“MEU REINO POR UM CAVALO”: Segundo Shakespeare em Rei Ricardo III, conduzia seu exército para uma batalha contra Henrique, Conde de Richmond, na disputa pela coroa da Inglaterra. No calor da batalha, ele precisou disparar para aglutinar parte do exército que estava debandando, quando seu cavalo perdeu uma ferradura e caiu. Depois se levantou e fugiu, deixando Ricardo a pé e gritando: “um cavalo, meu reino por um cavalo”. Pois é, consta que isso aconteceu porque o ferreiro, irresponsavelmente, achou que um prego a menos por ferradura não faria mal, e ele economizaria pregos, em falta durante a guerra. Por causa de um prego perdeu-se a ferradura, o cavalo, a batalha, o reinado. Não há responsabilidade maior ou menor. Há apenas responsabilidade.
“ODEIEM-ME CONTANTO QUE ME TEMAM!”: divisa do tresloucado imperador romano Calígula - no auge de seus desvarios e excentricidades, cumulou de regalias seu cavalo "Incitatus " e estava prestes a nomeá-lo cônsul, quando foi eliminado pelos próprios pretorianos integrantes de sua guarda pessoal!
“QUEM NÃO ESTÁ CONOSCO, ESTÁ CONTRA NÓS”: De Benito Mussolini (1883-1945) que a passou para o plural, proclamando-a num momento decisivo do fascismo e tornado-a lema de suas ações. Muitos, porém, estavam contra o fascismo. No fim eles ficaram sozinhos e foram vencidos, apesar de terem liderado movimentos capazes de arrebatar multidões.
“SÃO TODOS FARINHA DO MESMO SACO”: >: Originalmente apareceu em latim: "Homines sunt ejusdem farinae". Também do escritor francês Honoré de Balzac (1799-1850) "C’est sont des gens de la même farine", em português, traduzida com leve alteração. Quando indivíduos falsos se arrogam em críticos severos de outros de quem podem ser na verdade cúmplices, sócios ou amigos, surge esta frase para dar conta de que não há diferença entre eles.
“É CRUEL...É BEM CRUEL DIZER AS VERDADES NA CARA DE ALGUÉM, DE QUALQUER UM E, É TAMBÉM CRUEL, MUITO CRUEL ISOLAR ALGUEM, ELEGER ALGUEM COMO LEPROSO DOS TEMPOS BÍBLICOS. A GENTE NÃO GOSTA DE VER CORRER O SANGUE DOS INOCENTES.” De Pedro Bial, no discurso de eliminação daquele que foi considerado por ele a grande estrela do atual BBB, justamente por ter sido o mais cruel com os demais participantes.
NO MAIS: EU AMO TUDO ISSO! eu mesma fazendo eco ao bordão daquela rede de sanduíches famosa pelo processo industrializado e padronizado que a popularizou!
- posted by Mara
Quinta-feira, Março 20
ANTES DE IR....UM ÚLTIMO OLHAR...
PARA O HUMANO REAL, NO VIRTUAL!
O BBB 8 se aproxima do fim. Mas a verdade é que, o fim há muito vem rondando os bastidores do programa. Sinceramente não me interessa os rumos tomados, seja nessa edição, ou do programa como um todo.
Aliás, “sinceramente” não é bem a palavra. Eu deveria usar: “francamente”. Esse foi a edição do “francamente”. Nunca escondi que o que me interessa nesse programa perpassa as análises rasas que ele desperta pela Net a fora. Não foi diferente nessa edição.
Amo os seres humanos e suas complexidades. E, gostem ou não, penso que a maior e mais imprescindível de nossas qualidades é a inteligência. É essa característica que, sozinha, é capaz de ressaltar ou anular todas as outras.
Amar, trabalhar, sofrer, sorrir e até morrer é uma condição atrelada aos resultados de nossa capacidade em transformarmo- nos naquilo que nossa inteligência propõe. Nossas escolhas, inequivocamente ligadas á essa capacidade de pensar sobre elas, é o que nos define na vida.
Daí, aprendemos a identificar nossos sentimentos, a classificar as informações que recebemos de nossos olhos, mãos, ouvidos e nariz e, finalmente, a falar.
Falando, envolvemos o outro na trama engendrada por nossa inteligência, com o claro intuito de sobrevivermos. Percebemos que não é efetivo lamber, morder, salivar ou ranger os dentes. É preciso falar.
Falamos. E uma parte significativa dessa inteligência se esvai como se não tivesse sido tão custoso adquiri-la. Da fala, escrita ou dita, declamada ou discursada, modelamos nosso “eu” e ofertamos ao mundo.
Estive na Net por um ano. Exatamente nessa época, no ano passado, estava eu invadindo esse território “livre”, tão dominado por líderes auto-proclamados. Cheguei inocente, crédula e sedenta de novas experiências.
Meus objetivos eram muito claros. Quem são esses seres humanos que se escondem por trás de nicks, avatares, pseudônimos e palavras abreviadas? Do mundo acadêmico de onde vim, nada disso era permitido e um mundo com essas características me pareceu fascinante.
Como na vida, fiz escolhas infelizes e por isso aprendi rápido demais. Queimei etapas e me deixei contaminar pelo vicioso que afasta as verdades possíveis. Acreditei em regras que só servem para quem as impõe.
Na ânsia de conhecer pessoas, não me preocupei com a essência. Contaminei-me pelo fétido poder de quem nunca nada teve, mas sobrevive da vaidade de ter.
Gente assustada, com medo do ostracismo, encurralada pela ansiedade de ser consumida pelo mesmo veneno que exala.
Mas, o mais rapidamente quanto me foi possível, deixei esse submundo virtual pra trás e enveredei por outra arriscada trilha: a da oposição. Na verdade, não tive opção. Aqui, ou se está a favor ou contra.
Essa outra escolha me trouxe muito mais alegria que dissabor. Por alguns momentos acreditei estar mais perto do que me trouxe até aqui. Mas, começaram os ataques, as ressalvas, os “senões”.
E eu, sem me dar conta, comecei a formar um mundo a parte. Meu e dos que eu via como iguais. Percebi que vinha reproduzindo o que eu havia vivenciado e que tanto recriminei.
A inteligência me fez portar-me assim, e é também ela que me fez ver o equívoco de fazê-lo. Então, enfim, cheguei ao ponto que estou hoje. Pausada, estarrecida, chocada e um tanto decepcionada.
Os últimos dias desse BBB mostram claramente que, lá dentro ou aqui na Net, o que vale mesmo é a convivência. Os dias de glamour, disputa pelo poder, emoções desmedidas, alegria exagerada, egoísmos, amizade e até de beleza se esvai quando falta o elemento humano.
Voltei de meu recesso emocional para dizer-lhes isso. Passei muito tempo criticando quem se submete a ser participante de um BBB, observei-os e busquei compreender as razões pelas quais alguém se deixa envolver por uma situação como essa.
Para, no fim concluir o óbvio. Bial tinha razão. Eles são mesmo heróis. São seres humanos inquestionavelmente corajosos. Que expõem seus medos, erros, defeitos, qualidades, opiniões e dão nome ao invés de Nicks, rostos no lugar de avatares.
Seus discursos não permitem edições pessoais, mas sofrem das alheias. Suas falhas se tornam evidentes ao comungarem com as alheias em rede nacional e, não, no texto mal escrito, solitário, onipotente, dissimulado e protegido por uma página de HTML.
Esse, nesse finalzinho de jogo, calou-se. Nada tem a dizer do que desconhece. Essa edição do programa, e os participantes que ali restaram, mostraram aos blogueiros que se propõem a analisá-lo, um espelho deles mesmos.
O programa acabou por falta de gente. As amizades foram desfeitas, os casais desmerecidos, os interesses manipulados e a bondade execrada. Os segredos foram violados, a risada condenada e o desrespeito e covardia foram premiados.
Blogs dobraram seus acessos, sonhos foram ceifados e ainda há quem acredite que não foi suficiente. Há quem queira muito mais. Desculpem, mas de onde eu vim me ensinaram que coisas assim já destruíram populações inteiras.
O elenco dessa edição irritou quem queria amar o ódio. Alegrou quem privilegia a inteligência usada para o mal e quebrou as pernas de quem achava fazer melhor uso da própria inteligência e que por fim se descobriu igual á eles.
Ao contrario do que li por aí, o milhão perdeu seu valor de troca. Graças a Deus! Não irão premiar, ao fim de oito edições, ninguém que não seja tão manipulador, asqueroso, pérfido e insensível quanto os que aqui de fora os analisou.
Na verdade, o melhor é perceber que esses analistas também perceberam que perderam seu milhão virtual. Que de tanto exigirem o pior de quem estava lá, tornaram-se eles mesmos o pior que sua inteligência pôde criar.
A diferença é que eles são jovens e o milhão lá são cifras reais e com poder de compra.
Novas versões virão. A história se repetirá. Mas, dessa, um ano depois, sinto-me vingada. Vejo minha inteligência sendo finalmente recompensada por ter me posto pra fora de onde fui buscar gente e não gostei do que vi.
Ninguém pediu, mas vou dar assim mesmo, indicações de blogs cujas análises constarão em minha tese.
Blogs administrados por humanos essencialmente humanos, mas que usam a inteligência para preservação da espécie a partir do que ela possui de melhor:
Obrigada meus queridos blogueiros humanos, que preservaram minha fé na raça humana. Virtual ou não.
“ASSIM, AQUI COMEÇA UMA NOVA HISTÓRIA ...DE AMOR!
- posted by Mara
Quarta-feira, Março 19
DANDO UM TEMPO PARA REVER ...
...CONCEITOS EMOCIONAIS. VOLTO EM BREVE!
FELIZ PÁSCOA A TODOS
- posted by Mara
Terça-feira, Março 18
DECEPAR, ROUBAR A DOÇURA...
...E SE LAMBUZAR...DE QUE?
Não é incomum as pessoas dizerem que perderam a ingenuidade e a fé em outros seres humanos. Aliás, isso vem se tornando cada vez mais freqüente. Mas, sinceramente, não sei o que é pior: os que perdem ou os que provocam tal perda.
Penso que ambos, de uma maneira ou de outra, se transformam em títeres nas mãos de oportunistas. Isso é claro, quando não são eles mesmos os oportunistas - mor.
Impressionante como poucos comportamentos humanos têm recebido o benefício da dúvida, ou têm sido vistos com mais condescendência. Se há alguma coisa que caracterize definitivamente a época em que vivemos é a malícia.
A malícia ou, a ausência dela, são os grandes astros dessa década. É a qualidade mais desejável e requisitada no outro depois do conhecimento de outro idioma e de computação.
Não demorará muito e veremos anúncios assim nos classificados de ofertas de emprego: “Os candidatos devem possuir inglês fluente, conhecimentos de informática e formação comprovada em malícia ou na extensão dela decorrentes”.
Ser ingênuo, ainda que em doses delicadas, transformou-se num grave déficit no currículo de quem deseja ser respeitado. Mas, isso nem é tão recente assim. Há muito tempo ouço o tal ditado que diz: “O mundo é dos espertos”.
Pois bem. Hoje, o mundo não só é dos espertos como já está quase completamente tomado por eles. Estão no poder e com o poder vale a máxima de que mandam e obedece quem tem o mínimo de juízo.
Por isso, melhor nem discorrer mais tempo sobre eles. Sugiro falarmos de sua antítese: os não-espertos e o ínfimo espaço que lhes é destinado nesse mundo de espertalhões.
Á meu ver, a esses ingênuos, resta apenas duas possíveis colocações: viverem à sombra dos espertos ou rebelarem-se e se tornarem vítimas deles. Exército ou vítima, essas são as escolhas.
Nem é preciso escolher entre uma e outra. O simples fato de não enxergar a existência delas já automaticamente te enquadra. Se você resolver contestá-la também.
Assim, para viver em paz com sua época, basta saber-se parte de qualquer uma das três categorias: esperto ou ingênuo crédulo e/ou rebelde.
Foi o tempo em que cartomantes e videntes eram atrações circenses. Agora estão na televisão, nos blogs, e entre a nata da sociedade. Tornaram-se celebridades. Não lhes são exigidos nenhum tipo de fiança ou coerência. Basta ser esperto.
Rejeitam até o título esotérico de “videntes”. Auto intitulam-se “analistas”. São sedutores, e para desfazerem qualquer má impressão que possam causar, sujeitam-se até a assumir que são humanos e, portanto, cheios de falhas.
A falsa modéstia que imprimem em seus discursos para justificar suas falhas, aliás, é a principal arma para se defenderem quando são flagrados em uma falcatrua mal elaborada. Sempre começam assim: “Posso até estar errada (o), já que sou humano...”
Pois bem. A técnica é simples e tem até nome: “cold reading”. Em português: “leitura fria”. É uma maneira de se adquirir informações de uma pessoa sem recorrer a algum documento ou registro fidedigno isento de opinião pessoal.
Com uma minuciosa observação da vítima, alguns poucos conhecimentos estatísticos e gerais da natureza humana e boa memória, você já pode se considerar habilitadíssimo para empregá-la.
O vestuário, postura, modo de falar, vocabulário, idade e status aparentes são dados que dão a base necessária pra quem deseja iniciar-se na aplicação da técnica. Esses índices básicos dizem muito sobre a personalidade e os problemas da vítima.
Viram como é fácil explorar essa profissão? Não? Então vamos lá. Vou tentar lhes oferecer um pouco mais do que é desejável em quem se propõe á ser “analista”.
Geralmente é um sujeito com muito tempo disponível, ainda que digam o contrário. A prova disso é que sempre se declaram como apaixonados pela prática de analisar. Isso faz com que pensemos que é a paixão e, não o tempo ocioso, que os leva a fazerem tais análises.
Paixão e amor são comumente confundidos e assim, são perdoados por serem “amorosos”. Assim, “amorosamente” pinçam uma característica um pouco mais persistente de suas vítimas e generalizam, a princípio, tolerantes. Depois, ferozmente.
Na verdade a vítima nem precisa se esforçar, basta ter ou não a simpatia do “analista”. A “verdade” ou o relato fiel dos fatos é outra arma muito utilizada na técnica. Basta saber conduzi-la de maneira que manipuladamente corroborem as insinuações feitas.
Muitas vezes, nem é preciso a participação ativa da vítima. Analistas precisam de platéia muito mais que de vítimas potenciais. Aliás, é a platéia que dá o tom que esses “espertos profissionais” seguem para serem reconhecidos como tal.
Isso é feito com frases gerais (tentativas) que de acordo com o resultado se tornam mais e mais específicas, isso é conhecido como realimentação. Elaboram o pensamento da platéia, editam e ajustam ás suas próprias teorias e pronto: acertam em cheio na análise proposta.
Mas, sem dúvida, o melhor e mais eficiente técnica é a memória seletiva, já que nossa memória esquece os fatos insignificantes e se lembra dos significativos.
O “analista” pode, portanto, arriscar, blefar e se contradizer à vontade, porque a maioria esquecerá os prognósticos errados se, agora, estiverem de acordo com eles.
Portanto, meu crédulo leitor, antes de sair por aí se gabando de ter encontrado alguém com incrível poder de análise, pense bem, você pode estar fazendo uma das escolhas mencionadas no início deste post e assumindo que é mesmo um ingênuo.
Mas, desencane, muitos desses analistas se encontram em situação pior do que a sua. São vítimas ingênuas deles mesmos na tentativa de serem espertos. Já que, na verdade, nem são desonestos, apenas acreditam de fato que são poderosos e bons naquilo que fazem.
Em tempo de reality show, convenhamos, não faz mal nenhum que tanta gente queira se tornar conhecido e famoso, ainda que à custa de tanta empáfia. E como eles mesmos dizem: “quem está na chuva, é pra se molhar”.
Além disso, enquanto se dedicam tanto aos defeitos dos outros, não precisam conviver com deles mesmos. Mas, graças a Deus, nem é preciso ser vidente ou “analista” pra saber que o estrume pode servir de adubo para florescer lindos jardins.
Em preciso, entretanto, esperar até que se possa replantar a muda em local mais adequado e, de fato, propício á vida - linda como ela deve ser.
*Texto sem correções.
- posted by Mara
Segunda-feira, Março 17
CONSTRUINDO CASTELOS
Hoje acordei me sentindo meio diferente. Nem mal nem bem, apenas diferente. Acordei com a sensação de que as coisas estão todas estranhamente em seus lugares. Como se não houvesse mais nenhum indício de caos.
É, talvez, uma espécie de resignação. Como se fizesse parte de uma pausa, um congelamento instantâneo e indolor do tempo e do espaço que ocupo. Odeio me sentir assim. Odeio olhar as coisas e aceitar passiva que elas são o que são.
Essa sensação anula a força propulsora para realizar alguma coisa. Mas isso nem é o pior. O pior é não saber por quanto tempo ela se estenderá e que espécie de resultado trará quando, acaso, resolver voltar a pulsar.
Tenho empreendido muitas lutas e até onde minha memória alcança, jamais passei um só dia em que na ausência de uma motivação real eu não inventasse alguma. É incrivelmente vazia e insípida esse enorme “nada a fazer” que amanheceu comigo.
Creio que minha vida nunca esteve tão organizada. Com cada um de seus pingos em seus devidos is. As urgências caminhando, as relevâncias atendidas e as futilidades naturalmente colorindo o todo tão bem engendrado.
O que será que está me causando tanta estranheza?
Sei que eu conseguiria discorrer por horas a fio, utilizando de analogias e muitos sinônimos para descrever o que estou sentindo. Mas, mesmo isso, de tão certo me parece inútil.
Enquanto deixava meus dedos seguirem meu pensamento nos parágrafos acima, me lembrei de um paciente que atendi. Ele foi acometido por um linfoma que lhe ceifou a vida de poucos meses.
Quando o conheci e até bem perto de sua morte ele dizia: “Essa doença chegou no melhor de mim. Sinto como se eu tivesse me preparado a vida toda pra tê-la”.
Ele se referia ao fato de aos trinta e quatro anos ter uma vida completamente estabilizada. Tudo aquilo que ele estabeleceu como meta havia se cumprido. Casara-se, tivera seus filhos, tinha uma bem sucedida empresa, e até a sogra havia se mudado de cidade.
Quando ele imaginava que nada mais poderia alterar o curso de sua bem sucedida vida, descobrira-se doente. Ao contrário do que os que o conhecia esperava, ele não lutou como sempre fizera em outros aspectos de sua vida.
Tampouco se desesperou ou definhou derrotado diante do prognóstico ruim. Só não se emocionou. Não brindou o destino com o gostinho de vê-lo mobilizado em sentimentos.
Disse: “Não é um desafio, é uma sentença”. Ele tinha razão. Poucos meses depois, em detrimento dos esforços médicos, da cooperação dele e do inconformismo de todos que o amavam, ele se foi.
Muitos o condenaram, inflando o peito corajosamente, chamando-o de covarde. Diziam que ele se entregou e que não lutou. Alguns de vocês, ao lerem, talvez, pensem o mesmo.
Mas eu estava lá e reconheci sinais evidentes de luta na maratona dolorosa de seu tratamento, cumprido com o mesmo rigor que ele depositava em tudo que fazia. Mas, era mesmo uma batalha vã.
Jamais vou esquecer o quanto, no auge de minha juventude profissional, aquele comportamento me irritava. A resignação e aceitação dele invalidavam minha atuação e provocava em mim as reações que eu esperava dele: raiva, frustração e por fim, medo.
Ele, ao contrário, seguia em direção á seu destino impassível.
Hoje, acordei assim. Resignada e contemplativa. E nem tenho a desculpa de um evento castrador como uma doença grave igual a dele. Nem posso dizer que fui sentenciada.
Sei lá, pode ser que após o meio dia, depois de algumas horas de trabalho, eu possa ter readquirido o gostoso prazer de digladiar com a vida, de rejubilar com as hipóteses e de repudiar os entraves.
Até lá, vou ouvir Caetano e suas palavras complexas. Vou seguir algumas enxurradas que as chuvas da noite passada e dessa manhã fizeram escorrer no meio fio. Vou tentar me lembrar no fim da tarde que amanhã tenho que levar meu carro pra revisão.
Quando a noite chegar, preparo um chocolate quente ou tomo um sorvete. E se eu não tiver me lembrado que preciso trocar o esmalte das unhas da mão, me dedico á retirá-los vagarosamente até o sono chegar.
Daí, amanhã... Bom, amanhã, espero, será um novo dia!
- posted by Mara
Domingo, Março 16
CONDICIONANDO-SE...
...AOS RATOS!
Uma passagem interessante comum na grade disciplinar de base nos cursos de psicologia é a experimentação de laboratório em que os alunos têm que desenvolver técnicas de condicionamento apregoadas pelo Behaviorismo.
Essa prática resume-se em condicionar um ratinho a pressionar uma barra instalada em uma gaiola como única condição de sobrevivência. Privados de água, os animais terão que aprender por reforço positivo o caminho dedutivo que os levará a consegui-los.
Isso pode levar dias, meses ou nunca acontecer. E é disso que se valida a experimentação: a análise das variáveis que podem influir nos resultados.
Em detrimento dos apelos humanitários, é muito comum vermos uma colônia inteiras de ratinhos devidamente condicionados ao final do semestre letivo.
Na universidade que cursei os ratinhos já condicionados, obviamente, perdiam sua utilidade e eram postos à disposição de outro laboratório: o de neuropsicopatologia. Era onde, os protestos que tiveram iniciam com a privação dos bichinhos se intensificavam.
Aquele ratinho que fez parte de nossas vidas diariamente por seis meses, ali, seria testado e torturado até a morte, para depois ser dissecado e servir de instrumento prático para os alunos.
Meu ratinho eu batizei de God...Godzila. E foi um dos primeiros a responder aos estímulos que eu oferecia e se livrar da privação que estava sendo impingida. God era inteligente, prestativo e tinha uma característica que o diferia dos demais: era fiel.
Demonstrava isso jamais respondendo á outra pessoa que não fosse eu. No fim das contas, o que parecia ser um privilégio, teve um custo adicional inesperado: passei a sentir-me responsável direta pela existência do pobrezinho.
Criamos, então, uma relação de cumplicidade. Cada vez que eu oferecia-lhe água e ele me presenteava com o pressionar da barra eu procurava esconder o “grande feito” dos professores na tentativa de adiar o fim.
Depois de um tempo consegui fazê-lo parar de responder aos estímulos que eu mesma havia lhe ensinado. Mas, God ficou tão famoso com nossa relação incomum que foi difícil fazê-lo passar despercebido.
Apesar de me empenhar muito, ficava cada dia mais difícil burlar o destino dele. Foi uma tarefa tão obstinada quanto vã. Não há como salvá-los sem comprometer a si mesmo na disciplina seguinte. Sem rato, sem nota!
Assim, God morreu numa manhã de sábado, nas mãos de uma jovem estranha, sob olhares atentos de aprendizes, enquanto eu me escondia no banheiro chorando minha covardia e luto.
God me ensinou muito mais do que Pavlov previa ao introduzir o experimento como prática de aprendizado.
De cara, percebi que não importa o quanto nos esforcemos para corresponder às expectativas, no fim, sempre haverá alguém insatisfeito ou ingrato o suficiente pra não levar isso em conta.
Ok. God era um rato de laboratório, predestinado, sem chances de barganha. Para muitos, morrer por uma causa é a único fim possível e digno. Mas, até hoje me pergunto: A quem estavam condicionando?
Com sua morte, eu finalmente compreendi que o que fazemos, determina a cara que terá nossa morte. Mas, o maior ensinamento que tive com ele nunca esteve vinculado ás pesquisas.
Aprendi que o poder, da afeição e do respeito, pelo arfar do peito de um Ser vivo, não tem igual valor para todos. E que é preciso amar os ratos que involuntariamente ressaltarão as diferenças que possuímos em relação á eles.
Minha experiência Pavloviana preparou-me aos ratos da vida. Os de dentro e os de fora das gaiolas. Os que se tornariam profissionais nessa arte e os que se sacrificariam por ela. Não foi, enfim, um sacrifício de todo inútil.
O tempo provou que God não seria o único rato a despertar afeto em mim. Muitos outros se apresentaram ao longo de minha vida. A diferença é que os que vieram depois eu levei mais tempo pra perceber que eram ratos.
Esses se assemelhavam em muitas das características do meu amiguinho: Prestativos, inofensivos e altruístas.
Mas aos poucos iam demonstrando seu aspecto mutante deixando vir á tona a agressividade, inveja, ingratidão, desconfiança, maldade, dissimulação e oportunismo.
Quando lembrei que gente assim era chamada de “rato”, me ofendi em nome do meu amiguinho. God, 100% rato, nunca foi traiçoeiro, ardiloso, mentiroso e ganancioso. Jamais me traiu com falsa amizade ou se revoltou contra mim quando não pude salvá-lo de sua própria condição de rato.
Mas God e, os humanos-ratos que conheci, tiveram igual importância em minha existência. Aprendi que é possível viver entre eles sem esquecer o que são.
E o fundamental: É necessário muito empenho para condicionar um rato a agir como um humano, mas comportar-se como rato no sentido pejorativo, para muitos, é tão fácil quanto respirar.
Ter vivido essas experiências, tanto com God quanto com ratos-humanos, é uma das coisas das quais não me arrependo.
À sua maneira, ambos, acentuaram minha capacidade de afeto e respeito pelas limitações alheias. Como aluna aplicada, aprendi a dissecá-los e estudá-los da mesma maneira amorosa que me dediquei ao meu God.
E resignar-me por não poder salva-los deles mesmos.
A diferença crucial entre God e os humanos-ratos que passaram por minha vida, porém, é que God dedicou sua vida a um propósito e dos bons e os outros, seguem vivos, defecando, nos mesmos espaços nos quais se alimentam.
Sobrevivendo da mistura de seus excrementos com as lacerações que provocam nos seres vivos que se aproximam.
Pavlov se esqueceu de dizer o principal benefício de seu experimento: praticar com ratinhos não nos ensina como lidar com humanos maus. Ratos têm projetos de vida muito mais louváveis.
- posted by Mara
Sexta-feira, Março 14
PRINCÍPIO DO PRAZER...
...USE-O COM MODERAÇÃO!
Caçula de sete mulheres. Posso afirmar, sem medo de ser injusta, que venci a dolorosa passagem da adolescência para a vida adulta, submetida á, pelo menos, três gerações de diferentes concepções do conceito de liberdade e, sua “suposta” antítese, a libertinagem.
“Suposta” porque, basta uma pequena enquete num almoço familiar de domingo para constatar a polêmica que o tema é capaz de gerar. A verdade é que tive mais “modelos” femininos do que tempo de vida para copiá-los.
Minha irmã mais velha (que ela não me leia) tem idade ser minha mãe, mas nossas idéias são mais compatíveis do que com a que nasceu apenas quatro anos antes de mim.
Minha mãe? Pobrezinha...Vem tentando se adaptar e, não raro, nos surpreende com alguma opinião ultra moderna que até a Boxer da família fica chocada! Pois é, lá “em casa”, até o mascote é mulher, mas é castrada, então nos serve de parâmetro.
O fato é cresci livremente entre duras repressões e a mais escancarada liberdade, oscilando de acordo com a “irmã” de plantão. Sexo, em meu seio familiar (sem trocadilhos), era tabu num dia e tema do almoço no outro.
Ao contrário de me sentir confusa com tanto “certo e errado”, eu desfrutava e aos poucos fui aprendendo a tirar vantagem. Todo filho caçula aprende rápido á ser oportunista na escala de responsabilidades familiares.
Mas num belo dia tornei-me psicóloga. E me foi apresentada uma gama de teorias que, só perdiam em diferenças, para nossas reuniões familiares. Chegou o momento em que eu teria que me posicionar.
Será? Será que é mesmo preciso ter mais conceitos inflexíveis agregados aos inúmeros outros que já acumulamos, na tentativa de nos mantermos integrados ao meio que vivemos?
Será que é tão importante assim sabermos a diferença conceitual entre liberdade e libertinagem para levarmos a cabo qualquer um deles? Ou nos basta seguir nossos instintos e levar nossas vidas de acordo com o que queremos?
Vivemos em sociedade que, por definição, já embute um sem número de regras e postulações. Mas, convenhamos, nem todas são fáceis de serem cumpridas sem, no mínimo, sermos incoerentes.
Quem nunca se viu chocado diante de um comportamento despudorado, mas, “estranhamente” ovacionado por multidões? Ou totalmente à vontade diante do que a maioria apontava ser quase um “atentado ao pudor’?
Vale a reflexão: Não estaremos moldando nossas opiniões à partir do número de adeptos que elas atraem? Pergunta ao vento. Nunca saberemos. O pudor não é uma discussão recente, muito pelo contrário.
Também não é oriundo dos cinemas especializados em pornografia que todas as cidades um dia possuíram. O vídeo cassete, a TV a cabo e depois a Internet, trouxeram o ícone explicativo do que é a pornografia pra dentro da nossa sala.
Essas “modernidades” banalizaram e confundiram ao tornar tênue a distância entre o condenável e o sexualmente saudável e, claro, consumível.
Para alguns pode parecer que estou falando de valores, de princípios e etc. Estou e não estou. Fica a critério de quem lê e entende valor moral como contraponto à simples negação dos progressos e evolução da sociedade.
Posso, se assim o quiser, viver por toda minha existência apregoando um puritanismo do tempo da minha avó, ou da mãe dela. Mas, isso não apenas me afastará da realidade, como também, pode trazer muitas dificuldades no meu trato com as gerações que virão sob minha tutela exemplar.
Posso optar por sofrer contínuos golpes com o choque de gerações e envelhecer minha alma mais rapidamente que a meu corpo, ou seguir saltitante por ter tido uma vida de princípios confortavelmente adaptados á minha realidade.
Isso nada tem a ver com os ditos padronizados de comportamento ou com as multidões que os alardeia. Tem a ver com o bem estar e com o adquirir condições para entender as razões dos seres humanos em sua essência e não pelo comprimento da saia que usam.
Mas esses, entretanto, não são dados de todo inúteis. Podem auxiliar, por exemplo, na construção da história da humanidade e delatar, num futuro, todo o perfil de uma geração.
Ainda assim, sinceramente não conheço ninguém que se constranja diante da estátua de David. E olha que Miguel Ângelo nem foi assim tão generoso quanto poderia estando afiançado pela arte.
Podemos, é claro, lamentarmos a perda dos mistérios e da sensualidade envolvente das longas saias e espartilhos. Mas, podemos negar que até esses elementos foram frutos do apelo sexual da época? Escondiam, justamente para escandalizar.
É possível argumentar também que toda essa modernização gerou o tal “sexo pelo sexo”. Pode ser. Mas não sei de um momento, histórico ou não, em que o sexo tenha sido praticado com outro objetivo que não pelo sexo.
Sexo é saudável, bom pra caramba, natural e mais velho que David. Mas é o que é: sexo. Os sentimentos que agregamos ao ato é que deveriam fazer a diferença. E esses, não mudam a partir do vestuário, mudam a partir da vontade de quem o pratica.
Por isso, não me venham falar que prostitutas não se apaixonam ou que monjas franciscanas jamais chegariam ao orgasmo. Mas me venham falar.
Aceito qualquer tipo de conversa franca sobre sexualidade, qualquer comportamento que, se autêntico, reflita-os como seres humanos e não produto de pudores sazonais. Não gosto de vulgaridade.
Mas, no dicionário a palavra vem do “vulgar”: substantivo masculino que é apresentado como um adjetivo de dois gêneros: De um lado, é relativo ao vulgo; tornar comum, trivial e usual e de outro, como reles, ordinário.
Tratando- se de sexo, o que praticamos ou o que o “outro” pratica, é individual e intransferível o critério de categorizá-lo entre as definições do Aurélio.
Como psicóloga e, inquilina desse século, prefiro vulgarizar o conceito e aprender um pouco mais da prática, na prática, é claro. Você não?
- posted by Mara
Quinta-feira, Março 13
PAI! ELES SABEM O QUE FAZEM...
PERDOAI-OS ASSIM MESMO!
Numa conversa entre amigos, trocávamos impressões sobre os livros que andam ocupando nossas cabeceiras. Bastaram alguns minutos pra que percebêssemos, através dos relatos, o poder da indústria da propaganda.
Impressionante como muitos de nós, sem que nos falássemos, estávamos dedicando nossas horas de lazer para a leitura dos “Best Sellers” do momento. Aqueles que ocupam a prateleira dos “mais vendidos” nas livrarias.
Além disso, alguns confessaram que apesar desses livros estarem na mesinha ao lado da cama há bastante tempo, nem ao menos haviam começado á lê-los. Só me safei porque não leio antes de dormir.
Além disso, sempre penso muitas vezes antes de ler o prefácio de qualquer livro porque sou compulsiva e se dou início à leitura só consigo parar quando chegar á ultima página. Se não disponho do tempo necessário, nem arrisco.
Mas o tal “modismo” literário me fez lembrar o meu espanto ao constatar que, já há alguns anos, o escritor Paulo Coelho, por exemplo, é campeão de vendas nas livrarias argentinas e em muitas partes do planeta.
Nem posso dizer que meu espanto advém apenas disso e nada tem a ver com o fato de não gostar dos livros do escritor. Não gosto mesmo e, isso, só serviu pra complicar ainda mais minha compreensão do fenômeno.
Mas, minha mãezinha já dizia: “tem gosto pra tudo nesse mundo” e, como telespectadora assídua do BBB, penso não ser muito capacitada pra duvidar de tal sabedoria.
Mas até mesmo essa particularidade incita outra análise tão importante quanto nosso direito de gostarmos do que bem entendermos: O que leva algumas pessoas, geralmente ditos críticos, a execrarem determinadas obras e enaltecerem outras?
A resposta pode estar na mesma pretensão de algumas pessoas se auto- intitularem especialistas em determinados assuntos, pelo simples fato desses assuntos fazerem parte do cotidiano delas.
Até aí, nada de mais. Já discursamos sobre a liberdade de expressão, a opinião, sobretudo, a pública e, do hábito de nos apropriarmos do que nos provoca paixões a ponto de pensarmos que apenas nós sabemos o que é melhor pra elas.
Esse não é um hábito incomum. Pode ser visto em várias modalidades. Pais e mães autoritários, amantes possessivos e até torcedores de futebol desenvolvem esse súbito PhD quando discursam sobre o objeto de seus afetos.
Mas há uma distância muito grande entre o sermão amoroso de um pai e uma mãe preocupada, ou as “ordens” gritadas para um técnico de futebol através da tela da TV durante um jogo, e a crítica impiedosa, muitas vezes, destrutiva de alguns desses pseudo especialistas.
Existe até uma parcela desses críticos que fazem fama e dinheiro especializando-se no sarcasmo e na irreverência com que tratam os trabalhos alheios. Mas, o que impressiona mesmo, é como conseguem perdoar a si mesmos depois.
É claro que nem toda obra, literária ou não, pode mesmo ter boa qualidade. Mas, levando em conta a frase da minha mãe, não parece meio déspota que nos apontem suas próprias preferências, como se essas fossem uma verdade universal?
Por outro lado, a cordialidade que camufla as verdadeiras intenções pode ser um duro golpe pra quem espera uma análise crítica realista. Esse, aliás, é um imperativo no mundo amador dos “escritores” de blogs.
É mesmo um assunto delicado e muito controverso. A franqueza gera desconforto e a ausência dela, impede o debate público. Como sair dessa complicada operação? Talvez seja preciso compreender que o afeto, graças a Deus, propicia a admiração.
Mas o contrário é também, igualmente desejável. O que é realmente desnecessário e, infelizmente, vem se tornando comum é a tentativa ridícula de agradar a Gregos e Troianos, em detrimento da autoria individual dos posts produzidos.
Muitos, para tornarem essa prática possível, adotaram o estilo polêmico. Elegem a contramão do senso comum e, muitas vezes, até da lógica sensível, para se auto promoverem com seus discursos ácidos e maledicentes.
Apelam para a idéia de que o hostil, o contra, a negação, é mais “verdadeiro” do que a admiração, o elogio, a afirmação. Crêem que quanto mais duro, quanto mais pérfidos forem, serão tidos como mais críticos e profundos em suas análises.
Típico de quem não possui capacitação pra tal tarefa, já que objetivam atrair atenção para si mesmos e não para o que analisam. Daí que o debate crítico desliza para a agressão pessoal e moral. Deixa-se o fato e acentua-se na análise do ser humano que a produz.
Essa espécie de sensacionalismo amador é simplesmente uma estratégia de venda calcada na crença pela negatividade. Vendem-se agressões travestidas de capacidade intelectual.
É jogo sujo, mas, que, infelizmente, parece funcionar. E funciona ainda melhor quando, ao mesmo tempo, desenvolvem a capacidade de se contradizer, levados pela corrente de pensamentos de seus leitores, sem serem notados.
É bem verdade, que humanos assim não estão sós. É preciso uma platéia. E é necessário que essa seja composta de humanos igualmente motivados por esses sentimentos mesquinhos.
Funciona ainda melhor pela incapacidade de defesa do elemento atacado pelas “críticas” que fazem. Aliás, quanto mais inacessíveis estiverem, melhor. Outro elemento fundamental para que a fórmula funcione é o sucesso pessoal de seus alvos.
Agora, interessante mesmo é que esses “críticos” julgam-se incapazes de serem desmascarados e por essa certeza, tornam-se óbvios e se entregam. Seus objetivos tornam-se cada vez mais nítidos na medida em que aprendemos a “ler” seus discursos.
Assim, não se preocupem, caso vierem a se tornar alvos desses “analistas impiedosos”. Diante de uma mínima possibilidade de que você possa vir a ser útil para ajudá-lo a se projetar ou na tarefa de acariciar-lhe o ego, de vítima você se tornará parceiro ou, com um pouco de sorte, seu protegido.
Muito embora, o contrário seja muito mais possível. Nunca subestime a capacidade desses indivíduos de defender o território que acreditam ter “lutado” muito para conquistar. Sobressaia e será sumariamente executado!
Afinal, para eles, no amor e na guerra vale tudo. Até perder a noção do ridículo!
* texto sem correção
- posted by Mara
Quarta-feira, Março 12
VIVENDO E APRENDENDO A JOGAR
Vilania! Quer saber? Cansei. Cansei dessa moda instituída de se falar o tempo todo em bandidos e mocinhos. Como se pudéssemos, nos tempos atuais, refletir nosso viver nas experiências televisivas de sociedade.
Vilões e mocinhos dão boas analogias. E nada mais. Não justificam, não eximem e, menos ainda, resumem as atitudes humanas. Fazem parte da ficção. Vilões nascem para serem punidos. Mocinhos para serem agraciados por sua bondade.
Entremeio, os bandidos passam a maior parte do tempo acumulando vitórias e compensações invejadas pelos mocinhos. Estes, por sua vez, ocupam esse mesmo tempo aglutinando perdas e sofrimentos.
Esse roteiro é feito para justificar o “merecimento” de ambos no fim da história. Com essa certeza ficamos passivos, á espera do final redentor que nos vingará pelo sofrimento do mal finalmente punido e do bem finalmente triunfando.
Assistimos confortavelmente essa historinha se desenvolvendo diante de nossos olhos. Até elegemos o lado para o qual iremos pender.
Como se ao tomarmos partido nos eximíssemos dos defeitos de ambos e mostrássemos que somos mais perspicazes e refratários á essas nuances que outros parecem não ver.
Deu pra entender? Ocorre que isso é ficção, novela, filmes, romances e até história em quadrinhos. Na vida real é mais simples: existem os que ferem e os que são feridos. Entremeios estão os que condenam e os que aprovam. Ponto.
Disseram que era um entretenimento. O jogo da vida. Mas se o manipulam, deixa de ser real. Assim, é natural que aceitemos o convite para jogar. Jogar é brincar sem que isso comprometa nossa estabilidade emocional.
Nesses casos, quando exprimimos emoções consideradas negativas, o jogo funciona como uma “catarsis”, uma limpeza da alma, que dá lugar para que outras emoções mais positivas se instalem. Ninguém joga assistindo o Jornal Nacional, por exemplo.
Odete Roitman, Olavo, Leona, Bia Falcão, Laurinha, Nazaré e Marco Aurélio morreram ou se deram muito mal no final. A Rede Globo me dava esse prazer.
Hoje, a mesma emissora que popularizou Nelson Rodrigues com “A vida como ela é”, utiliza-o para em tom mais popularesco ainda, justificar suas próprias contradições mundanas. Ali a vida foi mostrada como eles a concebem.
Mas não era um jogo, uma brincadeira? Ou me equivoquei e tudo isso faz parte de um plebiscito para decidir sobre a pena de morte? Esqueceram de incluir essa clausura no “contrato” que venderam do produto “entretenimento”.
Que saudade do Lula e Juba e das armações ilimitadas que nos mostravam um Rio inocente e surfista. Que falta me faz Pedro Bial á quilômetros de distância mostrando que a guerra as bombas não iriam destruir meu jardim brasileiro.
Ambos em horário nobre, mas individualmente fiéis a aquilo que se propunham. E, eu sabendo exatamente o que iria assistir. Não quero mais comprar gato por lebre. Vida real por novela. Novela sem efeito catártico!
Na novela e na vida a favela é violenta e faminta. Mas, posso NÃO querer fazer turismo nela? Posso NÃO aprovar que o façam?
Não vivem dizendo que devemos construir uma sociedade melhor? É impossível ignorar as respostas que a sociedade vem nos dando. Mas, é como respondemos á ela, que irá nos definir e desenhar a sociedade que desejamos.
A visão materialista do ser humano e de sua missão no mundo não produziu o resultado desejado: a Felicidade. Embora, para alguns privilegiados ela pareça existir, o tempo mostrará que, também eles, estavam apostando na ficção.
O episódio do roubo do Rolex do Luciano Huck é um exemplo disso. A indignação do apresentador e sua reação deixaram clara a utopia em que, não só ele, mas uma grande camada da sociedade está vivendo.
Somos diariamente ameaçados por pessoas infelizes, violentas, que perderam a alegria e a crença no valor da vida. O mundo está cheio de crianças e adolescentes armados matando-se entre si.
Tenho cercas elétricas sobre meus muros, chaves tetras em minhas portas, alarmes, câmeras de segurança e guardas fazendo a ronda. Posso não querer trazer a violência pra dentro da minha casa sem que isso faça de mim uma alienada?
Pelo jeito não. Os demônios da sociedade, que matam, estupram, roubam e mutilam me prenderam dentro de casa para vagarem livres pelas ruas que meus impostos ajudaram a construir e eu não posso querer evitá-los?
Sentimentos como raiva, tristeza ou frustração está para a natureza humana tanto quanto poder exprimi-lo. Fazê-lo através de um jogo, é nosso direito. Exterminá-lo simbolicamente com um poder fictício adquirido, é nossa única válvula de escape.
Acusar- nos de, com isso, “estragarmos” o melhor do jogo é covardia de quem só sabe viver guiado pelo ódio social que o motiva. O que alegam? Que só sobrou brincadeira de jardim de infância. O brincar.
Pois bem. Brincar favorece o desenvolvimento dos vínculos afetivos e sociais positivos, condição única para que possamos viver em grupo e assim estarmos diante do principal, senão único, instrumento de educação para a vida.
E aí me pergunto: o jogo acabou? Não podemos votar ou preencher enquetes para execrar o mau e bani-lo de nossas vidas. Mas, podemos condená-lo naquilo que nos disseram que era pra ser um entretenimento.
Somos obrigados a copiar a vida e o sofrimento dela advindo até em nossas horas de lazer? É tedioso ver o lúdico burlar a estratégia. A alegria, ainda que forçada, não ceder às artimanhas inescrupulosas?
O que esses “especialistas em jogo” deveriam aprender é que jogar é o recurso inventado pelo e para o ser humano no intuito de provocar nossas emoções sem nos ferirmos com elas. E que precisa ter um fim, de preferência, educativo.
Educar para a vida é a esperança de impregnar um novo conceito de valor: de dizer um não a tudo que é anti-vida: drogas, excessos de qualquer tipo, apatia e desamor.
Apregoar o contrário é a tentativa de nos confrontar com a raiva e violência de que são capazes os seres humanos desumanizados. É tentar criar uma massa de iguais á eles.
É um jogo de gente grande, dirão. Ok. Somos adultos e, justamente por isso, respondemos pela qualidade de vida dos que virão.
A melhor maneira pra isso é o direito, ao menos na ficção, de expelirmos o câncer que seqüestra a alegria do brincar dos demais. Compensar os que resistiram ás pressões dessa nova ordem de promover o caos é, dizer o mínimo, de nossa obrigação.
Em outras palavras e com bastante alívio, baseada em minha própria maneira de conduzir a vida, afirmo sem medo: “Sorriam! O jogo começa hoje!” Ta a fim de ganhar um milhão de razões pra querer uma pausa da vida como ela é?
Não? Então, tranqüilizem-se porque o “Linha Direta” segue na grade da programação da poderosa, assim como alguns blogs igualmente “poderosos” também permanecerão ativos no mesmo formato, refletindo os péssimos humanos que os conduzem.
- posted by Mara
Terça-feira, Março 11
POSSO ARRANCAR A CASQUINHA?
O existir dos profissionais de psicologia é traçado por tarefas ingratas. Julgam-nos conhecedores infalíveis da complexidade humana, mas nos privam delas. Querem-nos atentos às infindáveis contradições da espécie, mas nos acusam de ressaltarmos as mesmas.
Tem razão quem afirma que psicólogos não são profissionais de carreira. São profissionais dos quais se exige qualidades que os capacite antes da escolha de sê-los. Todos temos, ou deveríamos ter vocação para sermos humanos. Um teste vocacional não seria suficiente.
Não se trata disso. Trata-se da capacidade inabalável para amar o ser humano em sua essência. Amor extensivo e proporcional aos outros seres vivos e a si mesmo. Compreender as injustiças provocadas por essa experiência e, acima de tudo, empreender manobras para minimizá-las.
Não há Universidade capaz de produzir esse tipo de aptidão. Da mesma maneira como não há como medi-la sem antes colocá-la em prática. É uma armadilha que pode custar tempo, dinheiro, sonhos e muita seqüela emocional, mas que não oferece outra opção.
Em minha sala de aula éramos oitenta alunos. Todos com o perfil altruísta e comprometido com boas intenções que nos separava dos candidatos á outras carreiras.
A instituição de ensino da psicologia reforça esse perfil engajando-nos precocemente em causas sociais e movimentos contra a exclusão. Doutrinava-nos com o discurso da igualdade e fraternidade.
E assim, sucessivamente, nos foi apresentada as inúmeras faces de atuação da mesma profissão. Iguais em essência e alarmantemente diferente em seu objetivo final.
As carreiras hospitalares, clínicas e alternativas, nem é preciso dizer, são apresentadas com cautela e com alguns bônus para ajudar a seduzir para escolha.
Saímos à campo para conhecer, nessa ordem, a rivalidade psiquiátrica, médica, da enfermagem, o descrédito popular, os resultados imprevisíveis e, muitas vezes, incomensuráveis e, por fim, o deteriorar humano – físico e emocional.
Na turma da qual fiz parte, chegamos a esse momento decisivo, com dezoito entusiastas. Nem todos devidamente preparados para o que estava por vir. No fim, éramos oito.
Como esquecer o professor que escandalizava-nos ao pedir que tomássemos banho ao deixar o hospital e irmos pra casa?
“Lavem-se dos vírus e das bactérias. Demorem bastante para que a água leve para o ralo os males que aqui saltam das entranhas para epiderme e contagiam.” , dizia do alto de sua sabedoria hierárquica.
Assim, aprendemos a valorizar a casca que se forma sobre as feridas. Negra, enrugada, dura, feia e superficial, a casca cumpre sua função primeira de cobrir a carne viva e deteriorada, muitas vezes mortal, que sangra sob sua proteção.
Entendemos a razão da existência da mesma e da importância de sua permanência pelo tempo sábio designado pela necessidade individual de cada um. Foi fácil. Era apenas uma extensão do que ouvíamos de nossas mães: “Nunca arranque a casquinha, filha”.
Como as que temos no joelho, resultado de uma infância livre e da descoberta da bicicleta, as cascas emocionais tendem a cair em seu tempo. Dia após dia, nos damos conta que estão nos deixando. Sem alarde, sem que precisemos rompê-las na marra.
Na pior das hipóteses, ficam as cicatrizes que o tempo também se encarregará de diluir e confundir com nossa epiderme. Ou, ao contrário, resta-nos convivermos com elas a partir da aceitação que nos pertence tanto quanto o restante de nossa pele.
Psicólogos são treinados para contabilizar o tempo que individualmente essas cascas levam para cair. Ajudar na prevenção para que não sejam arrancadas antecipadamente, e na sustentação e auxílio para quando isso inevitavelmente acontece.
Quando ocorre um ferimento onde já havia outro ainda não curado, é também de nossa competência provocar o conhecimento das razões dessa repetição intermitente e apontar os caminhos para deter o vício nocivo.
Não nos cabe julgar a fragilidade ou a irresponsabilidade de quem as provoca em si mesmo. Menos ainda, apontar ostensivamente a feiúra da ferida que encobre. De definitivo, também não é legítimo enfiarmos o dedo nela, com a justificativa de curá-la.
Somos experts em auxiliar o processo de cicatrização, mas não nos exijam a fórmula da cura ou da imunização. A cada ferida contemplada por nós, abre-se uma de igual proporção em nossa própria alma.
Essa prática contínua nos tira a inocência, ás vezes, oportuna e necessária para um viver sem medo. Tira o elemento surpresa sem, contudo, nos defender dele. Faz-nos desconfiados da nossa capacidade em prestar auxílio onde somos também vítimas potenciais.
Mas nada disso, sob nenhuma hipótese, pode ser exercido sem o consentimento do outro. Não o consentimento verbalizado, coagido ou circunstancial, mas o consentimento que só é válido se advindo de um pedido real de ajuda.
Por isso cobramos. Para delimitarmos as fronteiras entre o concedido e o imposto. Entre a crítica gratuita e o apontamento construtivo. Por essa razão não somos capacitados para atender pessoas de convívio próximo.
O distanciamento é necessário, emergencial e a única possibilidade real de atuarmos. Leia-se distanciamento como “não fazer parte, ainda que indiretamente, do processo que provoca as feridas ou a casca delas”. Daí pode ser, “pode ser”, que dê certo.
A meu ver, a única aproximação útil entre portadores de feridas semelhantes é a que se dá para anular a força da solidão de se saber único. Tipo grupos de ajuda. Ainda assim, se mal administrado, tornam-se apenas um mar de lamentações sem resultados concretos.
Sempre será necessário que alguém descomprometido com nossa dor, mas irremediavelmente comprometido com o respeito e com a vontade alheia, possa oferecer a mão que guiará a todos para a saída mais plausível.
Sugiro que escolham essa mão como quem escolhe uma fruta: quando estiver sem fome, primando por suas qualidades nutritivas, pelo equilíbrio na manutenção de seu aspecto.
O que se sabe é que os mais vistosos e concorridos perdem a qualidade na medida em que se crêem únicos e melhores. Além disso, podem ser enfiado goela abaixo por uma poderosa campanha de marketing que camufla seu interior apodrecido.
- posted by Mara
Segunda-feira, Março 10
DON’T CRY FOR ME...
Ontem eu vi um arco-íris gigante. Imponente, com cores fortes e acentuadas. Cortava o céu de fora a fora como quem traça uma ponte entre uma coisa boa e outra melhor ainda. Entretanto, no horizonte, chovia. Chovia urgente e forte.
Entre o embasbacar da visão multicolorida e o lamento do cinza desenhado pelo vento tive a certeza da derrota inevitável do arco transversal colorido frente á verticalidade da chuva.
O espaço-tempo de confronto entre eles foi tão rápido que nem tive chance de desfrutá-lo ou fotografá-lo. Pensei na fugacidade de tudo que nasce paralelo, mas fadado a competir pelo mesmo direito de ser e estar.
“Não é natural”, pensei. Sempre ouvi dizer que arco-íris prenunciam o fim da chuva. No entanto, ocorriam juntos e vaidosos do espetáculo que proporcionavam. Ouvi dizer que, no fim, entre o lilás e o verde, há um pote amarelo de riquezas.
Mas, mal se podia ver para onde meu arco-íris seguia. A chuva nublava seu caminho e o escondia sob seus tons cinza dégradé. A borda avermelhada, entretanto, se valia de sua predominância impondo uma derradeira tentativa de permanência.
Como surgiu, desapareceu. Deixou um céu sem nuvens, sem cor e monótono. Do chão exalava o cheiro morno de asfalto molhado. O silêncio da morte do belo calou-nos também. Voltamos à monocromática visão do domingo.
Meu arco-íris nunca existiu. Foi uma ilusão óptica conferida á partir de minha posição e disposição para vê-lo. Quem diria? Eu andava precisando contemplar um deles. Logo eu, que privilegio a claridade provocada pelo sol, ansiava por seu opositor mais espalhafatoso.
Na limitação que meu cérebro imprime à minha capacidade de visão acrescentei vários centímetros na largura da minha necessidade colorida.
A última vez que isso aconteceu, relatei em post a dimensão exagerada de uma bola alaranjada que avistei de minha janela: um eclipse solar, eu soube mais tarde. Nada de romantismo, bruxaria ou fim dos tempos.
“Pura refração das gotas de chuva”, me explicaria Descarte. “Reduza para apenas a cor branca”, me imporia Isaac Newton. Mas, eu seguia pensando no Mágico de Oz, em Noé e em duendes guardiões do tesouro de caldeirão.
Lembrei-me também do meu Nahuel Huapi, meu lago glacial. Ali, na paisagem patagônica, nascem os arco-íris e é também de onde partem para o mundo. Terá sido o mesmo que chegou ao meu céu, no final da tarde de ontem?
Deve ser. Trouxe com ele as doces palavras estrangeiras que não definem, mas expressam a saudade brasileira que me toma o peito há dias.
É claro que veio de lá. Trouxe o amarelo e o laranja da incondicional flor Amancay, o verde das folhas dos Arrallanes, o azul celeste de sua bandeira, o vermelho de seu entardecer, e o violeta das asas de suas fadas.
Mas era, no fim, apenas o branco da neve me chamando de volta.
Hoje, meu céu amanheceu claro e sem nuvens. O cinza invejoso cedeu lugar ao azul esbranquiçado de um dia de luz. Nem sinal do meu arco-íris. Nem sinal das gotas transparentes contrapondo os raios solares.
Sete são as cores do arco-íris. Sete são as letras da palavra “saudade”. Também na sétima posição, lá está ela, posicionando-se no ranking das dez palavras mais difícil tradução:
1. "Ilunga" (tshiluba) - uma pessoa que está disposta a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez.
2. "Shlimazl" (ídiche) - uma pessoa cronicamente azarada.
3. "Radioukacz" (polonês) - pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência o domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro.
4. "Naa" (japonês) - palavra usada apenas em uma região do país para enfatizar declarações ou concordar com alguém.
5. "Altahmam" (árabe) - um tipo de tristeza profunda.
6. "Gezellig" (holandês) - aconchegante.
7. Saudade (português)
8. "Selathirupavar" (tâmil, língua falada no sul da Índia) - palavra usada para definir certo tipo de ausência não-autorizada frente a deveres.
9. "Pochemuchka" (russo) - uma pessoa que faz perguntas demais.
10. "Klloshar" (albanês) - perdedor.
Teremos um dia de calor! Dizem que a culpa é do arco-íris! Dizem que a culpa é da SAUDADE!
- posted by Mara
Domingo, Março 9
AH! ESSA MINHA ...
...ESTRANHA LOUCURA!
Navegar é preciso! Recuei vários metros da tela de meu computador de uns dias para cá, só me permitindo uma aproximação dos blogs amigos e de temas variados.
Minha mente há muito clamava por leituras não-sazonais. Mas, navegar é preciso! Cedi às tentações e deixei meu barco á deriva outra vez nessa manhã.
Nas conexões turvas do pensamento egocêntrico de muitos blogueiros descobri que não há nada de novo em alto mar. Só a mesma ameaçadora constatação de que toda tempestade será perdoada.
Entretanto, meu breve passeio me trouxe a lembrança de um personagem real que foi romantizado por Hollywood: John Nash. Nash, o professor e matemático que ganhou o Nobel e garantiu à Russel Crowe a indicação ao Oscar no filme “Mentes Brilhantes”.
Adoro fazer analogias dessa natureza. É sempre útil quando queremos imprimir a idéia de que somos cultos e antenados.
Mas o filme, apesar de didático e interessante, é apenas uma versão romantizada. Uma forma branda de generalizar o lado cruel da esquizofrenia. Além disso, é claro, não consegue retratar a complexidade que envolve os sintomas da mesma.
Nem eu pretendo fazê-lo nesse post e sim, destacar as semelhanças de alguns desses sintomas no comportamento cotidiano de algumas pessoas. Talvez, depois disso, possamos retirar de nosso vocabulário a expressão: “Nossa! Como pode?”
Todo mundo tem medo da loucura e, é comum associarmos isso aos manicômios, gente com camisa de força ou que pensam ser Napoleão. Mas, entre esse processo final de dissociação e a sanidade completa, estão os inúmeros comportamentos que isoladamente não se classificam como doença, mas estão bem perto disso.
A esquizofrenia é caracterizada por uma desorganização ampla dos processos mentais típica de mentes privilegiadas. A pessoa perde o sentido da realidade tornando-se incapaz de distinguir a experiência real da imaginária.
Altera a área da percepção e da emoção alterando a linha lógica de pensamento. Daí que a exposição de uma opinião é sistematicamente anulada pela que se fará a seguir.
O sujeito, além de se sentir perseguido por pessoas e idéias irracionais de complôs, cria em torno de si idéias de grandeza que justificam tal perseguição. Geralmente tem dificuldade de modular seus afetos de acordo com o contexto.
Com isso, a exposição exagerada a que se submete ao expressar emoções inadequadas e afetos absurdos, é compensada por outra característica da patologia: a profunda alteração na percepção de seu superego (concepção e freio moral).
Pessoas assim são diagnosticadas pela ênfase e predominância de uma dessas características. Prometo, num post mais oportuno, detalhar cada uma delas. Mas, como podem perceber a esquizofrenia não é tão bonita como a face do Russel Crowe.
O que me motivou a escrever esse post é justamente a linha invisível que separa a doença esquizofrenia de alguns comportamentos psicóticos que à longo prazo, podem sim, evoluir na direção dela. Transtorno que nem sempre é vistos como tal.
Os Transtornos esquizofreniformes e o esquisoafetivos, por exemplo, têm os mesmos sintomas da esquizofrenia, mas as manifestações dos sintomas são de curta duração e é isso que aponta sua gravidade e seu diferencial.
Classificam-se por tipos:
Tipo Erotomaníaco: Delírio que se refere ao amor romântico idealizado.
Tipo Grandioso: Delírio de possuir um grande talento ou conhecimento em detrimento da opinião de outras pessoas. Adquire-se, inclusive, a convicção de ser amigo íntimo de alguém importante ou portador de uma missão divina.
Tipo Ciumento: Delírios de ser traído pelos mais próximos
Tipo Persecutório: Delírios de que está sendo alvo de algum prejuízo
Tipo Misto: Delírios que misturam todos os acima citados.
Tipo Inespecífico: Delírios diferentes dos acima citados.
Bom, se depois disso, ainda não fica claro do por que esse tema surgiu em minha mente durante meu breve passeio pela blogosfera, acredito que você está a salvo. Já que também são conhecidos os prejuízos que a convivência com essas personalidades podem causar.
Dentre eles, está o Transtorno Psicótico Compartilhado. (Folie à Deux). Trata-se de uma situação rara, mas não incomum, na qual uma pessoa começa a apresentar delírios a partir da convivência próxima de um doente psicótico.
O tratamento consiste em separar as pessoas envolvidas e se o sintomas persistirem poderão ter que ser tratadas com psicotrópicos e/ou terapia.
Assim, ainda temos tempo. Ainda bem que, na Net que vaguei hoje pela manhã, tais sintomas só ficam mais evidentes durante um período de, mais ou menos, três meses. Depois é só conversa fiada e colagem do Google.
Será que, então, era verdade a afirmação de que de psicólogo, blogueiro e louco, todos temos um pouco?
Esse é um post com caráter informativo e não deve ser utilizado como base para diagnóstico. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência ou livre associação de quem lê.
HOJE É O ANIVERSÁRIO DA CLAUDIA DAMM. EM NOME DE TODOS AQUI DE CASA: FELIZ ANIVERSÁRIO, MINHA AMIGA!!!!!
- posted by Mara
Sábado, Março 8
QUE ME IMPORTA O SEXO DOS ANJOS?
Por motivos nem sempre muito lógicos, as pessoas, sobretudo as mulheres, têm critérios diferentes para escolher seus médicos. Idade, indicação, formação, convênio. Todos esses aspectos são avaliados antes de marcarem a primeira consulta.
Um critério bem interessante e bastante comum é o sexo. Não acredito que exista uma diferença estatística muito acentuada, mas ainda é comum ouvirmos de algumas mulheres que se sentem muito mais a vontade consultando-se com uma mulher.
Nunca tive esse problema. Por trabalhar diretamente com a classe médica, meus critérios, obviamente, são muito mais complexos. Mas não deixo de ter também algumas restrições aqui e ali pautadas no sexismo na medicina.
É muito comum fazermos verdadeiras maratonas estéticas antes de uma consulta de rotina. Depilação, unhas dos pés e das mãos etc. Se for uma rotina ginecológica então, nem se fala.
Mas, tirando as práticas habituais, qual a necessidade de um esmero maior para uma consulta com um ortopedista, provocada por um problema no joelho? Nenhum. Foi o que imaginei.
Mas, confesso, faz muito tempo que não me consulto com um médico que atende sem convênios ou que não seja um colega de equipe. Daí que ou eu passo cinqüenta minutos na sala de espera e dez na sala de exame, ou faço consulta de corredor mesmo.
Fui à tão esperada consulta com o especialista que cobra em dólares mencionado em post há alguns dias. Vale dizer que viajei 300 km para isso.
Junte um calor de quase quarenta graus ao fato de ter chegado exatamente na hora da consulta, e saberão que não haveria preparação estética possível para melhorar minha aparência ao chegar.
Sob o vestido, coloquei um oportuno shortinho que evitaria que eu o retirasse na hora da consulta, e por isso, não me preocupei muito. Afinal, foi o tempo que joelho era considerado atrativo e sexy.
Mas, os quase quarenta minutos de conversa fiada com o tal doutor já me levava a acreditar que nem examinada eu seria. Assim, a tensão e a poeira da viagem foram tendo menor importância na medida em que o tempo passava.
Meu marido e sua costumeira praticidade já se impacientavam ao meu lado quando o doutor finalmente começou a me fazer perguntas mais pontuais e passou a anotá-las em um prontuário.
Qual sua cor preferida? Você tem pesadelos? Sonha colorido? É do tipo nervoso ou paciente? Há muitos anos eu não era submetida a uma anamnese tão minuciosa e isso foi me deixando um pouco ansiosa. Mas respondia a tudo com tranqüilidade.
Eu tinha em minhas mãos o resultado da super-precisa e ultramoderna ressonância magnética que apontava para cinco itens assustadores que justificavam uma cirurgia imediata. Então pra que tantas perguntas?
Vamos aos fatos: levada à sala de exame, depois de obedecer e tirar toda roupa (inclusive o tal shortinho de castidade) passei pela mais surpreendente investigação física de toda minha vida.
Depois de muito vira pra cá, dobre pra lá, ele calmamente saiu, pediu que eu me vestisse e o encontrasse na sala de onde tínhamos saído. Entreguei-lhe o resultado da ressonância e ele simplesmente a ignorou, sem sequer olhá-la.
Em seguida, recitou calmamente todos os cinco itens descritos no laudo da ressonância que eu, claro, já havia decorado. Pra piorar, acrescentou outros dois. E disse diretamente: é cirúrgico e urgente.
Sei que deveria estar aqui contando o que senti ao ouvir que o que eu tanto queria evitar tinha, contra minha vontade, se concretizado. Mas, prefiro dizer do meu espanto e admiração diante de tanta eficiência e objetividade médica.
O cara vale cada “cent” dos cinco mil dólares que cobra. Além disso, o que me deixou ainda mais pasma é a lógica, que não há, em se cobrar tanto por uma cirurgia de quarenta minutos e apenas 250 reais por uma consulta de quase duas horas.
Nem mais me lembrava do constrangimento de não ter me preparado para uma consulta tão minuciosa. Olhava-o e via um homem de menos de cinqüenta anos, seguro e completamente à vontade na minúscula e sem ostentação sala de consulta.
Mencionei isso e ele me respondeu: “Às vezes, acho incrível que me paguem para que eu faça uma coisa que me diverte tanto. Que me dá tanto prazer”.
Me senti tentada a pleitear uma troca: meu joelho por mais algumas horas de lazer. Assim, pau a pau.
Mas, a inequívoca competência médica que despreza um exame revolucionário como a ressonância, mereceu o meu silêncio. E a piada foi esquecida.
Porque mencionei as mulheres médicas no início desse post? Por nada. Apenas para citá-las no dia internacional que as homenageia. E para dizer do quanto já caminharam na trajetória em busca da igualdade profissional.
Assim, fica aqui minha homenagem a todas as mulheres da vida do Dr. Theo que, claro, devem levar uma vida confortável proporcionada pelos honorários expressivos que ele cobra, mas devem ser as responsáveis por tê-lo tornado um homem tão sensível e competente.
Ao sair do consultório, perguntei-lhe sobre a equipe que o acompanharia caso eu resolvesse marcar a cirurgia. Calmamente e com visível orgulho ele disse: “A equipe é a melhor possível e a anestesista é minha esposa”.
Bingo! Clichês à parte, por trás de um grande homem só poderia mesmo haver uma grande mulher!
Alguma coisa me diz que já escolhi quem será meu cirurgião. E, já em casa, posso chorar minhas penas de ter que me submeter mais uma vez á um processo cirúrgico limitador como esse.
Alguém aí tem cinco mil dólares pra me emprestar?
- posted by Mara
Sexta-feira, Março 7
QUEM AMA NÃO MATA...
...SÓ SE NÃO QUISER!
Verdade seja dita. Ter como ídolos, pessoas comuns é mesmo uma delícia. Divertir-se e surpreender-se com alguém que jamais erra, só diz coisas bonitas, nunca está de mau humor e, se estiver, nunca descontaria em nós é, pra dizer o mínimo, muito vantajoso.
Essas são, em linhas gerais, o que esperamos daqueles que chamamos de amigos. Os donos de nossas confidências, de nossa tolerância e de nosso afeto. Poderosos e influentes em nosso existir.
Lindo. Mas, já consideraram que podemos não ser assim tão hábeis ao elegê-los? Que por mais safos e experientes que sejamos sempre haverá alguém capaz de quebrar nossa ingenuidade com capacidade inequívoca de tirar proveito dela?
Precisamos nos relacionar. E carência nem é mais substantivo. Virou verbo conjugável em qualquer que seja a categoria em que nos enquadremos. Meu cachorro sabe disso. Que dirá seres “racionais e evoluídos” como os humanos!
Temos que considerar que existem pessoas que elegem seus ídolos justamente na contramão da perfeição citada acima, apenas para legitimar sua adoração. Para supervalorizar a própria capacidade de amar até o lado imperfeito de seus idolatrados.
Sejamos claros: quando alguém que admiramos falha ao corresponder com nossas expectativas, é como se isso nos justificasse. “Se ele falhou, porque não eu, que sou tão comum?”. Por alguns minutos, temos o privilégio de superar o insuperável.
É um bom mecanismo de defesa. Tiramos de nós o pesado fardo da perfeição e de quebra nos vangloriamos de sermos benevolentes a ponto de perdoarmos pequenos deslizes.
Os “tolerantes”, entretanto, são implacáveis juízes. Armazenam aquele “pequeno deslize” no mesmo baú de lembranças ocupado por seu “imenso” ato de benevolência. Na menor necessidade, sacam a ambos e lhes atribui a inversão quantitativa conveniente.
“Ah! Mas todo mundo tem esses momentos. Desencana!” E, é justamente isso que você faz. Desencana e segue sua vida. Até descobrir que aquela mágoa que você nem lembrava mais não só existe como será jogada na sua cara.
Sabemos que essas pequenas contradições fazem parte da complexidade do existir humano. Até as justificamos. Vivemos em uma época que, alienação e a ingenuidade são defeitos existenciais.
Não nos é mais permitido sermos crédulos sem sermos tachados de idiotas. Se não vemos malícia, se não temos memória suficiente em nosso banco de dados emocionais para armazenarmos trunfos contra tudo e todos, estaremos em desvantagem quando precisarmos nos defender. Simples assim.
Esse é o ponto. Defender-se se tornou tão necessário quanto respirar. É um clima de guerra. Tudo que dissermos pode e será usado contra nós mesmos. Não acredita nisso? Cuidado, você pode ser chamado de idiota por isso!
Convenhamos: quem mais além de nossos confidentes possuem a artilharia necessária para nos atingir mortalmente? Artilharia, aliás, composta de duplo cano. Revela nossas fraquezas e ainda por cima, nos apunhala pelas costas.
Todo mundo tem seus segredos. O interesse e o acolhimento no momento que o revelamos, via de regra, são genuínos e sinceros. Entretanto, basta que alguma ranhura mais profunda se dê na superfície dessa relação para que o que dissemos seja usado impulsivamente.
E não adianta fazer essa carinha de quem se gaba de não conhecer ninguém assim. A má notícia é que se você está seguro que nunca se relaciona com pessoas assim, fatalmente ainda irá de decepcionar com alguém ou com você mesma.
A boa, é que desilusões assim costumam ser cumulativas e sedativas. Basta uma pequena seqüência de ocorrências dessa natureza para que você vá criando defesas naturais e tolerância às frustrações advindas.
Mas, afinal, se o ser humano é essencialmente bom, o que nos leva a ter atitudes tão vis justamente com pessoas que um dia alardeamos que amávamos? Porque, entre tantos desafetos, ferimos justamente quem se estabelece ao nosso lado como aliados?
A resposta não é tão simples, é claro. Mas não tão individualizada como imaginamos. Não tem essa de “cada caso, é um caso”. Essa faceta é um dom comum e a única singularidade está no oportunismo de quando usá-la
Geralmente fazemos isso quando nos sentimos magoado, desprezado, depreciado, ou não correspondido pelo outro. A tentativa é impingir a mesma dor que sentimos. Afinal, partilhamos tantas coisas, porque não partilhar a dor derradeira?
Ocorre que, dependendo da força que imprimimos nessa retaliação emocional, podemos até ser perdoados. Confiamos nisso. Apostamos inconscientemente no sentimento original que nos uniu, para salvar tudo depois.
Mas, muitas parcerias e grandes amizades se romperam porque uma das partes decidiu correr nesse arriscado teste de fidelidade emocional. Esse papo de “quem ama, perdoa” é conversa de aula de catecismo.
Falar é fácil. Acusar, mais ainda. Difícil é negar a junção do seu pensamento à fala. É provar que apesar da palavra proferida, não foi nossa intenção dizer.
Sinceramente não acredito na redenção do pedido de desculpas, a não ser para quem o pede. Esse, pode se valer de sua “grandeza” ao se assumir errado, mas jamais poderá apagar a mancha do verbo descuidado vomitado sobre quem o queria bem.
É anticristão. É anti - psicológico e, politicamente incorreto, afirmar que não existe perdão. Pois bem. Não existe. Existe desejo de manter aquela pessoa ao nosso lado apesar de sua capacidade em nos ferir. Existe verdade e resignação.
Muita gente deve seguir por aí, crendo ter sido perdoado e pode talvez ser surpreendido ao descobrir muito tempo depois que não era bem assim. Pode descobrir assustado que havia apenas municiado alguém insuspeito e querido.
Há duas escolhas: estar ou não ao lado de quem nos feriu. Sempre considerando a capacidade dele de nos ferir novamente. A opção de preservar o relacionamento não está relacionada à confiança e sim, a natureza do dano causado.
Isso sim é pessoal e intransferível. Uma pequena afronta pode ser letal, apesar de sua fraca intenção. Da mesma maneira, uma enorme traição ganha justificativas que a torna inofensiva e a consideramos apenas uma “coisa de momento”
Depois disso, faça sua escolha. Ser ingênuo e idiota, ou malicioso e oportunista. Mas, se isso for contra seus princípios lhe restará a alternativa de ser o eterno desiludido, à quem todos parecem ter o prazer de ferir.
Ou aceite de uma vez que a melhor e mais confiante companhia para você, é você mesmo! Assim, seu “melhor amigo” pensará duas vezes antes de tentar magoar você e seguirão felizes para sempre.
- posted by Mara
Quinta-feira, Março 6
FAZ PARTE DO MEU SHOW...
...FAZ??
Algumas pessoas, depois de anos de convivência comigo, ainda não foram convencidas por minha argumentação, do meu prazer em estar numa carteira escolar. Não que os fatos neguem minhas afirmações, mas simplesmente por não compartilharem das mesmas motivações.
Além disso, não é mesmo comum encontrarmos em nossa cultura (falo essencialmente da brasileira) quem encontre disposição, tempo e dinheiro para sobreviver e, ao mesmo tempo, dedicar-se ao aprendizado universitário, por exemplo.
E pior. Nunca houve e parece que nunca haverá uma campanha governamental séria que estimule, ainda que ideologicamente, a importância da educação, menos ainda, da continuidade e especialização da mesma.
Mas o fato é que contabilizando meu tempo de vida através do tempo que estive submetida a alguma instituição de ensino, sobraram- me poucos anos efetivamente fora delas.
Levando em conta que em minha época, onze desses anos, eram considerados como um curso natural para crianças de famílias da dita classe média, considero que os que se seguiram foram mesmo resultados de minha obstinação e apreço. Assim, ser estudante é uma condição que me define.
Já teci muitas teorias sobre esse tema para justificar em mim essa “anomalia”. A que reinou absoluta durante muitos anos, foi a de que meu histórico e desempenho escolar, sempre muito bom, teriam servido de estímulo adicional.
Ok. É um fato. Sempre estudei em escolas públicas, cuja demanda era tão grande que tínhamos que ser submetidos às provas de admissão. Se não fui a primeira, estava logo atrás dos primeiros e mais destacados alunos da turma.
Mas e daí? Conheço muita gente assim que ao terminar o que considerava básico e obrigatório, jogou seus livros e cadernos na lixeira mais próxima e transformou-se num feliz e satisfeito auxiliar administrativo.
Eu segui estudando. Outra hipótese e, talvez mais consistente é a de que, por não ter condições financeiras que projetassem a possibilidade de uma formação universitária, eu a tenha tomado como uma missão obstinada.
É possível. Nunca desejei ter o mesmo destino que minhas colegas de infância que se tornaram mães antes dos dezesseis anos ou passaram sua juventude secretariando médicos e dentistas. Eu queria ser estrela de Hollywood, lembram?
De qualquer maneira, concluo que seja qual for a explicação, ela jamais se esgotaria em si. Já que contrariando todos os reveze eu segui estudando.
Namorei, badalei, casei, fui mãe, mudei-me de cidade centenas de vezes, tornei-me uma aluna média, mas segui tendo colegas de classe cada vez mais novos do que eu.
Tentei até mudar o ângulo de visão na sala de aula e tornar-me professora, e tudo que consegui foi matricular-me novamente como aluna, no mesmo curso.
Então, ta. Gosto mesmo de estudar, de aprender, e das obrigações advindas de um sistema de ensino que, sabemos, é bastante questionável. Nada assim, altera meu prazer de ter mestres e extrair deles tudo que sabem.
Entretanto, a vida segue e o tempo me tornou mãe de um adolescente, agora em fase pré- vestibular. Vale dizer que nunca vivi uma fase assim. Mal terminava uma coisa e já estava na outra. Sem cursinhos, horas intermináveis de estudo ou dúvidas sobre carreiras.
Hoje, numa realidade de vida muito mais confortável do que a de minha infância, mas não menos cautelosa financeiramente, minha família e eu, estamos embatucados naquele sofrimento psíquico que envolve as escolhas que, queremos, sejam certas para o nosso “bebê”.
Ele é ambicioso. E tem uma forte carga genética e de predisposição herdada do que presenciou vivendo entre nós. Tem bastante claro que não quer para si, carreiras que entende como aquém de seu desempenho escolar até aqui. Já vi esse filme.
Sonha alto e longe. Quer estudar no Canadá. E está encarando uma carga horária absurda de estudo no investimento para esse destino. Tornou-se obcecado e chato. Mas, sem perder a alegria e a inclinação artística que sempre o definiu.
Ando me perguntando: onde errei? Num momento em que as famílias se mobilizam e transformam seus lares em grandes laboratórios de estudos e aconselhamento, meu marido e eu, estamos sofrendo de abstinência do sentimento paternal.
Nada nos tem sido exigido, a não ser a anuência e análise das condições de poder ajudá-lo a realizar seu intuito de viver e estudar fora do país. O que não é pouco. Mas, que eu trocaria fácil por alguns momentos de “mãe de vestibulando” com suas neuras exageradas.
A questão central é: lógico que o queremos próximo a nós. É nosso filho único. Lógico que o queremos numa escolha que o faça feliz e que resulte no êxito que ele tanto deseja.
Mas, como qualquer outra mãe, queria que ele tivesse optado por um destino diferente e mais emocionante que o meu. Andar na contramão do habitual pode parecer um privilégio, mas acreditem, é só mais uma face da mesma moeda.
Para alguém que aprendeu a ler e a escrever espontânea e solitariamente aos quatro anos, pensamos que a previsão de uma pausa para diversão seria muito bem vinda. Mas como demovê-lo dessa idéia?
Temos os meses que nos resta até o final desse ano para nos convencer ou convencer á ele de que tomamos a decisão mais acertada. Até lá, como uma filha indisciplinada, sigo tentando de todas as maneiras, levá-lo para o mau caminho.
Dou-lhe tarefas como: editar meu programa de TV, ajudar-me em análises de filmes em DVD e, num golpe baixíssimo, tornei-me uma mãe carente que vive reclamando que não tem companhia para ir ao shopping, festas e debates sobre programas de TV.
Tem funcionado. Ao menos até que ele leia esse post. Mas, não é mesmo muito curioso que isso ocorra justamente num momento em que leio a notícia que um garoto de apenas oito anos foi aprovado num curso de Direito numa Universidade paga do nosso país?
E pensar que quando meu filho tinha oito anos eu ganhei a fama de mãe irascível por não ter permitido que o adiantasse um ano no ensino fundamental, justamente por acreditar que ele deveria cumprir corretamente as etapas da vida?
Das duas, uma. Ou o ensino no Brasil virou mesmo brincadeira de criança ou ando precisando rever meus conceitos e matricular-me com meu filho numa Universidade qualquer no Canadá. Façam suas apostas!
*texto sem correção
- posted by Mara
Quarta-feira, Março 5
FALA AÍ, DOUTOR...
QUAL A VERDADE?
“Fiquei horas diante de um monitor em branco. Meu teclado nunca me pareceu tão inexpressivo. Por mais que eu buscasse, a inspiração permanecia e, permanece até agora, escondida em algum lugar inalcançável da minha mente.”
Assim começava o post que eu ensaiei escrever para o dia de hoje. E, na síntese dessas três linhas, se encerra o maior sofrimento psíquico sofrido por mim desde que tinha dezessete anos e descobri que jamais poderia ser estrela de Hollywood.
Pertenço á geração Rede Globo. Surgi em uma nave espacial cenográfica trazida pelas mãos por uma rainha loira e alta e de seus assistentes de palco de oito braços.
Tirei dúvidas sobre questões sexuais com a ajuda da, imaginem vocês, Marta Suplicy e sonhava casar com um vestido desenhado por Clodovil. Aprendi conceitos sobre a escravidão com Lucélia Santos e sobre a maldade, com Rubens de Falco.
Acreditei no amor vencendo diferenças sociais na torcida pelo amor da babá pelo patrão e que poderíamos vencer na vida vendendo sanduíches na praia ou recolhendo sucata. A Globo foi minha babá e minha professora.
Do fato de, no início, ser a única emissora com qualidade de transmissão suficiente para se sustentar no velho televisor Telefunken da minha mãe, passando pelo inequívoco padrão de qualidade do núcleo de teledramaturgia e seguindo até seu poder fogo na cobertura jornalística.
Tenho uma relação de amor e ódio com a Rede Globo. Na faculdade de Jornalismo esse amor foi posto em cheque. Ensinaram-nos sobre manipulação, corrupção, lei do mais forte e principalmente, hegemonia midiática. Ninguem pode acusá-los de não tentar!
Mesmo assim, o ódio nunca chegou realmente a se configurar. Pós graduaram-me ás custas da carreira de um filho legítimo da emissora: Pedro Bial, que só não foi mais importante para minha consagração acadêmica que seu padrinho profissional, Roberto Marinho.
Muito tempo passou e Xuxa não usa mais as ridículas “chuquinhas”. Sua nave espacial perdeu espaço para o rocambole de carne da Ana Maria Braga. Clodovil coloriu o planalto e Marta Suplicy gozou na cara de todos nós. Não sem antes, ensinar-nos a relaxar antes de fazer o mesmo.
Depois da abolição, Isaura mudou-se para os EUA e virou apresentadora de Reality Show, onde dita regras de convivência entre vizinhos sem especificação de raças. Rubens de Falco morreu abandonado, destino de todo vilão da dramaturgia global.
A gripe aviária tirou de circulação o carro chefe dos sanduíches vendidos na praia, levando os empresários do sanduba de frango à falência. E sucata virou termo presidencial pra definir nossos automóveis.
Ah! De tudo isso ficou o aprendizado útil de que babá também pode ser má, barrigas podem ser alugadas e que o Rio de Janeiro continua lindo, apesar de violento, perigoso e de estar nas mãos de traficantes.
Alexandre Garcia não foi demitido por falar mal dos “mensaleiros”, como imaginavam e até desejavam os crédulos brasileiros. E na briga pela audiência, o surgimento dos canais de jornalismo na TV paga, ainda não superaram o Domingão do Faustão.
Roberto Marinho morreu. Você não sabia? Andam dizendo que agora quem manda é o Boni. Irreverente, ousado, poderoso e competente. Olhem bem: Eu disse Boni e não Bonner.
Aliás, esse último, finalmente provou que tem pernas. Saiu de corpo inteiro de ônibus pelo país provando que nosso país é pobre mesmo. Junto com quem? Com Pedro Bial. Ele mesmo. Meu ídolo no jornalismo.
Alto, pinta de galã, sorriso sedutor e mau gosto pra se vestir misturado á uma inquestionável competência como correspondente de guerra. Graças ao Fantástico, eu sempre soube que o Bial tinha pernas. Nisso, ninguém tentou me enganar!
Só não sabia que ele usava sandálias do tipo “Franciscana”. Tudo bem. Afinal, ele voltou (e de sandálias) na intimidade, convidando-me a dar uma espiadinha. Aceitei. Espiei uma, duas vezes e depois parei.
Achei que era o suficiente pra me fazer testemunha de uma virada histórica do rançoso formato da gigante Rede Globo. Mas, não foi. Vieram mais cinco demonstrações de que a para a emissora, não basta virar. Tem que causar.
Em linhas gerais, o defunto do falecido criador da emissora deve mesmo estar dando cambalhotas no caixão. Rejubilando-se de seus pupilos e preparando algum jovem jornalista com ginga carioca para escrever sua biografia psicografada.
Na ausência de jovens brasileiros crédulos como eu fui um dia, os caça talentos da emissora, foram buscar no estrangeiro os participantes da atual novela BBB. Trouxeram também um legítimo conhecedor das psicopatologias catalogadas pela medicina.
Reverenciado por cinqüenta por cento dos telespectadores, também especialistas em comportamento humano, esse jovem médico legitima a opinião pública, aumenta o faturamento de blogs especializados e alimenta a catarse emocional dos que antes, se divertiam com o ingênuo “Linha Direta”.
Nem o controle remoto consegue mudar essa realidade. Depois disso tudo, concluo: A culpa é da minha mãe. Dona Tereza nunca se assumiu em sua insignificante condição de brasileira de classe média baixa e por essa razão comprou um televisor num passado remoto.
Pena que o tal aspirante a Psiquiatra do programa, ao sair da “casa mais vigiada do Brasil”, será mais um daqueles heróis inacessíveis. Não fosse isso, talvez eu o contratasse para atender minha mãezinha afim de convencê-la, sem preâmbulos, que ela precisa “curar” essa mancha pecaminosa de seu passado.
Talvez eu me candidate ao próximo BBB. Dispute com blogueiros e tenha a oportunidade e patrocínio da Rede Globo para dizer á eles o que penso dessa incitação irresponsável da violência, da tortura psicológica e os faça assumir o que são. Tudo em nome da amizade que nos une, é claro.
Não concordam comigo? Reajam! Sejam homens! Gastem todas as suas economias votando MUITO para que os outros 50% da população do Brasil peça pra sair. Peçam ajuda ao Comandante Nascimento, que por sinal, agora também é Global.
* Tudo, no post acima é material fictício e não corresponde necessariamente com a verdade.
- posted by Mara
Terça-feira, Março 4
EXISTE SEMPRE A OPÇÃO...
...DE LAVAR AS MÃOS!
Sou uma pessoa que pensa muito. Não se trata de soberba com caráter excludente, que julga quem não é assim como alguém menos capaz de emparelhar os sentidos ao pensamento.
O que quero dizer é que antes mesmo de me fazer psicóloga eu já havia desenvolvido o hábito de examinar exaustiva e solitariamente detalhes de situações que, para a maioria, passariam despercebidos.
Isso não faz de mim alguém mais perspicaz ou mais atenta do que os demais. Ao contrário, na exaustiva dedicação aos detalhes amplia-se a possibilidade de muitos outros se perderem enquanto não lhes dou atenção.
Esse fato, eu sei, me atribui outras características. Sou demasiadamente desatenta com rótulos, clichês, frases vazias e tenho sempre uma visão ampla das coisas e das pessoas. Visão que traz embutida, quase sempre, justificativas invisíveis a olho nu.
Um gesto, um olhar, uma frase dita num momento específico e até mesmo uma atitude frente a uma situação peculiar, geralmente me basta para que eu tenha uma visão quase antecipatória de como determinada pessoa se posiciona na vida.
Num primeiro momento, imagina-se que uma capacidade assim apresenta-se como um “dom” que, em linhas gerais, facilita relacionamentos e impede equívocos na análise das personalidades com as quais convivo.
Não é bem assim. Se profissionalmente isso diminui o tempo geralmente necessário para construção da relação, na vida, esse “dom” se transforma num fardo pesadíssimo. Sabe o que é supervalorizar pequenos gestos, numa sociedade onde só os grandes feitos merecem destaque?
Ter o hábito de compreender gestos, muitas vezes horríveis, apenas porque o julga em harmonia com aquele que o praticou? Ou, então, jamais se surpreender ou ficar demasiadamente decepcionada diante de fatos que chocariam qualquer pessoa?
Tenho péssima memória para nomes, datas e até fatos inteiros que me são relatados. É como se minha mente estivesse constantemente abarrotada de informações do tipo sensitivas. Minha mente é um armazém de impressões e sensações.
O resultado disso é que geralmente esqueço qual fato me causou algum dissabor, mas jamais desaparecerá a sensação que aquilo ou aquela pessoa me impingiu. Geralmente é o suficiente pra determinar a distância que colocarei entre mim e aquela situação.
Costumo dizer que me reservo o direito de não desejar me relacionar com aquilo que me maltrata. Mas, o fardo está no fato de que sempre haverá uma coisa ou outra que nos maltratará independente de onde venha.
Para isso, basta que não estejamos bem. Basta que nos pegue naqueles momentos em que baixamos nossa guarda e nos entregamos. Sim, porque isso não é exclusivo dos que não são analistas de comportamento. Todos nós temos momentos em que nos ofertamos sem reservas.
Ocorre que, na outra ponta dos relacionamentos, sempre poderá haver alguém que se especializou em usufruir desses nossos momentos. Pessoas que parecem viver a espera do momento ideal para apropriar-se do fato de estarmos desarmados.
São pessoas más? Claro que não. Quem resistiria em transpor muros defensivos e invadir o desconhecido quando se tem uma chance? Quem não se sentiria o máximo por ter conseguido aquilo que muitos tentaram e fracassaram?
Parece uma faceta estranha e feia da psique humana e é. Desse jogo de oportunidades e oportunismos se fez guerras, atentados terroristas, torturas psicológicas e, elegeu e entregou à humanidade, gênios estrategistas e ditadores.
Somos falhos e nossas fraquezas são produtos de luxo a mercê na luta pelo poder, por qualquer tipo de poder. O mercado financeiro, a medicina, a sociologia, a educação, enfim, tudo na vida, é fruto da supremacia do melhor em detrimento do menos favorecido.
Ando meio assustada com o rumo que a nossa sociedade está trilhando no que diz respeito à solidariedade, generosidade e afeição pelas fraquezas humanas. Não fosse só isso, também a evitação de conflitos têm sido encarada como defeito.
Têm se coroado a agressividade, o enfrentamento pelo confronto direto e a desmoralização do outro. A passividade e o desejo de não-conflito passaram a ser sinônimo de covardia e falta de atitude. Pior, o choque entre essas características têm sido ofertado como diversão.
Tenho me sentido excluída por alimentar em mim valores arcaicos de valorização das relações humanas. Por ainda acreditar que o vilão deveria ser julgado senão no processo, ao menos, no último capítulo.
E nem vale dizer que não existem vilões ou mocinhos. Que a linha que os separa é fictícia e oscilante. Ainda que não atribuamos o conceito de bem e mau, jamais deveríamos nos esquecer das vítimas.
Ao contrário, tenho assistido uma inversão alarmante. As vítimas tornaram-se responsáveis por terem se tornado vítimas. Como se seus comportamentos passivos diante da agressão os fizesse merecedores de tal conseqüência.
Sei que muitos não concordarão comigo. Mas, sinceramente, não acho que alguém mereça ser alvo de difamações, execrações públicas e até de violências psicológicas e/ou físicas, apenas porque não souberam se proteger ou esquivar-se delas.
Menos ainda, tão somente porque na busca de seus objetivos, por mais medíocres que sejam, tenham se colocado voluntariamente na mira desses elementos. Ninguém espera o pior de ninguém até que o pior aconteça.
Por trás dessa voluntariedade há sempre a expectativa de que saiamos ilesos. Há sempre a esperança de sermos aceitos pelo que somos.
Temo pelo mundo que aguarda meu filho. O que, obviamente, não invalida minha decisão de tê-lo tido.
Talvez, fosse eu alguém com pensamento contrário á esse que descrevi no desabafo acima, eu tivesse trocado a opção de ser mãe pela oportuna possibilidade de me tornar alguém agressivamente vencedora em outras áreas.
Fosse eu uma pessoa diferente do que sou, talvez, tivesse antecipado os riscos que, ao crescer, meu filho encontraria ao esbarrar em gente com esse perfil.
Ao contrário, voluntariamente o gerei, coloquei no mundo e criei à sombra do que acredito. Isso o torna inevitavelmente culpado se um dia se fizer vítima de alguém esperto o suficiente para se agigantar diante da “pequenez” da alma generosa e humanitária que ele desenvolveu.
Que Deus o proteja! E o poupe da tentação de desejar ser diferente apenas para ser coroado vencedor.
- posted by Mara
Segunda-feira, Março 3
SÓ PARA ACOMPANHAR...
TODO O RESTO É COM VOCÊS!
Ontem, durante um almoço de família, meu olhar se perdeu na contemplação da pequena porção de arroz branco e soltinho no canto do prato. Por alguns minutos, resumi muitos dias de minha vida naquele carinho branco, feito por minha irmã mais velha.
Ninguém prepara um arroz como ela. E, ninguém mais é tão fanática pelo tal arroz quanto eu. Foi esse fato que detonou meu devaneio, quase uma abstração, enquanto olhava meu prato.
Pensei em como uma coisa tão rotineira e comum pode trazer em si tantos significados. Também sei cozinhar arroz e como fazê-lo foi um resultado da observação contínua de muitos e muitos anos de convivência. Aprendi com ela.
Mas, meu arroz é um simples arroz. Algo que faço pra acompanhar o feijão e que em nossa brasilidade jamais pode faltar à mesa. Nunca pude competir com ela. Na verdade, nunca tentei.
E porque o faria se ao menor sinal ela está sempre pronta a fazê-lo pra me agradar? Em seguida, ainda com os olhos fixos no arroz em meu prato, me ocorreu: como pode ser que uma coisa que como há tantos anos não tenha se tornado banal a ponto de desvalorizá-la?
Acabei a refeição que, por fim, em detrimento de todas as outras delícias à mesa, resumiu-se apenas naquela porção de arroz. Foi uma homenagem inconsciente. Uma maneira de dizer que aquele arroz e, o que representa pra nós, me bastava.
Toda essa reflexão gastronômica, como era de se esperar, resultou em uma natural associação da mesma com as que, rotineiramente, faço com as atitudes humanas. E, obviamente, na pergunta inevitável: temos fome de quê?
Aquele arroz elucida minha resposta. Tenho fome de coisas simples, básicas, rotineiras, muitas vezes nem valorizada, que compõem nosso existir e que algumas pessoas fazem melhor do que as outras. E que qualquer um é capaz de aprender a fazer.
Tenho fome de coisas que associadas às outras podem até passar despercebidas, sem nunca perder seu valor unitário. Que são complementos, mas que caem muito bem isoladamente.
Escrever nesse espaço virtual começou como um grande banquete. Servido com o requinte e a satisfação típica dos grandes buffets. Cheguei a sentir-me como um “Chef” recluso em sua cozinha à espera do reconhecimento dos gourmets.
Entretanto, o ato de comer é uma necessidade. Pode até ser transformado em ritual ou cerimônia e ser mesclado com lazer, mas na presença da mínima ameaça de abstinência, comer perde o glamour que dá lugar à urgência.
Posso afirmar, sem modéstia, que sou capaz de escrever sobre qualquer coisa. A mesma modéstia me impede de achar que, por mais elaborado que seja meu texto, ele nunca será apreciado da mesma maneira por todos.
Entretanto, o prazer inenarrável de ser elogiado, querido, aceito e correspondido em nossas intenções é sempre um prêmio desejável. Da mesma maneira, o temor de viver o contrário disso tudo é proporcionalmente indescritível.
Nunca planejei ou almejei ser uma unanimidade. Sempre vi esse espaço como o arroz feito por minha irmã. Restrito ao ambiente familiar, apreciado apenas por quem acrescenta a ele, um mote enorme de afetividade.
Meus textos são a refrigeração do meu cérebro. São as pastas onde organizo o amontoado de informações, sensações e emoções que me invadem por todos meus sentidos.
Servi-lo aqui, no infinito da virtualidade, torna-o um patrimônio público. Uma espécie de “self service” para consumo democrático. São feitos por mim, o que de maneira alguma, tira dele a autoria ou a responsabilidade pela mesma.
Como minha irmã, eu nunca pensei ser necessário incrementá-lo, mudá-lo ou mesmo fazer dele o prato principal. E sempre me surpreende quando alguém para quem nunca ofertei, o consome diversas e repetidas vezes, num claro sinal de aprovação.
“É apenas um arroz, penso”. Que por acaso algumas pessoas apreciam, outras declinam e outros ainda simplesmente ignoram. Há ainda os que o rejeita sem ao menos prová-lo. Porque, então, não haveria os que apesar de prová-lo sempre, não se simpatizam?
Ontem observei minha irmã quando pela milésima vez a elogiávamos por seu arroz. Ao contrario de calar-se assentindo, ela sempre dispara uma série de defeitos que só ela vê, enumerando os diversos empecilhos que encontrou em fazê-lo ficar bom como gostaria.
Ela não percebe que não é o arroz. É apenas ela. Que não importa como, naquele dia, está seu arroz, e sim que foi ela quem o preparou. E que o que o faz tão especial, é a consciência que temos que a única coisa que está sempre certo na receita, é ela mesma.
Sei que cada um dos que comenta aqui, tem maneiras diferentes de preparar um arroz. Uns improvisam, outros têm receita tradicionais e infalíveis. Mas a maioria, para não dizer todos, prepara e serve o melhor arroz que lhes é possível preparar.
Nessa analogia entre arroz e comentários, o ponto comum, é quem e para quem o fazemos. Essa diversificação de opiniões, advindo de distintos currículos de vida é que transforma esse nosso encontro um banquete pra ninguém botar defeito.
Podemos escolher o que iremos digerir. Entre todos, pinçar o que mais nos apetece e ainda, nos reservarmos o direito de explicar as razões pelas quais, declinamos dessa ou daquela iguaria.
Se existe um desejo intrínseco ao meu ato de escrever, é o de que esse meu “arroz” seja reconhecido não por seu valor nutricional ou reducionista como alimento de destaque à mesa, e sim como complemento.
Como ponto de partida para que, no fim, possamos servir aquela comidinha caseira e farta, com gosto de lar. Essa liberdade na escolha do que nos alimentará é o que compõe cada item de nosso cardápio e o torna tão especial e seletivo.
A abertura para acrescer ou subtrair elementos na busca para aprimorar o sabor é o que faz o meu “arroz” ser tão simplesmente um arroz.
Decliná-lo, complementá-lo, ou consumi-lo não deve ser um simples hábito e sim uma expressão do nosso desejo de fazê-lo ser apenas um motivo a mais para nos reunirmos e estreitarmos os laços que faz de nós uma família.