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"Não conseguimos controlar as más linguas dos outros, mas uma vida decente nos capacita a desprezá-las." Cato, o Velho (234 AC - 149 AC)


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Presente da Nina

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Sábado, Dezembro 27

NOSSOS PASSOS PELO CHÃO...


...VÃO FICAR!



São Longuinho, São Longuinho...

Acredite, ás vezes funciona. Mas, não basta apenas repetir como um mantra, sentada confortavelmente na poltrona da sala. É necessário um mínimo esforço, alguma demonstração de que o “objeto” perdido está sendo procurado.

Já fiz muitas promessas de “pulinhos” ao longo de minha vida. Já fiz buscas incansáveis não apenas de coisas desaparecidas, mas também de pessoas e até sentimento. Aliás, algumas delas eu jamais encontrei e a promessa foi em vão.

Há outras coisas, porém, que nem precisei prometer coisa alguma. Misteriosamente voltaram a bater em minha porta sem que eu, ao menos, me desse conta de que elas haviam desaparecido.

É simples assim. Um giro em volta de si mesmo e pronto: voltamos ao ponto de partida.

Em 2009 quero reter tudo que puder para não ter que perder muito tempo em busca do que nunca deveria ter se afastado. Para ter tempo de esbarrar em coisas, pessoas e experiências novas.

Não quero mais o efêmero. Quero a permanência, a constância e o familiar recepcionando tudo que há de vir. Quero encontrar futuro no confortável e seguro aconchego do que sei que já me pertence.

Quero inventar novos pratos à base de arroz e feijão, experimentar novos sabores de café, fazer exercícios novos calçando meus velhos tênis, assistir os filhotes do meu cachorro, transformarem-se em adultos, mesmo que não cresçam nenhum centímetro.

Quero olhar para os mesmos olhos e, neles, descobrir um novo brilho. Sorrir um sorriso novo com os mesmos dentes e abraçar os mesmos abraços e todos aqueles que eles também abraçarem.

Quero seguir na mesma trilha, mas percorrer distâncias ainda mais longas. Espero sentir mais gotas de chuva molhar o meu rosto, mas permanecer na certeza de que o sol as secará em seguida.

Em 2009 quero que 2008 seja lembrado com amor, mas esquecido diante da promessa de dias melhores. Quero acreditar em citações, sobretudo, aquelas sem autores que são repetidas por minha mãe.

Quero acompanhar meu filho em seu primeiro dia de aula, comer bacalhau na semana santa, feijoada no dia das mães, ganhar ovos na páscoa e provar um bocado de neve, só para vê-la derreter em minha boca.

Quero reaprender português com minhas afilhadas argentinas, sobrevoar muitas cidades e me indignar com os atrasos das companhias aéreas. Quero fazer muitas malas e, nelas, colocar apenas o necessário.

Não pretendo plantar uma árvore, mas prometo não maltratar nenhuma já existente. Lerei muitos e-books, mas não esquecerei as páginas que já li. Talvez escreva alguma.

Não terei mais filhos, mas dos filhos deste solo e dos demais, serei mãe gentil.

Enfim, no próximo ano, quero fazer exatamente o que fiz nesse que está acabando e ainda ter tempo pra acumular coisas que levarei para o seguinte.

E a quem esteve comigo, vou logo aconselhando: aceite logo o fato de que jamais poderá mudar esse fato e, se não pretende manter as coisas assim, tome uma distância segura, porque não vou te perder outra vez!

É. O ano de 2009 será de muito trabalho! Mas, sou gigante por minha própria natureza e verão que não fujo a luta e que farei tudo para que o futuro espelhe toda essa grandeza!

Assim, feliz 2009, Brasil!


- posted by Mara


Domingo, Dezembro 21

POR UMA NOITE APENAS...


...E NADA MAIS!



Então é Natal! E o que você fez?

Incrível como tem gente que pensa exatamente assim, não é mesmo? Que aguarda essa data pra rever, arrepender ou justificar as atitudes cristãs esperadas. Pois bem, Que assim seja. Amém!

Antes tarde do que nunca. Já que em muitos casos, nem a época natalina serve como inspiração ou quiçá para evocar, ainda que momentaneamente, comportamentos adequados.

No balanço que faço de mim mesma, concluo que saí no positivo. Fiz mais amigos que perdi, chorei mais do que fiz chorar, me preocupei mais do que causei preocupações e, finalmente, acreditei mais do que desconfiei dos gestos que me alvejaram, desde o Natal passado.

Certamente isso não me garantirá um lugar no céu, mas me colocará bem mais longe dos que podem, com suas personalidades, me aproximar do purgatório. Daí pra frente é comigo.

Ser bom é uma grande e ingrata responsabilidade. Não dá ibope nem provoca espanto. Traz mais ônus do que louros e nos coloca bem menos popular se levarmos em conta a quantidade e não a qualidade do que queremos ao nosso redor.

Agora, ser bom apenas nessa época do ano é vergonhoso e muito caro. Distribuir presentinhos, votos de felicidade em cartões da UNICEF e distribuir cestas básicas, se computados, no final, pode trazer uma grande soma para quem não está acostumado.

Por essas e outras é que o Papai Noel desaparece no restante do ano. Penso que ele deve usar os meses subseqüentes tentando restaurar sua personalidade e sua conta bancária.

Mesmo assim, essa época é mesmo linda. Cheia de luzes, sorrisos e sentimentos de união. Confesso que adoro as decorações dos shoppings, as propagandas da TV e o velhinho bondoso sentado naquele trono distribuindo balinhas.

Não foi um ano muito glorioso, mas isso eu vou rever apenas nas vésperas do Ano Novo. Até lá, vou carregar meu fardo de aceitar todo tipo de abraço advindo de todo tipo de pessoa. Dos genuínos aos sazonais.

Na noite propriamente dita, vou vestir minha melhor roupa, adornar meus cachorrinhos com seus acessórios verdes e vermelhos, colocar os presentes sob a árvore e comer muita castanha e rabanada.

Aguardar a chegada do Papai Noel de aluguel, ver o sorriso das crianças, ouvir músicas natalinas e, depois, dormir o sono dos justos e redimidos. Afinal, posso não me orgulhar de tudo que fiz até o tal dia, mas posso me programar para vivê-lo “como manda o figurino”.

Daí então, no dia seguinte, vou rezar para que os dias que anunciam o final desse ano possam ser tão esperançosos quanto os que se seguirão ao nascimento do próximo.
Natal é um hiato. Um espaço no tempo em que negamos muito do que fomos e desejamos mais do que podemos ter.

Assim, não desejo um feliz Natal e sim um feliz encontro com aquilo que realmente somos, para a partir daí, tentarmos ser um pouco melhores.

O menino Jesus? Bem, como todo aniversariante, Ele deve estar ansioso para que sejamos todos merecedores de comemorar com ele!


- posted by Mara


Domingo, Dezembro 14

A ARTE DE SORRIR...


...SE O MUNDO DIZ: NÃO!


É, pra dizer o mínimo, esperançoso dizer que “a esperança é a última que morre”. Mas, convenhamos, é também, proporcionalmente desanimador saber que independente disso, para a esperança, a morte é a única certeza.

Por muito tempo atribuiu-se à esperança o poder de modificar o futuro, refazer destinos estatisticamente comprovados ou de, ao menos, modificá-los a partir do simples projeto de tê-la.

Eu tive uma amiga quando criança que se chamava Esperança. Dividíamos a mesma rua no mesmo bairro de casas populares, e tanto eu quanto nossos amigos dividíamos o privilégio de sermos muito próximos da “Esperança”.

Tínhamos, levando em conta a realidade em que estávamos inseridos, a mesma projeção de futuro, apesar de nossos sonhos distintos. Distintos em categoria, mas, similares em proporção, vale dizer.

A vida tratou de alterar o que parecia inevitável e cada um de nós tomou um rumo diferente. Infelizmente, a maioria deles cumpriu sua missão estatística e permaneceu ou padeceu sob a mira da desigualdade social ou da criminalidade.

A Esperança, por exemplo, tornou-se mãe aos catorze anos. Amasiou-se a um segundo companheiro viciado em drogas aos dezessete, para finalmente casar-se com um terceiro, aos vinte e quatro, quando somava a incrível contagem de seis filhos.

Apanhou, perdeu os dentes para o desleixo de sua realidade socioeconômica, engordou e sua pele envelheceu antes mesmo de seu útero se tornar improdutivo. Nunca terminou a escola primária e jamais se mudou da casa onde nasceu.

A Esperança, portanto, não morreu. Mas, vista do ângulo em que estou é como se tivesse morrido, já que eu, na contramão desse destino de minha amiga Esperança, tratei de rumar minha vida para fora do alcance do universo da própria.

Logo eu que, entre todos, era a que menos nutria esperanças. Logo eu que nunca fui autorizada por minha mãe a pensar além do dia ou da refeição seguinte. Esperança era filha única e eu, a sétima filha de uma viúva cuja vida foi ceifada por um marido inconseqüente e mau.

No passado, Anthony Scioli um professor de psicologia nos Estados Unidos, afirmou que a esperança é uma habilidade que pode ser adquirida e tem múltiplas facetas a serem cultivadas.

Ele reforça que os esperançosos revelam-se propensos a serem mais confiantes, abertos e motivados do que os outros, e que com isso, o mundo lhe retribui dando-lhes características mais otimistas.

Ela estaria associada a virtudes como paciência, gratidão, caridade e fé. Na avaliação dele "Viver com esperança é a base para conquistar o verdadeiro sucesso, construir relacionamentos amorosos e obter uma genuína sensação de paz".

Será? Concordo que, ás vezes, uma esperançazinha aqui e ali pode servir como “apaziguador” de ânimos em momentos de crise. Mas, quem nunca experimentou a sensação de ter esperança em algo que jamais se concretizou?

Quem já viveu algo assim, sabe. Esse golpe em nossa “fé” nos joga diretamente no abismo insondável da busca por respostas. E essas respostas, nunca encontradas, nos submetem a um sem número de especulações de autocrítica. Ou seja, a culpa!

Se perdermos o emprego, se somos traídos por um amigo querido, se desenvolvemos um câncer, ou se perdemos alguém, em algum momento, inadvertidamente iremos questionar nosso “papel” nessas desgraças.

O fato é que, se procurarmos muito e indefinidamente iremos encontrar. Não apenas razões que justifiquem as fatalidades, mas também que dêem sentido a elas, através de um suposto merecimento nosso.

Vou logo avisando: eu me amo. Jamais, em tempo algum, eu seria capaz de causar qualquer coisa que me fizesse mal ou me deixasse infeliz. Entretanto, muitas vezes tive que assumir minha co-autoria nesses processos.

Nem por isso julgo que mereci ou, neguei a intenção de outros em tornar esses eventos piores do que realmente foram. Tratei de aprender. Sofri, esperneei, blasfemei e me senti a última dos últimos, como qualquer ser humano, mas luto bravamente para não incidir no mesmo erro.

Minha amiga Esperança fez o caminho oposto. E não há circunstâncias sociais, econômicas, espirituais, astrológicas ou existenciais que anulem o fato de ela ter tido sim uma opção que foi rejeitada em detrimento da que escolheu viver.

A dez dias do Natal, o que mais se fala é em esperança e não resisti ao tema e a lembrança dessa minha passagem da infância. Pensei em quantas coisas mudaram desde então. O quanto a “Esperança”, hoje, faz parte de um passado distante e sem volta.

Tenho notícias que a Esperança- minha amiga- continua sorrindo por aí com seu sorriso sem dentes, ao lado de seus seis filhos adultos e seus netos sem pai.

Mas, continua viva, seja lá o que isso significa. Pode ser que isso seja suficiente!



- posted by Mara


Segunda-feira, Dezembro 8

QUE ESCORRE DA BOCA...


...FEITO MEL!


O que é talento? Em linhas gerais, eu resumiria como: qualquer coisa que é realizada como se nenhum esforço fosse necessário. Que é natural e óbvio como respirar.

O que é beleza? Seria qualquer coisa tão agradável de ver que independente da forma ou cor, qualquer olhar jamais ousaria desviar-se? Algo tão harmônico que qualquer definição não seria suficiente?

Parece que, em resumo, características assim têm em comum a não necessidade de muitas definições ou debates para encontrar a unanimidade. São o que são e ninguém discute.

Pensem em alguém que resuma em si mesmo as duas qualidades acima e, ainda por cima, detenha outras como, simpatia, competência, humildade e um histórico pessoal impecável.

Imaginaram? Agora, imaginem duas pessoas assim e as junte em um só propósito. Dá pra calcular o resultado, não é? Pois é. A Marília Pêra calculou, realizou e quem saiu ganhando é quem pode pagar pra ver.

Eu paguei e valeu cada centavo ainda que não concorde muito que coisas assim sejam tão elitizadas. Aliás, essa é a única lamentação. Pena que muita gente não pode ter o mesmo privilégio.

É, de fato, um DOCE DELEITE. E o nome já define inequivocamente o espetáculo estrelado por Camila Morgado e Reinaldo Gianecchini em cartaz atualmente no Tetaro Raul Cortez em São Paulo.

Devo estar chegando atrasada já que o espetáculo já excursionou pelo Brasil afora. Mesmo assim, nada diminui o espanto, a diversão e a necessidade de se reforçar sempre aquilo que é realmente valoroso.

Camila consegue a proeza de resumir em um corpo miúdo e delicado uma força tão grande que toma o palco todo, a platéia e ainda nos sobre um pouco para levarmos pra casa.

Lindos olhos azuis, pele alva, sorriso tranqüilo e um vozerão que assusta qualquer marmanjo. A capacidade de travestir seus personagens nos faz esquecer qualquer coisa que tenhamos ouvido sobre interpretação. Seu sobrenome é “talento”.

Gianeccini é deslumbrante. Dono de um corpo e de um sorriso de colocar em dúvida qualquer voto de castidade. Confesso que não esperava ver mais do que isso. Entretanto, quem poderia imaginar que esses seriam apenas detalhes?

A combinação, a química entre eles é tão avassaladora que é possível ficar horas sentada na pior cadeira do teatro, recusar-se a sorrir por se estar em um mal dia, irritar-se com o “cabeção” da poltrona da frente e ainda assim, lamentar ao final do espetáculo.

Camila é doce e Gianecchini é puro deleite. Ou vice versa. Aliás, o “versa” é o que mais acontece na hora e meia de espetáculo. Entre a troca de figurinos, os “cacos” acrescidos nos momentos de ligação, desfrutamos de ambos literalmente despidos de qualquer ranço televisivo ou das passarelas.

Quem não viu, deveria ver. Quem viu, sabe bem do que estou falando. Se houver uma oportunidade, não percam. Deleitem-se...



- posted by Mara


Quinta-feira, Dezembro 4

O NOSSO AMOR ...


...NA ÚLTIMA ASTRONAVE!


É assim. Um dia você acorda e se dá conta de que fez tudo errado. Amou, trabalhou, dormiu, comeu, chorou e até pediu demais. A sensação de que tudo está em desordem e sem chances de recuperação é inevitável e desesperadora.

Daí, em outro dia, seu despertar acontece como uma brisa suave depois de um calor intenso. Tudo parece comungar com o êxtase de se estar vivo e cheio de planos. Os fatos se sucedem numa seqüência natural, divertida e sem esforço.

O irônico é que assim como nas estrofes acima geralmente não existe espaço-tempo separando um dia do outro. São as soluções apresentadas para que a vida não se torne tão cruel que não possa ser suportada, nem tão enfadonha que não mereça insistência.

Mas, seja qual for a tônica, é fato que o momento em que estamos é sempre o mais importante de nossas vidas e tendemos a enfatizá-lo, valorizá-lo até o limite do suportável.

Quem nunca viveu um dia, cujas horas fossem insuportavelmente lentas ou aceleradas? Dias em que não há tempo para nada ou que o tempo se recusa a passar. Quem nunca desejou prolongar ou estancar um momento especialmente adverso?

Quem é mãe sabe. Nada é tão moroso e pesado quanto um trabalho de parto. Mas, poucas coisas nós gostaríamos tanto que jamais passasse quanto ele, já que indica que finalmente teremos nosso tão sonhado bebê.

No espaço de um segundo fazemos amizades, ganhamos dinheiro, perdemos um ente querido, realizamos um sonho e desperdiçamos uma oportunidade. No minuto seguinte tudo isso será passado e estamos autorizados a fazer tudo novamente.

Este ano tivemos eleições e eleitos históricos no poder público, seqüestros e bandidos que ganharam notoriedade mundial, tragédias naturais e econômicas, avanços e retrocessos na medicina, na sociedade e na grande mídia.

Mas, tudo isso já é passado ou será antes mesmo que eu acabe de escrever essa frase.

“Se esquadrinharmos o passado, poderemos notar que a sorte sempre esteve muito presente em todos os grandes projetos da evolução.”

A frase é do autor principal do artigo publicado na Science, Stephen Brusatte, pesquisador do Museu Americano de História Natural nos dá conta de que a longa permanência dos dinossauros na Terra pode estar mais relacionada à casualidade que à superioridade.

Mesmo assim, ainda há quem pense que os fatos relacionados acima são apenas um processo do qual retiraremos experiência que nos garantirá no planeta. Que nossa suposta inteligência nada tem a ver com os rumos para os quais estamos seguindo.

Esse final de ano terá sabor de contenção financeira, da lama que escorre e se acumula na sala de estar de famílias das mais diversas classes sociais, da cama vazia no quarto adolescente em Santo André e do quarto infantil na casa dos Nardoni.

Terá as cores da solidariedade sazonal e de oportunismo midiático. Da esperança política e da supremacia do marketing pessoal.

E eu acordei diferente de ontem e de amanhã, revezando os sentimentos na tentativa de cumprir uma missão que nem sei ao certo qual é. Mas que existe, existe!

Se Stephen Brusatte estiver certo podemos contar com a sorte e com que os vinte e sete dias que nos separam do próximo ano sejam suficientes para que o iniciemos com maiores condições e merecimento para permanecermos na Terra tanto quanto nossos antepassados, os dinossauros.

Mas, ainda se pode, é claro, preferir acreditar na versão literal de Adão e Eva. Difícil será saber qual fruto é proibido em um mundo onde tantas barbaridades estão tão banalizadas!

Pra facilitar, estou apostando que tudo é culpa dos ciclos lunares!



- posted by Mara


Segunda-feira, Dezembro 1

UMA PONTE PARA O SEMPRE...



Não sei se é a proximidade das festas do final de ano ou as notícias recorrentes de grandes tragédias mundiais, mas de uns tempos para cá, venho sendo freqüentemente acometida por sentimentos angustiantes e pessimistas.

Não combina comigo. Sou conhecida por minha extrema tolerância a frustração e por ser dona de uma inabalável fé nos seres humanos. Parece que essas minhas características, finalmente, estão se acomodando aos tempos atuais.

Se por um lado isso me causa desconforto, por outro, me aproxima mais do resto do mundo. De qualquer forma, preferia seguir em meu adorável e suportável mundinho.

Há quem atribua essas minhas oscilações ao meu signo e ascendência: peixes em ambos. E não é que, revendo como é definida essa conjunção astral, a coisa faz mesmo sentido!

“Um ciclo se encerra - algo se extingue ao mesmo tempo em que se pressente o nascimento de algo novo.”

Sinto-me assim, o meio e o fim, o mar e a embarcação revezando-se conforme as mudanças da lua.

Um barco a deriva e um oceano, vasto e insondável, que recebe todas as águas e todos os detritos da civilização.

Quando criança, ao lado do leito de morte de meu avô, despedindo-me a pedido de minha mãe e sem entender bem por que, lembro de ter pensado: “se a morrer é tão triste, porque as pessoas seguem suas vidas como se nada estivesse acontecendo?”

Estava aprendendo sobre a indiferença ou, na melhor das hipóteses, sobre a resignação humana frente aos desígnios fatais de sua existência.

Esse aprendizado foi o que moldou grande parte de minha capacitação para a área a que me dedico hoje em dia: a psicologia hospitalar, mas de nada serviu para diminuir meu espanto e rebeldia contra ele.

O próximo ano traz promessas incríveis. Finalmente é chegado o momento em que todas as amarras que me mantém refém de compromissos assumidos nos últimos vinte anos se soltam sem provocar lesões.

Meu filho estará na universidade e todos os projetos que iniciei estão devidamente bem encaminhados. Tenho os filhotinhos do Maxi, recebi o reconhecimento que sempre desejei e acumulei centenas de amigos na cidade que, contrariada, tive que chamar de lar.

Entretanto, como tudo em minha vida, essa fase também teve que ser pautada por decisões difíceis, cuja exclusão é dramática e triste. Claro que eu estou novamente naquela eterna batalha entre duas escolhas igualmente importantes.

Pensei em mudar-me finalmente, de corpo e alma, para minha sonhada Argentina e lá ativar todos os sonhos e planos acumulados e em “stand by” ao longo dos últimos anos. Continuar meus trabalhos sociais e alimentar-me dos sorrisos e afagos de amigos e de minhas afilhadas.

E, eis que ás portas dessa possibilidade surge um convite inesperado: que eu não modifique nada do que já está estabelecido e mais, que assuma um importante papel na gestão administrativa da cidade que tanto contribuiu com minha emergente necessidade de fuga.

Pior: na proposta, encerra-se uma nova possibilidade de escolha: permanecer na área assistencial ou na de comunicação, ambas com grande poder de resolução e autonomia criativa.

Assim, curvo-se ao simbolismo zodiacal de meu signo: dos dois peixinhos nadando em direções contrárias. Qual deles estará nadando na direção certa? Certa pra quem? Que preço pagará aquele que escolher a direção oposta, além de abrir mão da oportunidade de acerto que teve?

Não. Não é isso que tem me feito angustiada e pessimista. Sei que, seja qual for a escolha, estarei abrindo mão de outra igualmente desejada e esperada por toda uma vida.

Concluo que o que me angustia é perceber que o resto do mundo “segue suas vidas como se nada estivesse acontecendo”, enquanto eu fico buscando razões que justifiquem o impasse que estou vivendo.

Minha dor frente à inércia imposta pela distância entre mim e a tragédia em Santa Catarina será um termômetro, um sinalizador, de que não devo negligenciar a oportunidade de assumir um trabalho que me colocaria na linha de frente em situações semelhantes?

Meu cansaço e revolta diante dos saques e dos oportunistas, das futilidades que continuam sendo escritas pela Net afora, serão um sinal de que devo mesmo jogar a toalha e viver no ostracismo gélido de um ponto perdido na Patagônia Argentina?

Papai Noel esse ano terá um trabalho gigante para atender meu pedido, caso eu consiga formulá-lo. Só consigo pensar na máxima: “Cuidado com o que se pede em oração, porque pode ser que sejamos atendidos.”

Acho que vou pedir um pingente de ouro, alimentar minha vaidade e fingir que não sei que, por mais que meu signo insista em dizer que sou um oceano, eu não passo de um grão de areia.


- posted by Mara




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