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Sexta-feira, Fevereiro 29
ABRA SUA MENTE...
...PSICÓLOGO TAMBÉM É GENTE!
Ou não. Os papéis que representamos na vida, por si só, não nos dão a condição necessária pra nos encaixarmos de maneira irrepreensível na condição de “seres humanos”.
E, pra começo de conversa, “ser gente” também está longe de ser uma condição irrepreensível. Ao contrário, significa pertencer à uma das categorias mais controvertida entre os seres vivos.
Mas, a psicologia é demasiadamente pretensiosa e conclamou “gente que se especializada em “gente”. Graduou especializou e até doutorou tecnicamente seres humanos na competência de avaliar a categoria que eles mesmos fazem parte.
Muitos afirmam e eu concordo. De tanto ouvirmos que estamos um passo adiante nessa competência, muitos de nós acreditaram. Muitos levaram isso tão a sério que se julgam um espécime à parte. Uma forma andrógena, adaptativa e perfeita de vida.
Mas, convenhamos, essa pretensão não é exclusividade dos profissionais de psicologia. Não sei o que é pior. Se que os diplomados acreditem nisso, ou os que crêem que nem necessitam de diploma para atuarem como tal.
Vamos combinar? De psicólogos bem intencionados e, de maus intencionados que se crêem psicólogos, o inferno deve estar cheio.
Já vi artistas cercarem os palcos para impedir a entrada de modelos, jornalistas clamarem por regulamentação para frear os avanços de apresentadores. Mas, a mera opinião impor-se como regra de conduta está virando uma moda perigosa.
É preciso reavaliar certos conceitos. Psicólogo é um analista do comportamento. Não as dita, não as julga e menos ainda as impõe como regra. E é desse diferencial que temos que partir.
Qualquer atitude nessa direção o destitui do título e o torna mero ditador moral. É o universo particular e intransferível que capacita, de fato, qualquer profissional. O que já estava ou que virá na esfera pessoal é o que possibilita a utilização das técnicas adquiridas para tornar-se especialista seja no que for.
As experiências que acumulamos na vida não servem apenas para embranquecer nossos cabelos, enrugar a pele ou curvar nosso corpo. Fazem parte desse aprendizado de maneira muito mais eficiente do que qualquer ratinho de laboratório.
Quem somos, a que nos dedicamos, o que amamos ou odiamos, como fomos criados e o que desejamos, sintetizam a fonte inesgotável e única, de onde tiraremos a reciclagem necessária para atuar em qualquer área que escolhermos.
Daí que, não basta ser psicólogo se na vida acumulamos sucessivas derrotas na simples missão de viver harmoniosamente. Da mesma maneira, não basta ser gente pra se autodenominar conhecedor da mente humana.
Qualquer coisa que se acrescente a uma existência fragmentada e sem consistência tende a despencar como um diploma numa parede mal construída.
Muito se fala da necessidade emergencial das pessoas se assumirem como são. À que eu pergunto: quem poderia definir-se completamente, sem incorrer em equívocos? Quem, exceto os arrogantes e ditadores de padrões morais arcaicos discursaria, sem medo, sobre o próprio caráter?
Pois é. Por isso não os vemos fazendo. Por essa razão, raramente essas pessoas falam de si mesmas. Ou quando fazem, são contestadas veementemente.
Pode haver coisa mais ridícula e espantosa que apregoar conceitos dos quais sabemos e, todo o mundo sabe, não colocamos em prática?
Pregar coerência quando se é o primeiro a demonstrar e se justificar através de atitudes e um histórico de vida totalmente desconexo e na contramão da retidão?
Cá entre nós, ficamos patéticos quando desejamos ser o que nem minimamente nos esforçamos pra ser. Já é tempo de aprendermos a diferenciar um simples expressar de opinião, da pretensa capacitação para fazê-la valer como regra.
Tenho lido muito sobre comportamento e perfis psicológicos pela net afora. E, os leio, justamente porque comportamento é a matéria-prima do meu ofício.
Uma coisa é alguém indignar-se com um comportamento que conflita com seus valores pessoais, outra bem diferente é a partir dessa indignação e, de outros interesses, provocar inflamadas e ofensivas críticas sobre o que considera errado.
Mais articulado e pérfido ainda, é utilizar-se da velha técnica da média. Média para subtrair a opinião mais comum, e média para divulgá-la como se fosse sua. E, ainda por cima, julgar a si próprio como “acima” da média.
Eu não disse que odiava estatística? Essa ferramenta aplicada aos seres humanos tem produzido seres medíocres, que se contentam com a relevância de fatos que, no frigir dos ovos, só servem para lhes acariciar o próprio ego.
Gente que cobra exposição absoluta e se esconde numa visão distorcida de si mesmos. Que achincalha a imaturidade e o ócio, mas dedica praticamente todo seu dia a isso. Gente que, na ausência de qualidades próprias, denigre as alheias.
Que invoca preceitos politicamente corretos de forma até poética, para camuflar o mais profundo despeito de não possuírem nada, além de uma hábil oratória e, poder de manipulação. Mas, esses, também são gente.
Era o que eu dizia no início. Ser “gente” nivela todos nós num patamar nem sempre muito agradável. Querer parecer que se é “gente” é ainda pior. Colocar-se a serviço do ser humano, sem possuir as qualidades básicas da espécie é, no mínimo, maléfico.
Da qualificação que me foi atribuída, a única certeza que não hesito em compartilhar é que como gente que dizemos ser, acabaremos todos na mesma maneira. Uns mais mansamente, outros com mais sofrimento. Mas acabaremos.
E esse fato, nos encerra como sabedores absolutos daquilo que de tanto impormos aos outros, esquecemos de exercer. E, ao partirmos, os que doutrinamos com nossas atitudes serão os mesmos que nos julgarão.
Serão nosso legado e nossos juízes. E essa, é de fato, a única vantagem de ser gente: somos construtores da nossa própria história.
Por isso acredito na perfeição do caráter dos animais. Do contrário, eu teria escolhido me tornar veterinária. Se bem que, pelo que andei vendo, alguns deles já têm seus próprios blogs...
- posted by Mara
Quarta-feira, Fevereiro 27
NESSA DATA QUERIDA...
SUA PALAVRA DE FORÇA, DE FÉ E DE CARINHO...
A decisão de ter um blog, de se desnudar frente a desconhecidos e ao desconhecido universo que compõe a alma de cada um que por aqui navega, não é uma tarefa fácil. Tampouco é difícil, é antes, uma prática de amor.
“A fonte de criação, que se faz imensa e estimula a pensar e sentir” costuma vir como areia fina do deserto. Do tipo que não pode ser contida. Nômade, portanto. Altiva como a face causticada pelo sol ardente das experiências. Não é Zaki?
Mas, é mesmo “complicado a gente falar para ou sobre alguém que gostamos muito. Qualquer coisa parece clichê, as palavras escapam, as frases ficam sem jeito”.
Com essa sua anuência XIS eu me desculpo pelos posts eventualmente amargos e tristes. Eles têm sempre o objetivo de desnudar a mim e a quem se referem.
É um construir, todos os dias, maneiras de tocá-los sem feri-los, acariciá-los sem que percebam. Mas, você tem razão. Essa doçura nos transforma em únicos, especiais. E nos faz ter tempo, aliás, todo tempo do mundo pra estarmos juntos.
E nem precisamos ser “videntes” para sabemos que “a paz que plantamos aqui é sempre nossa maior companheira”. É como um apelido de infância, que nos identifica, mas que nos apresenta apenas para os que são íntimos o suficiente. E, você Lilli – amiga também de profissão, sabe bem disso, não é?
Na verdade, “tem pouco tempo que nos conhecemos, mas a sensação é de que já nos esbarramos em algum lugar” e a reflexão que esse “deja vu” proporciona não é mera coincidência.
É, antes, a melhor delas. Basta, Leninha , que percebamos que voltar é sempre uma novidade, ainda que o que vemos não tenha se modificado. Moita serve mesmo pra isso!
E, ainda que nos encontremos “575776 vezes, sempre restará um pouco de perfume em nossas mãos”, simplesmente porque é impossível lidar com as flores sem roubar-lhes o perfume.
Por isso, vou buscar cada um, todo amanhecer em sua própria casa e também na sua Nina. Não para provarem um café melhor ou mais saboroso, mas para roubar o perfume das flores que já está impregnado por lá.
Pra sempre, Lolita , “construiremos um espaço mais que artesanal. Porque não o fazemos apenas com duas mãos. O fazemos a quatro, seis, oito....
Usamos 100% de nossa capacidade para contemplá-lo da maneira como foi idealizado”, e o tornamos verdade a partir de nossa presença compartilhada.
É certo pensarmos em tudo que "nos torna feliz, nas pequenas e nas grandes alegrias que nos agradam tanto" e descobri-las em vários, interligados por uma ponte que muitos invejam, outros desdenham, mas que ninguém duvida.
Pontes vindas, até do além mar e com sabor de chocolate. Que nos trouxe, recentemente, a Cacau.
Daí é só fechar os olhos e “sentir-se abraçado, ainda que nossas palavras não pareçam calorosas, atrapalhadas pelas garras” que cravamos nas “paredes” dos halos, tatuando nossa verdade. Uma verdade cheia de piadas que disfarçam um zelo descomedido, bem á la Sil.
Quantos não desejaram, e ainda desejam que “papai do céu em sua imensa generosidade, derramasse as mesmas bênçãos” sobre outras páginas, outras palavras, outros halos e outros corações? Mas, esse desejo é da Jana e ela é nossa!
MartaS, esse é o preço, amiga. Isso tudo faz parte das extremidades que ligam um blog amigo ao outro, “numa reunião que nunca termina, sem rascunhos”, íntegro e verdadeiro. Capaz de nos arrancar de nossos compromissos reais, mas incapaz de ser esquecido.
E ainda que nos sintamos roubando um pouco de cada um e, que sempre nos falta mais e mais, sabemos que é o “suficiente para que sejamos felizes”. Essa frase dita por quem navega saqueando o amor e admiração dos amigos nos faz cúmplices na bandidagem.
“Como foi que ficamos tanto tempo sem nos conhecer?” Nunca saberemos amiga Semio, gata de rua na melhor versão Manda Chuva. De onde vem tudo isso que numa inversão deliciosa, de real tornou-se virtual e depois virtualmente real outra vez?
“Da energia que irradia bom astral e alegria por anda passa. Uma união generosa, sempre distribuindo carinho!” diria a Vivis e, eu assino embaixo.
Assino sem me preocupar, sem precisar dizer tudo que desejo (porque, hoje, me dou o direito de um momento Bebé.)
E, no fim sabemos que vamos resistir a tuuuudo, não é Chris? Simplesmente porque, como bem disse a Mandys, admiramos muito uns aos outros.
Por tudo isso, ao fim do dia de meu aniversário: “En impresionante calma, bajo las alas del silencio.”
QUERIDOS AMIGOS,
Uma das grandes dificuldades no exercício de graduação de psicologia é fazer com que as pessoas, nossos clientes, percebam que não os ajudamos concretamente. Fazemos, tão somente, com que ouçam a si mesmos.
Temos que aprender a sermos espelhos que refletem imagens reais, sem inversões ou distorções. Interlocutores de emoções e alvos refratários da energia que pulsa em cada um dos que nos confiam suas emoções.
No contínuo aprendizado dessas lições que aprendi e, apreendi de maneira inequívoca, ao longo de minha formação e de minha vida, elaborei o texto que leram.
Feito com as palavras de vocês que, repletas de emoção e genuíno carinho, saltavam sob meu olhar como caracteres, legendas do que sei de cada um. Dizia tanto de vocês mesmos, que me senti constrangida em aceitá-las como direcionadas a mim.
Assim, as devolvo como expressão maior da gratidão que sinto. Não de tê-los tido aqui em meu aniversário, mas por tê-los conhecido.
Por não ter me deixado levar pelas águas turvas do desamor e permitido que cada um de vocês purificasse e exorcizasse os fantasmas que insistiam em me perseguir.
Vocês, por vocês mesmos. Juntos, desenhados na amizade que tão cuidadosamente zelamos!
- posted by Mara
QUANDO O ANIVERSARIANTE É O PRESENTE!
- posted by Mara
Terça-feira, Fevereiro 26
NADA COMO UM DIA...
...APÓS O OUTRO...
Estupidez é algo que se fosse doença não teria cura e seria fatal.
Depois de três semanas de “pré- viuvez joelhísticas”, de uma catatonia somática e, de muito chororô, a parceria entre meu médico e meu Personal Training resultou numa liberação para uma malhação moderada.
Ontem pela manhã (quase madrugada), saí toda faceira, paramentada e travestida de atleta, mal e “porcamente” disfarçando o mancar da perna esquerda, rumo à academia. Parecia meu primeiro dia de aula.
Conferi tudinho em detalhes. A garrafinha de água, a roupa de ginástica nova (comprada antes do diagnóstico e nunca usada), toalhinha pra enxugar o suor, barrinha de cereal e até o polegar lavei pra poder ser identificada facilmente na entrada.
Minha chegada teria ofuscado o Oscar se tivesse sido algumas horas antes. Foi muito bom perceber que todo mundo havia mesmo sentido minha falta. Já na entrada fui saudada por um sorriso enorme do guarda do Shopping, que deixava o turno da noite.
Daí por diante, foram longos minutos de explicação. “Pois é, rompi o menisco esquerdo e estou me preparando pra uma cirurgia.”, repeti pra recepcionista, a dona da lanchonete, o professor de Pilates e para as centenas de atletas matutinos, meus amigos.
Meu olhar ansioso não se despregava dos aparelhos de musculação que, por sua vez, pareciam ser os únicos que não iriam querer saber os motivos de minha longa ausência. Ao fundo, o aparelho que simula os movimentos de esquiar, parecia rir cinicamente da minha falta de sorte.
“Deixe estar, pensei, quando eu voltar pra valer, acabo com ele.” Desviei convenientemente da professorinha bonitinha de hidroginástica e segui meu caminho.
Depois de subir os cinqüenta e dois degraus que levam ao andar superior, minha confiança já não era mais a mesma.
Ignorei as mensagens do meu joelho, deixei minhas coisas no casulo, antes só meu por “usucapião”, inflei o peito e anunciei: “O bom filho a casa torna”. “Ahã”, disse meu professor e sacou do bolso uma enorme atadura.
Aos nove anos, queimei meu braço numa aventura que um dia transformarei em post. A traquinagem me custou trinta e seis meses de um tratamento tão dolorido que o simples relato os levaria às lágrimas.
Entretanto, do episódio, me restou além de uma quase invisível cicatriz, só a lembrança das enormes mãos do médico que me atendeu. Depois de crescida, concluí que não eram tão grandes assim e, que na verdade, meus braços infantis é que eram muito pequenos.
A cena atual protagonizada pelo meu Personal, com seu gesto teatral de tirar a atadura do bolso e acená-la pra mim, me devolveu o pavor esquecido na infância. Eu nunca havia reparado como são grandes as mãos do meu jovem treinador.
O fedelho (tem vinte e poucos anos) imobilizou minha perna toda, limitando os movimentos, antes de anunciar: “Podemos começar”.
E foi assim que iniciamos duas longas horas de aquecimento, alongamento, mensuração de resistência que renderam divertidas gargalhadas e novas explicações para os atletas retardatários que chegavam aos poucos.
Foi realmente muito bom voltar para o segundo lugar onde me sinto realmente viva. Lugar onde deter os efeitos do tempo, superar os limites e sofrer sorrindo, é o lema.
Estava muito carente de ver gente já saudável misturada às que decidiram ser, numa harmonia que destrói qualquer teoria de preconceito.
Superar limites é comigo mesma e me entreguei de corpo, alma e joelhos na tarefa de vencer a inércia que vinha seduzindo meus músculos nesse período de afastamento. Para cada: “agora basta” do meu professor, eu emendada um “só mais um”.
Foi assim meu primeiro dia de pré retorno às atividades físicas. Vital e cheio de expectativas para hoje, teoricamente, o segundo dia. Teoricamente!!
Estupidez só não é doença porque nenhum médico se autodenominaria “estupidologologista”, agora eu sei. Amanheci com a clara sensação que um avião desgovernado da TAM, me atropelou durante o sono.
Meus ombros, braços, antebraços, cotovelo e até as juntas do dedo mindinho recusam a se movimentar sem a trilha sonora de um “ai”. Digitar está sendo a tarefa mais difícil desde que tentei levar a xícara de leite até a boca, às cinco da manhã.
Não fui ao meu triunfante segundo dia de malhação. Posso até imaginar a cara de satisfação e de “eu te disse” do meu Personal quando atendeu meu telefonema mais cedo.
Assim, cá estou, fadada a passar o dia sem acenar, coçar a testa, mandar beijinhos ou ajeitar os cabelos. Qualquer movimento e sei que desatarraxarei os parafusos que unem meus membros superiores aos inferiores.
Estupidez é mesmo uma coisa estúpida!
*texto sem correção por motivos óbvios!
- posted by Mara
Segunda-feira, Fevereiro 25
COVERSA PRA QUEM DORMIR?
Tem gente que odeia dormir cedo, tarde, de meias, de pijamas, sem eles, e assim por diante. Tem gente que tem um verdadeiro ritual para dormir e, qualquer coisa que escape de seu hábito compromete irreparavelmente sua tão desejável noite de sono.
A torneira pingando, as portas abertas do armário, a consulta médica do dia seguinte e até o joelho do Ronaldinho, pode fazer com que algumas pessoas tenham uma noite de desespero frente à possibilidade de não dormir.
Mas quem gosta de dormir de verdade, dorme até embaixo do chuveiro. Valorizam mais uma cochiladinha do que um prato de refeição. Ficam irascíveis e insuportáveis se por qualquer razão se atrasam no encontro com Morfeu.
E não faltarão discursos eloqüentes para tornar esse desespero justificado. Afinal, dirão, dormir emagrece, repõe energia, descansa o corpo, faz bem a pele e faz o tempo passar mais rápido.
Aliás, o tempo é meu álibi para não me indispor com os defensores do sono quando, diante de suas expressões atônitas, revelo sem pudor: odeio dormir.
Gosto tão pouco que qualquer coisa que reproduza, ainda que superficialmente, o “dormir” já me coloca na defensiva. Yoga, hiper ventilação, hipnose, anestesia, meditação e até um simples cochilo são práticas que evito quase tão naturalmente quanto respiro.
Nunca me preocupei com isso até perceber a estranheza que essa minha afirmação causa.
Odiar dormir é uma condição literalmente solitária. Jamais encontrei alguém que compartilhasse comigo esse reprovável sentimento. Quer dizer, quando encontrei, a pessoa acabou adormecendo antes que eu pudesse enumerar minhas razões.
Ao contrário, ao longo dos anos, colecionei uma infinita lista de pareceres técnicos e amadores das necessidades diárias de sono para o ser humano. E, é justamente nesse particular, que “dormir” se torna uma maldição.
Nunca fiz as contas, mas fico imaginando o quanto eu poderia produzir não fosse essa inevitável necessidade de dormir. Esse pensamento já é suficiente pra me tirar o sono. Geralmente, acaba sendo um bom álibi também.
“Porque você não vai dormir?”, perguntam. À que eu, com ar desoladamente cínico, respondo: “Porque estou sem sono”. Omito, é claro, que assassinei meu sono.
Matei-o com minha vontade incontrolável de não perder um só segundo do tempo que me foi dado. Mas, o “insuportável” ressuscitará a qualquer momento, então, é preciso ser rápida e aproveitar enquanto não acontece.
Você que estava procurando e, que ainda não tinha encontrado nenhuma prova concreta pra me considerar louca, deve estar bastante satisfeito. Lamento, mas não será exclusividade sua. Muita gente já disse que sou o que sou por dormir pouco.
E é verdade. Dormir pouco provoca uma margem bastante significativa de tempo para ser gasto com elucubrações e devaneios. Resulta numa desigual atenção às ocorrências cotidianas quando comparadas aos demais mortais mais dorminhocos.
Sou sempre a primeira a saber quem morreu durante a madrugada, como está o trânsito e, quem por exceção, vai estar destruído no dia seguinte só porque, como eu, também estava acordado.
Aliás, aí está um detalhe que contraria todas as teorias sobre o sono que já me impuseram: Não importa quão pouco eu durma, será sempre suficiente para que meu sono desapareça completamente e eu me sinta novinha em folha outra vez.
Diante de tantas críticas, conselhos médicos e, estranheza geral, estabeleci um antídoto: propus a mim mesma dormir quatro horas ininterruptas diariamente e ponto. Não me encham mais a paciência.
Falando sério, sei que como profissional da área de saúde, eu teria de me juntar aos que fazem apologia aos benefícios do sono. Mas seria de uma hipocrisia sem par.
Confesso que já tentei me encaixar entre os que são normais nesse quesito. Mas, achar que dormir é um desperdício é pra mim, muito mais forte, que considerar que ele traga benefícios.
Enquanto o mundo ocidental adormece, eu escrevo meus textos, relatórios, atualizo minha leitura, arrumo a casa, penso e confabulo com a lua sobre o dia seguinte.
Quatro horas depois, eu e o sol, começamos o dia antes mesmo que a lua, constrangida por tanta energia, se esconda.
Dizem que vou viver bem menos por isso. Não é um paradoxo? Eu penso exatamente ao contrário. Meu dia tem vinte e oito horas, meu mês cento e vinte horas adicionais e meu ano... Bom, deixa pra lá, contas assim costumam me deixar sonolenta. Aff...
Esse enorme discurso pró-insônia nasceu, é claro, numa noite sem dormir e visa valorizar sua antítese: uma boa noite de sono. Tem coisa melhor que dormir quando estamos, há tempos, insones?
Então, quem sabe a partir de uma prática tão corriqueira e unânime, possamos assimilar a fórmula para reconhecer o verdadeiro valor daquilo que possuímos ao invés de nos consumirmos pelo que achamos que deveríamos, mas que, por razões desconhecidas, não temos.
Assim, que tenhamos todos, um bom dia! Porque o resto é conversa pra boi dormir.
- posted by Mara
Domingo, Fevereiro 24
A IRRESISTÍVEL E SEDUTORA...
...FACE DO MAL!
Sabe aquela pessoa ruim, má mesmo, que você foi obrigada a conviver entes de descobrir que ela era assim? Depois que se viu livre da dita cuja, nunca te indignou constatar que, apesar disso, muita gente continua ignorando essa característica nela?
Não sei vocês, mas eu sempre me surpreendo quando vejo a popularidade dos vilões da vida real. Não é uma surpresa ignorante, do tipo “não entendo”. É pior, porque entendo e, exatamente por isso, fico estarrecida.
Não cabe mais ficarmos aqui avaliando os artifícios que essas pessoas utilizam. Nem o porquê de serem tão bem sucedidos nisso. Até porque, ao fazê-lo, sou obrigada a me incluir na imensa gama de pessoas que se deixaram ludibriar.
Sou paciente e adoro o conforto de um camarote para assistir ao cumprimento de minhas previsões. Não há como negar que dizer “eu disse, não disse?” produz um prazer quase tão grande quanto saber-se fora de alcance das conseqüências.
Os vilões da ficção, já discursados em posts anteriores, são justificados pelo sempre popular, embate entre o bem e o mal e há ainda a opção de mudarmos de canal, sair do cinema, fechar o livro e acabar de vez com o mal estar que provocam.
Isso já foi largamente discutido em meus textos anteriores. Mas, o que dizer dos vilões que em sua franca trajetória maligna, faz com que quem o olhe, mude seu conceito e passe a vê-lo com outros olhos?
Não estou falando dos que aliciam seus seguidores. Falo de uma genuína compreensão de nossa parte de que a suposta maldade que possuíam, é plenamente justificável.
Ou, mesmo daquele tipo de vilão que é tão apaixonante que, sem nos darmos conta nos envolve. E, lá estamos nós, torcendo pro bandido.
Quem vê cara, não vê coração. Na ficção isso é a mais absoluta verdade. Hollywood é o sinônimo dessa frase. Quem teria coragem de odiar os olhos azuis do Mel Gibson, que é doce até no nome? Ou amar o Anthony Hoppkins que calou os inocentes?
É verdade, tem gente que não conseguimos mesmo não gostar. Gente, que ainda que representem o mal com requintes de crueldade, não conseguem se fazer confundir com seus personagens.
Muito ao contrário, há os que nem precisam se esforçar. É como se respirassem maldade por todos os orifícios de seu corpo. Talvez seja essa diferenciação que determinam, na ficção e também na vida real, de forma quase definitiva, os eternos galãs e vilões.
Tá, mas, isso não é novidade. Também não é novidade que qualquer pessoa pode mudar de opinião sobre o caráter e as atitudes de quem, antes, considerava pérfido. Raro e digno de nota, pra mim, é quando mesmo achando-os pérfidos dou-lhes minha simpatia.
Fui assistir “Os indomáveis” , refilmagem de “Galante e Sanguinário” , clássico faroeste de 1957, agora, com Christian Bale e Russell Crowe.
Vale dizer que ao contrário do Bruce Willis que pode fazer até papel de barata muda e gosmenta que arrancará meus mais profundos suspiros, não acho Crowe um homem bonito;
Crowe não tem características que o fadaria a papéis de galãs, não é másculo a ponto de lhe garantir personagens do tipo “exterminador” e, menos ainda, feio ou com expressão de louco, para representar bem os malucos que comem carne humana.
No filme ele é o líder impiedoso de uma gang de temidos ladrões. Seu personagem, Bem Wade, é uma lenda. Inescrupuloso, sua definição é dada por ele mesmo numa fala do filme: “I wouldn't last five minutes leading an outfit like this if I wasn't rotten as hell”.
Saí do cinema pensando na necessidade primária que temos de acertar sempre. De estarmos distanciados do lado negro da força, de não nos aliarmos ao mal e em todas as correntes que nos levam, muitas vezes, contrariados de encontro a elas.
Wade, quando criança, foi deixado numa estação de trem pela mãe que lhe presenteou uma bíblia e mandou que a lesse até que ela voltasse. Depois de lê-la inteira por três dias, ele se deu conta de que a mãe jamais voltaria.
Esse é o argumento que o autor usou para justificar a veia sanguinária e, ao mesmo tempo, quase romântica do personagem. Não comprei a historinha melodramática, mas ela me levou as lágrimas.
Confusa, me perguntei durante horas, como posso ter me compadecido por uma justificativa que, por princípio, não acredito. Concluí que é porque quando nutrimos simpatia por uma causa, seja ela qual for, nos distanciamos de nosso olhar crítico.
“Quem ama o feio, bonito lhe parece”. E desvendei, enfim, o segredo da popularidade de pessoas que têm em seu currículo, mágoa e seguidores em igual número: sempre se utilizam de uma tragédia consensual que sensibilize e ofusque sua verdadeira face.
Nos conduzem ao limite de nossa tolerância, insultam nossa inteligência com suas manobras cínicas e ao ver que estão prestes a serem linchados, á exemplo de Wade, citam versículos da Bíblia, antes de empunhar e usar novamente seu poder de fogo.
No filme, Wade, é confrontado com sua própria maldade e desafiado a mostrar que tem um lado humano e bom. Para vencer o desafio, extermina um a um, todos os elementos de sua fiel gang. Isso é que ser mau, o resto é bobagem!
Esse ato de redenção nos leva a rever nossos princípios e opiniões presenteando-o, nos minutos derradeiros da película, com uma nova oportunidade de ser querido. Pronto. Lá se foi Crowe, para a lista dos meus atores irresistíveis.
Pena que na vida real, os minutos derradeiros podem ser tardios demais, ou nem aconteçam. Assim como atos de redenção. Talvez, nunca tenhamos a oportunidade de presenciar algum ato de grandeza desses vilões por excelência.
Daqui de meu camarote, mais do que assistir, meu desejo é ir de carona nessa desejada mudança de rumos, para me ser dada também a grandeza de poder dizer: “A justiça foi feita. Podemos começar outra vez, e do zero!”
Ou alguém duvida que, em breve, veremos “Os indomáveis – parte: 8, 9,10...”?
- posted by Mara
Sábado, Fevereiro 23
ENTRE UM RISO E OUTRO...
... UM OÁSIS !
Não sou de ler previsões astrológicas. Mal me lembro a data de meu próprio aniversário e, se acaso me lembro, nunca sei dizer, sem fazer cálculos mentais, quantos anos estarei completando.
Mas, assim como muitas pessoas, cresci ouvindo sobre as supostas influências astrológicas em minha personalidade. A maioria dessas teorias choca-se diretamente com minhas crenças essencialmente científicas.
Não é segredo que a Psicologia curvou-se á esses princípios através do controverso Jung, que por sua vez, tinha parte de suas concepções extraídas de Freud, de quem foi discípulo. Mas, a meu ver, isso não invalida ou anula a curiosidade que o tema oferece.
Sou do signo de peixes. Alguém me deu essa valiosa informação quando eu ainda era uma garotinha e nunca mais a esqueci. Na adolescência me fartei de realizar aqueles testes que propunham dizer a compatibilidade de meu signo com os demais.
Mas, cresci. E o mundo acadêmico pousa um olhar pouco condescendente á quem se inclina para qualquer tipo de conhecimento que não possa ser matematicamente comprovado. Nunca mais discursei sobre meu signo e seus compatíveis comparsas cármicos.
Mas, "para toda ação existe uma reação de força equivalente em sentido contrário", me ensinou a Física. “Para cada ato existe igual equivalência psíquica que as motiva e as direciona, completou a Psicologia. “Aqui se faz, aqui se paga”, praguejou o experiente senso comum.
Daí que ninguém está imune as influências implícitas no alinhamento dos astros, e de seu caráter conspiratório regido pelo planeta que se mostrava mais vaidoso no momento de seu nascimento.
Dessa forma, convencionou-se que determinadas características são definitivamente o que separa um sujeito do outro não só pelo mês em que aniversaria e sim pela injunção do nosso sistema solar.
Não me cabe discorrer sobre a veracidade ou aplicabilidade dessa crença, mas é impossível não admitir o fascínio que ele desperta.
Além disso, às vezes, na falta de um argumento menos polêmico e mais inquestionável, sempre se pode fazer uso dele para justificar ou execrar fatos ou pessoas.
Quem nunca ouviu dizer: “Fulano é sensível como todo pisciano”. “Tão vaidoso que só poderia ser leonino”, e assim por diante? Pois é, além de explicar, nos dá o álibi necessário.
O símbolo de Peixes é representado por são dois peixes nadando em direções diferentes. Isso indica a duplicidade do signo.
Dizem que somos emotivos, sensíveis e intuitivos, alé de termos forte tendência a melancolia e de nos envolvermos demais com os problemas dos outros. Que nos magoamos e choramos com facilidade.
Eu??? Concordo em partes, mas me emociono até quase romper em lágrimas só de imaginar o nível de altruísmo que me atribuem. E se pensar muito no assunto, é possível que me entristeça por imaginar que nem todos possuem essas qualidades. (risos)
Falam que não nos valorizamos como deveríamos e que não raro nos assola um sentimento de inferioridade quase paralisante. (Alguém precisa dizer isso aos que bradam por aí que sou arrogante. Conto com vocês, ta?)
Entretanto, afirmam também que sem uma forte formação espiritual e bases sólidas, as crianças desse signo podem se desencaminhar e cair em enganos e ilusões. Podem fugir do mundo real e desperdiçar o tempo com devaneios e fantasias.
Nisso eu acredito. Baseada em alguns poucos desafetos do mesmo signo que deixei em meu passado, essa é uma verdade absoluta. Que pode, aliás, ser corroborada por todos os conhecidos que temos em comum.
Há os que afirmem que não podemos ser deixados sozinhos porque estaríamos sujeitos a imaginar e sonhar com algo que aos olhos do mundo pareceria fantástico. Que não somos persistentes e com dificuldades para traçar objetivos em curto prazo.
Será que isso tem a ver com o fato de eu ter quase parado de escrever esse post por duas vezes até decidir terminá-lo? Ou estará relacionado ao texto que escrevi sobre o E.T de Riolândia?
Elucubrações à parte há quem afirme sem pestanejar que Jesus Cristo também nasceu sob o signo de Peixes. E, para corroborar essa teoria, centenas de outros, inclusive Jung teceram teorias sobre a Era de Aquário e suas predições.
Isso, particularmente, me orgulha muito. Assim como saber que compartilho desse privilégio com figuras importantíssimas como:
Victor Hugo, Alain Prost, Albert Einstein, Bernardo Bertolucci, Bruce Willis (Uia!), Castro Alves, Elis Regina, Frederic Chopin, Jana, Glauber Rocha, Heitor Villa Lobos, Jerry Lewis, Zaki, Jon Bon Jovi, Mario Prata (meu cronista preferido!), Michelangelo, Nat King Cole, Regina Casé (arrogante, eu?) e, Tancredo Neves.
E, muitos outros, que por ser piscina, me esqueci de mencionar, só pra depois me deixar corroer pela culpa. Mas, esses que mencionei, já ilustram outra afirmação astrológica sobre o signo de peixes: suas realizações no mundo da arte e da música, bem como no da religião e da medicina.
Além disso, vou usar a afirmação de que somos pessoas compassivas e capazes de grandes sacrifícios, para justificar minha decisão de escrever sobre um tema que, não sei absolutamente nada, só pra poder homenagear meus dois queridos comentaristas:
Jana ontem e Zaki, no dia de hoje! Dois amigos que, “Quando Nada mais é Notícia”, fazem do haloscan (que, por privilégio meu, chamam de “casa”), matéria de capa!
A eles: obrigada e parabéns em nome de todos os comentaristas aqui de casa!
- posted by Mara
Sexta-feira, Fevereiro 22
ESTATISTICAMENTE...
... É POSSÍVEL
Odeio estatística. Não gosto da palavra e nem de sua complexidade. Trata-se de uma aversão antiga, cuja semente foi plantada lá em meu ensino fundamental. Mas, ela esteve constante e ininterruptamente presente em minha vida.
Tive muitas amostras, ao longo dos anos, de que minha antipatia não era tão gratuita assim. Estava diretamente correlacionada à arbitrariedade imposta ao que, deve ou não, ser considerado relevante ( outra palavra que odeio).
Então, é humanamente impossível nutrir algum tipo de afeto por resultados que só podem ser levado em conta à partir da magnitude de seus elementos e cujo grau de confiabilidade é relativo à sua representação quantitativa, conclui.
Resumindo: Quem disse que toda unanimidade é burra, além da Ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, em julho do ano passado referindo-se as vaias direcionadas ao nosso presidente?
Eu respondo: o importante dramaturgo, escritor e jornalista, Nelson Rodrigues. Além, é claro de uma multidão que posteriormente o plagiou. Confesso que, com algumas adaptações, eu mesma já o parafraseei centenas de vezes.
Acontece que estatisticamente falando, comparando as variáveis, levando em conta o grau de confiabilidade e, a magnitude de alguns eventos, temos mesmo que nos curvar diante das probabilidades.
Não os resultados estatísticos, mas a comprovação de que serão inevitáveis, é o que faz com que alguns fatos sejam desesperadores. Talvez, o homem que disse que “os admiradores corrompem”, não estivesse tão errado assim.
Vivemos em uma época em que a quantidade prevalece sobre a qualidade. Em que tudo se mede a partir do número de adeptos que agrega em torno de si. Religiões, marcas de refrigerante, programas de televisão, blogs e até vaga de universidade tem esse valor de classificação.
Então esqueçamos os traumas de só empregarmos a palavra “estatística” para medir tragédias na aviação, índices de infração, diagnósticos médicos, candidatura de políticos, ou qualquer outra tragédia com conseqüências visíveis.
Proponho que passemos a empregá-la para calcular e expressar, de maneira antecipada, cada uma das decisões que tomamos diariamente. Mais precisamente, para medir nossos atos e nossas palavras.
Esqueçam as aulas de catecismo, os sermões dos pais, ou normas sociais e reflitam sobre isso tendo como parâmetro o seu próprio bem estar. Não apelem, mesmo que muito tentados, para as supostas leis de compensação.
Não existe compensação para determinados prazeres ou dores.
Sei que é difícil. Raramente conseguimos nos desvincular do aprendizado que tivemos sobre o bem e o mau, Deus e o “Dito-Cujo”, o correto e o indisciplinado.
Mas, se tentarmos, ação por ação, como alcoólatras em recuperação, no fim, teremos aumentado as probabilidades de nos tornarmos seres humanos melhores.
Sem medo de errar, posso afirmar que nesse momento em qualquer parte do globo terrestre, existe alguém pensando em até que ponto deve ir para atingir seus objetivos. Dos mais simples aos mais ambiciosos, nossos planos, são a chave de nossa existência.
Quando, no passado, optei por não me simpatizar pela estatística, automaticamente selecionei e descartei uma gama enorme de possibilidades de carreiras profissionais que, se escolhidas, poderiam ter mudado a minha história e de todos à minha volta.
Hoje, amanheci pensando nessas escolhas. Em minha contribuição direta ou indireta na metamorfose dos que conheci. Meu marido, meu filho, pacientes, amigos, e até daquele funcionário que me “obrigou” a reclamar por escrito sobre o tratamento ruim que me dispensou.
Será que ele foi demitido, seus filhos estarão passando fome ou, ao contrário, foi recolocado e contratado por uma empresa e salários maiores?
Nós somos o resultado de nossas escolhas. Mas as variáveis embutidas nas escolhas alheias são quantitativamente significantes a ponto de influenciar e nos desviar radicalmente de nossos objetivos.
Sendo assim, não seria melhor cuidarmos com mais atenção dos detalhes que nos habituamos a ignorar? O “bom dia” que não demos, a compaixão que não tivemos, a dúvida que colocamos sobre a lei do retorno, enfim, sobre quem somos?
Todos os dias, aqui mesmo no blog, leio pedaços de histórias nas linhas que vocês não escrevem. Detalhes que, assim fragmentados, nada significam para quem lê. Mas, que são decisivos na manutenção dos laços que nos unem.
Usamos e somos usados constante e aleatoriamente porque, na real, o que desejamos é criar um universo perfeito do qual possamos fazer parte sem nos ferirmos. Mas, esquecemos que o outro está, ao mesmo tempo, fazendo exatamente o mesmo.
Odeio estatística. Mas, tenho que admitir que seus conceitos primários como coleta, organização e apresentação de dados comparados quantitativamente na análise das atitudes humanas, são perfeitos quando aplicados além dos teoremas e axiomas.
É, em síntese, o norte que tantos afirmam desejar e, que poucos possuem, para relacionar-se com os outros. Basta estarmos dispostos a conhecê-los a ponto de contrariá-los ou defende-los.
Quem sabe assim, nos tornamos exceções desejáveis e deixamos de fazer parte daquela unanimidade que antes de ser burra é, na também, uma grande oportunista.
Estatisticamente as probabilidades são infinitas! Boa Sorte!
- posted by Mara
Quinta-feira, Fevereiro 21
E SE COLASSE TEU FRIO...
...COM MEU CALOR...
(Um típico post-bobagem!)
Houve um tempo em que fazer uma reportagem jornalística era meramente apresentar os resultados da apuração dos fatos que compunham um evento com potencial de notícia. “A notícia é o espelho da verdade”, dizíamos.
Depois, numa onda de bem sucedidas investigações que jogou no ventilador muitos conchavos, escândalos e conspirações, os repórteres assumiram, com bastante vaidade, o 007 que havia neles.
Iniciou-se a fase em que alguns jargões policiais passaram a fazer parte do vocabulário corrente nas redações de jornais, revistas e noticiários televisivos. Repórter virou detetive, notícia virou escândalo, alcagüete virou informante.
E, se de um lado, dos repórteres passou-se a exigir jogo de cintura para se infiltrar no submundo do crime obter furos, de outro, o informante emergiu de lá para coadunar com eles.
Pega daí que, políticos influentes, empresários, figuras da alta sociedade e, as até então insuspeitas amantes, ganharam participação importante no thriller policial de sucesso que se transformou o jornalismo.
Foram muitos êxitos, convenhamos, e muita sujeira veio à tona graças a esses “Sherlocks Holmes” da atualidade. Mas, obviamente, muita coisa se perdeu nos bastidores dos interesses dos grandes veículos de comunicação.
Proponho que sejamos condescendentes com os jornalistas e os agraciemos com o benefício da dúvida no caso, por exemplo, do “mensalão”, compras de votos e etc. Vai ver, não sabiam de nada mesmo e pagaram de vacilões.
Mas, sou completamente obtusa em questões políticas e a frase mais brilhante que construí até hoje sobre o tema foi: “Mudo-me para Argentina, porque lá posso falar mal de um governo que não preciso chamar de meu”.
Peço aos comentaristas daqui que não divulguem a frase acima, me envergonho por ter-la criado numa época em que os brasileiros eram felizes e não sabiam. Pois é, vão-se os governantes, fica a validade da frase.
Mas, sou brasileira e, nesse quesito, me envergonho sempre.
Pois bem. Esse, pela obviedade descrita acima, não é um blog que trata de política. Tampouco é um espaço para retransmitir notícias ou mesmo debatê-las. É tão somente um diário onde deposito minhas inquietações.
E, assim, com essa minha habitual prolixidade trouxe-os até o ponto central que inspirou esse post.
De ontem pra hoje, dois fatos aparentemente desvinculados, repercutiram com o mesmo peso e a mesma medida em noticiários do mundo inteiro.
Não fosse eu: psicóloga e jornalista e, sobretudo, do signo de peixes, talvez não tivesse me atentado a coincidência que envolveu as duas notícias.
Ah! Devo atribuir responsabilidade á minha adormecida veia artística, para não incorrer no risco de ter esse meu texto desprezado em sua dramaticidade-cômica. Vamos aos fatos:
Notícia 01: “Elipse total da Lua” foi visível em grande parte do hemisfério norte, nos primeiro minutos dessa quinta feira. A Lua entrará na sombra da Terra e ficará com aspecto escuro e avermelhado. Segundo astrônomos, uma condição tão favorável quanto esta para observar outra vez o fenômeno não ocorrerá no Brasil até 2015.
Notícia 02: “Marinha dos EUA dispara míssil tático para derrubar satélite espião”: A Marinha americana lançou um míssil tático contra um satélite espião que se aproximava perigosamente da Terra, informou o Pentágono. "O míssil foi lançado com sucesso", indicou o Departamento de Defesa, acrescentando que a operação ocorreu às (0h30 de Brasília).
Eu sei que havia prometido nunca fazer parte de nenhum tipo de “disse me disse”, de “tititis” tão comuns pela Net afora. E, sobretudo, de não engrossar nenhum tipo de teoria conspiratória, dessas que pipocam pela blogosfera. Mas, cá entre nós, contra fatos não há argumento.
Há como eu disse no início do post, possibilidade de especulação, apuração de fatos, checagem das fontes e principalmente a conivência e anuência do público leitor em geral de que alguma coisa de estranho vinha mesmo acontecendo no universo.
Terá a Marinha americana descoberto, o que nós já vínhamos pressentindo? Terá o governo americano se juntado a nós reforçando nosso poder de fogo? Sei não, essa proximidade da data do meu aniversário deve estar mesmo afetando meus neurônios, pra não dizer bom senso.
Terei eu sido vítima das minhas próprias teorias psicopatológicas ou o governo americano tentou mesmo abater nosso satélite e ele, em retaliação, se escondeu pouco a pouco ameaçando-nos com a escuridão?
Se realmente foi isso, falharam. Mais uma tentativa frustrada. Mas, ao menos, resta-nos o consolo de que, segundo os astrólogos, a lua terá outra oportunidade de nos dar mostras desse seu incrível fenômeno, só daqui a 07 anos. Ufa!
PS: Alguém sabe dizer até quando vigora o contrato da Globo com a Endemol?
- posted by Mara
Quarta-feira, Fevereiro 20
TU ÉS...ELE É...
... E NÓS?
“Gosto de tudo perfeito e alinhado. Sou observador e muito justo. Sou perfeccionista, portanto". Quem dera essa frase fosse mesmo a síntese de uma característica que podesse ser apenas qualidade.
Quem dera, quem a profere, pudesse mesmo se orgulhar ou ter completa razão em julgar- se incapaz de cometer erros, muitas vezes, irreversíveis. Mas, uma frase assim, pode custar mais ao seu autor do que as possíveis vítimas que ela fará.
Graças a Deus, em quase todas as esferas da sociedade, o comportamento humano deixou de ser considerado um detalhe operacional e passou a ser engrenagem fundamental para qualquer empreendimento ser bem sucedido.
O mundo está mudando e, o que antes era instrumento para profissionais de psicologia, hoje, é assunto de botequim. A psicologia finalmente se popularizou, caiu na boca do povo. Parece bom, mas vale analisarmos.
Essa evolução no sentido cronológico, entretanto, mostra sinais de que no futuro teremos muito mais problemas identificados do que soluções ou ajuda especializada competente.
É fácil admitir, por exemplo, a supremacia de opiniões advindas da experiência de vida ou até mesmo da prática contínua de convivência com determinadas nuances de comportamento.
O que é difícil suportar é o, agora aceito, hábito dos que se baseiam em seus próprios desequilíbrios para formular teorias generalizadas de comportamento. Não que esse tipo de atitude seja recente, mas temos que admitir que nunca antes, estiveram tão em alta.
Por onde quer que olhemos encontraremos seres humanos julgando uns aos outros, tecendo teorias e elaborando planos de ação para coibir ou acentuar comportamentos que socialmente aprenderam a crer que são inadequados.
Se, por um lado, a popularização da psicologia colaborou para que pessoas comuns tivessem acesso á teorias que embasam esse tipo de análise, de outro, a interatividade nos meios de comunicação também fez sua parte.
A mídia interativa é duplamente responsável. Primeiro por tornar lícita a análise e julgamento às atitudes humanas e depois, ou quase ao mesmo tempo, por banalizarem as mazelas humanas a ponto de torná-las passives de aplicação de sanções.
Os “Reality Shows” surgiram e vingaram no ápice dessa tendência. E o fato, é que mais de uma década depois de tornarem-se populares, não há mais nenhum resquício do proposto intencional que os originou.
Pessoas sem nenhuma capacitação técnica ou conceitual foram promovidas á inimputáveis analistas de comportamentos, juízes morais e consultores na “arte” de ser Ser Humano.
É bem verdade que, paralelamente também, popularizaram-se e atingiram níveis jurídicos, conceitos como a calúnia, difamação, assédio e liberdade de expressão. Mas, lançados como “lei”, perderam a força frente à voz do povo - tida como um juiz mais implacável e infalível.
Por tudo isso fica até fácil compreender porque uma enorme parcela dos jovens atuais parece estar clamando por um “revival” de posturas arcaicas, quase nostálgicas, das regras de conduta do tempo de seus avós.
Os tipos perfeccionistas foram os que ganharam mais espaço com essa tendência. Até outro dia, personalidades assim eram apontadas como pessoas dotadas de um simples “defeito” que causaria danos apenas a eles mesmos.
Hoje, afiançados, deslocaram suas exigências para fora deles mesmos. Depositando em tudo e, em todos, concepções distorcidas do que consideram como perfeito e aplicando com muito mais rigor penas a aquilo que os desagrada.
Mas o perfeccionismo é, antes, um transtorno de personalidade. E, ao contrário do que pensam, estão sim enquadrados como sintomatologia nos Transtornos Obsessivo-Compulsivos.
Pessoas assim são incapazes de suportar tudo aquilo que consideram como infração às suas próprias determinações de organização, e implacáveis julgadores da moral alheia. Até aí tudo bem, o problema é quando alcançam o status de fazedores de opinião.
O perfeccionista raramente se dá conta disso e crê-se mero detalhista, injustamente acusado por desafetos. E isso os justifica em sua incapacidade em expressar sentimentos de ternura, compaixão e compreensão aos sentimentos e comportamentos dos outros.
Até mesmo quando se dedicam ao que qualquer pessoa consideraria um hobby, fazem disso um instrumento a mais para o exercício de sua obsessão.
Quem ainda não foi fatalmente será, alvo de um desses, já que perfeccionistas são figurinhas fáceis de encontrar misturados entre aqueles amigos cheios de bons conselhos, vizinhas fofoqueiras e críticos amadores.
São sujeitos com uma incrível inclinação para convenções sociais, inflexíveis, rígidos e teimosos. Primam pela insistência em que submetem os outros aos seus valores morais.
E, sempre encontrarão uma maneira de convencê-los de que são duros, quase desumanos, mas que suas intenções são as melhores possíveis.
Você que leu até aqui, é claro que já deve ter pensado em dezenas de pessoas que poderiam estar encaixadas nesse perfil e estar aliviado por finalmente ter concluído que não são, enfim, tão maus. São, afinal, vítimas de um transtorno psíquico.
Não se iluda. A principal característica desses indivíduos é justamente sua incapacidade de penalizar a si mesmos com o mesmo rigor que aplica aos outros. São metódicos observadores, mas relapsos ao calcularem os danos que causam fora da esfera de seu próprio umbigo.
Além disso, julgam-se justos e, muitas vezes, a única voz capaz de apontar com precisão o que deve e o que não deve ser tolerado.
Te assusta? Então desligue seu computador e vá cometer seus próprios erros, elaborar seus conceitos e relacionar-se com seus próprios defeitos e com os alheios, bem longe da chamada Blogosfera.
Caso contrário, como diz minha querida amiga administradora do blog Big Bunda Brasil, a próxima bunda no paredão será a sua. Se é que sua nádega já não esteve por lá.
Ou fique e faça a diferença! A unanimidade, quase sempre, é mais perigosa do que burra.
- posted by Mara
Terça-feira, Fevereiro 19
AH! BRUTA FLOR DO QUERER…
Trair está na moda. Tornar-se popular por ter sido traído também. Tudo bem. Esse tema movimenta há anos o mercado fonográfico. Cantor sertanejo, pagodeiros, dramaturgos e até cartórios civis, sobrevivem com as seqüelas dessa tendência.
Não deixa de ser engraçado. Melhor ainda quando se consegue que a vítima do traidor permaneça míope por tempo indeterminado. Que seja o último a saber e, que lhe seja atribuído a “amorosa” alcunha de “corno”.
Acontece que atrás de um traidor, há sempre uma “boiada” de sedentos pelos efeitos da traição alheia. Parece mentira, mas há realmente quem atribua mais responsabilidade ao traído do que ao traidor.
Numa franca inversão de valores, o traidor é, geralmente, o esperto, o safo, o articulado e sua vítima, aquele que por sua ingenuidade mereceu tal comportamento. Vamos combinar? Ser traído não é engraçado.
Há premissas básicas pra que alguém seja vítima de uma traição, mas a condição primeira é que tenha existido anteriormente um depósito de confiança e uma entrega desprovida da malícia necessária.
Porque então, julgamos com tanta dureza esses pobres traídos? Aliás, vale dizer, só o fazemos se o traído for do sexo masculino e desse ponto em diante, até o chamamento é modificado.
“Trair e coçar: é só começar”. Não é bem assim. Em qualquer um dos dois, mais fácil que dar o pontapé inicial é encontrar argumentos que justifiquem o ato. O traidor colhe as suas razões diretamente da singular e permissiva visão de si mesmo.
Não é à toa que o traidor é conhecido por suas excessivas tentativas de explicar o inexplicável. Nesses momentos, o melhor a fazer é não tentar entender a lógica do traidor, ou ficará mais irritado que conformado.
Trair é conceitual. E, como tal, pode ser visto de diferentes ângulos. Além disso, é também um dado relevante no processo de desenvolvimento da psique humana.
Trair ou ser traído evoca a urgente necessidade de revisão e aprimoramento dos valores pessoais, e nos leva a cuidar com mais apreço de conteúdos imaturos de nossa dimensão psicológica.
Não há quem possa dizer que nunca foi traído. Quem nunca tenha provado o gosto amargo de uma confiança quebrada, de uma inocência corrompida sem seu consentimento ou preparação.
Trair é muito mais que deixar-se levar pelo instinto leviano de satisfazer a si mesmo em detrimento do outro. Assim como, ser traído é muito mais que ser ingênuo. Parece até que precisamos da traição, para que findemos o processo de renúncia aos imediatismos que iniciamos na infância.
A mamadeira vazia, os pais que momentaneamente se afastam, a repreensão não dada, o amor não ofertado, juntos, mimando-nos em nossas exigências primárias.
Até que um dia, isso não mais acontece e aprendemos finalmente que não havia mágica na distância entre chorar e ser atendido.
Não existe traição sem sua antítese, a confiança. E, uma anulará a outra, caso não sejam concebidas pelo mesmo sujeito. Só vê cornos quem, por algum motivo, já foi muito ferido por iguais adornos.
Embora não ofereça conforto, a traição é extraída necessariamente de onde, antes, havia confiança e é o que demonstra, pra dizer o mínimo, a superioridade de quem a sofre.
Muitos se orgulham de ter tido a sagacidade necessária para trair sem serem descobertos. Ser “corno” virou piada. Mas, não há riso e nem melodia em se descobrir nesse paradoxo do amor.
Entretanto, não há nada que seja mais útil para o desenvolvimento emocional que ser atingido por qualquer espécie de traição. Daí que, ao contrário do que se pensa, o valor não está em não ser traído e, sim em fazer disso um aprendizado.
Abandone sentimentos de vingança. Certamente, ao fazê-lo, terá a tensão acumulada, finalmente liberada, mas os perigos de essa solução tornar-se uma obsessão e reduzir seu bom senso são imensos.
Tente não culpar-se por ter se cegado diante do que, só agora, parece óbvio. Evite generalizações. Nem todas as amigas são falsas e articuladoras. Nem todos os homens são volúveis e mulherengos.
Nem, tampouco, você é tão burra quanto querem que pareça. Não traia a si mesma tentando copiar as atitudes do traidor, na tentativa de dar-lhe a mesma dor. Não transfira desconfianças aos que virão depois.
Reflita, elabore e comece a crescer usando o traidor como alavanca. Reconheça que o que o tornou passível de traição é a mesma medida de sua capacidade em confiar. Essa superioridade é o que nos torna piada para quem não consegue fazer o mesmo.
Ficar corroído pelo ódio, pelo agravo sofrido, ou pela culpa é o caminho que nos trava os joelhos e atrofia nossa capacidade de amar novamente.
O perdoar a si mesmo traz a libertação dos grilhões do passado e seca os resquícios da saliva contaminada que a traição e o traidor deixaram em nossas almas.
Devemos aprender com nossas feridas, do contrário as repetiremos ou nos identificaremos com elas. O grande aprendizado da experiência de ser traído é que nos impele a abandonar a inocência, evitando empacarmos em experiências inúteis.
Não vejo graça na piada de ser traído, e menos ainda no ato de trair. Ainda que por razões sexistas, haja um enorme abismo a ser transposto antes de superarmos os traumas de sendo mulher, ser vítima e, sendo homem, ser corno.
A meu ver, isso é coisa de quem vê chifre onde não tem. Talvez pela dificuldade anatômica de olhar para a própria testa.
- posted by Mara
Segunda-feira, Fevereiro 18
E O DEUSES DIZEM AMÉM!
As últimas semanas foram particularmente difíceis, mesmo eu sendo bastante otimista quanto aos revezes da vida. A possibilidade do Maxi adoecer, meu joelho, mudanças no campo profissional, e ainda por cima, meus amigos argentinos fora do alcance de um telefonema.
Fatos assim tendem a se agigantarem na medida em que colidem com nossos objetivos mais imediatos e podem, em qualquer pessoa, provocar vários desalinhos emocionais.
Sempre me surpreende as pessoas que têm mais facilidade em dividir suas penas. Creio que de tanto ouvir as alheias, coloquei as minhas no “modo privacidade” de onde só as retiro, quando o problema esta minimizado.
Por tudo isso, hoje tinha resolvido não postar. Pra não repassar á vocês, ainda que involuntariamente, minhas dúvidas e pesares existenciais frente à coisas que não posso alterar.
Trabalho com medicina e médicos há quase duas décadas. Já passei por todos os estágios de frustração frente á esses onipotentes seres. Gosto deles. A maioria de meus mais sinceros amigos, inclusive, são médicos.
Esse post talvez me coloque em conflito com alguns deles, mas reflete uma generalização impossível de não ser feita num país como o nosso. O fato é que médicos, nesse país, só se contentam com a hierarquia divina e nenhuma outra.
Em minha prática profissional, antes mesmo de ter que aprender a dar o acolhimento e suporte necessário as perdas reais, como a saúde e de entes queridos, fui forçada aprender a defender minha permanência no espaço hospitalar.
A opção pela psicologia aplicada á pacientes hospitalares implica em estar submetida ao poder médico em toda sua extensão. Não raro, cruzamos com arrogantes senhores vestidos de branco, pisoteando enfermeiras e outros profissionais.
Ser psicóloga hospitalar é estar um passo adiante do staff e, vários antes da autoridade médica. Significa aprender terminologias médicas, compreender processos patológicos e ser refratária aos humores instáveis reinante em toda a instituição.
Há alguns anos, ministrei um curso de três semanas para alunas do último ano de enfermagem da USP. Eram 22 promissoras profissionais que se destacavam das demais até pelo simples fato de terem sentido a necessidade de um curso sobre psicologia aplicada ao atendimento que dispensariam.
Meninas que haviam vencido, no vestibular, um número assustador de candidatas á carteira que ocupavam. Dotadas da percepção de uma vocação que precisava apenas se instrumentar e que, cinco anos depois, ás vésperas de se formarem, ainda se preocupavam em se instrumentalizar como seres humanos.
Minha maior dificuldade com elas foi desfazer o endeusamento aos médicos tão enraizado nelas quanto a prática de aplicar injeção. Endeusamento que as impedia de contrariá-los ou atentá-los para a importância da atuação delas para o atendimento holístico do paciente.
Encontrar profissionais médicos de importância inegável é relativamente fácil. Difícil é enquadrá-los no mesmo grau, como seres humanos. Acreditem. Já vi coisas que faria muita gente sair correndo pelas ruas com aquela camisolinha cirúrgica aberta na bunda.
Quando há quinze anos operei meu joelho direito, me foi indicado um recém formado médico que, também recentemente, havia sido contratado como médico de um importante clube de futebol paulistano.
Lembro-me que eu pude escolher desde a data da cirurgia até o anestesista que eu queria que me acompanhasse. Não gastei um só centavo porque ambos, médico e equipe, atendiam pelo meu convênio na época. Foi tudo um sucesso!
Resolvi consultá-lo novamente em função da lesão, agora, no joelho esquerdo. Tive que esperar por quase duas semanas até ter uma resposta da secretária do mesmo, para minha solicitação de consulta.
Não bastasse, a consulta me sairá pelo valor de quinhentos reais. Diante da necessidade de uma cirurgia, fui devidamente avisada pela antipática secretária que o doutor não opera mais por nenhum convênio.
A intervenção, portanto, me custaria (eu disse, custaRIA) cinco mil dólares. Você não leu errado: cinco mil dólares por uma cirurgia que toma do médico apenas uma hora do seu dia e não inclui os demais gastos hospitalares.
Gosto de ver gente sendo bem sucedida. Gosto de saber que com o passar dos anos, as pessoas conseguiram se firmar em suas especialidades e atingiram o reconhecimento necessário. Mas, ainda não tinha feito a conta de quanto, em dólares, isso poderia significar.
Vocês podem não acreditar, mas de tudo isso, o que mais me incomoda é: mesmo tendo fingido que posso dispor de cinco mil dólares em espécie para tal cirurgia, até esse momento, não vi, nem ouvi a voz do “meu” médico.
Sei não... Estou achando que nem vou ouvir. Essa semana traz com ela a tão esperada consulta. No caso de decidir comparecer, já treinei um tom amigável para fazer ao tal médico, uma pergunta que não me sai da cabeça:
- Dr. Seu preço é assim tão expressivo porque o senhor é um especialista em joelho, certo? Já imaginou em especializar-se na perna toda?
Tenho certeza que daqui há quinze anos, tivesse eu mais um joelho, iria ter que ligar pra assessora de Deus e solicitar que ela usasse a influência de seu patrão para que Ele, por sua vez, intercedesse á meu favor junto ao seu “braço direito” – meu médico.
Pelo menos agora consigo entender, sem equívocos, porque o símbolo do Comércio é tão parecido com o símbolo da Medicina! Gestão de Negócios!
- posted by Mara
Domingo, Fevereiro 17
TODA TERRA, REDUZIDA...
... A NADA , NADA MAIS!
Uma vez, em visita ao Brasil, meu compadre argentino me atirou uma dessas: - Porque tantas cidades têm nomes que terminam com “lândia”? Estávamos na Rodovia Anhanguera na altura da cidade de “Hortolândia”.
Levando em conta que a palavra “orto”, apesar de ter a mesma sonoridade, na Argentina, tem significado pouco didático e inapropriado para ser explicada perto de crianças, mudei rapidamente de assunto.
Mas, “lândia” é inequivocamente empregado para definir uma localidade. Mas, só me lembrei dessa passagem porque queria saber se alguém, entre vocês conhece Riolândia ? Você conhece?
Vou ser honesta: por lógica e levando em conta o óbvio sufixo, imagino tratar-se de uma localidade qualquer perdida fora do mapa. Mas, se você como eu, nunca ouviu falar ou, imagina que Riolândia não está no mapa, enganou-se redondamente.
Achei até no Wikipédia: Riolândia é um município brasileiro do estado de São Paulo cujo senso aponta para uma população de 8.970 habitantes. Está, portanto, no mapa do Brasil. Mas, pasmem, não só do Brasil.
Riolândia está em todos os noticiários porque agora se sabe que a cidadezinha de pouco mais de 600 km² consta também nos mapas interplanetários de desbravadores do universo. Riolândia tem sido visitada por OVNIS.
Não é nenhuma pegadinha. Objetos Voadores Não Identificados têm mesmo sido apontados como responsáveis por diversos fenômenos ocorridos nos canaviais da região. Mas, você deve estar se perguntando: e eu com isso?
Acho que absolutamente nada, mas que é interessante sabermos que existem pessoas e, às vezes populações inteiras, capazes de jurar por coisas que a maioria duvida, isso é.
Ver coisas onde não há nada, dizer coisas baseadas em suposições, criar situações inusitadas e absurdas são atitudes correntes e tornaram-se comuns entre nós, mas fazer tudo isso ao mesmo tempo e, coletivamente, merece mesmo destaque e nossa atenção especial.
Além disso, qualquer afirmação zombeteira ou injuriosa a essas manifestações serão tão levianas quanto tentar defendê-las. Quem aqui poderia afirmar sem medo ou, com propriedade, que os eventos ali não foram mesmo obra de alienígenas?
Na dúvida, eu levaria uma filmadora ou uma máquina fotográfica. Na certeza, eu preferiria nunca ter que passar perto do tal município.
Ocorre que, uma notícia quando toma essas proporções, já não é mais possível identificar sua origem e menos ainda sua credibilidade sem esbarrar em inúmeras distorções causadas pelo boca-a-boca.
Te parece familiar? A mim é muito mais que isso. Remete-me automaticamente á quase todas as hipóteses que advém de análises levianas, expressões de opiniões sem embasamento ou comprometidas com interesses pessoais.
Gente que, sem o comprometimento acadêmico, moral ou até individual com suas responsabilidades como ser humano, é capaz de qualquer coisa pra se auto promover, para chamar a atenção sobre si mesmo.
Inventam, caluniam, achincalham, comparam e fazem isso sem pestanejar. Utilizam de espaços outrora conquistados por um rompante de respeitabilidade e depois descambam de maneira irreversível.
São os famigerados destruidores da imagem alheia. Estimulados pelo prazer e pelo hábito de comparar a todos e a tudo com eles mesmos e nos efeitos de suas próprias calúnias, sentirem-se, ainda que fantasiosamente, superiores.
Tenho assistido, e sei que vocês também, um enorme desmando na liberdade do trato com seres humanos pela Net afora. Espaços sendo utilizados como cuspideiras morais dos cânceres salivares de seus donos.
O limite entre o divertido e o inconveniente foi há muito transposto, mas pouca gente se dá conta disso. Ao contrário, comportam-se como os milhares de curiosos que se aglomeram hoje em Riolandia, sedentos pelo inusitado assustador e o improvável bem articulado.
Não deveria, mas, esquecemos que blogs são, essencialmente, apenas textos publicados dos pensamentos de um autor, enquanto a blogosfera é um fenômeno social e como tal, deveria ter também elementos auto limitadores e críticos.
Não se trata de censura, mas de bom senso, de respeito e, antes de tudo, de sensibilidade pra perceber que, não por isso, nos foi dado o dom da palavra, menos ainda, os progressos advindos da descoberta da escrita.
Não por acaso, usei o afã da Ufologia para ilustrar o post. É um tentativa de lembrá-los dos incontáveis relatos registrados até com provas inquestionáveis, que mais tarde, provaram tratar-se de pura histeria coletiva.
Esses eventos deixam seqüelas irreversíveis e não devem ser tratados com leviandade, que dirá, com maldade. É importante termos a informação que fatos assim podem ser divertidos, mas aumentam ainda mais a complexidade das análises das relações humanas.
Muitos desses “analistas amadores”, formados na arte de alimentar a própria vaidade, na ânsia de tornar seus posts impactantes acabam por induzir testemunhos a abandonar suas próprias convicções, passando a reproduzir as idéias do autor.
Acredito muito no potencial do ser humano e por essa razão não subestimo sua capacidade destrutiva. Subestimo menos ainda quem se aprimora em utilizar sua esquecida referência como ser humano, para se promover.
Cedo ou tarde, veremos essas pessoas se aventurando a criar seitas, escrever livros ou artigos, fundando comunidades. Na ufologia, na semiologia ou na psicologia, basta que haja um só habilidoso condutor para que multidões inteiras se enfileirem.
Em Riolândia, os “E.Ts”, deitaram a cana, queimaram as plantações, trouxeram o turismo necessário á economia. Até o velho contador de história com palha entre os dentes conquistou seus dias de fama. Não houve, ainda, baixas ou degradação humanas.
Poderemos dizer o mesmo por aqui?
- posted by Mara
Sábado, Fevereiro 16
UM MAL NECESSÁRIO!
...SERÁ??
Tem certos eventos na vida que existem apenas para gerar polêmicas. Ainda que surjam imbuídos de boas intenções e que realmente as execute por algum tempo, não demora muito e já começam a causar prejuízos em vários setores.
Muita gente já mostrava sinais de extrema irritação pelos três meses em que padeceram dos sintomas advindos do famigerado DST. Mas, para o alívio de alguns, embora os prognósticos sejam péssimos, hoje encerramos esse ciclo anual.
Essas pessoas têm minha compaixão. Nada pior do que ser submetido a mudanças extremas de atitudes e hábitos em prol de um objetivo e vê-lo esvair-se numa madrugada qualquer sem ter atingido seus reais propósitos.
Além disso, o DST, sob aspectos individuais, é mesmo inoportuno e é natural que gere tantos protestos e polêmicas. Chega num dia qualquer, altera nossas vidas sem pedir licença, se instala, nos acostuma e, um dia, acaba como se nada tivesse acontecido.
Mas, pior mesmo é saber que, aparentemente, não estaremos definitivamente imunizados. Em breve, teremos que aceitá-lo novamente em nossas vidas. É bem verdade que alguns, bem poucos, não se incomodam. Mas que é chato é!
De minha parte, sinceramente, não o desgosto completamente. Mas, acho que isso se dá devido a minha incrível tolerância as mudanças bruscas que a vida nos impõe. Talvez tenha a ver com meu treino profissional em ligar com o inevitável.
Mas, se até meu computador (muito mais subserviente do que eu) se ressente e fica confuso, é claro que eu também sofro as conseqüências. Mas, existem, á meu ver, coisas muito mais nocivas que duram muito mais. Dá pra tolerar.
A boa notícia é que o DST, hoje, encerra mais um de seus ciclos polêmicos e tem gente disposto até a ampliar a comemoração por isso. Mas, não faltarão, é claro, quem se queixe por mais alguns dias dos efeitos tardios desse período vivido.
Como eu sei? Oras, são mais de vinte anos de convívio forçado com o tal famigerado. Além disso, sou fã convicta de seu descobridor – Benjamin Franklin. O que nunca entendi realmente é porque lá nos EUA, o dito cujo não vingou.
Ou, melhor questionando: Como é que uma coisa que lá não vingou porque a população combateu com eficácia, se estabeleceu aqui no nosso Brasil tão costumado em reproduzir o bom e o ruim dos exemplos estrangeiros? Mistériooo...
Uma hipótese é que desde seu surgimento em terras tupiniquins, dezoito anos se passaram sem que ele fosse identificado em qualquer parte do país.
Mas, seu súbito ressurgimento no verão de 1986, foi bastante avassalador e deixou marcas bem profundas nos brasileiros.
Além disso, pode ser que por puro ressentimento, nós brasileiros, tenhamos nos inclinado mais aos hábitos europeus. A Europa, Austrália e parte da América do Norte há muito sucumbiram aos efeitos do DST. E, pelo jeito, gostaram.
Eu sei que estamos a poucas horas de nos vermos temporariamente livres dos sintomas desse tal de DST, mas nunca é tarde pra aprender a conviver com ele, tentando entende-lo.
Por toda parte o que se diz é que com ele, preservamos nossas energias reduzindo o consumo e aproveitamos melhor a luz do sol. Economia necessária para quando há queda em nossas reservas de água.
Dizem que esse procedimento, tido como natural, reduz o consumo energético de quatro a cinco por cento e sua incidência ocorre no verão justamente porque é nessa estação que, sem nos darmos conta, utilizamos de maneira mais significativa, nossas reservas.
Sabemos que é contra-indicado e prejudicial à saúde, já que altera o relógio biológico das pessoas, provocando uma mudança brusca dos ritmos do organismo humano que, normalmente, estão sincronizados entre si, seguindo uma ordem temporal interna.
Mesmo assim, ninguém conseguiu ainda exterminar o DST e seus malefícios. E, o pior, nessa sua última incidência, nem mesmo os benefícios foram percebidos. Mas, tudo bem, por que lembra? Hoje acaba tudo.
Assim, à zero hora do dia de hoje, não esqueçam, atrasem seus relógios em uma hora. É o fim anual do DST - Daylight Saving Time, o famigerado Horário de Verão!
Bom mesmo é que podemos comemorar por uma hora a mais!
*texto sem correção!
- posted by Mara
Sexta-feira, Fevereiro 15
QUEM SABE UM DIA....
...A SITUAÇÃO INVERTE?
Ei, você! Psiuuu... É. Você mesmo, com essa cara de inocente em frente ao computador... Fala aí. Responda sem pensar: quem foi Odete Roitman? Foi fácil, não é? Mole, mole!
Agora responda essa: Quem, afinal, que a matou? Precisa pensar um pouquinho, não é? Ok. Acertou quem respondeu que Odete Roitman foi, senão a maior, a mais conhecida vilã da dramaturgia brasileira.
Não se sinta mal por ter dificuldades em responder a segunda pergunta. Você não é o único. Que interessa saber quem acabou com a saga da maldade de Miss Roitman? O que nos importa é que, com esse ato, lavou nossa alma e varreu o mal (e o mau) da humanidade.
A ficção tem sempre essa função. Produzir a catarse necessária pra nos impulsionar e garantir a manutenção de nossos preceitos cristãos. É mau? Então, morre no fim. Bom? Apaixona-se, fica milionária, casa, tem filhos, etc.
Não vou nem discutir que esses destinos, para alguns, podem não traduzir exatamente a antítese dos conceitos de punição e premiação. Mas, em linhas gerais, é o que querem representar.
São esses conceitos que movimentam o mundo. Sobre eles é que depositamos todos os nossos anseios e motivações. Persegui-los é a missão singular de cada um de nós. Quer ver a coisa se complicar?
É só juntar mais que uma pessoa com essa mesma missão. Os resultados serão: de um lado, fãs alucinados, seguidores fanáticos e de outro, competidores compulsivos e torcidas inflamadas. Alguém no meio?
Sim. Os protagonistas, do bem ou do mau, que geraram toda a confusão. Em ambos os lados, sempre haverá os que insistem que o bom é mau e, o mau, não faz tão mal assim e, isso por si só será suficiente pra dificultar ainda mais nosso julgamento.
Não me venham falar de isenção ou imparcialidade. As sentenças aplicadas podem até ser que consigam ser descomprometidas, mas quem as imporá estará sempre guardando, em seu íntimo, um bem definido posicionamento. Só não dirá.
Mas, afinal porque os vilões fazem tanto sucesso? A resposta a essa questão é complexa porque logo de cara já incorremos no erro comum de confundir fama com êxito. E, fama, na mentalidade de muitos, é sinônimo de recompensa.
Não impressiona, por exemplo, o espaço que a mídia reserva para os vilões da nossa sociedade? Isso se dá, justamente, porque seus analistas já concluíram que as notícias policiais serão sempre as mais lidas e assistidas que qualquer outra. Sucesso garantido!
Daí que ficamos sempre com aquela sensação que os bandidos, no mínimo, ganham “publicidade” grátis. Publicidade má, mas ganham. Suas vítimas, geralmente, tornam-se meros caronas dessa fama súbita.
Então, nós, espectadores e paladinos da justiça, não deixamos por menos. Jamais sossegaremos até fazemos das Odete Roitmans, da vida e da ficção, vítimas. O objetivo é não abrir precedentes para que o mal triunfe.
Mas, tudo que conseguimos é imortalizá-los. Os vilões são interessantes porque bagunçam o coreto. Na ausência deles não há enredo, não há paixões e todo conflito necessário para que tenhamos o prazer dessas emoções.
Vilão dá ibope. Principalmente quando faz de nós cúmplices involuntários e impotentes de suas maldades ou quando surgem disfarçados de bonzinhos. Além disso, o “mocinho” é sempre um chato de galocha, insosso e previsível.
Sei que muitos irão espernear, mas, existe um dado atrativo nos vilões que o espectador faz questão de ignorar: eles colocam em prática, sem freios morais, muito daquilo que nós mesmos gostaríamos de fazer.
Materializam o bandido que há em nós, quebra regras de conduta. E quando essas regras são fortemente enraizadas no universo onde estão, tornam-se bodes expiatórios ainda melhores.
Assim, antes de achincalharmos aqueles que se habituaram a estar em torcidas contrárias ao “bom” senso, temos que olhá-los com compaixão típica de quem é bom.
São, na verdade, como náufragos encurralados numa ilha de bondade que não os inclui, agarrados á única possibilidade de expor o próprio “mau caratismo” ao eleger os vilões como seus ídolos.
A técnica que usam é simples. Lutam com todos os argumentos possíveis para convencer que o “mau” é bom para, se conseguirem, aliviar sua própria culpa de terem se simpatizado com ele. Se o “mau” vence, então, comemoram a vitória como se fosse pessoal.
Os vilões ganham a simpatia, como um reflexo de uma sociedade acostumada a permitir bandidagens sem punição. Somos permissivos tanto para produzir bandidos, como para atenuar suas transgressões.
Um gesto levemente impopular transforma o desconhecido humano em vilão, mas basta também um só gesto de humanidade dele, para que a unanimidade sobre sua maldade se rompa e já produza fãs da idéia de que a conversão é possível.
Eu, fora da ficção, conheço poucos “vilões” que tenham conquistado, com merecimento, o posto de mocinho. Mas, me perderia na contagem dos que fizeram exatamente o contrário. Sem falar os que são vilões, pronto e acabou!
Mais interessante que o estudo dos vilões e heróis, á meu ver, são as nuances possíveis do caráter de suas torcidas. Mais ainda, de seus líderes. Esses sim, verdadeiros manipuladores da “fama” alheia, são passíveis de profundas análises.
Os líderes dessas torcidas, alternam em si os papéis de vilões e heróis, agigantando-se ás custas de uma popularidade transitória, que hes dão a sensação de “fama” que tanto invejam em seus protegidos.
Então, como diria meu avô: “não há bem que não se cabe, nem mal que não tenha fim!” Graças a Deus!
- posted by Mara
Quinta-feira, Fevereiro 14
SE VOCÊ PUDESSE ME DIZER....
O QUE VOCÊ FARIA? ONDE IRIA CHEGAR?
Prestem muita atenção, para história que agora eu vou contar:
Era uma vez uma menina chamada Alice. Mas, de fato, seu nome é o que menos importa. Poderia ser qualquer um e, ainda assim, ela seria a Alice.
Um dia, entediada, sem nada que a fizesse sentir-se motivada, teve um súbito pensamento filosófico (embora odiasse filosofia e filósofos):
“Será que o prazer de fazer um colar de margaridas é maior do que o esforço de ter de levantar e colher margaridas?”, pensou sem se levantar.
Cansada por tamanho esforço mental, viu passar por ela um apressado Coelho Branco com olhos cor-de-rosa, que bradava estar atrasado para alguma coisa. Achou-o tão inusitado e diferente que resolveu segui-lo.
Quando ele entrou em um buraco aparentemente sem fim, ela o acompanhou. O buraco era tão surpreendentemente profundo que ela seguia filosofando:
“Ou aquilo era muito fundo ou ela caía muito devagar, pois via tantas coisas ao seu redor que passou a desejar saber o que iria acontecer a seguir.E, continuou a cair, prestando muita atenção.
Enquanto caía, Alice analisava mentalmente as coisas havia visto. Ela havia aprendido sobre esse tipo de coisa recentemente e, pensou que seria muito boa a oportunidade de colocar para fora, mesmo não havendo ninguém para ouvi-la.
Quando finalmente a descida terminou, ela se viu diante de uma mesa com três chaves, uma garrafa e uma pequena caixa. Bem ao lado, uma minúscula portinha de apenas poucos centímetros.
Olhou pelo buraco da fechadura e descobriu do outro lado, um mundo diferente de tudo que havia visto em sua diminuta e sem graça vida. Desejou entrar. “A porta é muito pequena e sou grande demais, pensou”.
Então, olhou para a garrafa e concluiu que deveria bebê-la. Talvez encolhesse. Estava certa e, ao fazê-lo e perceber-se pequeninha, lembrou- se que a chave ficara sobre a mesa. Inalcançável para alguém, agora, tão pequeno!
Lembrou-se da caixa. Alcançou-a e leu a inscrição que havia na tampa: “coma-me”. “Bem, eu vou comê-lo”, pensou Alice, “e se isso me fizer crescer eu posso pegar a chave; Se me tornar muito pequena eu passo por baixo da porta.”
E foi assim que Alice encolheu e passou pela fechadura, entrando definitivamente no País das Maravilhas.
Tudo que se passou a partir daí é bastante confuso, mas Alice jamais concordaria com essa afirmação. A menina passou a achar normal tomar chá com personagens estranhos e estar com sua cabeça freqüentemente á um passo de ser decepada.
Como podem ver, ao contrário de muitas outras histórias, nossa heroína não tem nenhum grande propósito ou dilema. É apenas uma espectadora das coisas que acontecem ao seu redor. Seu poder de atração advém do fato de possuir pouco ou nenhum comprometimento com a realidade.
A falta de uma personagem com mais personalidade e de um foco central para esse post pode tê-lo deixado, meu leitor, confuso ou até mesmo indiferente, mas há muito para se admirar nessa velha e conhecida historinha.
A começar pelo fato do mundo de Alice não lhe ser completamente desconhecido. Mas, isso eu juro que não conto pra ninguém. Além disso, os dois mundos paralelos em que Alice vive, guarda segredos que muita gente adoraria revelar.
Mas, Alice os mantém em ciumenta proteção e em seu relato ocasional sobre sua vida real, os cenários são detalhados e fieis à realidade, enquanto, em contrapartida, o País das Maravilhas é retratado com formas exageradas e irregulares, com texturas estilizadas.
Diferentes, mas igualmente inacessíveis, não é?
Alice usa e abusa dos efeitos especiais, que são usados em todo o seu potencial, com lágrimas gigantes transformando-se em uma enchente, a vela de um bolo estourando em fogos de artifício e o ponto alto: o exército de cartas de baralho da Rainha desfila diante de nossos olhos atônitos.
Isso não quer dizer que Alice é apenas um personagem agradável aos olhos, mas também, que é indigesto para quem busca verdade. Entretanto, sua história é extremamente divertida sob o ponto de vista psico-analítico.
O plausível é ignorado e nunca contestado, como na cena em que a Lebre Maluca atende ao pedido de Alice por meia xícara de chá e a fatia ao meio (desafiando até as leis da gravidade).
Há ocasiões em que sua história assume o tom de auto-sátira, com a própria Alice se dando conta das idiotices repetitivas que faz. (como, por exemplo, nas inúmeras festas de “desaniversário” feitas ás custas da Rainha de Copas).
O fato de a personagem principal ser comum e sem graça, como alguns diriam, torna tudo ao seu redor ainda mais impossível e fantasioso.
Quem assistiu desde o início lembra-se de uma Alice enjoada de seu mundo comum e convencional. Ao final de sua jornada, ela está enjoada do mundo que ela mesma criou em sua imaginação.
Pode ser que quem nunca leu os livros de Lewis Carrol talvez tenha alguma dificuldade em entender essa história como eu a concebi.
Mas, a verdade é que eu já fui fã de “Alice no País das Maravilhas” e também já a considerei um dos melhores personagens do universo onde está inserido.
Alguns podem até criticar as modificações feitas á história original, e as inúmeras adaptações que essa história sofreu ao longo de sua existência, mas a impecável habilidade em que o personagem fantasioso se apropria da realidade de quem o conhece, é inegável.
Alice é um personagem incrível, clássico e exemplar na arte de transformar um mundo sem graça e inexpressivo, em excesso de imaginação e em exercício de expiação para os mais graves defeitos.
Além disso, receber um convite ou ser aceito para mergulhar com ela no abismo que conduz ao buraco da fechadura que dá acesso á esse mundo, é antes de tudo, a oportunidade de se tornar também uma campeã de audiência.
Não riam. Conheço muita gente que topou.
Da minha parte, nessa história, preferi entrar por uma porta e sair pela outra. Quem não gostou que conte outra!
- posted by Mara
Quarta-feira, Fevereiro 13
HUMANOS... NATURALMENTE!
Não sei dizer a origem da palavra “natureza”, e de seus inúmeros empregos na linguagem humana. Mas desconheço uma definição que seja melhor sintetizada do que ela.
Ao usá-la, de uma só vez, delatamos sua representação real, e também sua importância simbólica. Impossibilitamos todo e qualquer questionamento, alicerçados pela infalibilidade conceitual que a compõe.
Ou alguém aqui é capaz de duvidar, ou sequer questionar, o valor dela no imaginário coletivo? Duvido. A “natureza humana” é quase sempre uma unanimidade. É o diferencial que muitos, ao utilizá-la, inflam o peito auto justificando-se na vida.
As duas palavras são colocadas em nosso inconsciente e, no dicionário, numa ordem hierárquica incontestável, mas, numa análise um pouco mais cuidadosa, daremos conta de que não são, mas poderiam ser consideradas até sinônimo uma da outra.
Por definição, “natureza” se apresenta como um conjunto de leis que presidem à existência de todas as coisas e à sucessão dos seres. Força que estabelece e conserva a ordem natural e o conjunto de tudo que existe no universo.
Quer mais? Para a sociologia, é a capacidade, adquirida através de interação com semelhantes, de assumir o papel de outrem, de julgar-se a si mesmo deste ponto de vista, e, assim, de desenvolver o self, autocontrole e sentimentos.
Qualquer que seja a ciência que proponha uma definição para as palavras "humana" e “natureza”, e seja qual for a definição proposta, inevitavelmente seremos remetidos alternadamente as definições originais de cada uma delas.
Entretanto, a compreensão da redundância dessas palavras, não invalida seu valor ou nos encoraja a duvidar da força de sua representação. Utilizá-las é sempre um eficiente mecanismo para encerrar qualquer possibilidade de dúvida.
É, portanto, a origem e o fim de todas as coisas. É simbólica: “a origem da vida”. É conceitual: “natureza morta”. Sem falar, é claro, que é política e definitivamente correta. Um elogio, por assim dizer.
Dizer que algo ou alguma coisa fazem parte de sua “natureza” é o mesmo que dizer que tudo está em julgamento, menos sua autenticidade, sua inculpabilidade e, sobretudo, que é factual e imutável.
A psicologia acredita que existam características humanas que obedecem rigorosamente a esses critérios e nessa mesma ordem. Mas, atribui-se a elas a capacidade de adaptação oriundas do nível de evolução que já alcançamos.
Assim, é da natureza de um animal irracional ser agressivo na defesa de seu território. Mas, não podemos ignorar que o que o faz assim, não é sua “natureza” e sim sua condição de animal irracional.
A junção da palavra “humana” e da palavra “natureza” é oportuna sob a ótica da generosidade que a primeira confere à segunda.
Todo esse discurso é o prolixo caminho que encontrei pra propor um olhar diferente sobre a “natureza” humana. Essa sim, questionável, falível e propensa a desmerecer o conceito de natural e perfeita.
Muito se fala sobre pré-julgamentos, pré isso, pré aquilo. Estabeleceu-se ao longo do tempo que tudo que é “pré”, pode ser nocivo e incorreto caso não mereça de quem o concebe uma segunda e cuidadosa análise.
Penso que estamos sendo generosos. São poucas as coisas que uma vez “pré” concebida, virão a sofrer modificações. Podem até gerar correntes debatedoras e políticas de incentivo para isso, mas, a famosa “primeira impressão” é mesmo a que sempre fica.
A imagem que passamos no primeiro momento, as idéias que fazem de nós, nos acompanharão como fantasmas adormecidos prontas para serem usados contra nós no primeiro deslize e podem significar e explicar como seremos tratados pelos outros.
Minha mãe resumiria esse meu post até aqui, numa só expressão: “pau que nasce torto, morre torto”, diria minha filósofa preferida.
Fui para universidade aprender sobre a natureza humana e descobri que “pau que nasce torto, pode ficar ligeiramente menos ou ainda mais torto com o tempo, mas jamais nos deixarão esquecer sua curvatura original”.
Aos ditos especialistas da alma humana, restará apenas a possibilidade de atenuar as conseqüências dessa “não retidão, propondo alternativas para, vez ou outra reverter, em atitudes, essa envergadura.
A natureza humana é realmente perfeita. E, justamente por isso, em sua perfeição é composta por antíteses. O bem e o mal, o feio e o belo, a vida e a morte e etc. Só não oferece escolha em si mesma.
Isso, ao menos, nos explica as razões de assistirmos os repetitivos equívocos humanos, seja na sua interação com a natureza propriamente dita ou com a sua própria natureza.
Desculpem o trocadilho pobre da frase acima, mas foi necessário para que possamos finalmente compreender que a “natureza”, humana ou não, não é um patrimônio da humanidade e sim o contrário.
Cabe-nos apenas, aceitá-la e zelar por sua existência, já que sem ela jamais deixaremos de ser apenas animais irracionais evoluídos fisiologicamente, a não ser em nossa prepotente concepção. Prepotência, aliás, muito típica da natureza humana.
*texto sujeito á correções posteriores.
- posted by Mara
Terça-feira, Fevereiro 12
CARA DE PAISAGEM
IRRITA, NÃO IRRITA?
Não tem nada mais irritante do que pensamentos irritantes. O adjetivo é claro, é tão antipático quanto pessoal. Assim, o que pode levar um sujeito ás raias da loucura, pode nem causar cócegas no humor de outros.
Mas, não há como fugir. Uma vez que classificamos alguma coisa como irritante, essa se estabelece de maneira definitiva como tal. Daí pra frente, qualquer derivado, menção ou indício da presença de tal elemento já é suficiente pra desencadear um ataque de irritação.
Irritante, é no dicionário, substantivo e é também um adjetivo, pode ser feminino ou masculino, plural ou singular e, não sei se repararam, esse fato serve apenas para ampliar ainda mais a natureza irritante do mesmo.
Tem gente que tem o “irritante” como companheiro constante. Se irrita por qualquer coisa. A torneira pingando, o tique da ascensorista do prédio, o lacinho cor de rosa na orelhas da poodle da vizinha.
Outros parecem completamente alheios aos elementos irritantes de seu cotidiano, mas até mesmo esse, sabe identificar com precisão, se necessário for, o indigesto elemento. Há também os que são eles próprios, irritantes.
Mas, como tudo aquilo que é cotidiano e, facilmente identificado pelo coletivo, incorre no risco de se tornar lucrativo. Tem gente que vive de identificar e transformar esses elementos em piadas irritantes.
O elenco do programa “Pânico”, por exemplo, faz do “irritante” seu ganha-pão e a contracultura do humor na TV. São a prova mais contundente de que irritar tem suas vantagens.
Voltando aos pensamentos irritantes: Nada pior mesmo do que um pensamento que insiste em permanecer intacto e persistente, mesmo quando o abatemos centenas de vezes por nos sentirmos incomodados com o que eles representam.
Coisas do tipo: tenho que parar de fumar, visitar aquela tia velhinha e doente, ser sensível e educada pra não sair no prejuízo, ligar para o provedor da internet pra resolver o insolúvel problema da minha conexão, etc.
Tudo isso já é irritante em si, mas fica ainda mais, quando não conseguimos evitar que se tornem cobranças. Só piora quando vêem em forma de avisos insistentes de “generosos” conselheiros: “Olha, não vai esquecer, ta?”
Isso é ridículo. Ninguém esquece o que irrita. O que irrita, anda lado a lado no ranking do inesquecível com cólicas menstruais, pisar em cocô de cachorro e dívida com quem contrata cobrador de porta em porta. Inesquecível!
O que torna alguma coisa irritante? A constância em que somos obrigados a conviver com ela? Ou o fato de não querermos, sob nenhuma hipótese, conviver com aquilo? Se analisarmos com honestidade, veremos que as duas coisas se complementam.
Basta que não queiramos conviver com algo para que ela se torne inevitavelmente constante. E quanto mais a evitamos, pior fica. Tem gente que consegue ficar irritado até com próprias tentativas de não se irritar com algo.
Por outro lado, há coisas irritantes de bastante sucesso. Música eletrônica, discurso antitabagismo, palestras de auto-ajuda e até entrevistador que não deixa o entrevistado falar, parecem fazer parte de uma subcategoria, onde irritar é o que o torna popular.
Mas, cuidado! Não é politicamente correto irritar-se. Menos ainda, demonstrar essa irritação seja discreta ou inflamadamente. O melhor, consta, é disfarçar e abstrair, olhar a paisagem tentando confundir-se com ela.
Jamais confesse que alguém ou alguma coisa o irrita. Isso pode dar margem para um sem número de interpretações e inverter a situação contra você mesmo. O irritado, á meu ver, é o único capaz de atrair mais adversários do que o próprio elemento irritante.
Isso se dá, porque há pessoas que se super sensibilizam com as agruras do irritante. Seja eles uma pessoa ou, um elemento qualquer. Quer atrair inflamados piqueteiros? Diga que alguma coisa o irrita.
Em segundos, os que não concordam, se juntarão em um número assustador de defensores. Agregar-se-ão á esses, até os que acham a pauta, apenas “levemente” irritante, mas que não admitem injustiças. Afinal, dirão, há coisas muito mais irritantes.
Assim, se depois de repetir por treze vezes, catorze com essa, a palavra irritante, eu não consegui te irritar, você passou no teste e isso significa que você tem um nível de tolerância bem maior que a maioria.
E isso, por si só, já pode irritar muita gente que é irritada por natureza. Daí que, conforme-se ou irrite-se, mas está provado que é possível irritar á Gregos, Troianos e até Tibetanos, sem que se faça nenhum esforço pra isso.
Isso não mesmo terrivelmente irritante?
- posted by Mara
Segunda-feira, Fevereiro 11
TUDO ERA IGUAL...
...COMO ERA ANTES!
Ontem no Fantástico mostraram provas cientificas de que existem regiões do nosso cérebro capazes de identificar padrões. Segundo consta, são esses padrões que nos leva, por exemplo, a reconhecer e identificar rostos familiares.
Uma lesão acidental ou cirúrgica nessas áreas não apaga o registro das imagens do que já foi visto, mas impede que as identifiquemos como tal.
Realmente Fantástico! Entretanto, a edição da matéria foi tão eficiente que roubou para si o brilho dessa incrível revelação.
Essa descoberta, por exemplo, explica porque muitas vezes achamos que já vimos antes, alguém que acabamos de conhecer, ou o porquê de encontrarmos semelhanças em rostos que outros não vêem.
Ok. Isso deve explicar também, porque antipatizamos ou nos apaixonamos á primeira vista. Menos mal. Minha consciência cristã agradece. Opa! Cristã? Religião e ciência, andando juntas?
Sim, é possível! Mas não vou discursar sobre isso agora. A reportagem despertou outros questionamentos que nos remete a essa linha limítrofe dos preceitos da ciência e das religiões.
Existe ou não existe coincidência? Se não existem, fazem parte da ciência e se não, existem são de domínio das crenças religiosas? Afinal, qual dessas explicações nos satisfaz mais?
Não se trata de perguntas capciosas, ou do tipo que já tem expectativas de respostas. É, antes, uma enquete de opinião já que por mais que debatamos, jamais chegaremos á um consenso.
De minha parte, sempre que me confronto sobre isso, incorro em duas situações distintas. A primeira é o desejo contraditório de não achar jamais uma resposta que retire a magia por trás desses eventos.
A segunda é o surpreendente êxtase de me saber fazendo parte de mais um dos inúmeros enigmas do universo.
Em qualquer uma delas, quase sempre é impossível esquecer o maior mistério que ronda minha vida: minha relação com a Argentina e com os argentinos.
Minha história com eles que nem pode ser classificada como construída ou apenas encontrada. Trata-se de um reencontro recheado de detalhes inexplicáveis e “coincidências” que muitos até acreditam que sejam sobrenaturais.
Tudo começou literalmente de um sonho. Um sonho meu, a bordo de um vôo curto entre Buenos Aires e a Patagônia Argentina. Nele, as pessoas, a paisagem e até as palavras se materializaram assim que o avião tocou o solo do meu destino.
Daí por diante, foi uma sucessão de surpreendentes “acasos”. Saber caminhos com precisão de quem já os havia percorrido, sem nunca tê-lo feito.
Lembrar de histórias nunca ouvidas, localizar recantos, casas e até a compreensão total e sem equívocos do idioma recém escutado.
O falar sem sotaque, a flor preferida ser exclusividade da região, a preferência pelo frio. A Patagônia Argentina em toda sua extensão e história pareciam comungar comigo como nada antes havia conseguido.
A descoberta que meu nome é originalmente proveniente de uma Lebre típica da região e o amor incomensurável, imediato e recíproco, faz parte de um pacote de fatos que escrevem há quase uma década minha história com aquele país.
Uma década? Há quem diga que é muito mais que isso. Há quem aposte, sem pestanejar, que se trata de um reencontro com cenários e personagens de outra vida a qual pertenci. Outros seriam capazes de jurar na hipótese de um mundo paralelo.
Eu? Eu desfruto. Desfruto do amor que recebo e da sensação de voltar pra casa todas as vezes que estou me preparando pra estar com eles. E, nunca me questiono em que parte de meu cérebro estará registrado o que lá, me é tão familiar.
Mas, rezo. Rezo todos os dias, para que essa parte de meu córtex se alie ás razões espirituais para fazê-los permanecer em mim, por muito tempo. Ou por quantas vidas, eu por ventura, vier a viver.
Para ilustrar e para que vocês mesmos possam julgar, olhem o que li nas últimas notícias de um jornal on line daquela região. Para quem não entende o espanhol, trata-se do anúncio da exibição de estréia de um documentário de produção Argentina.
O nome? QUERIDA MARA, CARTAS DE UN VIAJE POR LA PATAGONIA
Juro por Deus e até por Einstein (se for necessário), que não os conheço! Mas, vai ver estou arquivada em alguma parte do córtex do cineasta!
Veja você mesmo!
- posted by Mara
Domingo, Fevereiro 10
VERÁS QUE UM FILHO TEU...
...NÃO FOGE À LUTA!
Desde o início desse blog tenho lido no interior de sua sessão de comentários, as mais diferentes expressões da força das mulheres no empreender de sua rotina. Vocês, diariamente transcrevem aqui, em comentários aparentemente banais, a razão de serem mulheres tão especiais.
Ontem, assisti ao discurso de Hillary Clinton. E ouvi-la remeteu-me aos discursos recentes de outra mulher poderosa: Cristina Kirchner. Não sei a razão subliminar da associação imediata que fiz. Mas que muita coisa as une, não há como negar.
Pensei nas amigas que tenho que são atoladas até o pescoço em cargos políticos. Esse fato em si, dá motivos suficientes para que eu não queira discursar sobre elas. Não gosto de política partidária.
Minhas amigas, nos diferentes níveis de poder, se assemelham nas características que as motivam e as distanciam de mim e de meus próprios anseios.
Não gosto de nada que, em essência, confunda poder público com poder pessoal. Nada que necessite de estratégias para separar um do outro e que, no fim, junte-os de maneira inevitável.
Mas, á parte essa convicção, sou mulher, brasileira, ativa e vivo nesse país tempo suficiente para desejar que seja uma mulher a mudar a história dele e quiçá do mundo.
O discurso de Hillary deixa claro que em qualquer parte do mundo, nós mulheres, em detrimento de sermos mães dos homens poderosos da história, ainda nos comportamos como se o contrário fosse mais natural.
Repetimos seus discursos e nos consideramos “crias” desses homens que mudaram a história, inseridas num universo que eles construíram para nós, garantindo-nos habitats propícios para parirmos outros iguais á eles, num plano para perpetuação da espécie.
Ambas, Cristina e Hillary têm, é óbvio, minha simpatia. Seja pelo passado ativo ao lado de maridos controversos e importantes no cenário político mundial, seja pela postura inabalável que insistem em manter diante das ressalvas que fazem á sua condição de mulher.
Ambas, mulheres, advogadas, brilhantes, ex-primeiras-damas e senadoras que fizeram a diferença. No que essas mulheres se diferenciam de outras mulheres, com igual currículo, no mundo?
O que, de fato, é responsável para que, entre tantas, emergissem com triunfo num universo dominado por homens?
Alguns apressadinhos dirão: Ambas escolheram casar-se com homens que trazem nas veias a sede do poder, o sangue dos líderes e a inteligência para fazer essas características merecerem destaque.
Sendo assim, o que dizer daquela que os gerou? Por que essas mulheres, geneticamente responsáveis por esses homens, não tomaram para si o direito de se destacarem por seus genes diferenciados?
Hillary e Cristina fazem parte de um universo longe demais para que eu arrisque uma teoria, mas apresento-lhes uma alma feminina de igual compleição que, guardadas as proporções, serve de exemplo dentro da diminuta relação “mulher versus poder:
Filha de trabalhadores rurais, desde criança lutou pela sobrevivência. Um dia percebeu que não mudaria o rumo da história entre os campos de algodão e decidiu tornar-se jornalista.
Para pagar as mensalidades, trabalhou como empregada doméstica, vendedora de panelas de porta em porta até conseguir se transformar em locutora de uma Rádio FM tornando-se a voz feminina mais conhecida na região de sua cidade.
Determinada, levou seu talento para a televisão trabalhando no jornalismo na afiliada da Rede Globo no interior de São Paulo e como apresentadora em outras emissoras da cidade.
Foi eleita vereadora pela primeira vez em 1996. E outras quatro vezes, mais tarde. Criou o Centro de Defesa da Mulher e a Organização Maria Otília Neix, um serviço que dava atendimentos para mulheres vitimadas.
Daí, a então vereadora, fundou o “Movimento do Bem” implementando projetos de grande alcance social. Um pioneirismo que a transformou na primeira mulher a assumir a presidência da Câmara Municipal.
Foi a vereadora mais votada da história da cidade e proporcionalmente a mais votada do país. Mãe de quatro filhos elegeu-se deputada estadual, sendo a mulher mais votada do país em comparação com todos os outros estados brasileiros.
Atualmente também preside o “Democratas Mulher no Estado de São Paulo”, é vice-presidente do “Democratas”, no cenário nacional. Presidente do Partido em sua cidade e coordenadora regional em 42 cidades da região.
E vocês, que leram no início do post que não gosto de política partidária devem estar se perguntando: “Porque raio, então, escreveu um texto que parece discurso de correligionário?
Porque é mulher, amiga ou porque isso pode trazer vantagens políticas diante de sua eminente candidatura á Prefeitura de minha cidade? Não.
Escrevi, porque assistindo ao discurso de Hillary, uma frase usada por ela não sai de minha cabeça e me fez sentir saudades da minha amiga Darcy Vera – a mulher cuja carreira política descrevi acima, sentada descontraída na varanda de minha casa jogando conversa fora. Dessa época, já se vão no mínimo uns quatro anos.
Disse Hilary: “Durante todas as subidas e descidas dessa campanha, vocês ajudaram a lembrar a todos que política não é um jogo. Essa campanha é sobre pessoas. É sobre garantir que cada um nesse país tenha a oportunidade de crescer de acordo com o potencial que Deus lhe deu”.
No eco da voz daquela que pode vir a se tornar a mais importante mulher do planeta, deposito meus mais ansiosos desejos que isso se torne possível também nesse nosso pedaço do mapa.
E que cada palmo dessa terra, tenha como eu, uma legítima representante em que possa confiar. Assim, quem sabe, um dia, possamos parir homens tão cheios de coragem e caráter, beleza e doçura, quanto suas mães os desejou.
Que, Hillary, Cristina, Angela Merkel, Ellen Johnson Sirleaf, Michelle Bachelet, Evita Perón e outras que anseiam ou que, de fato, mudaram a história, possam mudar também a temática que as insere mostrando que não se trata de “mulheres no poder”, mas sim, do “poder das mulheres”.
Temática, onde a ordem dos fatores, comprovada pela vida das mães de ditadores e mártires da história, pode sim alterar o produto.
Falta apenas que mais algumas mulheres descubram em si o dom de gerar, ninar e zelar por essa, pouco gentil, criança espécime humana e fazer dela um adulto melhor.
* texto sem correção
- posted by Mara
Sábado, Fevereiro 9
CUMPRIR A VIDA É COMPREENDER A MARCHA...
...E IR TOCANDO EM FRENTE!
"Sou apenas um homem de teatro. Sempre fui e sempre serei um homem de teatro. Quem é capaz de dedicar toda a sua vida à humanidade e à paixão existente nestes metros de tablado, esse é um homem de teatro."
Ouvi essa frase aos dezessete anos, clamada no palco do Centro de Convivência em Campinas, na voz de um jovem lindo e promissor ator. A veia de seu pescoço saltada, os ombros caídos, os braços sem ânimo, soltos ao longo do corpo.
Liberdade, Liberdade. Era o espetáculo e, o jovem ator - minha primeira paixonite- ambos sepultados na constatação de sua condição homossexual. Gabriel morreu de AIDS.
Mas, ainda que eu viva cem anos, jamais esquecerei a atuação assistida dezenas de vezes na fila do gargarejo.
Assim nasceu minha paixão pelo teatro. Vendo as possibilidades infinitas que a teoria de Stanislavski mostrava. O teatro, eu pensava, é a oportunidade de ser quem eu desejar, com a emoção que eu quiser e ainda ser cortejada por isso.
Eu quis ser uma mulher de teatro. Briguei, desobedeci, polemizei, lutei e esperneei e desisti. Artista no Brasil vende sua alma e a minha não tinha muito valor de mercado.
Artista mulher no Brasil ou é louca ou descoberta da Rede Globo. O que dá na mesma.
Eles nem devem se lembrar, mas estive figurando o cenário de muita gente famosa. Antonio Fagundes, Irene Ravache, Carlos Augusto Strazzer, Juca de Oliveira. Uns mais, outros menos. Mas eu queria mesmo era ser a Regina Duarte.
Serviria a Susana Vieira, a Malu Mader e até a Lidia Brondi. Mas, não bastava ser atriz eu queria ser também a namoradinha do Brasil. Descobri rapidamente que o Brasil, assim como a maioria dos homens, é um namorado desmemoriado e volúvel.
Além disso, meu príncipe consorte morreu de AIDS. A morte do Lauro Corona, associada a do anônimo Gabriel, apressaram outra morte: a da minha inocência. Todos lindos, jovens e ceifados no auge de sua potencialidade.
Mas, do eco da frase plagiada do Paulo Autran, nos palcos Campineiros até essa constatação, muito tempo se passou. Estudei, pratiquei e me formei, só não dei a sorte de ser pinçada do anonimato.
Na estante da minha casa e nos recortes amarelados de jornal guardados em algum lugar, está a prova de que não foi falta de talento. Á não ser, talento para persistir indefinidamente dando "murro em ponta de faca".
De lá pra cá, muito tempo voou. Joguei vôlei, apresentei programas de televisão, me casei, fui mãe, me graduei em outras duas universidades. Viajei, aprendi outros idiomas, me especializei em confortar os chamados pela dor e pela morte.
Sou uma pessoa do bem. Fiz amigos por onde passei. No teatro, no vôlei, nas universidades, na FEBEM, até nos hospitais psiquiátricos. Fiz alguns desafetos é verdade, mas não superam nem em número, nem em qualidade, o número de amigos que tenho.
Orgulho-me de poder, a qualquer momento, eleger ao acaso, um nome qualquer em meu caderno de endereços antigos e ligar apenas pra dizer “como vai”, sem correr o risco de ouvir “quem está falando”?
Hoje, acordei com a frase da peça “Liberdade, Liberdade” martelando em minha cabeça, fazendo um discreto duo com a latência do meu joelho recém diagnosticado como irremediavelmente lesionado.
Nem vou me ater ás significações óbvias da associação que isso implica. O caminhar sem dor relacionado aos imperativos do desejo de liberdade. Optei por pensar na trajetória já percorrida e no que a mesma resultou.
Não sou uma mulher disso ou daquilo. Não posso dizer que nasci para o palco, para as quadras ou para as câmeras. Mas, minha vida fez sua própria calçada da fama, onde imprimi as marcas das minhas mãos de forma definitiva.
Segunda-feira inicio um novo projeto. Me impressiona ver como todos que me conhecem nem sequer duvidam da minha capacidade em torná-lo um êxito. Estou apavorada.
Cheia de dúvidas e incertezas, com passos trôpegos e reticentes. E meu joelho em desalinho com a torcida e muito “meu parceiro”, me avisa que devo caminhar devagar, não fazer rotações bruscas ou ficar muito tempo na mesma posição.
Esse texto, que só agora fala disso, nasceu com esse propósito. Dizer do diálogo possível e pouco valorizado que ocorre entre nosso inconsciente e nosso corpo. Nossas necessidades e nossos limites.
Ontem perguntei: “Que tipo de amigo é você?”. Muitos responderam que são do tipo que ouvem, respeitam, amparam e compactuam. Pois bem, que tal sermos isso tudo com nós mesmos?
Que tal dispensar o mesmo tempo aos nossos joelhos? Ouvir seus conselhos e acatar suas decisões em nos fazer caminhar mais devagar, mais cientes de nossas limitações?
Que tal respeitá-lo e, á nós mesmos, valorizando o esforço já cumprido ao longo dos anos, dando-lhe um pouco mais de atenção?
Acaso, antes desse momento, você havia pensado em seu joelho? Não? Até onde você espera conseguir chegar assim? E olha que ele é apenas uma das articulações capazes de deter ou impulsionar você.
Você já acarinhou seu próprio joelho hoje?
- posted by Mara
Sexta-feira, Fevereiro 8
QUE TIPO DE AMIGO É VOCÊ?
Já notaram que há coisas que, apesar de possíveis, por mais que nos empenhamos simplesmente não conseguimos realizar?
Depois de afastarmos todas as hipóteses de mal olhado, macumba e má sorte, circunstância ou competência, o que poderia explicar essa total incapacidade?
Merecimento, ou melhor, a falta dele é a resposta apressada de muitos. E, na ausência de uma teoria melhor é a que, via de regra, prevalece. Para muitos, essa pode ser uma resposta simplista, mas, acreditem é muito mais corriqueira do que se imagina.
Esse tipo de auto-tortura é prática bastante aceita para quem precisa urgentemente de uma justificativa para seus fracassos. E é também um eficiente mecanismo para estabelecer-se sob a condição de eterna “vítima da circunstância”.
Além disso, confere o “direito” de fazer dessa constatação, um eterno álibi para manter-se inerte e infeliz. Manter-se infeliz? Como alguém pode escolher ser infeliz?
Escolhem. E, essa escolha apesar de literalmente “infeliz”, nem sempre é um processo consciente e tão óbvio pra o sujeito, quanto é pra quem convive com ele. Mas, raramente passará despercebido para quem aprende a usá-lo a favor de si mesmo.
Faça o primeiro beicinho quem nunca ficou esperando que alguém compreendesse a extensão de sua dor e se colocasse a disposição para defendê-lo? Ou que não tenha ficado triste ao constatar que ninguém o fez?
Existem mesmo situações em que parece que ninguém mais é capaz de dimensionar o que estamos sentindo e ainda acham que estamos exagerando. É possível que estejamos, e até sabemos disso.
Mas uma demonstração de preocupação por nós seria muito bem vinda. E isso pode significar a diferença entre uma amizade e um simples coleguismo. Mas, as fronteiras são tênues e, quase sempre, confusas. Principalmente quando estamos sensíveis.
Daí que, o primeiro que se manifestar será eleito o sensível da vez e subirá vários degraus na escala de demonstração de amizade. Essa condição só não será válida quando, ao invés de apenas um, vários se mostrarem aptos á te compreender.
O apoio de várias pessoas concomitantemente potencializa o papel das vítimas e, ao mesmo tempo, desvaloriza o passe do “amigão”. Além disso, alguém já disse e eu concordo: toda unanimidade é burra.
Os que engrossam o coro de “protetores” num dia, em outro, com a mesma facilidade, abandonam seus protegidos e se deixam levar pela próxima onda de “bondade”.
A vítima, então, logo conclui que teria sido muito melhor um eficiente protetor do que vários caronistas dessa qualidade. Ganha o posto quem permanecer quando todos os outros se cansarem do papel de apoiadores.
Ser “vítima” é mais atraente do que se imagina. E, há quem no exercício contínuo, não resistam em transformar essa condição em modo de vida. Tornam-se lamentadores profissionais. Você conhece alguém assim?
Ser vítima, também tem suas compensações. Mantendo-se á beira das lágrimas e tendo alguém afiançando a legitimidade delas, quem se arriscará a cobrar do “pobrezinho” qualquer atitude ou solução?
Caso cobrem, abrirão o berreiro e atrairão outros tantos “ajudadores” disponíveis, quase sempre, oportunistas. Mas quem se importa?
Se até aqui, você continua achando que não entende e não vê vantagens em alguém escolher ser infeliz ao invés de tomar uma atitude positiva em relação a si mesmo, pense nisso:
Supervalorizar o problema e torná-lo insolúvel é decretar a eterna submissão do protetor. E se esse falhar, o sofredor poderá manter esse personagem indefinidamente. Caso triunfe e efetivamente resolva o problema, será elevado ao cargo de “amigo especial”, sempre ao alcance das mãos.
Mas, amigos são para essas coisas, certo? Errado. São os únicos que, justamente por sua condição, não deveriam alimentar esse tipo de atitude. Não há amizade que dure muito ou mesmo sobreviva á uma relação desigual de troca afetiva.
De outro lado, tão viciante quanto o papel de vítima é o de “ajudador”, que transformará o problema do “pobre sofredor” em uma causa á ser empreendida. Em ambos os casos, ser impedido de usar suas habilidades quase sempre resulta em cobranças.
“Você não precisa mais de mim, não é?” “Ou, onde você estava quando eu mais precisei?” O encontro dessas “vocações”, apesar da aparente coerência, é a mais terrível forma de uso mútuo, camuflado sob a fachada de amizade perfeita.
A mesma dificuldade que uma mãe encontra em definir ao bebê o significado da palavra “choque” e a incapacidade de deixá-lo aprender experimentando colocar o dedo na tomada terá os amigos em traduzir o afeto por trás das críticas e dos “nãos” necessários.
De que adiantaria, por exemplo, dizer: “filhinho, colocar o dedo na tomada dá choque, mas se ainda assim você quiser colocar, eu estarei com você em sua decisão”.
Diminuiríamos os “kilowatts” do choque ao fazê-lo e o faríamos sentir que realmente o amamos? Pergunte á quem já tomou um choque numa tomada.
É isso que fazemos quando nos isentamos de expressar nossas reais opiniões sobre as condutas de nossos amigos temendo melindrá-los ou magoá-los. Não há protetores disponíveis no mercado para anteciparmos as possíveis cabeçadas de quem amamos.
Mas, se ao contrário, decidirmos dizer-lhes a verdade (por pior que ela seja) e esgotarmos as nossas possibilidades de embutir nessa atitude o respeito e o carinho que sentimos por eles, apenas dois resultados serão possíveis. Quais?
Das duas, uma: ganha o respeito de seu amigo que passará a confiar em você para ajudá-lo a sair das enrascadas que arma pra si mesmo, ou perderá não só o respeito dele, mas a amizade e terá que amargar o fato de ele julgar que você ainda é menos amigo que aquele que ofereceu a tomada pra ele enfiar o dedo.
Chocante, não é?
- posted by Mara
Quinta-feira, Fevereiro 7
EU PONHO FÉ...
...É NA FÉ DA MOÇADA!
Relacionamentos nascidos na internet já viraram tema de teses, artigos e crônicas. Rondou conversas familiares, provocou debates entre especialistas, gerou sessões inteiras de terapia.
Quem já travou algum tipo de contato assim, obedece a dois critérios: ou defende entusiasmado a validade dele, ou reforça a idéia de que é mesmo um perigoso embuste.
Mas, de uma coisa ninguém duvida: quem nunca teve, um dia terá. E até que isso aconteça, não adianta discursar para o sujeito que aquilo é pra valer, porque dificilmente o convencerá.
Relacionamentos virtuais, sejam de amizade ou apaixonados, têm números iguais de semelhanças e diferenças dos relacionamentos dados fora da rede, mas ainda há os que insistem em vê-lo como uma novidade.
Os filhos da internet já se casaram e estão povoando o planeta com netos dessa velha cibernética e ainda tem gente questionando as qualidades da democrática vovó. Minha mãe diria: “O mundo está perdido”, eu digo: “O mundo se encontrou, literalmente!”.
O interessante é observar que as escolas, as empresas e até as religiões se curvaram diante do apelo da tecnologia e sua eficiência em agregar pessoas distintas sob o mesmo pretexto, e ainda assim há quem se surpreenda com as jurássicas técnicas de acasalamento humano.
A força gravitacional que provoca os relacionamentos humanos anda em choque com as velhas concepções do tipo alavanca tão apregoadas pela geração anterior. Isso, á meu ver, longe de ser um choque de gerações é, antes, um atestado de invejosa negação.
O “ficar” da nova geração é muito mais ousada do que o anterior (incrível, mas já temos filhos dessa modalidade também). A galera que “inventou” que beijo na boca não é namoro e, o amor “vampiro” - que desvanece á luz do sol, também vem sofrendo processos de ajustes.
O que de fato acontece é que pra essa moçada, nada que se pretende ser duradouro parece ser satisfatório. Quando o “ficar” vira “carne de vaca” já perde sua validade e o encanto. O pior é que isso se deu quando nós, pais, já estávamos nos acostumando com a idéia.
Daí foi quando surgiram os jovens “quadradões”. Rapazes buscando moças casadouras e mocinhas apregoando a virgindade. Do outro lado, os pais ultrapassados, perguntando: “Ficou” com aquela menina, filho? E, ele respondendo: “Não. Ela é pra casar!”
Olha a gente um passo atrás outra vez! A saída foi esperar calado até que se manifestassem e mesmo diante de uma escandalosa revelação fazer aquela cara de pai moderninho, lembrando sempre que na manhã seguinte a história já seria outra.
Confesso que eu e meu filho de dezessete anos vivemos muitos desses desencontros. Há dois anos fechei uma boate para comemoração de meu aniversário. Meu filho comemorou o dele com amigos numa espécie de churrasco familiar.
Sugeri que trocássemos nossas férias de verão que costumam ser do tipo “família”, por uma viagem de esporte de aventura e ele não aceitou. Insisti que a fizéssemos no meio do ano, e ele me respondeu que não terá tempo por conta do vestibular.
Talvez eu devesse rever meus conceitos e assumir que meu filho é adulto demais e que a culpa é minha. Minha? Logo minha? Que faço musculação, pratico Jiu Jitsu, uso bracelete no bíceps, nunca assisto Faustão e sei dançar funk?
Minha mãe ouvia só música sertaneja, adorava uma novela e a maior ousadia que cometeu foi aceitar meu convite e comemorar seu aniversário de sessenta anos no Clube das Mulheres, do qual saiu horrorizada e, está, até hoje, quinze anos depois.
E meu filho, não diz, mas sei que me acha careta. Fica maluco quando me atrapalho com algum programa novo de computador e faz cara de Einstein-entediado quando não sei detalhes da Guerra Civil Espanhola. Houve uma?
O fato é que não estamos preparados pra essa nova geração e jamais estaremos. A expressão “carne de vaca” que usei alguns parágrafos acima, pelo “andar da carruagem”, vai se extinguir antes que “caia a nossa ficha”, morou?
Mas, tudo bem, porque o “ficar” também está em desuso. O “de repente” virou “sipá”, amigo virou “bró”, ou “véio e”, pai e mãe “meus véios”.
Ok. Sipá eu venho a entender esses bró e deixo de ser de ontem, ta ligado, veio?
- posted by Mara
Quarta-feira, Fevereiro 6
QUEM É VOCÊ...
...PRA DIZER QUEM EU SOU?
A psicologia e a psiquiatria estão em alta. Virou assunto de boteco, em revistas sensacionalistas, blogs e até programas de televisão. Nunca antes essas profissões tiveram tanto destaque e análises equivocadas quanto agora.
Nunca tantos, souberam tanto, de tão pouco, do que já se sabia dessas áreas. Isso, numa análise sintética, representa a decadência de uma ciência que mal havia conseguido se estabelecer sobre as próprias convicções.
Tudo fica ainda pior quando, escolhas profissionais começam a servir de referência de caráter e pretender dar diretrizes de comportamento, jogando anos de formação, pesquisa e resultados científicos no lixo do quintal dessas análises caolhas.
Quando mudei da capital para o interior, trazendo na bagagem uma enorme experiência da aplicação da psicologia hospitalar como paralelo á atuação médica, fui apontada nas ruas como a oportunista da vez. A usurpadora da hegemonia médica.
Muita gente e, isso inclui a classe médica, acredita até hoje que a psicologia é a cosmética da ciência. Que anda de mãos dadas com a medicina estética e a chinesa. Vêm-nos como alpinistas da classe científica de elite.
Estão certos e estão errados ao mesmo tempo. Estão certos quando imaginam que podem nunca vir a necessitar de nossos préstimos. Errados, quando acreditam tanto nisso que invalidam as únicas alternativas que terão quando todo o resto falhar.
Passei metade do tempo de minha atuação profissional, como ativista defensora de minha área de trabalho. Tive que me aprimorar em combater médicos ciumentos, idosos “donos da verdade”, adolescentes espertinhos e homens de negócios incrédulos.
“Também sou um pouco psicólogo”. Essa fase marcou minha vida profissional de maneira definitiva. Foi lavrada por um profissional da área de ginecologia famoso por sua clientela elitizada e por sua aparência de galã da Rede Globo.
“Nunca pretendi ser um pouco ginecologista”, foi minha resposta na época. Passei muito tempo lidando com esses “experts” da profissão alheia para realmente levá-los á sério.
Aliás, a vaidade e suas condutas pessoais, são importantes bases de sustentação da psicologia como ciência.
Assim, profissionais enciumados e ameaçados em sua onipotência, transformaram-se em matéria prima para análise e, na pior das hipóteses, em piadinhas de mau gosto.
Afinal, todos finalmente entendemos que competências não podem ou não devem ser comparadas, principalmente se fazem parte de instâncias distintas de atuação.
Ironicamente, quem nos ajudou na elaboração dessa conclusão, foram justamente os racionais e calculistas dos meios empresariais, antes, céticos quanto á importância da psicologia. Vencemos mais uma batalha.
Mas a guerra continua. Os oponentes, agora, não são mais apenas os intelectualizados atuantes e alcançou também a esfera popular do conhecimento.
“O senso comum, essa viga não escrita de quem tem preguiça de tentar”. Frase apropriadamente usada por Pedro Bial ontem á noite, deve ter sua origem nas críticas que no passado apostaram no desgaste da imagem que ele levou anos para criar.
Sou autora da tese, que até o ano passado, ocupava a posição de único trabalho acadêmico sério, exclusivamente dedicado à analisar a trajetória profissional do jornalista.
Da escolha do tema á inevitável citação do Big Brother Brasil como referência entre todas as atuações de Bial. Tudo, tornou-se alvo de piadinhas e repúdio em diversas áreas do saber. Tampouco foi aceita com naturalidade entre a “opinião pública” á que tive acesso.
Á parte a quase unanimidade de que Bial é uma celebridade intelectual com pinta de galã, todas as suas outras habilidades foram duramente questionadas, levantando dúvidas sobre a cientificidade do tema e sobrando até para minha própria seriedade acadêmica.
“Não se faz jornalismo sem vítimas”, escreveu Heródoto Barbeiro. Mas, o que dizer do jornalista que numa inversão de papéis torna-se vítima das armas que empunha? A explicação á essa questão foi o cerne de meu premiado trabalho acadêmico.
“Sou um homem de televisão”, me disse Bial, em estrevista, durante o processo. E isso, ninguém ousa duvidar. Bial é mesmo um artista multifacetado, especialista na arte de transformar o óbvio em campeão de audiência.
Entretanto, “Com o nascimento do artista, veio a inevitável placenta: o crítico”, escreveu Orson Welles, diretor, roteirista, produtor e ator do famoso Cidadão Kane. Precisa dizer mais?
Sim. É necessário dizer que opinião é um fenômeno social inerente ao ser humano e que, sua conseqüência - a opinião pública, não é senão, o simples expressar de contentamento ou insatisfação por alguma coisa. Sem validade conceitual, portanto.
E nesse ponto é que as duas vertentes de formação acadêmica que abracei ao longo da vida se encontram de maneira inevitável no destaque atual que têm recebido.
A psicologia e o jornalismo, enquanto profissões sérias vêm sendo, sistematicamente, analisados e criticados por essa opinião tão pública quanto despreparada.
Não há nada de mal nisso, já que a “crítica” popular empreende e soluciona uma das grandes dificuldades sempre enfrentada por profissionais dessas áreas: a elitização que a distancia de seus anseios para uma atuação mais humana.
Talvez por isso, Bial nunca tenha se preocupado em se defender publicamente das acusações e críticas que recebe. Talvez seja justamente por isso que as recebe. De qualquer maneira, o que vemos é que a Psicologia e o Jornalismo estão em alta.
No mínimo isso resultará num aumento na demanda por essas áreas vestibulares. No máximo, as tornará mais acessível aos que se dedicam em praticá-las sem o aparato técnico necessário, desmoralizando-as.
De quebra, o resto da população terá a chance de se livrar dos pseudo-analisas de comportamentos e de divulgadores do sucesso alheio, que na ausência de competências em suas próprias áreas, circulam livremente nos fazendo engolir toda sorte de bobagem.
Então: Salve! Salve! o Big Brother Brasil!
- posted by Mara
Terça-feira, Fevereiro 5
RECEBE O AFETO QUE SE ENCERRA...
EM NOSSO PEITO...
Meu avô, em seus momentos saudosistas e ignorando o sentido pejorativo do termo, me tratava carinhosamente por “bugra”. Talvez por isso, eu, mesmo depois de sabê-lo, nunca entendi o tal chamamento como um demérito
Ao contrário, me enchia de orgulho. Na ausência de um “pedigree” familiar com base em feitos históricos, ser classificada como legítima representante de uma ascendência índia, ainda que inespecífica, é bastante confortador.
Sou a sétima mulher da última geração construída sob o sobrenome do meu pai. Na prática, meu nascimento e, a posterior morte de meu pai, significou o término de uma linhagem que nada acrescentou à história geral de meu país.
Entretanto, ironicamente, trago na epiderme, na cor dos cabelos e na estrutura física, as características inequívocas de uma história forjada á ferro e fogo, nos primórdios da população genuinamente brasileira.
Impregnada em minha natureza estão: o nomadismo, a liberdade, os pés no chão. A relação com os animais, com a natureza, o misticismo, o sol, a chuva e até meu precoce despertar são, á meu ver, a herança dessa inegável origem.
Sou índia indócil, sem cocares e tangas, cujo romantismo foi surrupiado pela evolução. Sou índia bugra, de coro resistente, de penduricalhos e cabelos lisos e negros. Sou brasileira, e não abro mão disso.
Assim sou eu, contada em prosa, sentada no balcão de pedra mármore da cozinha de amigos estrangeiros. Amigos que me indagam das cores da minha bandeira, do verde das minhas matas, do azul das minhas praias.
Lá, tão longe de Ary Barroso e dos mulatos inzoneiros, é onde eu amarro a minha rede e onde a lua é, de fato, mais minha. Mas, mesmo assim, sou brasileira. E faço a todos saber, que sou morena sestrosa e que amo meu país.
Oito parágrafos depois e ainda tenho a sensação que me faltarão argumentos de defesa para o post que pretendo escrever. Definições apaixonadas, poesias roubadas e ainda assim continua difícil dizer do meu amor ao Brasil
Não consigo, por mais que tente, emocioná-los com minhas frases cheias de ginga e poesia. Talvez porque não consigo fazer brotar de meus olhos o choro emocionado e orgulhoso que eu gostaria. Não consigo mais hastear a bandeira verde e amarela além do meio pau.
Ontem fui ao cinema. Não importa qual filme escolho, se estrangeiro ou nacional, sempre saio da sala de exibição com a sensação de que o filme foi ambientado em Narnia, ou em Matrix. O cinema cria mesmo um admirável mundo novo.
Em um país onde o produto americano é em maior número e muito mais consumido, com o cinema não seria diferente. E, nas produções genuinamente americanas, o prejuízo espacial que sofro é também proporcionalmente maior. Vou contar por quê:
Já é lenda, quase uma clausura contratual, que filme americano que se preze deve ter características que não podem, em hipótese nenhuma, faltar. Nessa ordem: o americano será sempre o salvador do mundo, o mocinho é galã e o Presidente, um herói.
Sem esses elementos, ou você está vendo uma produção fake ou, é uma retratação americana por alguma medida militar histórica que tenha envergonhado o país.
O filme, "Força Aérea One", é o exemplo cinematográfico mais espetacular do que estou falando. Nele, esses três elementos obrigatórios comungam e sintetiza-se exclusivamente na pessoa do Senhor Presidente dos EUA, vivido por Harrison Ford.
Ontem fui assistir “A Lenda do Tesouro Perdido, com Nicolas Cage – o feio mais charmoso da telona. Sobrinho do gênio Coppola, Cage, no cinema já foi, entre outras coisas, contrabandista de armas, motoqueiro, vidente, anjo, galã, agente do FBI e até louco.
Na "Lenda", ele vive o “Indiana Jones” (no passado vivido por Ford - o mesmo galã do filme acima citado, lembram-se?), da atual geração. Sua motivação para encontrar o tesouro perdido, entretanto, é mais egoísta.
O personagem vivido por ele tenciona apenas isentar o nome de sua família da acusação de ter conspirado e assassinado o presidente Abrahan Lincoln.
O filme insinua a existência de um livro confidencial onde todos os segredos americanos estariam registrados. O livro seria um legado à gerações de presidentes do país
Para conhecer o conteúdo e confirmar a existência do tal livro, ele se vê forçado a seqüestrar o presidente americano, o único a conhecer parte de um enigma que o ajudaria a decifrar o mapa e o levaria a seu objetivo.
Para convencer o presidente a ajudá-lo, o personagem Ben Gates (Nicolas), e o presidente americano (vivido pelo magnífico Bruce Greenwood) protagonizam o seguinte diálogo:
Presidente dos EUA: Mesmo que algo como esse livro realmente exista, por que você acha que eu te daria simplesmente?
Ben Gates: Porque isso, provavelmente, nos levaria à descoberta de um dos maiores tesouros nativo-americano de todos os tempos; uma grande peça de cultura perdida. Você pode devolver esta história para seus descendentes. E porque o senhor é o Presidente dos Estados Unidos, senhor. Mesmo por caráter inato ou pelo juramento feito de defender a Constituição ou mesmo pelo peso da história que recai sobre sua pessoa, eu acredito que o senhor seja um homem honrado.
Presidente dos EUA: Gates, as pessoas não acreditam mais em coisas como essa.
Ben Gates: Elas querem acreditar... Senhor!
Quero dizer que eu adoraria ser americana, ao menos, pelos dois ou mais segundos em que essa cena se desenrola.
Gostaria poder sentir que a emoção que me toca o peito diante de uma expressão tão gigantesca de patriotismo, nacionalismo e orgulho, naquele momento, não se traduzisse apenas em inveja incontida.
Quisera eu, acreditar na honradez dos homens que governam meu país e, que o uso desse plural fosse visto como blasfêmia.
Que minhas egoístas razões em busca de algo se justificassem no desejo pelo virtual tesouro que é fazer o mundo pagar ingresso pra ver meu país e, seu Presidente, serem inquestionavelmente admirados por seu povo.
Isso me lembra certa manifestação, em determinado estádio, num evento internacional aqui mesmo no nosso país, para o nosso presidente!
"...Tua nobre presença à lembrança, a grandeza da Pátria nos traz..."
- posted by Mara
Segunda-feira, Fevereiro 4
VIDA, LOUCA VIDA...
...SE EU NÃO POSSO TE LEVAR...
Enquanto escrevo esse texto, tem gente que ainda está babando no travesseiro num quarto impregnado pelo cheiro do álcool e dos excessos da noite de ontem. Certamente, há os que já fizeram sua caminhada matinal e, nesse momento, tomam seu saudável café da manhã.
Se tivermos que fazer uma rápida análise e opinar sobre quem, dos exemplos acima, é mais merecedor do nosso respeito, o que diríamos? Nossa mente politicamente treinada se apressará em aprovar o dito cujo da caminhada matinal, não é mesmo?
Mas, e se a proposta fosse outra. Algo como: Quem vocês pensam que na manhã de hoje tem mais motivo para sentir-se bem e feliz com suas atitudes?
Não sejamos hipócritas. Há momentos que uma boa fuzarca pode sim estar entre os elementos para uma vida saudável.
Estrategicamente posicionada entre os dois primeiros dias da folia carnavalesca e os dois últimos que antecedem seu fim, a segunda feira de carnaval me pareceu um dia propício pra se falar de impulsividade.
Então, fica a sugestão que antecipemos a idéia de irmos á igreja no próximo domingo e iniciemos hoje mesmo nosso processo de expiação.
Pra começar: a desvantagem dos que pertencem ao grupo da “caminhada saudável” já começa no fato de serem os únicos capazes de atender á essa minha sugestão. O grupo do “baba-travesseiro, não estará nem aí pra minha inspiração nesse texto.
E haverá também um terceiro grupo: dos dissidentes. Aqueles que não se esparramaram na folia por total falta de oportunidade. Aposto nesse último para obter algum tipo de aprovação á esse meu texto, tão fora do “contexto” carnavalesco.
O fato é: o Ano Novo brasileiro começa na próxima quinta feira (para alguns, na tarde de quarta-feira) e não podemos esquecer que a próxima oportunidade que teremos será somente no feriado de finados.
Não sei vocês, mas prefiro um dia mais alegre para refletir sobre a vida. “Finados” é um dia para chorar pelos nossos mortos e não para descobrir razões para o suicídio.
Brincadeiras á parte, a verdade é que nem sempre precisamos ter uma motivação especial para nos tornarmos reflexivos ou questionarmos alguns de nossos hábitos que, se não adestrados, comprometem não apenas uma data específica, mas o ano todo.
É no dia a dia, (incluindo sábados, domingos e feriados) que através de pequenas escolhas, nossa impulsividade se desenha. O carnaval, nesse caso, é apenas a data onde essas escolhas podem ser um pouco mais comprometedoras.
Coisas como não aceitar um convite, atender um telefonema, mudar o trajeto, beber ou não beber até cair, são o que, num piscar de olhos, zapt, fazem sua vida dar uma guinada de 360 graus rumo ao incontrolável.
Essas pequenas decisões deveriam evocar imediatos questionamentos, mas como são em numero excessivo, nos acostumamos á tomá-las sem refletir, para ganhar tempo.
Se a decisão for bacana ou inofensiva, nem nos lembraremos dela no minuto seguinte. Mas, se ao contrário, alguma coisa der errado, inevitavelmente, amargaremos aquele átomo de segundos em que poderíamos ter feito de forma diferente.
Daí advinha quem irá pagar o pato? Acertou quem apostou em si mesmo. Ganhou, com mérito, quem admitiu rapidamente que fazemos disso um hábito. Na ausência de que nos encurrale, tomamos a tarefa para nós mesmos.
Somos nosso mais eficiente inimigo. Conhecedores de todos os mecanismos que utilizamos para termos essa ou aquela atitude, o ato de elaborar técnicas de torturas e decretar punições, fica ainda mais fácil.
A frase detonadora é: “Não me perdôo por ter feito isso”. Daí por diante, segura que aí vem bordoada e bordoada da grossa. Acreditem: as medidas punitivas que adotamos para nós mesmos são de fazer inveja aos nossos inimigos.
Estamos e somos, todos, passíveis de erros. Todo mundo sabe disso, mas quando nossos esforços em encontrar alguém para atribuir culpa falham, partimos pra cima de quem, acreditamos, nunca nos deixará falando sozinhos.
Primeiro erro. Já que falar sozinho é o castigo de quem adotou o hábito de ser sempre muito duro consigo mesmo. É uma armadilha. Flagelamos-nos buscando o perdão e justamente por isso, não deixamos de merecê-lo.
Culpar-se tem até regra textual: Comece com o infalível e alternativo “Se”. “Se” eu tivesse feito, “Se” eu pudesse voltar á trás. Daí, “se” tudo sair como o esperado, o melhor a fazer é sentar e chorar, certo?
Errado! Antes de se assumir na definição de inimigo de si mesmo, é preciso entender porque temos essa tendência. Arrependimento, como nós mesmos sempre repetimos, infelizmente, não mata. Mas, machuca pra valer.
A natureza da psique humana é perfeita, quando saudável e em equilíbrio. Mantê-la nesse estado é, talvez, nossa única responsabilidade. Daí por diante, tudo é conseqüência.
Não é á toa que nos utilizamos do processo de culpa e autopunição. Não se trata de uma piada de mau gosto de Deus, ou uma falha em seu caráter emocional. O “culpar-se” é, antes, uma medida provisória.
Um sinal de alerta de que estamos á partir de seu surgimento, na mira de alguma nefasta e inevitável conseqüência e que devemos estar atentos aos ataques que supostamente virão, já que, em nossa inocência, acreditamos que os “outros” serão mais letais que nós mesmos. Ledo engano!
O que geralmente fazemos de errado e que ocasiona sofrimento desnecessário, é transformarmos qualquer erro ou deslize em uma falha irreparável. Percebem?
Não é o tamanho da culpa que conta, mas o tamanho e fatalidade que atribuímos ao erro que cometemos. Não há absolutamente nada nesse mundo que não possa ser corrigido, minimizado e até mesmo extinguido.
Mas, há centenas que não poderemos simplesmente apagar como se não houvessem ocorrido. Então, pra que espernear? O melhor é assumir e tentar tirar algum aprendizado.
Podemos até nos culpar já que vimos que isso é necessário. Mas, o que não podemos é fazer dessa culpa uma cruzada que nos tornaria inerte e inutilizaria qualquer chance de reparação.
Assim, relaxa. Na quarta-feira , dizem, tudo vira cinza!
*texto sem correção
- posted by Mara
Domingo, Fevereiro 3
AMARELO = CUIDADO!!!
VERMELHO = FUJA
Assim. Entre cinco e seis da tarde no horário de verão, voltando pra casa. As caixas de som do carro quase explodindo ao som do Babado Novo. Os vidros fechados, o ar condicionado ligado. Lá fora, quase 36 graus.
Trânsito calmo de cidade do interior, com alguns picos de congestionamento, mas nada comparado ás marginais do Tiete em São Paulo. A diferença mais óbvia? Semáforos. Estão em toda parte. Em cada esquina, curva ou depressão.
Odeio semáforos de cidade do interior. Parar neles é a certeza de que aquele momento “solidão-móvel”, cedo ou tarde, será interrompido por um entusiasta amigo ou conhecido disposto a parar o trânsito pra perguntar da sua família.
É horrível. Sempre acontece quando estamos entoando a plenos pulmões, nossa melhor performance de uma música preferida. A gente vem distraída, seguindo cada acorde, sem desafinar, sem esquecer nenhuma estrofe.
Daí que no meio de um espetacular “dó-maior”, vimos alguém com uma das mãos acenando freneticamente e a outra tocando a buzina. Até daria pra fingir que estamos vendo e arrancar em disparada.
Mas, o sinal verde nunca colabora nessas horas e é impossível fugir. Melhor acenar, abrir o vidro e cumprimentar o fulano e rezar pro sinal abrir antes do famoso: “Me ligue qualquer dia!”.
Dias desses, aconteceu justamente isso. Só que desastrosamente eu estava do lado oposto da história. Coisa pra pagar a língua. Lá estava eu na direção cantarolando e o Maxi apoiado na porta olhando a paisagem.
Parei no semáforo. Melhor, fui parada por ele. Foi quando olhei para o lado e vi um casal dentro de um carro importado. Os vidros fechados, mas se notava certo climão de briga lá dentro.
Chamou minha atenção porque, no banco de trás, uma York Shire fazia graça pro meu caçulinha que, á essa altura, se esgoelava de tanto latir. Era uma paquera canina, das mais descaradas e eu já comecei a avaliar minha futura nora.
De repente o homem na direção virou-se para sua companheira e vi seu rosto. Imediatamente o reconheci. Naquela fração de segundos, tudo que consegui foi pensar desesperada: - De onde? De onde? Pense, Mara...de onde o conhece?
Estou ficando famosa por abordar proprietários de York fêmeas desconhecidos á procura de uma nora. Assim, era imprescindível que eu me lembrasse de onde conhecia o tal homem, já que o Maxi parecia estar irremediavelmente apaixonado.
Esforcei-me ao máximo e, nada. O semáforo abriu e, Maxi e eu, ficamos olhando, atônitos, a mãe dos meus futuros netos partir para sempre. Ao fundo, a Claudia Leite cantava: “fecho os olhos pra não ver passar o tempo...”
Sacanagem! Olhei para o Maxi e o vi deitado e resignado. Posso jurar que parecia desiludido. O carro logo atrás de mim tocou a buzina mostrando irritação. Então, resolvi que não ia ficar assim.
Acelerei e alcancei o carro de novo, emparelhei. Abri o vidro, acenei, fiz gestos. Nada. A moça do banco de passageiros tinha a cabeça recostada como se estivesse dormindo. E o homem falava ao celular. Tomara que leve uma multa, pensei.
Outro semáforo! (já falei que aqui tem um em cada esquina?). Não consegui a cobiçada vaga ao lado do tal carro. Com palavras doces, acalmava o - já conformado - Maxi. “Vamos conseguir! Vamos conseguir!” Repetia otimista.
A perseguição durou muitos minutos e vários semáforos. E no afã de encurralar a vítima, digo, a pretendente, eu me esqueci de tentar buscar em minha memória de onde conhecia o tal sujeito.
Até que, num desses golpes de sorte, descobri que íamos para o mesmo lugar. O pet shop onde o Maxi toma banho. Seu reduto absoluto, já que as donas são suas veterinárias-madrinhas.
Saltei do carro com o Maxi em punho e, antes de acionar o alarme do carro, lembrei: o tal sujeito havia trabalhado comigo há alguns anos numa emissora de TV local. Que alívio, pensei. Isso facilitaria a abordagem.
Entrei logo depois deles fingindo não tê-los visto antes. Disfarcei, cumprimentei minhas amigas veterinárias. Admirei as últimas novidades de moda canina, me enchi de coragem e o cumprimentei sorridente.
Ao que ele me respondeu com um amarelo: “como vai?” e virou-se, voltando sua atenção ao que estava fazendo. Alguma coisa deu errada, mas o que? Maxi descobriu antes de mim.
A pretendida quando nos viu mostrou todos os dentes num claro sinal de agressividade do tipo “se chegar estraçalho”. Resolvi que não perderia a viagem e arrisquei um simpático: Qual o nome?
- Brad!
- Como? Insisti.
- O nome é Brad! Repetiram, em uníssono, o dono e a dona.
Caracas, a “pretendida” era um antipático espécime do sexo masculino. Ainda por cima com aquele ridículo nome que só podia ter sido inspirado no famoso Brad – o Pitt.
Arrisquei: - Já nos conhecemos? Parece que me lembro de vocês...
Completei, usando um falso plural pra não causar qualquer má interpretação por parte da moça. Ao que ele me respondeu com um fortíssimo sotaque americano:
- Acho que não. Acabamos de nos mudar para o Brasil.
Preciso dizer, que se um dia vocês me encontrarem num semáforo não devem esperar que eu os cumprimente?
PS: O Maxi manda dizer que nunca mais paquera alguém que não puder dar uma bela cheirada antes!
- posted by Mara
Sábado, Fevereiro 2
DA SÉRIE: "POR QUE NÃO ESCREVI ISSO ANTES?"...
...A PALAVRA ESCRITA DE PEDRO BIAL
Tem certas coisas que leio por aí que me fazem pensar: “Poxa, porque não fui eu que escrevi isso?”. Outros, que penso: “Caracas, será que já escrevi uma merda assim?”.
Escrever, descobri, é um ato de impulsividade arriscado. Mas descobrir-se capaz de traduzir em palavras um sentimento, uma situação e até mesmo uma paisagem é um risco válido, apenas pelo prazer que proporciona.
“Escrever é desvendar o mundo”, li certa vez essa frase, escrita por alguém que sabia do que estava falando. Como novata na arte de compartilhar o que escrevo, arrisco uma adaptação, dizendo: “Escrever é desvendar o mundo e querer sempre mais.”
TUDO O QUE HOJE PRECISO REALMENTE SABER, APRENDI NO JARDIM DE INFÂNCIA!
Tudo o que hoje preciso realmente saber, sobre como viver, o que fazer e como ser, eu aprendi no jardim de infância. A sabedoria não se encontrava no topo de um curso de pós-graduação, mas no montinho de areia da escola de todo dia.
Estas são as coisas que aprendi:
1. Compartilhe tudo;
2. Jogue dentro das regras;
3. Não bata nos outros;
4. Coloque as coisas de volta onde pegou;
5. Arrume sua bagunça;
6. Não pegue as coisas dos outros;
7. Peça desculpas quando machucar alguém;
8. Lave as mãos antes de comer e agradeça a Deus antes de deitar;
9. Dê descarga; (esse é importante)
10. Biscoitos quentinhos e leite fazem bem para você;
11. Respeite o outro;
12. Leve uma vida equilibrada: aprenda um pouco, pense um pouco... desenhe... pinte... cante... dance... brinque... trabalhe um pouco todos os dias;
13. Tire uma soneca a tarde; (isso é muito bom)
14. Quando sair, cuidado com os carros;
15. Dê a mão e fique junto;
16. Repare nas maravilhas da vida;
17. O peixinho dourado, o hamster, o camundongo branco e até mesmo a sementinha no copinho plástico, todos morrem... nós também.
Pegue qualquer um desses itens, coloque-os em termos mais adultos e sofisticados e aplique-os à sua vida familiar, ao seu trabalho, ao seu governo, ao seu mundo e vai ver como ele é verdadeiro claro e firme.
Pense como o mundo seria melhor se todos nós, no mundo todo, tivéssemos biscoitos e leite todos os dias por volta das três da tarde e pudéssemos nos deitar com um cobertorzinho para uma soneca.
Ou se todos os governos tivessem como regra básica devolver as coisas ao lugar em que elas se encontravam e arrumassem a bagunça ao sair.
Ao sair para o mundo é sempre melhor darmos as mãos e ficarmos juntos.
É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão.
- posted by Mara
Sexta-feira, Fevereiro 1
TANTO RISO...AH! TANTA ALEGRIA!
Nessa altura do campeonato, já podemos afirmar que já vimos de tudo. Qualquer pessoa entre cinco e cinqüenta anos já tem experiência suficiente para não se lembrar ou começar a querer esquecer.
Mas, brasileiro que é brasileiro não consegue ignorar que hoje é véspera de carnaval. E, como eu dizia, nesse quesito em particular qualquer, um pode afirmar que já viu de tudo nessa época do ano.
Tem gente que dá a vida por um baile de carnaval. Outros, que o fazem literalmente. São quatro dias, filhos do cruzamento do “tudo pode” com o “é hoje só”. Dessa combinação nascem os foliões mais afoitos, netos da folia, neonatos na quarta de cinzas.
Sempre me pergunto como é que fui nascer brasileira e, ainda por cima, com a cor parda que nos caracteriza. Não gosto de praia, não gosto de calor e, cala-te boca: não gosto de carnaval.
É uma heresia, eu sei. Já me disseram em verso e batuque: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é”. Mas eu gosto de samba. Gosto da voz de malandro carioca do Martinho da Villa e da marrom Alcione.
Gosto do brilho da purpurina, me emociono com pierrôs e colombinas e já comi muito confete molhado de suor nas matines da vida. Mas, não gosto de carnaval. Vai ver é por que não tem mais nada disso nessa data.
Prefiro a Parada Gay. Além de ser bastante recomendada sob o ponto de vista da segurança pública, é o melhor pra quem quer ver toneladas de purpurina, pierrôs e colombinas, com ou sem patins.
Além disso, nela, ninguém tem dúvidas absurdas do tipo: “Será que ele é? Será que ele é..?
Estive no sambódromo do Rio de Janeiro há alguns anos e, uns tantos depois, aventurei-me no asfalto do sambódromo paulistano. Até hoje me lembro o êxtase que foi assistir a preparação da bateria antes de entrar na avenida. Mas, o resto eu já esqueci. Graças a Deus!
O fato é que Carnaval não é mais a mesma coisa. E não é, ou não deveria ser como Natal, por exemplo, que na medida em que ficamos mais velhos, perde a magia. Ao contrário, quanto mais velhos, mais sentido tem apreciarmos os quatro dias de magia, depois de um ano todo sem ela.
De outro lado, ainda comparando com o Natal, o Carnaval tem muito mais opções á oferecer para os seus amantes e seus desafetos. Há duas versões disponíveis para agradar a gringos e nativos. Ambas, abrem um novo leque de opções.
Vejamos. A primeira: bailes de salão. Pode-se escolher virar a noite comportadamente entre amigos no clube tradicional da cidade, ou embarcar num badalado e despudorado turismo nos igualmente badalados e despudorados, bailes gays.
A segunda: desfiles de rua. Obviamente o mais desejado. Pode ser logo ali no Rio de Janeiro ou no Nordeste. Mas, essa opção tem que ser feita logo nos primeiros dias de março do ano anterior, caso não queira perder o abadá, ou a melhor fantasia.
A boa notícia é que se aceita cheque e parcelamentos.
As demais regiões do país, em retaliação, inventaram o “Carnaval fora de hora” que além de encantar os foliões no resto do ano, ainda dá uma nova chance para os trios baianos de deixarem seus domínios e brilharem no ninho dos sertanejos.
É. Carnaval tem essa propriedade e por isso é tão brasileiro, e continuaria sendo, ainda que acontecesse em Bogotá. A festa torna viável tudo que é improvável e democratiza tudo que toca.
Na avenida, loira vira mulata, favelado vira rei, carioca gira a baiana, que nem precisa ser baiana. E, cantor sertanejo é pagodeiro desde criancinha. Aliás, por falar em criancinha, nessa festa, elas podem passar a noite acordada e dançar até o sol raiar entre peitos e bundas sem o carimbo da censura.
Escola de Samba é a única escola sem evasão. É o lugar, onde ser “puxador” não é ilegal. Em compensação, lá, a “velha guarda” quase sempre é a última bola da vez. Mas, ao menos, tem vez!
Imagina se a moda pega e a garotada passa a escolher suas madrinhas com os mesmos critérios da bateria de uma escola de samba? Ia sobrar afilhados e faltar personalidades gostosas. “Manhê, quero ser afilhado da namorada do Belo”. Valha-me Deus!
Ser destaque é o “Oscar” tupiniquim. Meses de dieta, malhação, lipoaspiração, uma linda maquiagem. Veste-se uma roupa sexy, e para tornar-se um destaque de verdade, faltará só chegar atrasado, tirar toda a roupa e sambar segurando num pau nas alturas.
Tem gente que já é destaque profissional. Outras que venderiam a própria mãe pra sê-lo. As mais seguras esnobam o pau e preferem o chão. Carnaval é isso, não importa a posição, quando se sabe de antemão onde estão as câmeras da Globo.
Não gosto de Carnaval. Mas que é bonito é. Bonito ver gente pobre misturada com ricos, negros com brancos, gordos sendo coroados e aclamados pela multidão. Ver lata virar ouro, homem assumir que é gay e gay virar atração.
É lindo ver o rufar dos tambores, a coreografia ensaiada, o choro na avenida. Faz a gente esquecer as estatísticas de mortalidade nas rodovias, que viramos credores do tráfico- que banca nosso divertimento.
E que na quarta- feira “barracão” voltará a ser palavra usada para definir a casa com uns quartos á mais, dependurada no morro, ou soterrada pela força da natureza.
Que na quarta, o país do carnaval, volta á ser o país dos mortos de fome, do crime organizado e do analfabetismo. Isso tudo pode esperar.
Os garis, o malandro, a mulata, o bêbado e os equilibristas sociais. O antes e depois do Carnaval brasileiro devidamente perpetuado com exclusividade pela mesma emissora. Plim! Plim!
Na quarta feira de cinzas, todos, imortalizados... até o ano seguinte. Tanto riso, tanta alegria, e tantos palhaços no salão.
Mas, por favor, meus leitores: não me levem a mal, afinal, amanhã é carnaval!
E a próxima quarta-feira, no Brasil, é véspera de Ano Novo. Então, feliz 2008 a todos!
- posted by Mara
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