Confesso que ando meio desanimada para escrever. Justifico-me no fato de que sou movida por emoções e tenho andado meio apática ultimamente. Não é uma condição natural e, espero, seja passageira.
Por temer perder o espanto, sempre mantive minha sensibilidade sob rigorosa observação. Acredito que o limiar que separa o inacreditável da ingenuidade nos dá medida exata do nosso caráter.
Gosto de pensar que enquanto estiver me surpreendendo com aquilo que eu jamais supunha ou com o que acredito que não deveria acontecer, é porque está mantida em mim a integridade de meus princípios.
A banalização da violência, da maldade, do medo, do riso e até mesmo da bondade é, sem dúvida, a maneira mais rápida para extinguir ou difundir qualquer prática exercida por nós.
Extinguir ou difundir será uma conseqüência e nunca o objetivo. A meta, na verdade, é a “desensibilização”. O congelamento da alma e dos valores que mantém a ordem e a condição de convivência.
Não dá para ficar impassível diante de tal desmantelamento. Não é possível deixar de chocar-se ou reagir ao assistir o nascimento de uma sociedade tão diferente daquela que sempre pensamos existir.
Estou aterrorizada! Foram tantos anos atrás de uma carteira escolar numa soma extraordinária de quase três décadas dedicadas a aprender significados e ética, para depois descobrir que na prática a teoria é outra. Triste!
Triste ver psicólogos compactuando com pareceres inadvertidamente levianos, fazendo parte de shows de horrores, em tempo e vidas reais. Triste ver desgraças alheias serem medidas em parafernálias eletrônicas que paralelamente mensuram ibope.
Angustiante assistir jovens despreparados empunhando canetas e microfones como arma de alto poder de fogo. Usando “silenciadores”, preparando tocaias e contrabandeando informações no submundo da verdade. E, pior, copiando velhos e experientes mentores.
Desesperador ver a função política da arte teatral, ser substituída pela política partidária manipuladora e corrupta. Assistir a manifestos desperdiçados, usados como instrumento na manutenção de interesses e/ ou maledicência gratuita.
Dramático ver pai envergonhando filhos e, esses, reproduzindo mecanicamente o vexame. Ver gente ameaçando, invejando, degradando, aniquilando... gente. Ver essa mesma “gente” misturada com a gente.
Redentor surpreender-me com isso. Tranqüilizador me se sentir ainda movida a escrever esse texto fora de moda e melodramático. Mas, sinto que meu espanto anda se esvaindo, saindo de fininho por entre as pálpebras constantemente molhadas de indignação.
Sinto-me em risco de metamorfose. Como num filme de ficção científica, dilata minhas veias, arregala meus olhos e desfigura meu rosto. Penetra em mim através de fluídos e me toma lentamente todos os poros que me identificam.
Não quero! Não vou deixar que me dilacerem, rasguem minha carne e sangrem meu coração. Não vou achá-los normais ou coerentes. Não vou redimi-los ou justificá-los. Não vou perdoá-los, nem aceitá-los.
Isso, entretanto, me aproxima deles. Torna-me tão impiedosa e influenciável quanto seus inúmeros seguidores. Daí minha apatia.
É como escrever, argumentar ou simplesmente refutar fosse tão inócuo quanto ingênuo. Resolvo, então, afogá-los no ostracismo. Exorcizá-los através da indiferença e desprezo.
E, quando isso, ameaçar fazer parte de mim, eu espero saber reconhecer estar sendo possuída por tudo aquilo que mais desprezei.
Então, restará a escolha final: juntar-me ou empenhar-me em desmascará-los através da única arma que possuo: minha indignação!
- posted by Mara
Terça-feira, Outubro 6
LEI ANTI FUMO: SAÚDE DO SANTO...
OU MORAL DO DEMÔNIO?**
Ela é psicóloga... Eu também! Ela escreve pra uma revista... Já passei por isso! Estudamos na USP. Ela tem aval acadêmico para exprimir opinião... Gostem ou não, EU TAMBÉM!
Mas as semelhanças terminam aí. Ela é psicanalista e eu “Reichiniana”. Ela atua na área e eu, digamos, estou dando um tempo! Mas, sobretudo Patricia Porchat e EU temos uma diferença que a abona e me incrimina.
Já gritei, esperneei, escrevi a respeito, peitei autoridades, ri com escárnio, sub julguei a aderência, enfim... nada adiantou. Mas, nas palavras dela, o que vinha apenas me incomodando adquiriu sabor de presságio, de alerta! LEIAM!
COM A PALAVRA: **Patricia Porchat
...“O que representa o cigarro na recente discussão acerca de sua proibição em locais públicos?
Em agosto entrou em vigor a lei antifumo em São Paulo com a promessa de ser igualmente implantada em outros estados. O argumento principal dos criadores da legislação é que muitos fumantes passivos – aqueles que sofrem os efeitos do fumo por exposição à fumaça do cigarro dos fumantes ativos – desenvolvem câncer de pulmão.
Está comprovado o fato de haver um elevado número de mortes por esse motivo.
Uma primeira representação para o cigarro – aquele que mata – pode ser a de uma arma. Podemos usar nossa imaginação e dizer que, antes da lei antifumo, o fumante (ativo) seria, no máximo, acusado de homicídio culposo. Tratava-se de um delito provocado pela falta de cuidado objetivo do agente, imprudência, imperícia ou negligência.
No entanto, não há a intenção de matar. Mas agora a coisa mudou. Com a proibição de fumar para não espalhar sua fumaça-veneno (também podemos atribuir símbolos à fumaça), o cigarro-arma se tornaria a prova de um crime pior: o homicídio doloso.
Este consiste na vontade livre e consciente de assassinar alguém. Por isso, a implementação da lei antifumo se faz acompanhar de um sistema de denúncias. O fumante-assassino deve imediatamente ser interceptado para não causar danos a outrem.
Mas o cigarro também representa o prazer. O próprio ato de fumar é prazeroso, dizem os fumantes. Acalma a ansiedade para alguns, é estimulante para outros. Também existe o cigarro depois da comida, do café e do sexo, que atua como complemento. Revela um prazer que se prolonga.
Para muitos fumantes, acender um cigarro é um ritual em que corpo e espírito se encontram: prazer do corpo e simbolização desse prazer (no espírito) por meio do rito.
Curiosamente, a lei antifumo permite o cigarro em cultos religiosos, mesmo em ambientes fechados, desde que isso faça parte do ritual. Há que perguntar aos praticantes do culto o que o cigarro ou o charuto simbolizam naquele contexto. Afinal, por que seria mais legítimo do que o ritual particular de cada um na vida cotidiana?
Outra curiosidade é a permissão para fumar nas áreas a céu aberto nos estádios de futebol. O cigarro tem aí um poderoso efeito de acalmar a ira e a expectativa dos torcedores. É o “sossega-leão”: funciona como calmante.
Nos ambientes de trabalho, mesmo que existam áreas abertas e jardins, não se pode fumar. Dizem que a fumaça se espalha e atinge os fumantes passivos. Talvez se espalhe de modo diferente, do modo como se propaga no estádio de futebol. A catarse coletiva justificaria o prazer. O trabalho, não.
O cigarro-prazer, se fumado no ambiente de trabalho, enfrentaria a lei que parece dar um recado: a nossa sociedade exige produtividade. Onde há trabalho, não deve haver descanso.
Cabe à União editar normas “gerais” sobre temas ligados à saúde. Estados e municípios editam normas complementares.
Independentemente da questão que se coloca sobre a autonomia dos estados e municípios para estabelecer regras mais duras do que aquelas que foram ditadas pela União, devemos atentar para o fato de que alguém legisla sobre nossos corpos e nossos hábitos.
“Biopoder” é o termo criado pelo filósofo e historiador francês Michel Foucault (1926-1984), na década de 70, para referir-se à prática dos Estados modernos de desenvolver um número sem igual de técnicas destinadas à subjugação dos corpos e ao controle das populações.
A transformação radical dos comportamentos por meio da abrupta imposição de novas regras não deveria ser exigida sem uma discussão prévia acerca do significado individual e coletivo desses mesmos comportamentos.
O que significa o cigarro? O que significa fumar? Não se pode impunemente elencar comportamentos aceitáveis ou inaceitáveis a partir de uma moral do bem e do mal estabelecida com base no que se considera saudável, ou não, exclusivamente do ponto de vista biológico.
O problema que se coloca não é apenas o da luta pela saúde, mas o da maneira pela qual se exerce o poder. Como e em nome do que esse poder é exercido? Fazer proibições em nome da saúde de absolutamente todos é um equívoco denunciado por Foucault.
É uma forma extremamente sutil e, por que não dizer, perversa, de instalar o poder. Autoridades da lei antifumo têm dito que o fumante não foi impedido de exercer sua liberdade individual, pois, afinal, ele pode beber, comer, dançar e depois, prazerosamente, fumar... dentro de sua própria casa.
Um presidiário pode fazer o mesmo em sua cela. Diríamos que ele está exercendo a sua liberdade individual?
Consideremos a necessidade de evitar que os fumantes passivos desenvolvam sérios problemas pulmonares e venham a falecer. É legítimo buscar a saúde dessas pessoas e intervir de modo a atingir esse objetivo. É igualmente legítimo possibilitar que eles circulem por áreas amplas e não sejam constrangidos a conviver com fumantes.
Mas a recíproca é verdadeira.
Poderia haver bares, restaurantes, cafés, boates e jardins para um grupo e para outro. Se os “não fumantes” são maioria, que existam mais estabelecimentos e áreas próprias a eles.
Caberia aos donos desses lugares optarem por sua clientela. Caberia ao governo criar incentivos para que alguns estabelecimentos garantissem exclusividade para “não fumantes”.
A saúde da moral ficaria assim garantida em vez de querer fazer prevalecer a moral da saúde, em que saudável seria igual a “bom” e “não saudável” equivaleria a “mau”.
O risco de a medicina tomar o lugar da Igreja Católica em relação aos preceitos morais foi denunciado há muito tempo. Isso não significa que a própria medicina e mesmo a população tenham se dado conta disso.
É fundamental entender que a saúde não compreende apenas o organismo, mas que necessariamente leva em conta a mente que representa, simboliza e dá significado aos fatos do corpo. Essa, sim, é uma percepção saudável de si mesmo e da vida em sociedade.
Em tempo: não sou fumante.”
Patricia Porchat é psicanalista, doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Paulista (Unip).
Fonte: Revista Mente e Cérebro de outubro/2009
- posted by Mara
VENCENDO O INIMIGO INVENCÍVEL!
Tá certo! Falta bem pouco para o dia surgir e estou sentada diante de uma tela branca tentando decifrar as mensagens que meu coração inquieto tenta evidenciar.
Tirando a racionalidade que me faz pensar que amanhã será um dia insone e cansado, nada parece me devolver a vontade de voltar pra cama.
Odeio noites assim. Noites em que o sono se furta e, em seu lugar surgem as nódoas dos dias mal vividos, dos desencontros inexplicáveis, das saudades insolúveis e dos medos incontroláveis. Fantasmagóricos espectros de indecifráveis receios.
Há algo definitivamente errado no ar. E tenho certeza que não é apenas a fumaça de meu cigarro que escapa em espiral pela janela. Dentro de casa ainda é permitido.
Deve ser o livro que escolhi pra ler antes de deitar. Ou, quem sabe, o que deixei de ler naquele momento. Talvez seja justamente a escolha – sempre tão necessária e inevitável- a responsável por esse turbilhão de sensações inoportunas.
Tenho sido obrigada a fazer escolhas importantes continuamente. É como se todos os rumos de minha existência resolvessem se definir no momento em que já não me preocupava mais com eles.
Chega um ponto em nossas vidas em que acreditamos que nos resta apenas usufruir. O companheiro, os filhos, a profissão, os lugares que queremos conhecer, a comida preferida, o gênero literário e cinematográfico e até os amigos compõem o resultado das inúmeras escolhas que acumulamos ao longo da vida.
Daí, não mais que de repente, percebemos quão frágil é tudo isso. O quanto não tivemos participação na existência deles e do como fomos acometidos, atropelados mesmo, por tudo que nos define na vida.
A sensação não é boa. Dá certa preguiça, um cansaço justificado diante de uma infinidade de outras escolhas que desfilam diante de nós desafiando: - E aí, vai decidir ou não? Ou vai deixar que sua inércia dê marcha-ré em suas metas?
Ué, mas eu já não havia atingido minhas metas? Eu não havia concluído que era hora de refestelar-me nos créditos obtidos?
Então ta! Desculpe aí! Acho que me excedi na autoconfiança. Acho que destituí os verdadeiros autores de meu destino e agora eles, os deuses, manifestam seu descontentamento brindando-me com novas encruzilhadas.
Quando criança a proximidade das festas natalinas sempre me tiravam o sono e a ansiedade pelo presente desejado era um tormento ansioso. A solução minha mãe me dava numa sábia e simples frase: - “Amanhã, quando você acordar, estará tudo bem!”
Obrigada, mãe, mas não está mais funcionando. Eu nem sequer dormi ainda!
Minha mãe deve estar dormindo. Assim como meus amigos, meu marido e meu filho. Até meus cachorros estão. Só os auxiliares de enfermagem, operadores de vôo, guardas noturnos, o gato da vizinha e eu, habitamos o mundo!
A diferença é que todos eles terão seu merecido descanso ao amanhecer. Até o gato.
E eu? Eu, amanhã, terei todas as questões de hoje perseguindo meu dia. Cobrando uma decisão, mantendo meu corpo cansado em atividade constante. Tem sido assim nos últimos dias.
A culpa deve ser das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. O evento me fez perceber que o tempo passa voando e que o improvável pode ser totalmente viável se tiver a anuência da maioria.
A “maioria” em mim sou apenas eu. E, em detrimento disso, mesmo assim, o tempo passa igualmente voando!
Pode ter a ver com a morte do Michael Jackson ou a visita rejeitada do Dalai Lama ao Obama. Precedentes assustadores que nos dão a verdadeira dimensão do que acreditamos como imutável na vida.
Mas, pode ser – e penso ser o mais provável – apenas resultado de uma madrugada insone.
Tarde demais! Posso ouvir o despertador do vizinho tocando há quase cinco minutos. Em breve, vai parar por alguns segundos pra depois recomeçar até que ele – o vizinho- o desligue! Também ele, pobre vizinho, é escravo de sua rotina.
Vou ouvi-lo escovando os dentes, sentir o cheiro do café, a briga com o filho adolescente para que ele desperte e em alguns minutos nos encontraremos cada um em sua própria garagem para o costumeiro Bom Dia!