mãos uma filmadora. Não sei ao certo o que eu queria registrar, se a cena em si, ou o olhar que ambos trocavam.

Ela o levou para o consultório e eu não a vi mais naquele dia. Fui embora com um turbilhão de pensamentos e sensações.

Já trabalhei com pronto atendimento e por minha profissão, já estive presente em cenas realmente comoventes e capazes de arrancar lágrimas até de quem não se sensibiliza com nada.

Já vi gente morrendo, gente sofrendo, assim como vi, inúmeras vezes, a dor da derrota derrubar a confiança e a fé de muitos profissionais médicos. Já vi gente sendo maltratada em hospitais e uma excelência em atendimento não ser suficiente para salvar vidas.

Achei que já tinha visto de tudo. Mas aquela cena tinha algo inédito, e não me sai da cabeça.

Sete dias se passaram e, hoje, estive na clínica outra vez. E lá estava ele. Agora com uma coleira com o nome “Tomaz” gravado. Ainda cheio de marcas pelo corpo, mas visivelmente recuperado.

Quando me viu abanou o rabo fazendo festa e pedindo carinho. Ameacei um gesto na direção dele e minha amiga impediu dizendo: “Não toque nele, isso é contagioso”.

A imagem dela, com o rosto dele encostado em seu jaleco, com apenas as mãos cobertas por luvas, imediatamente surgiu em minha mente. Teria ela pensado nesse alerta quando o socorreu?

Claro que sim, já que calçou as luvas. Mas tenho certeza que se as luvas não estivessem acessíveis, isso não a teria impedido. Como um anjo, ela teria voado até ele e o traria em suas asas até o remédio necessário.

Perguntei: O que vai fazer com ele, Mariana? E ela me respondeu, sem preâmbulos: “Ué, doar! É um vira lata! É entregar nas mãos de Deus!”

E, ele já não está? Pensei. Mas, preferi ficar em silêncio. A maioria dos anjos que conheço, nem se dão conta que são!


* ainda sem correção


- posted by Mara


Quinta-feira, Janeiro 10

SÓ NÃO VÊ QUEM NÃO QUER


Tive uma professora de literatura que sempre que nos comportávamos mal nos obrigava a tarefa de escolher e recitar uma poesia. Com o tempo, a maioria já tinha comprado o mais volumoso livro de poesias que encontrasse, pra qualquer eventualidade.

A tarefa, é óbvio, era entendida como um castigo terrível, até para os aspirantes á “aparecidos” da turma. Poesia era coisa que as meninas mantinham guardadas com aquelas chavezinhas em seus diários frus-frus.

Secretas e femininas, as poesias eram o calcanhar de Aquiles para ambos – meninas e meninos. Não demorou muito e nossa mente, ali, treinando a arte de ser “ser humano”, já havia encontrado a solução para o constrangimento da punição: o riso.

Bastava que um de nós começasse a recitar e pronto. A classe, em uníssono, desempenhava sua melhor expressão de unidade. Começávamos com um risinho aqui, outro ali e, em segundos, ninguém mais ouvia o infeliz.

Alguns mais espertos, ao serem alvos de nosso deboche, transformavam a “performance” em um show de humor e, dá-lhe mais risadas!

Nem é preciso dizer que fosse qual fosse a intenção da professora, o tiro saiu pela culatra. A bagunça reinava, a poesia era esquecida e o que era punição virava nosso momento de alforria.

Não tenho certeza.. Mas deve ter sido, numa dessas aulas que comecei a pensar com desconfiança no velho e popular riso. Percebi que minha habilidade em provocar risos e de me deixar contaminar por eles, tornava-me cada dia mais popular, mas era diretamente responsável por meu sofrível desempenho em literatura.

É engraçado. Não. Na verdade, não acho graça nenhuma. E, hoje, não desprezo mais a leitura poética. Ao contrário de muitos, acho a piada desnecessária e a poesia fundamental. Riso é artifício e, a poesia, habilidade. Nesse ângulo, qual deles tem o maior poder curativo?

O ato de rir e todos os seus derivados semânticos é um ato reflexo, apenas quando ainda somos um bebê. Falamos coisas desconexas enquanto tocamos levemente a bochecha e um espasmo muscular nos brinda com o arremedo do que aprendemos ser um sorriso. Missão cumprida!

Meu cachorro também sorri. A veterinária dele jura que sim. Bom, quando ele se equilibra sobre as patas traseiras, e mostra todos os seus dentinhos chocando a arcada superior na inferior, ou está rosnando ou sorrindo. Tratando-se do meu York, tenho certeza que ele está mesmo sorrindo.

A poesia e o riso têm esse ponto em comum: o significado fica à critério de quem o vê. Entretanto, o riso, permite muito mais variações. De interpretações e de intenções. Há risos de escárnio, alegria, provocação, e até de vergonha.

É possível até chorar de rir, mas rir de tanto chorar, só se o choro for do outro. E é isso, justamente, que torna o riso um poderoso instrumento nas mãos, ou melhor, na boca, de quem o usa.

Rir é sempre uma maneira simbólica de demonstrar um estado de espírito. O que há de mal nisso? Nada, a não ser, que o ser humano o considera “politicamente correto”. Daí, que usá-lo, é a arma preferida dos adeptos da Lei de Gerson.

Mas, afinal, onde quero chegar? Pode até soar como arrogância, mas já cheguei. Nada mais eficiente para tirar um sorriso de alguém do que duvidar da importância do riso. “Tirar”, nesse caso, no sentido duplo de extrair e de eliminar, é claro.

Já a poesia, apesar de também incitar várias interpretações, não permite ser usada como arma nociva. No máximo, reflexiva. Com más intenções, são muito mais usados os sonetos, artigos, crônicas, prosa e até posts.

Nunca vi alguém revidar um ataque verbal com poesia. Ou soltar uma alta e sonora poesia depois de ouvir um comentário maldoso. Também nunca vi alguém fazer poesia sobre argentinos, portugueses, gays e papagaios.

Mas, o que aprendi em minhas aulas de literatura é que: é possível substituir um pelo outro. O riso pela poesia e vice versa. Nesse caso, o “vice versa” é sempre mais positivo e não deixa dúvidas em seu objetivo.

Mal não faz e o único risco que se corre é um pequeno efeito colateral inicial: pode ser que se sinta vontade de rir ao receber uma poesia, ou se espalhe poesia ao provocar um riso amoroso em alguém.

Todo esse discurso á favor da poesia nada tem a ver com os poetas ou como eles são pouco valorizados em nosso país. Menos ainda, fala em detrimento aos comediantes ou profissionais do riso.

Mas, que é verdade que não conheço nenhum poeta rico e tenho notícias de inúmeros comediantes milionários, isso é. Entretanto, não é esse o ponto.

A questão é: já repararam como tem pessoas que se especializam em tornar tudo que vêem, ouvem ou falam em piadas, nem sempre engraçadas ou de bom gosto? São os famosos sarcásticos dotados do dom da oratória.

Não conseguem analisar ou emitir uma opinião que não venha carregada do desejo de ser reconhecida como inteligente por sua “sacada” hilária. Se encarregam de nos ajudar á ver o lado nojento, ridículo e “engraçado” das coisas. E nós? Nós achamos o máximo!

Agora entendo as intenções da minha conservadora professora de literatura: rir ela mesma da nossa incapacidade de apreciar o belo e, de quebra, desenvolver nossa habilidade em nos defender da mais sutil arma humana: o riso.

Me diplomei nisso. E, coloquei o meu riso em seu devido lugar: entre as outras emoções e sem nenhum destaque especial. Nessa nova escala de valores, o meu riso, meu choro, espanto, medo e ternura, hoje, ocupam justas posições.

A idéia é chorar com a mesma licença poética que usamos pra rir. Em público, sem som, sem explicações e até sem por que. Rir por rir e chorar por chorar. Diferenciando-nos dos outros animais.

Colocar as carpideiras no mesmo patamar profissional dos comediantes. Devolver aos seres humanos o poeta que se escondeu de vergonha diante de uma classe debochada. Olhar a natureza, inclusive a humana, com humor, mas sem perder a ternura.

E, assim, invalidar o riso como remédio e transformá-lo em vitamina...pra alma! Poético, não é?


* texto sem correção


- posted by Mara


Quarta-feira, Janeiro 9

TUDO QUE SEMPRE PENSEI...


E QUE NINGUEM NUNCA PERGUNTOU!

Quem nunca questionou ou duvidou dos motivos de alguém? Quem não, ainda que por alguns momentos, desejou saber o que os outros pensam? O que faríamos se soubéssemos, sem erros, os motivos que levam as pessoas a tomarem esse ou aquele caminho?

Cobramos os outros, mas também não estamos livres de nos enroscar em nossas próprias explicações. Temos até aquele vício de linguagem: Aquela em que a frase usada terá sempre o mesmo começo: “Não sei por que, mas...”.

A verdade é que devemos tratar bem dos nossos argumentos. Afinal, nunca saberemos quando será preciso lançar mão deles. A única maneira de evitá-los seria dispensar explicações e conviver bem com nossas próprias e solitárias conclusões. Difícil imaginar viver assim, não é?

Então imaginem não precisar delas e, na dúvida, simplesmente entrar por uma porta que nos leve para dentro da mente da mente de quem queremos desvendar? Imaginou? Pois é. Alguém imaginou isso antes de você e fez o roteiro do filme “Eu quero ser John Malkovich”.

Mas, é óbvio que você já concluiu que eu não vou me aventurar a comentar sobre o filme. Não, no dia seguinte da tão esperada estréia do Big Brother Brasil 8, não é? Claro que não.

Antes, porém, aconselho a quem veio até aqui esperando ver algum comentário do tipo gosto ou não gosto, fulano é assim ou assado, que mude de blog. Se o que quer é uma análise despretensiosa e bem humorada do jogo, sugiro o BIG BUNDA BRASIL.

Mas, se você está aqui, suponho que saiba que esse não é um blog com o mesmo propósito daqueles que freqüento. Assim, sugiro que se livre de todos os preconceitos e ranços, anteriormente adquiridos e, exercite um olhar diferente sobre o reality show da Rede Globo.

Pense na expectativa que tivemos antes da primeira edição do programa. Nunca existiu nada tão criativo, brilhante, ousado e imprevisível na TV brasileira até então, não é mesmo?

Não é mesmo incrível? Se pensarmos no modelo do programa, antes dele começar, veremos que não nos ofereciam nada e, ofereciam tudo, ao mesmo tempo.

Comédia, drama, suspense, ação e quase tudo que as novelas já possuíam, mas juravam que não era uma. Ao contrário do que muitos afirmam, não é mesmo. É pura metáfora. É um grande espelho colocado á nossa frente.

E, nossa imagem refletida naqueles participantes, propõe questionamentos e autocrítica. A idéia é que em algumas semanas de convívio forçado as pessoas lá dentro tão bem refletidas em nós, provoquem em ambos os lados, uma revisão conceitual.

Que derrubem convenções e retratem de forma crua o amor, a traição, o homossexualismo, o lesbianismo, fetiches e sonhos proibidos.

Assim, numa analogia ao filme citado no início, imaginem se cada um de nós tivesse uma única oportunidade de entrar na mente do Pedro Bial, por exemplo, e saber, sentir, ouvir, ver e pensar como ele. Como será que veríamos esse jogo?

Ou, quem sabe, estar na mente de um daqueles participantes? É. Porque de nada adianta levantar bandeiras ou se tornar amigo íntimo. Jamais saberemos o que a possibilidade de fama e glamour oculta na alma desses sonhadores.

Essas pessoas, digam o que digam, estão lá apenas por que querem uma vida melhor e perfeita que, todos nós, fomos levados a crer que alcançaremos, tendo fama e dinheiro. O resto é conversa pra dar audiência.

O programa todo é roteiro. Abrem-nos uma porta que não é real, para um mundo que também não o é, e nos convidam a ver pessoas supostamente reais, mas que deixam de ser no momento em que as câmeras são ligadas.

As regras são poucas: sorte, oportunidade e agir de maneira que os meios justifiquem os fins. E, é na mente de alguns articuladores que essa história muda á todo momento. Pedro Bial, Boninho, a produção e até a Fátima Bernardes levam a culpa, mas no fim, quem dá as cartas somos cada um de nós. Duvida?

Vemos a casa pela perspectiva do Bial, pois a proposta é passemos a olhar não com os nossos olhos, mas com os dele, ainda que, mais adiante tomemos o controle e passemos até a criticar nosso “hospedeiro” pelo simples fato de ele conduzir de forma diferente da que faríamos.

Nossa audiência dá á eles a impunidade de alardearem estar ou não fazendo parte de um jogo. Ainda que achemos que estamos punindo quando os criticamos, estamos apenas fazendo nossa parte nesse mesmo jogo.

A maior prova disso são os inúmeros sites e blogs que brotam nessa época, exclusivamente, destinados á comentar o programa. Ou até mesmo aqueles que se consideram referência. O que querem? O mesmo que as 12 pessoas lá dentro: audiência.

Lavar roupa, dar aulas, advogar, ser funcionário público e até clinicar, pode ser bastante enfadonho e comum pra quem gostaria de ter nascido pra brilhar. Se não podemos ir até o Projac, o Projac vem até nós. E assim se caminha a Net BBB.

Parece uma crítica, mas não é. É como no futebol. Se for favorável, é análise. Se negativa, é crítica. Nem sempre os ditos “analistas” gostam de serem analisados. Sempre fazem, mas, os mais “sensíveis”, sempre se ressentem.

Dentro e fora da net, o programa une os semelhantes e tira muita gente do lugar comum. Além, de evidenciar o óbvio: que a possibilidade de fama valoriza uns, mesmo que sejam uns idiotas e, muitas vezes, ignora gente muito interessante, apenas porque ainda não foram agraciados pela sorte de topar com ela.

O grande reality show, a meu ver é aqui. Já rolou trapaças, grandes amizades, lágrimas, risos, festas e até pseudo mortes. Aqui convivemos anônimos até que um comentário ou uma atitude nos destaque dos demais. Isso nos levará á exclusão ou a completa aceitação. É ou não é um verdadeiro paredão?

Os halos são verdadeiras urnas de votos e seus marcadores de acesso, os índices de popularidade. O avatar é o estilo adotado e os textos: confessionários - local onde mostramos quem somos ou o que queremos que pensem que somos.

Nesse roteiro virtual, tudo é permitido. Deixar o jogo no meio, mudar de lado, fazer intrigas, estar só de passagem ou até mesmo criar tramas diabólicas e inescrupulosas pra manter a popularidade.

Aqui as aparências podem enganar. O feio pode ser belo, o honesto ser articulador e sem escrúpulos, a bom se passar pelo mal. Tudo isso pode ser feito sem que os comentaristas se atentem ou participem. Aliás, a esses, só é permitido o acesso, o resto é quase tudo vetado.

Não é preciso ser estudado. Nem é bom que seja. Senão o acusam de intelectual. Mas, não pode ser ignorante ou o chamarão de palpiteiro sem instrução. Muitas vezes, o que menos importa é o se é. Vale muito mais o que conseguiu fazer com que todos acreditassem que é.

Um conselho que dei a mim mesma quando entrei por curiosidade científica nesse universo e que acho bem útil é: Abra seus olhos e, ao invés de torcer o nariz, dizer que tem cartas marcadas ou se preocupar demais com os personagens antes e depois do jogo, dê-lhe uma chance.

Perceba a genialidade do roteiro, deixe-se tocar por ele, aprenda a refletir, seja menos superficial, melhore como pessoa. Isso tudo vale um milhão, de amigos ou de inimigos. Ou os dois. Depende de como você fez a coisa.

Assim fiz. E continuo aqui. Como espectadora, é claro, porque tudo que sei sobre o assunto, está na íntegra no texto acima, e que ficou até grande demais. Quando quero dizer mais e me divertir ao mesmo tempo, vou ao Big Bundas Brasil!




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Terça-feira, Janeiro 8

CADA SER EM SI, CARREGA O DOM...


...DE SER CAPAZ DE SER FELIZ!!

Lembrei-me do meu primeiro dia de escola. A saia curta xadrez, longa, pra pernas tão pequenas. A camisa branca impecavelmente passada a ferro e alisada em detalhes por minhas mãos ansiosas em vestir-la. As meias soquete brancas e o tão desejado tênis “Bamba”.

Se naquela época eu já tivesse o hábito de me deliciar com retóricas, certamente teria rido da imagem que tenho guardada das crianças chorando ao despedirem-se das mães, sob a placa com o nome da escola: E.E.P.G “Consuelo” etc e tal..... Consolo?

Jabor, o Arnaldo, se deliciaria e a cena iria parar em uma de suas crônicas. Então porque não eu? Testemunha ocular, desses dias perdidos no alçapão de minhas memórias. Ai, que saudade da cigana Raquel...

Raquel era caçula de uma família numerosa. A única mulher numa ninhada de cinco cabeludos irmãos. Aliás, todos naquela família eram cabeludos. Uns mais, outros menos, mas, todos tinham, pelo menos, meio metro de longos cabelos negros.

Apareceram na calada da noite. Um dia, um terreno vazio, no outro, duas enormes tendas surradas, panelas empilhadas, um varal com roupas íntimas penduradas e até um velho, muito velho, carro numa garagem improvisada.

No cume dos meus sete anos, aquela era a visão de um conto de fadas. Mulheres com roupas coloridas e véus transparentes adornando a cabeça, crianças de pés no chão e o som de cantoria todas as noites.

No pé dos meus sete anos, fui avisada: “Nunca, nunca mesmo, se aproxime dessa gente!” me disse em tom paternal, dono do armazém, o “seu” Miguel.

“Se eu te vir rondando aquele lugar, você vai apanhar!” Bradou minha mãe, sem tom ameaçador nenhum e, nem precisava.

Eu aprendi a caminhar duas quadras á mais e sair dez minutos mais cedo, só pra não passar diante do acampamento. Mas, aprendi também a espiar com o canto dos olhos, a apurar os ouvidos e não perder nenhum detalhe, quando vencia a vigilância velada.

Por intuição descobri que quase todas as mulheres mais velhas usavam lenços na cabeça, mas que havia uma, bem jovem e que vivia com um bebê no colo, que também usava. Portanto, conclui: só as casadas os usava.

Essa foi a primeira de muitas descobertas. Todas furtivas, todas solitárias. Era meu segredo e, seria também meu castigo, caso fosse descoberta. Desvendei os hábitos da família e assim provocava encontros “casuais” com alguns deles.

O Armazém do “seu” Miguel era o lugar ideal. Era onde eu podia ver as mulheres de perto. Via que usavam chinelos “de dedo” e, as saias longas eram postas sobre uma espécie de short que se revelava á luz do sol.

Aquilo me fascinava muito mais que o “be-a-bá” que me era ensinado. Para mim, “Caminho Suave” não era só o nome da cartilha. Era voltar pra casa, em passos lentos, todos os dias e vê-los ocupados em seus afazeres.

Um dia, o inimaginável aconteceu: Um deles acenou pra mim. E eu, claro, saí correndo em disparada maior e mais audível que as de meu coração. Na segurança da minha casa, minutos depois, um sorriso bobo denunciava em meu rosto o prazer de ter sido notada.

Nunca mais aconteceu. Mas aquele dia virou meu troféu. Minha “Susie e, seu namorado Boby, respectivamente, era eu e meu cigano, que se acenavam apaixonados.

Quase um mês depois, Raquel apareceu sentada na ultima carteira, no fundo da sala de aula. O rosto ladeado por duas tranças negras enormes. Se eu não a tivesse reconhecido, não diria que era a mesma menina que vi pelas ruas de mãos dadas com a gorda mãe de saias rodadas.

O uniforme escolar a tornara igual ás outras. Até seus cabelos, que lembrava muito os meus, não pareciam os mesmos. Os olhos sempre fitando o chão, e nos dedos um daqueles anéis de plástico com uma imensa pedra vermelha – brinde de um pirulito.

Pobre Raquel. Ninguém a olhava e quando faziam, seguiam-se risadinhas e comentários. Eu também não gostava dela. Achava-a ridícula naquele uniforme, suas tranças grandes demais e suas unhas sujas de terra.

Toda sexta-feira era dia de Educação Física. Duas horas antes de terminar a aula, vestíamos um shortinho balonê vermelho e seguíamos a professora até o pátio para aprendermos um pouco sobre divertimento com disciplina.

Era um prêmio! Momento sem lápis, sem pedido de silêncio e sem giz raspando na lousa. Logo depois, era servido leite de soja nas canecas de plástico, metodicamente nominadas, por nossas mães no início das aulas.

Foi onde me aproximei da cigana Raquel. Bem, na verdade, ela se aproximou primeiro. Na fila indiana determinada por altura, eu estava sempre à sua frente. Ela não resistiu e puxou meu, também enorme, rabo-de-cavalo.

Também não resisti quando a vi com um dos joelhos no chão e a bunda arrebitada, posicionada pra uma disputa de corrida. Chutei-lhe o traseiro com força, e sua testa ralou no chão de cimento do pátio.

Foi nossa primeira aventura juntas: a sala da diretoria. Devidamente punidas, nos tornamos amigas inseparáveis. Devemos isso a D. Matilde, a diretora, que nos obrigou um abraço.

Raquel foi, ao mesmo tempo, minha primeira inimiga e minha primeira e maior amiga. Nossas famílias nunca se falaram, mas nós nunca nos calávamos quando estávamos juntas.

Eu passava pelo terreno do acampamento e ela se juntava á mim em silêncio até viramos á rua. Depois seguíamos tagarelando.

Não me lembro quanto tempo depois, mas um dia, sem mais nem menos, acordei e vi a grama amassada, os restos de lixo e muitos sinais dos ciganos e do meu pedaço de paraíso. Mas, nem sinal da minha amiga Raquel.

Chorei em silêncio por muitos dias, tive febre e me recusei ir á escola. Cortei em desalinho, com uma faca, meu próprio cabelo. Dias depois, tramei até fugir com um circo.

Mas nada os trouxe de volta. Acho que eram cometas. E, Raquel, uma dessas estrelas que ás vezes cai do céu.

Quem sabe ela não esteja nesse momento, numa galáxia qualquer, escrevendo em seu blog a história de uma amiga, que conheceu na escola, cujo nome prometia consolo.



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Segunda-feira, Janeiro 7

AMIZADE PODE SALVAR VIDAS


JURA???

Confesso que o texto de hoje foi arrancado. Tirado à fórceps. E deve, é claro, deixar seqüelas irreversíveis em minha ambição de ser criativa. O fato é que ele finalmente nasceu, depois de atravessar um comprido e exaustivo trabalho de parto.

Comecei a concebê-lo no final do ano passado. Depois de um dia extremamente exaustivo em que, sem motivo, coversávamos sobre medicina e excelência médica.

Muito compenetrados, discutíamos com seriedade o tema, quando alguém ao tentar mencionar o famoso Juramento de Hipócrates, tropeçou na própria língua e acabou por dizer “Hipócritas”.

Num primeiro momento, ninguém notou. Mas minha mente profissionalmente viciada em atentar para erros dessa natureza foi muito mais rápida que minha discrição e imediatamente registrou o tal “ato falho”.

Para quem não sabe o “ato falho” é um equívoco na fala, da memória, provocada hipoteticamente pelo inconsciente. Ou seja, é sua fala “dedando” seus pensamentos mais íntimos. Fazendo com que você diga “sem querer” uma coisa no lugar da outra.

Explicações teóricas à parte, o importante é que mesmo não tendo sido propriamente um ato falho, a coincidência na sonoridade das duas palavras é mesmo digna de nota. E sem desprezar a importância de Freud e suas teorias, o rumo da conversa continuou o mesmo.

Embora entre nós, fossem poucos os que conheciam minimamente o “Corpus hippocraticum”- conjunto de obras de Hipócrates, ninguém ali ignorava que ele era considerado o “pai de medicina”.

Mais unânime ainda, era o conhecimento de que era de sua autoria o “Juramento” - texto repetido por todos os jovens médicos na ocasião da formatura. Aliás, esse conhecimento deu a vertente para a continuidade da discussão.

Nas palavras do “Juramento” estão embutidos investimentos emocionais e financeiros, os sonhos e expectativas não só de quem as profere, mas, também de toda uma geração, que do cumprimento da mesma, irá se beneficiar.

Não há como não imaginar o olhar carregado de seriedade, o nó na garganta, o tremor na voz e o peso nas costas desses promissores profissionais da saúde. Em qualquer lugar do planeta, o exercício da medicina é profissão reconhecida e reverenciada. E, em qualquer lugar do planeta, existem médicos e médicos.

É assim, também, com todas as outras profissões. Mas o médico, mal comparado, é como uma operadora de celular: as opções são tão numerosas quanto duvidosas. E, não importa pra onde você dirige sua atenção, no fim, das contas sempre precisará de uma delas.

Seremos, então, obrigados a escolher entre as boas, as ruins e outras ainda piores. É nessa escolha, aliás, que tudo fica nas mãos de alguns poucos critérios e muita sorte.

Escolher um médico equipara-se à eleição de alguém pra nos tornarmos amigo. De concreto, sabemos apenas que sempre iremos precisar de um.

Qualquer um se sente confortável e protegido tendo ao lado, ao menos, um bom médico e um bom amigo. Ninguém passará por essa vida sem ter tido algum (ou vários) muito especial e algum (ou centenas) que o desapontará.

As semelhanças, entretanto, não param aí. Essa eleição, por exemplo, em ambos os casos poderá ser voluntária, circunstancial ou imposta. Haverá sempre uma desconfiança inicial, assim como certo receio de entregar-se para esse desconhecido que já chega visando sua intimidade.

Assim como os amigos, os médicos e suas habilidades, nem sempre estarão dentro das nossas expectativas, mas sempre teremos a liberdade de deixá-los no meio do caminho se nos sentirmos lesados.

A semelhança mais dramática é que, médicos e amigos, uma vez instalados em nossas vidas, tornam-se humanamente impossíveis de serem substituídos sem algum tipo de perda. Assim como, não substituí-los quando necessário, pode ser igualmente nocivo.

Alguém pode dizer: “Mas não é necessário pagar para se ter amigos”. Será? Á meu ver, muda a moeda de troca, mas o preço é sempre alto e sempre acharemos que será um bom investimento.

Mas, sob meu olhar, o que mais os aproxima quando relacionados ás nossas necessidades, é a capacidade de ambos de muitas vezes, inspirarem uma confiança que não merecem.

A internet e sua rede de relacionamentos, para muitos, é o equivalente á um serviço público de saúde. E em ambos, fica valendo á máxima que todos conhecemos e lamentamos: quanto mais pessoas esses médicos e “amigos” têm que atender, menor será a qualidade do atendimento que nos dispensará. Não deveria, mas é!

Talvez o segredo esteja, então, no juramento. Imagino que intimamente todos nós fazemos o tal juramento em algum momento de nossas vidas e, assim como alguns humanos médicos, “seres humanos amigos” eventualmente também o esquece.

Assim, vale lembrar:


JURAMENTO DA ARTE DE SER HUMANO.

Juro,

- Estimar, tanto quanto aos meus pais, aquele que me ensinou esta arte;
- Fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar.
- Ter meus amigos por meus próprios irmãos;
- Ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito;
- Aplicar essas normas de conduta para o bem segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém.
- A ninguém darei por comprazer, um conselho que induza a perda.
- Conservarei imaculada minha vida e minha arte.
- Em toda casa entrarei para o bem, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução, sobretudo, dos prazeres com as mulheres ou homens livres ou escravizados.
- Aquilo que no exercício ou fora do convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.
- preservar minha integridade moral e ética e nunca tentar comprar ou me vender com o propósito de ganhar notoriedade ou atingir metas inescrupulosas.

“Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça”.


No mais, fica meu sincero desejo que nos seja possível acumular amigos, na mesma proporção que dispensarmos a necessidade de médicos. E, que se impossível for, que os médicos sejam, ao menos, nossos amigos.


- posted by Mara


Domingo, Janeiro 6

O ÓCIO É A FERRAMENTA DO DIABO!


ops! DO "COISA RUIM"

O Juvenal Antena morreu. E isso causou uma comoção enorme. Morreu o líder popular, o criador da terra prometida. O sujeito que peitou o destino e também quem ousou bradar sobre a fatalidade das injustiças.

Já disse antes e ninguém acreditou. Então vou repetir: Eu não assisto novela! Mas, sou brasileira, estou na faixa dos quarenta anos, moro no interior e cresci ao som do Ilariê da Xuxa. Então, é claro, sei quem é Juvenal Antena.

Sábado á noite, a brisa do mar arrepiando a pele queimada de sol, uma porção de lula á dorê aqui, o som das ondas de acolá e meu olhar entediado e saudoso das sirenes e buzinas, busca uma informação adicional.

Foi quando vi. Eu juro que vi, aliás, numa resolução muito boa, o Antonio Fagundes, que já foi Nostradamus e até Rei Lear, levantar no melhor estilo Lázaro, de uma mesa mortuária improvisada, pra alegria da comunidade.

Pensei: “Deve haver alguma coisa de subliminar nisso!”. Ou, o que levaria os reis da dramaturgia brasileira a imaginar que poderiam invadir minha mente como uma cena folhetinesca dessa?

A resposta, se houve alguma, não pôde ser ouvida. Já que os sons ao redor justificavam a palavrinha escrita á direita da tela que dizia: “mute”. Não sei se foi impressão minha, mas, no momento da ressurreição, muitos desses ruídos cessaram.

Da distância em que eu estava ainda pude ler nos lábios do Fagundes: “Mas, que diabo é isso?”. Se não foi isso, peço desculpas antecipadas aos noveleiros que me lêem. Mas, a palavra “diabo” ele disse. Disso eu tenho certeza.

No minuto seguinte, minha atenção foi desviada pela chegada do garçom. De gravata borboleta contrastando horrivelmente com a decoração de sisal do local, disse, sem preâmbulos: “Vão querer mais alguma coisa?”

Imediatamente matei a charada. O garçom, as pessoas das mesas ao lado, o dono do bar, a lula que jazia em meu prato mergulhada no molho de maionese, todos, sem exceção, fazem parte de uma trama muito bem engendrada pra submeter minha mente aos domínios dos poderosos.

Eureka! Tudo aquilo, enfim, foi armado e arquitetado pra me fazer digerir a menção ao capeta feita pelo ex-galã global, sem melindrar minhas convicções religiosas. Assim, eu descobri o que muita gente já dizia e eu não acreditava:

Estamos mesmo sendo invadidos por uma poderosíssima rede de intrigas que visa esmagar nossas mentes, incutir seus próprios valores e nos fazer consumir tudo aquilo que lhes convém. Tomar nossa mente e nosso espaço no mundo.

E olha que eu não estou falando da lula não. Nem “do” Lula. Uma sensação de soberba intelectual invadiu meu corpo e o sacudiu em frenesi.

Me senti com a alma lavada. Por mim, e por todos os teóricos da conspiração. Minha mente privilegiada, ainda que de férias, havia vencido a barreira do subliminar e desmascarado esses malfeitores públicos.

Saí de lá com duas certezas: Primeiro: TV de bar não está lá apenas para que decorar o local. Segundo e, não menos fundamental, que eu teria que contar minha descoberta para o maior número possível de pessoas.

Pensei em fazer isso em outro blog, que tivesse mais vantagem numérica de acessos, mas logo concluí que todo cuidado é pouco e que não poderia confiar em qualquer um. Não queria correr o risco de ter minha teoria, espetacular e inédita, plagiada.

Deitada e buscando o sono, algumas horas mais tarde, fiquei repassando mentalmente o episódio. Não queria esquecer nenhum detalhe para relatá-lo sem falhas.

Daí, lembrei que, só em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, o demônio recebe mais de cem alcunhas diferentes para evitar que o nome seja entendido como invocação pelo próprio.

Mas, o Fagundes não. Ele articulou muito bem a palavra, quase soletrou: “Mas, que Di-a-bo” é isso? Ele disse e todo mundo viu, quer dizer, ouviu. Ou melhor, alguns viram e outros ouviram ao mesmo tempo. Aquilo foi, definitivamente, subliminar.

Não nas entrelinhas, já que não havia legenda. Mas, subliminar. Então tratei de esquecer minha temporária condição de ócio e recordar o que aprendi sobre isso.

A psicologia afirma que a percepção de um estímulo (isto é, ver algo e saber que viu) depende de fatores psicológicos e sociais tanto quanto de fatores fisiológicos. Alguém pode ver alguma coisa e simplesmente não se sentir confiante o suficiente de ter visto.

Fala em uma faixa de percepção acima do limite superior, chamado de limiar subjetivo, as pessoas são capazes de notar claramente um estímulo; abaixo do limite inferior, chamado de limiar objetivo estão os estímulos que não podem ser percebidos de maneira nenhuma.

Mas, acima do limiar objetivo as pessoas percebem os estímulos e pensam que não perceberam. Ah é???? Fiquei frustrada! Quer dizer que aquilo não foi subliminar, nem foi entrelinhas, nem mesmo uma sacanagem pra prender minha atenção?

Então, tudo aquilo que teimava em martelar na minha cabeça e que atrapalhou meu sono, era só um texto mal escrito e cheio de clichês para um capítulo de sábado - reconhecidamente um dia de baixa audiência para a novela? Bolas!

Mil vezes bolas! Sempre desejei ser alguém injustamente envolvida numa trama maquiavélica de subtração mental. Servia até ser abduzida por extraterrestres. E tudo que consegui foi ser mais uma telespectadora da Rede Globo.

Mas, teve suas vantagens. Aprendi que nunca mais devo engolir lula descontraidamente sem, antes, avaliar se quem me ofereceu tem ou não canal à cabo. E, principalmente, nunca mais perder momentos preciosos das minhas férias procurando coisas nas bobagens que vejo por aí.

Valha-me Deus!*. Por pouco, muito pouco, não engrosso á longa lista de pessoas que vivem com mania de perseguição. Coisa que, na melhor das hipóteses, é jogada de marketing da pior qualidade.

Ah! Não posso esquecer o mais importante de tudo: Juvenal Antena não morreu. Tá vivinho da Silva.

Já o Antonio Fagundes...



* expressão usada sem segundas intenções e politicamente correta.


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Sábado, Janeiro 5

CADA UM SABE A DOR E A DELÍCIA DE SER O QUE É!


... A GENTE SÓ DESCONFIA!

Eu poderia estar roubando. Eu poderia estar matando, poderia até estar chefiando quadrilhas. Mas, estou aqui fazendo um esforço enorme pra não escrever nenhuma besteira que dê qualquer chance pros desafetos fazerem de meus humildes pensamentos, uma piada invejosa e rancorosa.

Pensando bem, retiro o “humilde” da frase acima, já que me acusaram de ser arrogante. Também retiro o “invejoso e rancoroso”, porque isso pode gerar identificações desnecessárias. Tipo assim: faz a mira no pássaro e acerta o urubu. Nunca se sabe.

Mas daí, como eu vou poder expressar o que quero dizer? Que palavras me restam? Já sei. Não digo nada e colo algum texto supostamente bacana, de alguém mais bacana ainda, que ninguém tenha coragem ou motivos pra rechaçar.

Existe ainda uma alternativa bastante em moda. Usar um plural de modéstia. Sabe aquela coisa de “nós resolvemos”, “nós fizemos”. E se algum desavisado começar a levar isso muito ao pé da letra eu dou um “presta atenção” e pronto.

O duro é que ninguém mais anda acreditando nessas coisas. E esse papo de ser politicamente correto já virou coisa de quem não sabe mesmo o que escrever, quando ninguém o fez antes dele.

A ordem agora é fazer política de boa vizinhança. Mas, desde que a vizinhança já tenha seus créditos garantidos. Daí é só valer do velho recurso gramatical aprendido nos primeiros anos de escola.

Quando fazem alguma coisa bacana, vão logo falando na primeira pessoa do singular. Mas, se a coisa ainda é incerta, se ainda não mostrou as garras que possui na garganta, então a sugestão é sempre: “vamos” dar as mãos e fazer uma grande corrente de oratória.

O tempo tem mostrado que a maneira mais fácil de ser assim descompromissadamente comprometido é copiar tudo aquilo que se considera fidedigno. E daí, pergunto eu, de quem foi que esse tal de fidedigno copiou?

Aliás, está aí uma pergunta que “nós” não queremos calar: Como se chega á algum lugar sem o dito cujo do empurrãozinho? É possível ter “sucesso” e não ter absolutamente ninguém por trás dando aquela famosa forcinha?

Será que só as mulatas do Sargentelli eram pessoas colocadas em evidência através de seus pequenos contatos? Bom, pelo menos era o que se dizia na época em que elas eram sucesso. E ninguém nunca negou. Velhos tempos aqueles!

Deve haver algum mistério que nós, simples mortais, desconhecemos. Em época de conspiração, não acho que seja exagero pensar que deve haver um supermercado de pequenos contatos aberto vinte e quatro horas pros “talentosos” de plantão.

O problema é que, se existe, o endereço é mantido á sete chaves. Ou melhor, á sete senhas. E algo me diz que a moeda corrente lá não é a mesma que se gasta pagando provedores de internet. Sei lá, mas aposto que há uma espécie de pacto selando esses acordos comerciais.

Alguma coisa do tipo: você me dá sua alma, seu caráter, sua dignidade e principalmente sua gratidão (comigo e com os outros) e eu te promovo muito além do que você chegaria por seus próprios meios. Cruzes! Vade Reto.

Como todo contrato, teria uma clausura de garantia de sigilo: “Na simples insinuação da existência desse contrato, nossa equipe de marketing difundirá a idéia de que se trata de fofoca de invejosos e rancorosos desafetos". (ai, Caracas, falei de novo!)

Teria também garantias na divisão de responsabilidades: “Qualquer dano causado pelo mau uso desse contrato será de responsabilidade compartilhada entre contratante e contratado. Podendo o ultimo fazer uso, na ausência de idéias próprias, de qualquer outra anteriormente lançada pelo contratado".

Alguns termos contratuais devem estar bastante claros. Tipo: “Fica também estabelecido que, uma vez assinado o contrato, ambas as partes poderão se referir á ele sob a alcunha de “amizade” e se isso, por algum motivo tornar-se constrangedor, é permitido o uso da palavra: “pesquisa”.

E por fim, nas linhas finais, em letras minúsculas, deve constar: “Qualquer rompimento deste acordo doravante chamado de “amizade”, não poderá ser feito sem a elaboração de engendrada e “espetaculosa” encenação, suficientemente grande e capaz de gerar ibope para ambas as partes envolvidas".

Pode parecer devaneio, mas que pode ser possível, isso ninguém tem como negar. Uma vez “assinado” o tal contrato, pronto:

Nascem as estrelas ou ressurgem majestosas, já que as vezes, podem até parecer cadente, mas estão mesmo é hibernadas á espera de instruções. E, eu aqui, achando que quem é rei, já nasceu majestade!!

Ontem, me deliciando no delicioso blog "Matutando", descobri que ir á feira pode ser um bom negócio pra quem anda com o ego meio fragilizado. (vale a pena ler!)

Decidi que vou propor á Mineira, administradora do blog, que façamos uma pequena alteração e que acrescentemos á esse instrumento de massageador do ego, um desses mercadinhos de contatos.

Afinal, elaborar um texto como eu pretendia quando comecei a escrever esse, pode mesmo ser um exercício de arrogância, e ser necessário muito Q.I (Quociente de Inteligência), coisa que nem sei se possuo. (Pronto. Dessa vez fui humilde!)

Além disso, sou da geração fast food, e se posso comprar pronto uma versão genérica (Q.I - Quem Indicou), porque vou perder meu tempo cozinhando meus neurônios com devaneios nada literários?

Ah! E endereço do tal mercadinho, se eu descobrir, prometo divulgar. E, se conseguir uma cópia do tal contrato através das minhas buscas no Google, também.

Mas, pra um bom navegador, dois “dáblios” e uma palavrinha bem colocada, já dão a direção do vento á seguir. Daí é só inflar as velas e seguir a frota mais numerosa.




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Sexta-feira, Janeiro 4

O QUE VEM DE TRÁS...


SE TOCA PRA FRENTE, CERTO?

Que todo mundo envelhece é um fato. Que isso provoca desconforto em muitos e, é encarado com naturalidade por outros, também. Assim, o processo em si, nem vale a pena ser discutido, já que as vantagens estarão sempre emparelhadas com as desvantagens.

Eu não sei vocês, mas em mim, o envelhecer vem se tornando cada dia mais evidente. Embora fisicamente eu me sinta muito melhor do que em qualquer outro momento da minha vida, meu olhar sobre o mundo parece estar meio cansado de ver certas coisas.

Eu poderia fazer uma imensa lista dessas coisinhas que com o tempo foram me cansando. Das mais simples como as novelas, até como enfrentar a eterna discussão sobre as CPMFs da vida.

Mas, concluo que qualquer uma dessas coisas, assim como eu, também sofreu seu processo natural de envelhecimento. Então, somos velhos companheiros de jornada e amigos de tanto tempo não falam mal um do outro. Certo, não é?

Ontem, na madrugada, liguei a TV pra desafiar meu sono escondido em algum lugar do meu dia de ócio, e dei de cara com o John Malkovich, vinte anos mais novo, em um filme que eu nunca havia assistido. Fiquei chocada.

John é um dos meus atores preferidos. Reconheço aquela voz de ressaca e aquele olhar cínico até com os olhos fechados. Mas, no filme, John estava irreconhecível.

Faltava-lhe aquele vinco na testa que o caracteriza e que dá á seus personagens, á qualquer um deles, aquele “quê” de serial killer extremamente inteligente. Quase chorei.

John Malkovich, diante dos meus olhos, era uma jovem e mirrado ator coadjuvante. Tem gente que envelhece, mas ele tinha “enjovecido”. Meu ator preferido, um dia teve um rosto que eu não conhecia, conclui assim, meio decepcionada, meio triste.

Desliguei a TV em protesto á aquele jovem que zombava da imagem envelhecida do meu ídolo. Daí só me restou encontrar meu sono deixando minha mente vagar por pensamentos evocados pelo choque de ver que John e eu estamos velhos.

Me ocorreu que algumas pessoas não se dão conta que não só a pele ou o corpo humano envelhecem. Bom, há alguns que nem isso reconhece em si mesmos. Mas, envelhecer é um “pacote” que, uma vez adquirido, abrange quase tudo á nossa volta.

Se você começou a envelhecer, prepare-se. Porque tudo que você conhece já havia iniciado o processo muito antes. Envelhecem os discursos, os conceitos e até as atitudes.

Um dia, você se pega falando como sua avó sobre a roupa (ou a ausência dela) “indecente” da Juliana Paz. Aí se toca: Bem vindo ao mundo dos ultrapassados.

Ocorre que muitas pessoas não aceitam isso tão pacificamente. Confesso que sou uma delas. Mas, justifico-me através da constatação de que o tempo e a dedicação ás atividades físicas driblaram alguns dos efeitos do tempo em mim.

Ainda posso me dar o luxo de chocar algumas puritanas ortodoxas de plantão. Além disso, ser mãe de um adolescente sempre nos força a lembrar que espaço-tempo estamos ocupando, além de deixar sempre em evidencia se estamos ou não fazendo papel ridículo nessa apropriação.

O que é de fato, muito triste é a constatação de que algumas pessoas insistem em exprimir suas idéias através dos mesmos discursos e recursos que possuíam quando ainda faziam seus protestos contra a ditadura. Pararam o tempo na tentativa louca de se manterem ativos.

Fazem protestos inflamados, valem-se da persuasão e da eloqüência para convocar seguidores. Não hesitam em fazer alianças e delimitar com precisão cirúrgica a linha que separa suas crenças das que deseja combater.

Promovem piquetes e passeadas até pra eleger o síndico do prédio. Tornam-se conhecidos por seu eterno perfil belicoso e defensivo. Espalham conceitos de “estado ideal” e ameaçam oponentes com a força da união. São estadistas dos próprios interesses.

Atribuem ás suas próprias idéias o valor de uma guerrilha. Lideram exércitos de velhos combatentes em tempo de paz. Daí nos impinge um grotesco espetáculo e somos obrigados á assistir uma demonstração digna de desfile de ex- combatentes do Vietnam.

Tudo isso, ás vezes, pra discutir apenas como deveria ser o final da novela das oito.

Nada mal. Se deu certo um dia, porque não haveria de ter êxito outra vez? Mas, esquecem que, a “escola” que os formou, também formou outros tantos, que também aprenderam a tal “arte da guerra” e saberão identificar muito bem essas estratégias ultrapassadas.

Subestimam, portanto, a capacidade de quem os assiste nessa demonstração “démodé” de sabedoria de identificá-los como manipuladores e dependentes da adoração alheia. Mas e daí? Sempre haverá uma multidão igualmente carente para segui-los. Quem sabe os velhos companheiros da UNE...

Do que estou reclamando então? De nada exatamente. E de tudo, se visto com o olhar cansado de quem também envelheceu no meio desses saudosistas do movimento hippie e freqüentou a Escola de Arte Dramática da USP.

Eu queria mesmo era ver gente nova. Idéias revolucionárias partindo de cabeças que não usam rabo-de cavalo apenas pra esconder a calvície, mas por convicção. De gente, cujas tatuagens, estão bem delineadas e não distorcem em rugas a face do Che Guevara.

Mas, ando meio desiludida quanto á isso. Sempre que assisto á um jovem querendo mostrar á que veio, e peitar o mundo com suas idéias, vejo também, um desses brilhantes piqueteros do passado empenhados em puxar-lhes o tapete.

E assim, Malkovich na madrugada de ontem me alertou: Um grande talento atual, já foi um excepcional e talentoso jovem no passado. Mas, não consigo imaginar que o Charles Chaplin faria discursos eloqüentes pra convencer o público americano de que Brad Pitt é um charlatão, por exemplo.

Explicou também o título do meu filme preferido: “Quero ser John Malkovich” e certamente vai fazer com que eu tenha uma conversa muito franca com meu jovem filho nessa manhã.

Acho que agora estou pronta pra ouvir porque ele não gosta do John e porque a maioria das músicas que eu escuto ele até conhece, mas odeia. Acho que exagerei um pouco quando o convenci de que tudo que vem dos mais velhos, merece respeito.

Às vezes, ter experiência em alguma coisa pode ser apenas uma maneira de dizer que está na hora de desfrutarmos á vida e deixar que essa moçada empreenda suas próprias e novas lutas.

Se ele sair em passeata depois da nossa conversa, eu vou ficar aqui na praia, tomando água de coco preparando conselhos pra quando ele voltar. Sempre lembrando, que assim faço minha parte sem impor minha velha presença.



- posted by Mara


Quinta-feira, Janeiro 3

QUEM É VOCÊ PRA FALAR DE BELEZA?


Definitivamente a culpa é do Vinícius. Sempre foi. A verdade é que como o cara era de uma sensibilidade ímpar, ninguém nunca ousou apontá-lo como responsável. Mas, estava ali pra quem quisesse ver ou ler.

Bem nascido, criado entre acordes e poesias, ele clamou em verso e prosa e muita gente gostou. Gostou tanto que copiou, usou e abusou da frase célebre: “As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Engraçado, vindo dele todo mundo aceita e ainda faz eco.

Mas, tudo bem. Para se redimir, ele também ajudou a perpetuar a frase que virou título de música “Maria vai com as outras”. Assim, se foi o Vinícius que falou, beleza deve mesmo ser fundamental, não é Maria? Quer ir consultar as outras antes de responder? Fique á vontade, a gente perdoa essa “insensatez”.

O fato é que ninguém mais pensou em questionar a beleza como característica de real importância. A inteligência, por exemplo, virou adendo incompatível e, portanto, excludente. Se for bonito nem precisa ser inteligente e vice versa.

Aliás, mais o versa que o vice. Inteligência é mesmo um atributo que exige mais do que um simples olhar pra ser captado. E, muitas vezes, é até confundida com esperteza. Entretanto, uma coisa é uma coisa, outra coisa é quase sempre aquilo que não pudemos entender.

Já a beleza vem envolvida pela magia de tudo aquilo que é tênue. Em outras palavras, é coisa pra se olhar aqui e agora, porque amanhã não mais existirá, ou haverá uma nova que a ofuscará.

Não sei se há, mas se não há, deveria haver, algum dado comparativo e demonstrativo entre o número de pessoas belas e as inteligentes. Arrisco o palpite que a segunda amostra sairia e chegaria com grande vantagem numérica.

Suponho, por observação informal, que deve haver muito mais gente inteligente do que bela no mundo. Entretanto, nunca ouvi dizer, por exemplo: “Esses padrões de inteligência são exigências da indústria televisiva, que dita regras de modismo’.

Ou: “A forte influência da mídia impõe modelos de inteligência difíceis de serem alcançados e provoca sérios danos comportamentais em adolescentes de ambos os sexos”. Ou ainda: “Os perigos da ditadura da inteligência imposta pela mídia”.

É. Alguém já disse e tinha razão: Onde vamos parar? Ou essa pergunta é do Spielberg reproduzida pelo ingênuo de dedo brilhante, o E.T? De qualquer forma, não é á toa que o tal extraterrestre, pedia tanto pra telefonar pra casa. Mesmo sem conhecer o Capitão Nascimento, ele queria mesmo pedir pra sair. E.T for home.

Mas, como falando de beleza eu cheguei no E.T vai permanecer um mistério. Além disso, o tal bichinho do Spielberg era muito, mas muito feio. E não é que todo mundo achava ele fofinho?

Vai ver é porque “beleza não se põe na mesa” e dessa forma os feios estão novamente ferrados. Só eles é que são suscetíveis á serem comidos vivos pelos críticos, em sua maioria feios de doer, da beleza alheia.

Pega daí que, nesse ponto, o Vinícius (pra quem ainda não percebeu) de Moraes, tinha mesmo razão: Beleza é fundamental pra se manter minimamente em paz num mundo onde todos que aspiram um lugar ao sol são avaliados por seus atributos físicos.

Falando nisso, cuidado com o sol. Dizem as más línguas que ele é o inimigo número um de qualquer beleza. Mas, é ainda pior pra quem não a possui. (Desculpem a entrelinha indecente, que apenas alguns entenderão, mas foi irresistível).

Mas, voltando ao assunto, os feios e os belos são, por sua vez, muito úteis para ressaltar a inteligência crítica alheia, já perceberam?

Sigam meu raciocínio: É pensamento corrente que aos feios resta apenas a inteligência e aos belos sobra a ausência dela. Assim, discursar sobre esses atributos físicos é sempre mais fácil que entrar num corpo-a-corpo, quer dizer, “mente-a mente”, com os que são dotados de inteligência.

Entenderam porque nunca ninguém questionou o Vinícius? Quem seria idiota o suficiente pra debater sobre as produções de um cara dotado de um Q.I tão especial? Foi aí que muita gente se tornou especialista em avaliar atributos físicos.

E o pobre poeta que certamente se referia a outras formas de beleza quando elaborou tal frase, acabou afiançando muita gente desprovida de capacitação crítica. Inclusive a de autocrítica.

Eu ainda prefiro a máxima: “Quem ama o feio, bonito lhe parece.”. Porque assim, ao menos, podemos responder com um lacônico: “são seus olhos”, quando somos elogiados ou criticados.

No mais, todo o resto é conversa plagiada das irmãs invejosas da cinderela. Tão inteligentes que nem perceberam que o maior trunfo da caçula não era ser bela, e sim ter pés pequenos e saber estar no momento certo no lugar certo. E sair antes de virar abóbora!



- posted by Mara


Quarta-feira, Janeiro 2

ENTRE TODAS AS CORES...


ENTRE TODAS AS FLORES...

Resumidamente, existem duas maneiras de se viver. Uma delas é aquela que compreende coisas simples e corriqueiras como: nascer, viver e morrer. Já a outra é bem mais complicada.

Essa outra maneira de viver - a mais complicada - é aquela em que cada uma dessas fases vem acompanhada de agravantes limitadores. Fatos e fatalidades que fariam qualquer um duvidar da própria capacidade em enfrentá-los.

Mas como quase tudo na vida também essas fatalidades são evolutivas e o que há alguns anos era uma sentença de morte, hoje, pode ser visto de uma maneira muito mais branda e até com certa positividade.

Quando eu nasci, as mulheres tinham seus filhos em casa, com ajuda de parteiras, no intervalo entre as tarefas. Sofria-se mais, morria-se mais, mas estava dentro da normalidade, assim como nome dado ao ato de se ter filhos sem intervenções externas: Normal!

Mais adiante, dor de dente, de cabeça, urticária e gagueira se resolvia com simpatias e chás medicinais. Médico, só para casos extremos. E era de família e “da” família, já que eram os mesmos por gerações e gerações e atendiam á todos, da vovó ao bisneto.

Não havia especialistas. Os mesmos remédios para as mais diversas doenças. Assim, sobrevivemos á epidemias, surtos e até á sucessivos partos, já que se tinha um número muito maior de filhos. Morria-se de gripe, de meningite e até de “bicha na barriga”.

Mas, vivia-se com um número muito menor de divergências diagnósticas. Não havia erro de diagnóstico e sim, doença desconhecida.

O que nos tornamos, como filhos dessa geração, é o que nos proporcionou a segunda maneira de se viver mencionada no início do texto. A mais complexa delas, herdada de uma geração anterior, que riria se soubessem da soberba com que lidamos com as “descobertas” alcançadas.

Somos, na verdade, os sobreviventes entre as vítimas de tudo aquilo que ainda não havia se descoberto a cura ou a prevenção. Somos os amedrontados sobreviventes do sarampo, da pólio, e ainda hoje, somos vítimas em potencial da Aids e de alguns tipos de câncer.

Entre nós há os que são ícones dessa geração. Seus destinos, não são simples resultados desse, ou daquele comportamento, embora em alguns casos seja possível que sim.

Existe ainda um critério misterioso que os elegeu e até que me provem contrário, eu ouço minha própria teoria.

Falo dos que, um dia, enfrentaram esses percalços terríveis e se ergueram soberanos, derrotando a dor, a desesperança, o medo, o estigma, o inevitável e por fim, o prognóstico.

Isso, é claro, não faz deles seres divinos e isentos de sentimentos impuros, mas não deixa dúvidas de que foram muito mais longe do que tencionavam no desafio de se viver da maneira mais difícil e chegaram muito mais perto, do que a maioria, do conhecimento real de viver pelo simples desejo de viver.

O fato é que os que viveram algo assim tiveram a oportunidade de estabelecer um marco divisório em suas vidas. Marco que cria um antes e um depois. Um “eu era” por um “eu sou”.

A experiência os transforma nos verdadeiros mestres da alma. Em doutores não só no infortúnio que os acometeu, mas também na capacidade de compreender qualquer dor alheia sem esforço.

Mas, é óbvio, essa “vantagem” não é suficientemente grandiosa pra que se sintam privilegiados. Nem deveriam.

Muitos, inclusive, nem a enxerga. Mas, basta um segundo, menos, um milésimo de segundo ao lado de alguém assim, pra que sintamos a inferioridade de nossa capacitação empática se comparado á deles.

Com os sentidos apurados, sabem, sempre sabem o que queremos dizer quando expressamos nossa dor. Por terem vivido uma experiência tão dolorosa era de se esperar que se tornassem insensíveis as dores alheias, sobretudo, as essencialmente inferiores as que eles próprios tiveram. Ledo engano.

Ao contrário, tendem a supervalorizar cada relato, cada suspiro, como se quisessem estancar com as próprias mãos a dor do outro. Tornam-se socorristas movidos pela compaixão e excelentes ouvintes.

Todos nós conhecemos alguém assim. Alguém que peitou os “doutores da vida”, que debochou dos pessimistas e, que fez muita gente rever suas certezas.

Daí a minha teoria: Não se trata de uma eleição ou punição divina, e sim uma missão á ser cumprida. Como uma graduação que os elevaria á um patamar impossível de ser alcançado de outra forma.

É preciso, é claro, possuir pré - requisitos bem delimitados. Uma alma doente dificilmente resiste á uma dupla enfermidade. A conclusão exitosa dessa graduação é comemorada diariamente.

E esse festejar espalha-se através dos dias, meses e anos. E quem pode considerar-se, de fato, escolhido, é quem tem o privilégio de estar ao lado deles.

Por força de minha profissão convivo com muitos desses graduados. E, confesso, é deles que extraio forças quando, por não possuir tal status, penso em esmorecer.

Queria me desculpar por pedir uma permissão tardia, aos que acompanham esse blog, por ter escrito esse texto com destinatário certo. Não se trata de um post genérico ou escrito com isenção profissional.

É antes, um relato apaixonado e sincero á alguém que pensa estar hoje comemorando mais um ano de vida. “Pensa”, porque não se pode medir uma vida igual a dela através da passagem normal do tempo. Mede-se pelo nível de amor que espalha.

E nessa medida, ela se supera todos os dias e não apenas uma vez ao ano. Á esse alguém que conheço a única retribuição possível é dizer-lhe que:

Viver á seu lado, minha amiga, é reaprender todos os dias que seriam necessários muitos aniversários para assimilarmos um terço do que você acumula em sua alma.


* TEXTO SEM CORREÇÃO


- posted by Mara


Terça-feira, Janeiro 1

AH! O AMANHECER DE UM NOVO DIA...


BOM DIA, 2008!

O grande barato da vida é olhar para trás e sentir orgulho da sua história ou, ao menos, de algumas partes dela. É viver cada momento como se a receita da felicidade fosse o AQUI e o AGORA.

Claro que a vida prega peças. É lógico que, por vezes, o pneu fura, chove demais... Mas, pensa só: tem graça viver sem rir de gargalhar pelo menos uma vez ao dia? Tem sentido ficar chateado durante o dia todo por causa de uma discussão na ida pro trabalho?

Quero viver bem. 2007 foi um ano cheio. Cheio de coisas boas e realizações, mas também cheio de problemas e desilusões. Normal!

Às vezes se espera demais das pessoas. Normal! Grana que não veio, o amigo que decepcionou, o amor machucou. Normal!

2008 não será diferente. Muda o século, o milênio muda, mas o homem é cheio de imperfeições, a natureza tem sua personalidade que nem sempre é a que a gente deseja, mas e aí?

Fazer o quê? Acabar com seu dia? Com seu bom humor? Com sua esperança? O que eu desejo é sabedoria! E continuar sabendo transformar tudo em uma boa experiência!

Desejo isso a todos! Que todos consigamos perdoar o desconhecido e o mal educado. Não tem jeito, ele passou na sua vida. Não pode ser responsável por um dia ruim...

Que possamos entender o amigo que abriu mão de nós, mesmo tendo tido nossa melhor parte. Se existiu alguém assim, que o decepcionou, passe-o para a categoria 3 - a dos amigos.

Ou mude de classe, transforme-o em colega. Invente uma nova categoria, se as anteriores forem muito difíceis ou os coloque na de “conhecidos”. Além do mais, a gente, provavelmente, também já decepcionou alguém.

O nosso desejo não se realizou? Beleza, não tava na hora, não deveria ser a melhor coisa pra esse momento (me lembro sempre de um lance que eu adoro: CUIDADO COM SEUS DESEJOS, ELES PODEM SE TORNAR REALIDADE).

Chorar de dor, de solidão, de tristeza, faz parte do ser humano. Não adianta lutar contra isso. Mas se a gente se entende e permite olhar o outro e o mundo com generosidade, as coisas ficam diferentes.

Somos fracos, mas podemos melhorar. Somos egoístas, mas podemos entender o outro. 2008 pode ser o máximo, maravilhoso, lindo, espetacular... ou... Pode ser puro orgulho!
Depende de mim, de você!

Não adianta a ilusão de que podemos apagar quem fomos ou o que pretendíamos ser e que não deu certo. Mas, pode ser de grande utilidade não esquecermos o que causamos. Mais eficaz ainda, é aprender com as dores que nos foram impingidas e não reproduzi-las. Mesmo quando instigados á isso.

O bom é saber-se livre para acordar, numa manhã, outra pessoa. Por dentro e por fora. E, perceber que a bagagem que se levava já não nos serve mais, a não ser como exemplo ou saudosismo.

O melhor é fazê-lo sem medo de ser feliz. O Máximo é, apesar de fazê-lo, perceber que parte do que estaria fadado a virar símbolo do que se desejava esquecer, como você, também se transformou e, escolheu seguir ao seu lado.

Essa é a verdadeira renovação. Aí está a essência da vida. Tornar-se uma linda borboleta e ficar voando paciente, esperando a transformação dos que serão iguais. Lamentando sinceramente os que para sempre serão lagartas.

Mas, estar perto o suficiente para que, caso as coisas se modifiquem não perder a oportunidade de fazê-los juntar-se numa linda e colorida revoada.

Assim, BOM DIA queridas borboletas!


* Reprodução e adaptação da palavras de Carlos Drummond de Andrade, extraído de um e-mail enviado por uma amiga nas primeiras horas dessa manhã!



- posted by Mara




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