FIDELIDADE
Dos pobres aos ricos, dos intelectuais aos ignorantes e dos mandantes e mandados eu sempre ouvi a mesma ladainha: “Quer conhecer alguém? Dê poder a ele.” A frase se popularizou e, com isso, reduziu o impacto que um dia tentou imprimir.
A frase original não advém daquele resignado amigo-cabo eleitoral que foi traído pelo “grato” político eleito pelo voto popular. Abraham Lincoln tinha uma construção de intenção emocional bem mais abrangente.
Lincoln referia-se ao desvelamento do caráter humano. Bem sabemos que o caráter é a primeira das qualidades humanas que “olhos amorosos e amigos” se recusam a registrar. Os defeitos de caráter, convenhamos, são os primeiros que negamos naqueles que amamos.
Sugiro a junção da sábia conclusão de Lincoln à outra conhecida frase: “Amigos são os irmãos que escolhemos” e no produto dessa soma teremos: Amigos no poder são como bombas cujo detonador está programado pelo bater compassado dos nossos corações.
Sabemos que a pseudo permissão que temos para apontar os defeitos daqueles que escolhemos amar é justamente o que nos condena a nunca fazê-lo, já que na condição de “amigos” somos também os eleitos para defendê-los não apenas dessas, mas de qualquer outra acusação.
Difícil, muito difícil. Mas, nada que uma boa frase feita não minimize: “Quem ama o feio, bonito lhe parece”. Infelizmente, o bondoso autor dessa última, confesso, eu desconheço.
Mas a verdade é que não há nada mais feio que decepcionar-se com um amigo justamente porque ele preferiu o poder em detrimento da riqueza de uma amizade.
Nesse sórdido desenrolar, os personagens se definem com doses gigantescas de melodrama. A vítima: o amor e, seu antagonista o poder, terão centenas de cenas para demonstrarem sua infinita capacidade de conduzir seus protagonistas até o óbvio final.
Pobre amor fraternal. Vítima voluntária será questionado, cobrado, testado, acuado e estraçalhado até sucumbir esquecido nas primeiras páginas dessa história.
Pobre poder. Julgava-se tão grande e provou ser incapaz de aglutinar em torno de si, justamente aquilo que o levou até o ponto que alcançou. O poder, afinal, é uma multidão de “ninguéns” que causa um ruidoso e enlouquecedor silêncio.
O amor que uniu as arcadas dentaria num só sorriso, na distância que o separa do poder, congela um entreabrir de lábios – arremedo ensaiado e captado pelo melhor ângulo dos flashes a que se destina.
É o momento em que desejamos desconhecer o que antes tínhamos como tão familiar. É o momento de nos auto flagelarmos, carcomidos pela culpa do erro de julgamento. É chegado, enfim, o momento de assumirmos a culpa de atribuirmos poder para além de nossos próprios domínios.
Há dois possíveis caminhos de resolução: punimos-nos até aniquilarmos o que de bom em nós gerou sentimentos tão cegos, ou aprendemos a lição. A má notícia é que, em qualquer um dos casos, a dor é inevitável. Em qualquer um dos casos é preciso não ignorar que um importante evento ocorreu.
É sempre tempo de se conhecer alguém em sua mais pura essência. Com ou sem poder para intermediar. Aliás, desconheço maior poder do que a capacidade de desvelar o que ficou escamoteado, com sucesso, por tanto tempo.
Reverencio a habilidade de se enxergar além do amor que destinamos sob a tutela do “incondicional” e, apesar disso, não perder a ternura e a fé.
Não há poder maior que esgueirar-se por entre o limbo da desesperança e reerguer-se para, sem medo, cometer sucessivamente o mesmo erro sem se envergonhar da própria ingenuidade.
Ingenuidade é a capacidade inerente de conservar em si mesmo tão sólido quanto for possível, os princípios e valores que os outros insistem em desprezar.
“A tudo, meu amor, serei atento...” - A todo o meu amor, serei atento... - Ao todo, desse meu amor, serei atento! “Em cada vão momento...
em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto
ao seu pesar ou seu contentamento”