IS IT SCARY...
...FOR YOU, BABY?
A maioria das pessoas com que convivo divide comigo um arsenal de lembranças comuns. Fatos que denunciam que, ainda que apartados, somos da mesma geração, ouvimos as mesmas músicas, tivemos os mesmos ídolos e rimos e choramos as mesmas aventuras e, claro, desventuras.
Salvo algumas lacunas por vezes marcadas por alguns anos a mais ou a menos, qualquer tema evocado é estímulo suficiente para “startar” uma longa e prazerosa recordação. Os refrigerantes que bebemos, as novelas que assistimos e, sobretudo, as roupas que usamos.
Isso foi que tornou o dia de ontem particularmente triste. Perdemos de uma só tacada, a loira mais linda e o negro mais querido e, branco, que já tivemos. Ambos, símbolos de uma geração, de um pensamento.
Cada um, à seu modo, foi vitrine para nossas aspirações ou nosso repúdio. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. Exemplos de que temos mesmo que ter muito cuidado com o que pedimos em nossas orações, para não incorrer no risco de sermos atendidos.
Quem duvida que Farrah não desejou por décadas deixar de ser lembrada como a Pantera que eternizou? E, que dizer de Michael? Que quis deixar de ser negro, adulto, ele mesmo?
Quem duvida que terem sido o que foram não foi exatamente o que trabalharam tanto pra ser? De quanto abdicaram? Quanto lhes custou? Quantas manobras fizeram, boas ou más, para, no apogeu do sucessso manterem seus sonhos intactos e imortais?
Ambos morreram no mesmo dia. Desapareceram numa clara demonstração catártica de que “não há mal que não se acabe e nem bem que não tenha fim”, seja lá o que isso signifique no caso deles.
Não sei vocês, mas eu tive minha vida suspensa para balanço ontem. Fiquei imaginando as sobras. Neverland, as máscaras cirúrgicas, as luvas brancas e as crianças alienígenas e sem identidade.
Pensei também no corte “a la pantera”, nas roupas justas e nas mulheres que aprenderam artes marciais ou manejar uma arma. Pensei, sobretudo, na tríade amiga formada pela cumplicidade feminina. Tudo acabado e esquecido num arquivo cenográfico qualquer. Farrah saiu de cena singelamente, igual ao seriado que a consagrou.
Nunca gostei de Michael. Nunca mais ouvi falar de Farrah. Até ontem. Admito que gostei da maneira como eles morreram. Discreta e dignamente. Muito diferente do que habitualmente fazem os mega star como eles.
Essas mortes ontem me fizeram pensar. Ou melhor, me fez chorar. Chorar pelos “Michaels” e “Farrahs” que minha geração produziu. Muitos deles, humanos bem menos glamorosos e famosos, morrerão um dia sem terem aprendido com a morte de seus inspiradores.
Espero que leiam esse post. E, que me desculpem os mais sensíveis. Farrah e sua exuberância loira desapareceram sucumbindo a um câncer... anal. Michael morreu branco e deformado, endividado e com sua Neverland em ruínas.
Todavia, centenas de milhares de fãs, alheios a dimensão da degradação física e emocional que vivenciaram, choram suas mortes. Gente que não os conheceu de perto, que sabem de onde vieram, o que fizeram e pra onde conduziram suas vidas, mas que jamais fizeram parte dela.
Queria que algumas das pessoas que conheço lessem esse post. Queria que se dessem conta da lição embutida na morte deles. Que reconhecessem, afinal, a razão de ambos terem surgido em nossas vidas.
Aos que lerem, queria dizer que eu chorarei por eles, porque aprendi a amá-los antes que suas batalhas contra o escurecimento de suas almas ou que suas Neverlands fossem construídas.
Que os amo antes da fama que substituiu o sucesso que almejavam. Que não precisam fingir pra mim ou usarem máscaras que escondam suas chagas porque eu as conheço bem e sei que as piores e maiores não podem ser vistas a olho nu.
Mas, sobretudo, queria que soubessem que, apesar disso, ou justamente por isso, talvez, eu os compreenda tanto e os justifique a partir do que sei o que desejam esconder.
Aos que não lerem, sigo tentando fazê-los entender.
Não se faz um ídolo por acaso. Não existe o acaso e a morte é mesmo uma abrupta maneira de dizer que as dívidas contraídas em sua humanidade, foram quitadas. Mas, precisamos deixar chegar a esse ponto?
Se você leu e entendeu, espero que aproveite para perceber que o dia de ontem foi o derradeiro espetáculo oferecido a nossa geração, a última oferta para que façamos nossa escolha:
Viver com o glamour que os identifica e morrer no ostracismo, solitário e amargo ou viver a paz de não ter que se preocupar com isso.
Ou ainda: viver e morrer centenas de vezes nos corações de quem teve o infortúnio de amar você! E, no democrático fim, descobrir que somos o que queremos ser, mas poucos entrarão para história. Ainda que seja a minha!