UMA BRINCADEIRA DE RODA...
O que diríamos, hoje, para a criança que fomos um dia?
Provavelmente, se tivéssemos essa oportunidade, nos preocuparíamos em protegê-la de todos os infortúnios que, sabemos, ainda virão. Apontar as melhores escolhas e fazê-la acalmar-se diante das aflições e ansiedade quanto ao futuro.
Tenho pensado muito sobre isso. E, dividida entre a compaixão e zelo, concluí que deixaria aquela garotinha seguir seu próprio caminho. Descobri que não haveria outro meio de fazê-la se tornar a mulher que sou hoje.
Qualquer movimento ou pensamento diferente influenciado pelas experiências que vivenciei iriam tolher a oportunidade de, anos mais tarde, ter tanto a ensinar para a mesma.
Sei que é uma frase feita, mas somos realmente produto de nossas experiências. Resultado absoluto dos erros e acertos, amores e dores, risos e ironias que nos desenharam na vida.
Talvez eu não tivesse estudado tanto, namorado ou esperado tanto da vida. Talvez tivesse exacerbado na busca do ser humano perfeito, perdoado e confiado menos. Talvez eu não tivesse desejado tanto a independência de arcar com meus próprios erros.
Vem-me a imagem da garotinha magrela, de cabelos escorridos, da pele, já tão morena, escurecida pela grande exposição ao sol. Imagino-a sentada a porta de uma casa simples, num bairro popular, vestindo as roupas que já tiveram muitos donos anteriores.
Lembro das bonecas de papel, dos cinco quadradinhos costurados a mão e receados de arroz. Ela queria ser a Glória Pires, a Susana Vieira. Queria ser até a Lucélia Santos - prova viva que criança não tem mesmo senso estético.
Vejo-a chorando o assassinato involuntário de sua micro-tartaruga. A constrangedora, mas necessária chupeta que sugava escondida na calada da noite.
O que eu diria a ela se me perguntasse se seus sonhos se realizariam? Diria que ela seria feliz? Que teria uma família linda e conforto o bastante para buscar seus sonhos, mas que isso só ocorreria quando esses mesmos sonhos tivessem deixado de existir?
Ou proporia sonhos possíveis?
Teria coragem de dizer a ela que a Gloria Pires iria casar e descasar sob as luzes dos holofotes, mas escolheria viver sua “vida real” na obscuridade. Que Susana Vieira iria passar quase toda sua vida desfrutando de amores fugazes e ruidosos e que a Lucélia Santos se perderia em sua própria intelectualidade engolida por sua falta de glamour?
Diria, enfim, que seus ídolos só seriam reconhecidos depois que morressem? Que bairros periféricos e marginais ainda seriam necessários? Que jamais deixaria de existir aquelas loiras, com bonecas da “Estrela” estudando em escolas particulares e viagens a Disney?
Oh! Céus! Será que eu teria coragem de dizer que a Turma da Mônica vai crescer e que o “Boa Noite, Cinderela” do Silvio Santos era apenas uma jogada de marketing?
Não. Eu certamente diria: Sonhe! Sonhe muito! Que sempre que um sonho se tornar impossível eu te oferecerei outro ainda mais inalcançável! E que serão esquecidos em detrimento um dos outros.
Ta bom! Acho que eu não perderia a oportunidade de dizer para que ela não seguisse tão descompromissadamente, achando que aquele momento duraria para sempre.
Proporia uma amarelinha com vinte casas e um céu em cada pulo. Mais brincadeiras de “beijo, abraço e aperto de mão”, e para que insistisse muito mais para que sua mãe a inscrevesse no programa do Silvio Santos.
Pediria que no futuro próximo, ela não abandonasse o vôlei, ao menos, até chegar ao Juvenil. Que seguisse com seus planos de estrelato até que alguém a convidasse para um reality show, ou que evitasse qualquer aproximação de amigos que almejassem carreira política.
Eu certamente a abraçaria forte e diria que tivesse coragem. Que cuidasse de seu joelho e que não deixasse que sua percepção anormal sobre a alma humana a conduzisse para um compromisso tão ingrato de tentar justificá-lo.
No mais, acho que eu daria a ela, parabéns! Por ser tão forte, por não deixar que sua auto estima fosse minada pelo excesso ou ausência de críticas. Diria que ela vai se tornar uma mulher digna, ética e fiel.
Que terá um filho lindo, uma profissão árdua e fascinante que a fará desistir muitas vezes, mas a manterá cativa de sua vocação. Que amará cachorros, apesar daquele vira-lata que a mordeu e os humanos, apesar daqueles que a feriu.
Eu, sem dúvida, diria: Vem! Que te espero no futuro pra te dizer que podemos consertar tudo isso. Que nenhuma perda se dará sem que ela possa superar. Que não se sinta sozinha, porque eu jamais a deixarei sem brincar e sorrir.
Que se depender dela, a água e o petróleo do planeta não irão acabar, que o sol será mais forte, mas que na noite ainda verá as estrelas. Que conhecerá a neve, a amizade, o amor maternal e que chegará aos quarenta sem lamentar um só dia percorrido!
Diria também, que Jesus ainda não voltou como da primeira vez, mas que ela continuará apostando nisso!
Ah! Pediria pra ela cuidar melhor daquele boneco do Topo Giggio que se perdeu em algum lugar, porque sentirei muita falta dele no futuro!