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"Não conseguimos controlar as más linguas dos outros, mas uma vida decente nos capacita a desprezá-las." Cato, o Velho (234 AC - 149 AC)


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Presente da Nina

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Quinta-feira, Abril 30

FIDELIDADE



Dos pobres aos ricos, dos intelectuais aos ignorantes e dos mandantes e mandados eu sempre ouvi a mesma ladainha: “Quer conhecer alguém? Dê poder a ele.” A frase se popularizou e, com isso, reduziu o impacto que um dia tentou imprimir.

A frase original não advém daquele resignado amigo-cabo eleitoral que foi traído pelo “grato” político eleito pelo voto popular. Abraham Lincoln tinha uma construção de intenção emocional bem mais abrangente.

Lincoln referia-se ao desvelamento do caráter humano. Bem sabemos que o caráter é a primeira das qualidades humanas que “olhos amorosos e amigos” se recusam a registrar. Os defeitos de caráter, convenhamos, são os primeiros que negamos naqueles que amamos.

Sugiro a junção da sábia conclusão de Lincoln à outra conhecida frase: “Amigos são os irmãos que escolhemos” e no produto dessa soma teremos: Amigos no poder são como bombas cujo detonador está programado pelo bater compassado dos nossos corações.

Sabemos que a pseudo permissão que temos para apontar os defeitos daqueles que escolhemos amar é justamente o que nos condena a nunca fazê-lo, já que na condição de “amigos” somos também os eleitos para defendê-los não apenas dessas, mas de qualquer outra acusação.

Difícil, muito difícil. Mas, nada que uma boa frase feita não minimize: “Quem ama o feio, bonito lhe parece”. Infelizmente, o bondoso autor dessa última, confesso, eu desconheço.

Mas a verdade é que não há nada mais feio que decepcionar-se com um amigo justamente porque ele preferiu o poder em detrimento da riqueza de uma amizade.

Nesse sórdido desenrolar, os personagens se definem com doses gigantescas de melodrama. A vítima: o amor e, seu antagonista o poder, terão centenas de cenas para demonstrarem sua infinita capacidade de conduzir seus protagonistas até o óbvio final.

Pobre amor fraternal. Vítima voluntária será questionado, cobrado, testado, acuado e estraçalhado até sucumbir esquecido nas primeiras páginas dessa história.

Pobre poder. Julgava-se tão grande e provou ser incapaz de aglutinar em torno de si, justamente aquilo que o levou até o ponto que alcançou. O poder, afinal, é uma multidão de “ninguéns” que causa um ruidoso e enlouquecedor silêncio.

O amor que uniu as arcadas dentaria num só sorriso, na distância que o separa do poder, congela um entreabrir de lábios – arremedo ensaiado e captado pelo melhor ângulo dos flashes a que se destina.

É o momento em que desejamos desconhecer o que antes tínhamos como tão familiar. É o momento de nos auto flagelarmos, carcomidos pela culpa do erro de julgamento. É chegado, enfim, o momento de assumirmos a culpa de atribuirmos poder para além de nossos próprios domínios.

Há dois possíveis caminhos de resolução: punimos-nos até aniquilarmos o que de bom em nós gerou sentimentos tão cegos, ou aprendemos a lição. A má notícia é que, em qualquer um dos casos, a dor é inevitável. Em qualquer um dos casos é preciso não ignorar que um importante evento ocorreu.

É sempre tempo de se conhecer alguém em sua mais pura essência. Com ou sem poder para intermediar. Aliás, desconheço maior poder do que a capacidade de desvelar o que ficou escamoteado, com sucesso, por tanto tempo.

Reverencio a habilidade de se enxergar além do amor que destinamos sob a tutela do “incondicional” e, apesar disso, não perder a ternura e a fé.

Não há poder maior que esgueirar-se por entre o limbo da desesperança e reerguer-se para, sem medo, cometer sucessivamente o mesmo erro sem se envergonhar da própria ingenuidade.

Ingenuidade é a capacidade inerente de conservar em si mesmo tão sólido quanto for possível, os princípios e valores que os outros insistem em desprezar.

“A tudo, meu amor, serei atento...” - A todo o meu amor, serei atento... - Ao todo, desse meu amor, serei atento! “Em cada vão momento...

em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto
ao seu pesar ou seu contentamento”


- posted by Mara


Terça-feira, Abril 21

EPÍLOGO



Os meses passam voando. Atravessam as fronteiras do tempo com a velocidade que imprimimos através dos nossos desejos. Um dia acordamos e pronto: tudo aquilo que nos fazia mal ficou no passado.

A má notícia é que o que foi bom também fez questão de ficar no espaço-tempo que agora é memória. Resta-nos, então, contabilizar o saldo e transformá-lo em algo que possa ser traduzido futuramente pelo reducionismo do bom ou ruim.

Ontem era expectativa, gana, ânsia e determinação. Hoje, tudo parece meio ridículo. Algo entre o infantil e o infanticídio da alma. Crescemos. E dentro de nós, tudo aquilo que deveria ter amadurecido se torna repentinamente frágil e tolo.

Fecharam-se as cortinas de velho veludo vermelho. De repente as paredes já não são mais tão históricas, as cadeiras nem tão sensíveis e o palco já não é mais tão facilmente iluminado. Salvou-se a acústica.

O som que ecoa pelos vãos da fala ingênua e passional. Que vaza nas entrelinhas dos interesses que jamais soubemos que existia. Das picuinhas e artimanhas ensaiadas nos bastidores pelos ratos – legítimos donos.

Do riso fez-se o espanto – para a contrariedade do poeta. Chorar é tão óbvio, tão banal que não vale as cativas. Não mobiliza os incentivos e não atrai a atenção do público.

Primeiro ato: Sonhar é possível, acreditar também. Segundo ato: Dar murros em pontas de faca faz as mãos sangrarem e os nós dos dedos tornarem-se brancos de indignação. Intervalo.

É hora de se alimentar, de renovar as forças. É tempo de beber da fonte inesgotável de lágrimas e salivas, de afagos e sorrisos equivocados.

Ao terceiro sinal, o derradeiro ato: O tragicômico desfecho. Descobre-se os cupins, os fantasmas que de ópera nada entendem, que transformam o dano em dolo.

Descobre-se a madeira envelhecida, os camarins e os espelhos que refletem a maquiagem borrada do último palhaço.

O palhaço, enfim, fecha sua velha maleta ainda repleta de tintas sem uso, de gliter e lantejoulas. Os artefatos que provocaram riso esfacelaram na última apresentação. A maleta, entretanto, está tão mais pesada do que na chegada.

Por onde sair? Sabemos da porta anterior que se despediu de tantos cenários, de tantos artistas e personas. Há, porém, o caminho inclinado e ladeado pela platéia silenciosa e vazia.

Há mais cortinas vermelhas e a fonte outrora majestosa...

Por onde sair? Repito. Há quem se inclinar reverenciando o aplauso que parece dizer: vencemos? Terei iguais platéias em outros palcos ainda que distantes? Poderei selecioná-las como faço agora? Como removerei a maquiagem para refazê-la e assim fazer-me irreconhecível e anônima?

Olha eu novamente idealizando a ribalta. Sairei simplesmente. Como quem vai comprar pipocas. No intervalo dos atos. Na calada da cena. No despertar da magia, rumo à realidade.

Mambembe. Serei Saltimbanco. Construirei uma carroça onde depositarei todos os meus pertences e sonhos. Viajarei aglutinando iguais e rechaçando oponentes. O farei com arte.

Sem luzes, sem teto, sem estabilidade e sem escolher a platéia. Melhor, sem escolher o texto ou o roteiro. Sem confiar em personagens familiares. São viciados e corrompidos. São feios e charlatões. São uma farsa!

Deixarei de ser estrela no céu escurecido pela ambição para voltar a ser monólogo. Daqui por diante, dirijo a mim mesma. Sem olhar para trás, intuirei o ruir das velhas paredes e ouvirei os gritos de Bravo! Bravo!

Enfim, de volta a cena como coadjuvante de minha própria história. Respeitável Público...


- posted by Mara


Sexta-feira, Abril 10

REMENDOS



Com a cola aparente, fazendo uma trilha tortuosa que termina em si mesma. Com a cor diferente sobrepondo pontilhados em relevo sobre a uniformidade de uma superfície, antes, perfeita.

Atando uma fibra a outra, na vã tentativa de regenerar o tecido. A massa corrida e grosseira sobre a parede lisa e uniforme.

Regeneração artificial e induzida. Rasura, nó, hipertrofia celular - quelóide-, cobertura mal acabada e produzida às pressas. Mácula... Cicatriz!

Não há condição semelhante para a alma. Não há solução natural ou inventada. Ficam a devastação, embarcações tombadas, o lixo misturado ao luxo na evidência da desprezada igualdade. Vítimas de um tsunami de ações.

Restam as cinzas. O sinal incontestável de que nem mesmo o desaparecimento total é possível. É preciso lembrar que nada se edificará sobre a terra ressequida e sentida. A infertilidade do ser.

Resta a carcaça frágil e oca. Sem o pulsar voluptuoso que se movia desavisadamente ao fim previsível e indesejável.

Faz-se necessário o processo:

Limpeza – Logo depois de feridos, usamos mediadores que causam uma inflamação aguda e o exsudato – de onde retiramos emoções que ainda se mantém integras para enchertá-las na ferida. Confunde mas é necessário para a resolução da enfermidade. A alma fica ressecada, formando uma crosta que auxilia a conter o sangramento e protege o ferimento de contaminações adicionais externas. Não se apresse! Enquanto houver inflamação ativa o processo de cicatrização não se completa.

Retração – Reduz o tamanho do ferimento. Outros elementos se juntam ( lembranças, princípios, conselhos e lágrimas) Se a ação desses elementos se fizer de maneira exagerada surgem contraturas. A alma se retrai e tende a retardar deliberadamente o processo curativo, pressentindo que a precocidade pode indicar uma reincidência.

Granulação – É a parte mais característica do processo de cicatrização. Representa a nova superfície que cresce para preencher o defeito. O processo de angiogênese - o mecanismo de crescimento de novos sentimentos a partir dos já existente. Uma espécie de regeneração endurecida do que antes era maleável e sensível. Nesse ponto percebe-se um avermelhado à superfície. Por isso, não dói, embora sangre ao menor contato. Assim, o tecido de granulação acaba dado lugar a uma cicatriz fibrosa, dura, esbranquiçada e retraída.

Reepitelização – O crescimento de uma camada protetora nas bordas da ferida se faz precocemente, e começam a se intrometer por debaixo da crosta. A reepitelização é o acontecimento terminal no processo de reparo. Quando novas percepções acabam de preencher o defeito, resta apenas pequena porção da superfície do ferimento ainda descoberta. Com o arremate final, rapidamente crescem e restabelecem a continuidade do revestimento.

A princípio, a camada epitelial de revestimento é muito fina e deixa ver por transparência, que vai se tornando mais denso com o passar do tempo, a superfície vai se tornando mais espesso.

O processo é basicamente o mesmo para qualquer circunstância. Quanto menor a perda da emoção original durante o processo, mais rápido e simples será o reparo. Nas feridas recorrentes, o ideal é aproximar o bastante as bordas com o auxílio de suturas auto produzidas, fazendo a aposição das mesmas contínuamente quase sem deixar solução de continuidade. Quando isso acontece, o reparo se faz com um mínimo de danos aparentes, praticamente sem deixar cicatriz. Diz-se então que houve uma cicatrização por primeira intenção. Quando o reparo se faz com produção mais evidente e com esforço alheio usa-se o termo cicatrização por segunda intenção.

No fim, o índice. A evidência, a marca, o marco. Regeneração artificial e induzida. Rasuras, nós, hipertrofia celular - quelóide-, cobertura mal acabada e produzida às pressas. Mácula... Cicatriz!


- posted by Mara




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